Quero lembrar, primeiro, Alexandre Correia. Jornalista, nascido a 9 de setembro de 1958, creio que em Luanda, Alexandre Correia fez parte daquele grupo de profissionais cuja passagem pela comunicação social foi discreta, marcada sobretudo por um período na RTP, onde integrou grupos de trabalho que produziram e realizaram programas conduzidos por Carlos Pinto Coelho – nome que marcou o jornalismo em Portugal.
A carreira de Alexandre não se prolongou por décadas nem ocupou as primeiras páginas dos jornais, mas passou por redações onde deixou memória em alguns colegas, num tempo em que a televisão pública ainda era um espaço pequeno, mais artesanal, onde muitos talentos entravam e saíam sem que a história lhes fixasse o nome. Era um tipo divertido, sempre pronto para pequenas transgressões que não faziam mal a ninguém. O percurso profissional de Alexandre foi interrompido por circunstâncias relacionadas com uma doença incapacitante.
Durante muitos anos viveu num lar em Setúbal. A doença que lhe limitou o corpo e a autonomia, nunca lhe tirou o interesse pela televisão, pelos noticiários, pelas séries históricas, pelos documentários que o acompanhavam nos dias longos da reforma forçada. Gostava de ver os antigos camaradas que continuavam no ativo, com quem falava frequentemente pelo telefone.
Teve uma presença ténue nas redes sociais, feita de pequenas pistas: um “like” partilhado, um comentário ocasional, ecos de alguém que, apesar das dificuldades, procurava manter-se ligado ao mundo. O ChatGPT não sabe nada sobre ele.
No dia do funeral, em 6 de dezembro, reuniu à sua volta a ex-mulher, os filhos, e uma mão cheia de amigos. Um círculo pequeno, mas verdadeiro. Numa mensagem enviada pelo Messenger, a informação: “fez-se um funeral digno (…) Que descanse em paz.”
A morte de Alexandre passou em silêncio, sem manchetes, sem textos de homenagem, num contraste evidente com as mortes recentes de figuras públicas como Clara Pinto Correia ou Constança Cunha e Sá, com quem ele também se cruzou nos afazeres profissionais. Esse silêncio diz algo sobre a crueldade da memória mediática: alguns nomes sobrevivem porque ocuparam o centro do palco; outros – como Alexandre – existiram, contribuíram, trabalharam, mas a sua história não ficou guardada.




Bem hajas, Carlos, por este depoimento. Tantos que passam, trabalham, deixam rasto entre os amigos e colegas de profissão, mas, não se pondo em bicos de pés ou não aparecendo na pantalha, têm um funeral digno, após anos de sofrimento. Que Alexandre Correia descanse em paz!