«DIZER QUE UMARO SISSOCO EMBALÓ ORGANIZOU O GOLPE DE ESTADO É MENTIR»

A revista Jeune Afrique entrevistou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Bissau, João Bernardo Vieira. Partilhamos aqui, na íntegra, a entrevista publicada (a tradução é nossa).

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Nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros a 29 de novembro, após o estranho golpe que derrubou Umaro Sissoco Embaló, João Bernardo Vieira fala sobre o golpe, as negociações com a CEDEAO e o destino dos opositores detidos.

Ele é um dos rostos civis do novo poder em Bissau. João Bernardo Vieira, de 48 anos, foi nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros três dias após a queda de Umaro Sissoco Embaló por uma junta militar, a 26 de novembro, na véspera do anúncio dos resultados das presidenciais e das legislativas.

Ele próprio foi candidato à magistratura suprema, João Bernardo Vieira é o depositário de uma história familiar que resume a instabilidade que corrói o país. Deve o seu nome ao tio, «Nino» Vieira, herói da guerra de independência e autor, em 1980, do primeiro golpe de Estado que o país conheceu. Primeiro presidente eleito em 1994, teve um fim violento, assassinado por militares em 2009, após ter passado mais de vinte anos à frente do país. «É uma fonte de inspiração para mim e é preciso respeitar a sua história», diz hoje João Bernardo Vieira.

O novo ministro também conhece bem os opositores detidos na sequência do golpe. Entre 2014 e 2020, foi porta-voz do poderoso Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde (PAIGC) e durante muito tempo assegurou a comunicação do líder do partido, Domingos Simões Pereira (DSP), em detenção desde o golpe de força. Hoje, as suas relações são más. «Estamos a trabalhar com a CEDEAO para que sejam libertados o mais rapidamente possível», promete ele, apesar de tudo. Quanto às suspeitas insistentes sobre um golpe de Estado que alguns supõem ter sido orquestrado por Umaro Sissoco Embaló em maus lençóis nas urnas, ele garante que «isso é mentira».

A ENTREVISTAA ENTREVISTA

Jeune Afrique: A CEDEAO pediu « que se permita ao processo eleitoral chegar à sua conclusão lógica ». O que lhes respondeu?

João Bernardo Vieira: Que isso não depende de nós, mas da Comissão Nacional de Eleições [CNE]. E a CNE estabeleceu que, tecnicamente, já não é capaz de restabelecer o processo eleitoral, pois as actas das eleições foram levadas, tornando impossível a publicação dos resultados.

– No entanto, o chefe dos observadores da União Africana durante a dupla votação, o antigo presidente de Moçambique Filipe Nyusi, afirmava que « há resultados e [que] esses resultados devem ser publicados ».

É a opinião dele. Nós temos uma instituição competente para se pronunciar e publicar os resultados: a CNE. Filipe Nyusi deve respeitar essa instituição. Se ela diz não estar em condições para o fazer, quem é ele para garantir o contrário?

– A missão da CEDEAO poderia participar numa nova compilação dos resultados?

A Guiné-Bissau é um país soberano e esse não é papel da CEDEAO. Não penso que tenham todos os elementos para o fazer, e seria uma falta de confiança para connosco. Em qualquer caso, isso não faria sentido.

– Devem realizar-se novas negociações antes da cimeira da CEDEAO de 14 de dezembro?

Estamos disponíveis para trabalhar num plano que garanta uma transição de no máximo um ano, com o objetivo de devolver o poder aos civis através de novas eleições livres.

– No entanto, circulam atas da presidência, sugerindo resultados favoráveis a Fernando Dias, em detrimento de Umaro Sissoco Embaló. Será que este golpe foi organizado pelo presidente cessante para colocar militares no poder em vez de o transmitir aos seus opositores?

É uma mentira. Umaro Sissoco Embaló não cedeu o poder aos militares, isso não faz sentido nenhum. Se ele pudesse manter-se no poder, teria permanecido. A menos que nos mostrem provas de que se trata de um golpe de Estado falso, não acreditamos nisso. Candidatei-me à presidência e, como qualquer candidato, tenho as minhas próprias actas das eleições. Mas as únicas que são oficiais são as compiladas pela CNE. Essas actas que mencionam e que dariam Fernando Dias na liderança, não são a interpretação correcta da situação.

