Há no Museu Nacional Grão Vasco uma pintura cuja oficial designação é Retrato de Menina, mais vezes apelidado, o quadro, de A Menina de Madrazo, como se ela, a Menina do retrato, da qual se não conhecia, até há pouco, nome nem família, tivesse sido adoptada pelo pintor.
É assim desde há muitos anos, desde que Francisco de Almeida Moreira, o emérito primeiro director do Museu, trouxe para Viseu a preciosa pintura, que adquirira em Lisboa, em 1931, lá onde chegara pelas mãos de um antiquário que, em 1927, a adquirira em Paris.
Quem via no Museu o tal Retrato de Menina, toda a gente, suspendia-se a olhá-lo, que era um retrato vivo e ternurento e ela, a Menina, ali estava, fada ou moura encantada, à espera de alguém, talvez príncipe enamorado, que rompesse o encanto e a trouxesse, de mão dada, ao nosso mundo, onde faltava.
Demorou quase 100 anos, mas agora aconteceu. Como nas lendas.
Não perdeu o encanto, que ela não era nem moura nem fada, mas tão simplesmente criança, oito anos contados quando pousou para o retrato. Aconteceu em Madrid o desvelar da sua história, que essa tem o seu encanto. Aconteceu no âmbito da investigação para a realização da exposição retrospectiva do pintor Raimundo Madrazo y Garreta (1841-1920), caucionada pela Fundación MAPFRE, que ficou presente na Sala Recoletos, de 19 de Setembro de 2025 a 28 de Janeiro de 2026, nela se integrando a pintura do Museu de Viseu.
E aconteceu sair do limbo a bonita história da Menina com jeito de princesa, que vem habitar a verdadeira terra dos homens, entre eles cumprindo sua sina.
Tem o nome de Maria, esta menina, Maria Freiin von Stumm, filha segunda, na geração, de Ferdinand Freiherr von Stumm (1843 – 1925), embaixador da Alemanha do seu tempo, em Madrid, entre 1887 e 1892 e da Baronesa Pauline Freiin von Hoffmann (1858 -1950).
O casal, cuja vida decorre entre a diplomacia e o familiar empenho na grande indústria, teve quatro filhos: Ferdinand, Maria, Herbert e Friedrich Wilhelm.
Maria, a menina do retrato que se guarda no Museu, casou a 18 de Maio de 1911 com o Príncipe Hermann Furst von Hatzfeldt-Wildenburg, que levou uma intensa vida como militar graduado e diplomata encartado. Deles houve quatro filhos, três raparigas e um rapaz.
Raimundo Madrazo, estanciando em Madrid, fará o retrato de Maria, o nosso Retrato de Menina cerca de 1890, quando Maria andava pelos oito anos; o retrato do irmão Ferdinand Carl, em 1890, ao fazer os dez anos; e o retrato de Friedrich Wilhelm em 1893, ao fazer os cinco anos.
Desfeito o suave mistério que, por tantos anos, envolveu a Menina do Retrato ou o “Retrato de Menina” com jeitos de princesa, que, na vida real, casou efectivamente com um verdadeiro Príncipe e teve por morada um Palácio verdadeiro, não se perdeu o encanto do retrato, que, com tanta verdade, Raimundo Madrazo pintou, obediente aos cânones de uma Escola e onde permanecerá, para sempre, essa magia que nos cativa – como se a Menina continuasse como mourinha ou fada de uma bonita história encantada.




