O recente debate entre Pacheco Pereira e André Ventura não foi apenas um confronto de ideias. Foi, acima de tudo, um espelho perturbador de um fenómeno que cresce silenciosamente, e perigosamente, no espaço público: a reabilitação do discurso colonial e a banalização do racismo sob a capa de “patriotismo” ou “revisão histórica”.
O que está em causa não é uma simples divergência académica sobre terminologias, “guerra colonial” ou “guerra do ultramar”, é algo muito mais grave: a tentativa deliberada de reescrever a história para relativizar crimes, diluir responsabilidades e, no limite, legitimar um sistema baseado na opressão, na violência e na desumanização de povos inteiros.
A estratégia da falsificação
Ao tentar colocar no mesmo plano a violência estrutural da ditadura antes do Revolução dos Cravos com episódios isolados do período pós-revolucionário, constrói-se uma narrativa perversa: a de que “todos foram igualmente culpados”. Esta lógica é intelectualmente desonesta e politicamente tóxica.
Não se trata de negar que houve excessos após o 25 de Abril. Trata-se de recusar a manipulação grosseira que tenta equiparar décadas de repressão sistemática, com milhares de presos políticos, tortura institucionalizada e execuções, a casos pontuais num contexto de transição.
Essa falsa simetria não é inocente. Ela serve um propósito: limpar a memória da ditadura e tornar aceitável, ou até desejável, o seu legado.
Neste contexto, a intervenção de Pacheco Pereira assume particular relevância. Não por representar uma posição política específica, mas por traduzir uma exigência elementar de rigor histórico. Ao recusar a equivalência entre a violência estrutural da ditadura e episódios isolados do período pós-Revolução dos Cravos, Pacheco Pereira não está a “defender um lado”, está a defender a integridade da memória colectiva. A sua insistência na desproporção dos factos, entre milhares de vítimas de um regime e casos pontuais numa transição, expõe precisamente o núcleo da manipulação: transformar a exceção em regra para absolver um sistema inteiro. É esse rigor, hoje tão raro no espaço público, que impede que a história seja capturada pela demagogia.
O racismo implícito: negar a legitimidade da luta dos povos africanos
Talvez o momento mais revelador, e mais inquietante, do debate tenha sido a recusa em reconhecer a legitimidade das lutas de libertação africanas.
Quando se afirma que atacar o exército colonial português não pode ser considerado um acto político, está-se, na prática, a negar aos povos de Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau o direito fundamental à autodeterminação. Isso é racismo. Porque pressupõe que os africanos não tinham legitimidade para lutar pela sua liberdade. Que deveriam aceitar a dominação como destino. Que a sua resistência não era política, era criminal.
Esta visão é herdeira directa da ideologia colonial: aquela que considerava os povos colonizados como sujeitos inferiores, incapazes de decidir o seu próprio futuro. Aceitar esse discurso, ou pior, normalizá-lo, é abrir a porta ao regresso de uma mentalidade que nunca foi verdadeiramente erradicada.
A nostalgia colonial
A ideia de que a descolonização foi uma “traição” não é apenas historicamente absurda. É moralmente obscena. Significa, em termos simples, que milhões de africanos deveriam ter permanecido sob domínio estrangeiro contra a sua vontade. Significa que a liberdade desses povos é vista como um erro histórico.
Esta nostalgia colonial não é uma opinião legítima no quadro democrático. É uma forma de extremismo ideológico que tenta reabilitar um sistema baseado na exploração, na segregação e na violência.
E aqui reside o verdadeiro perigo: quando este tipo de discurso entra no espaço público e é tratado como “mais uma opinião”, ele deixa de ser marginal e passa a ser normalizado.
Quando o inaceitável se torna tolerável
Conviver com racistas e nostálgicos do colonialismo não é um exercício de pluralismo. É uma forma de cumplicidade passiva. Porque estas ideias não são neutras. Elas têm consequências concretas: alimentam a discriminação; distorcem a memória colectiva; enfraquecem os valores democráticos; criam as condições para o regresso de práticas autoritárias.
A história já demonstrou, de forma trágica, que o extremismo não começa com violência explícita. Começa com palavras. Com “debates”. Com a banalização do inaceitável.
Uma responsabilidade histórica inadiável
Para países como a Guiné-Bissau, este debate não é teórico. É existencial. A nossa independência não foi um acidente. Foi conquistada com sacrifício, com luta e com uma consciência política clara: a de que nenhum povo deve viver sob dominação.
Aceitar discursos que relativizam essa luta é trair essa memória. Mais do que isso: é permitir que se reabra uma ferida histórica que ainda não cicatrizou completamente. Não há neutralidade possível.
O debate entre Pacheco Pereira e André Ventura deixou uma coisa clara: a batalha pela memória não terminou. E perder essa batalha não é uma questão académica. Porque quando o racismo e o colonialismo deixam de ser combatidos, começam, inevitavelmente, a regressar.




Absolutamente de acordo. Obrigada por ser tão esclarecedor, ajuda- nos a lutar contra as posições erradas, por vezes bem intencionadas, mas perigosas. Vou guardar.