– Vários observadores afirmam também que se trata de um golpe de Estado fictício. Até o antigo presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, mencionou uma encenação e afirmou que o que aconteceu «não foi um golpe de Estado»…

Goodluck Jonathan faz afirmações sem fundamento e isso coloca em causa a sua credibilidade. Lamento as suas declarações.

– Segundo as nossas informações, esteve em contacto com Umaro Sissoco Embaló desde a sua saída do país. É verdade?

Não.

–  Que pensar dos rumores que circulam sobre o seu possível regresso a Bissau?

Não tenho informações sobre isso. Acho que, se ele regressar, será quando novas eleições forem organizadas.

– É crucial para a Guiné-Bissau manter boas relações com os seus parceiros externos. Que garantias pretende lhes dar para os tranquilizar?

É preciso dizer-lhes a verdade. Desde o advento do multipartidarismo, os partidos políticos não nos têm permitido viver verdadeiramente em democracia. Só conhecemos problemas. Este ano de transição deve permitir-nos levar a cabo as reformas necessárias: da Constituição, da lei eleitoral, da lei-quadro dos partidos políticos, da administração… Precisamos delas para assegurar a estabilidade.

– Segundo as nossas informações, contactou o Primeiro-ministro do Níger, Ali Lamine Zeine, e o seu homólogo do Mali, Abdoulaye Diop. Seria este o início de uma aproximação à Aliança dos Estados do Sahel (AES), ou até uma mensagem dirigida à CEDEAO?

Não se trata de enviar uma mensagem à CEDEAO ou a qualquer outra pessoa. Queremos trabalhar com a CEDEAO. Mas temos relações com o Níger e o Mali há anos, e é perfeitamente normal que continuemos. Pretendemos reforçar as nossas relações com todos.

– O que aconteceu aos opositores desde o golpe de Estado? Incluindo com a Nigéria, que ofereceu a sua proteção a Fernando Dias? 

Sim, isso não prejudicará a nossa relação. Falei com o meu homólogo nigeriano, Youssouf Touga. Nada poderá estragar a relação entre a Nigéria e a Guiné-Bissau. 

– O destino dos opositores detidos suscita grandes preocupações. Por que manter Domingos Simões Pereira, Octávio Lopes ou mesmo Roberto M’Besba em detenção?

O Alto Comando Militar negoceia para que sejam libertados o mais rapidamente possível, inclusive com a CEDEAO. 

– Os advogados salientam que foram detidos fora de qualquer enquadramento legal e que não puderam visitá-los. Do que são acusados?

Não tenho elementos para responder a essa pergunta. 

– São homens que conhece bem, uma vez que foi porta-voz do PAIGC durante muitos anos… As suas famílias denunciaram maus tratos na detenção. O que lhes responde?

Eles não sofrem maus-tratos e comem corretamente. Posso assegurar-lhes que estão de boa saúde.

– Diz que lamenta a fragilidade em que este novo golpe de Estado mergulha o país. Porque é que aceitou entrar no governo?

Eu tinha duas opções: ou ficava em casa a lamentar-me, ou aceitava ajudar a Guiné-Bissau a regressar ao caminho da paz e da estabilidade. Ao aceitar este cargo, posso trabalhar pela reconciliação. É por isso que aceitei, por patriotismo e apesar de se tratar de um regime militar, um facto sobre o qual não posso fazer nada.

– A sua campanha presidencial não conseguiu mobilizar. O que faltou? 

Estou orgulhoso da minha campanha, foi uma grande experiência. O que faltou, claramente, foi o apoio do meu partido, o PAIGC, do qual continuo, apesar de tudo, a ser membro do comité político. 

– Vai ser candidato numa próxima eleição presidencial? 

Não. É incompatível, não posso participar na organização das próximas eleições se for candidato.

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