O LUXO É A AUSÊNCIA DE PRESSA

Segunda e última crónica de uma viagem que começa no sul de Angola e segue pela Zâmbia, Botswana e Namíbia.

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6.º dia: O esplendor de Mosi-oa-Tunya
De Kasane – Kazangula (Botswana) a Livingstone (Zâmbia) – 7h de carro.
Era para ser uma viagem curta, mas o trajeto até Livingstone ficou marcado por uma espera inexplicável na fronteira. Quatro horas suspensas, sem razão aparente, que nos obrigaram a chegar tarde – mas ainda a tempo. E, no entanto, nada prepara verdadeiramente para as cataratas.
O rio Zambeze precipita-se ali com uma força difícil de explicar: cerca de 5.000 metros cúbicos de água por segundo, num abismo de mais de 100 metros. Mas não é apenas a dimensão – é o som, constante, profundo, e a névoa que sobe, densa, justificando o nome local Mosi-oa-Tunya, “o fumo que troveja”.
Quando o explorador escocês, (Sir) David Livingstone, viu as cataratas pela primeira vez em 1855, não imaginava que estas mais de 100 anos depois seriam consideradas como uma das maiores quedas de água do mundo, uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo e Património Mundial da Unesco (1989). Já agora, ele não as descobriu, nem as encontrou, foi lá levado pela comunidade local com quem, entretanto, estabelecera laços de confiança e batizou-as de Vitória em honra da rainha Vitória.
Os locais sabiam da sua existência e chamavam-nas de Mosi-oa-Tunya (“fumo que troveja”) há milhares de anos. O que se vê agora é a mesma vista espantosa que os impressionou, que impressionou Livingstone e que impressiona todos os que têm a sorte de ver estas cataratas.

Cataratas Vitória ou Mosi-oa-Tunya (“fumo que troveja”)

Caminhámos durante mais de uma hora e meia – e, ainda assim, parecia pouco- sob aquela chuva suspensa. Saí encharcada, apesar do impermeável que alugámos à entrada. Uma experiência que sei que não esquecerei.

7.º dia: Mosi-oa-Tunya National Park
Saímos cedo para procurar rinocerontes. Encontrámos muito mais.
Saímos às 8h30m para o Rhino Walk, depois de assegurar que os animais estavam em liberdade e não em cativeiro. O objetivo era claro: ver rinocerontes-brancos. Mas não vimos só rinocerontes.
Passámos o portão do Mosi-oa-Tunya National Parque (aliás, o The David Livingstone Safari Lodge & Spa onde ficámos já se situa dentro do parque, nas margens verdejantes do rio Zambeze, integrando-se perfeitamente na paisagem circundante) e seguimos de jipe aberto pelos seus caminhos.
O parque é pequeno, mas guarda o maior grupo de rinocerontes-brancos da Zâmbia, espécie classificada como ameaçada. Antes deles, porém, cruzámo-nos com uma vida dispersa, mas intensa e presente: macacos a tomar o pequeno-almoço em alegre cavaqueira, enquanto “cavavam” o terreno à procura de iguarias; gnus em passo lento; girafas elegantes; zebras inquietas; aves de várias cores em movimento.

O guia, Steve, simpático e conhecedor, ia explicando a paisagem e contando fatos curiosos sobre os bichos.
Depois quase no fim do parque o jipe parou, um guarda armado juntou-se a nós (uma arma com sedativo para os animais -usada, raramente, em caso de ataque- mas que também pode ser usada contra caçadores furtivos), e, depois de uma breve explicação de segurança, perguntaram-nos quanto tempo queríamos caminhar, dissemos 1 hora, e seguimos a pé, em linha na savana, sob um sol que
começava a aquecer e muito.
A savana abre-se de outra forma quando se caminha dentro dela. Viamos sinais: pegadas, excrementos, rastos de passagem. Mas rinocerontes, nada. Até que de repente, o guarda aponta e lá estão eles, sete White Rhinos -que, na verdade não são brancos-, imóveis à sombra de uma árvore. Uma cria entre eles, inquieta, pedindo leite. O resto era silêncio e uma presença forte. Já tinham comido e pode-se dizer que dormiam a sesta, quando muito davam um ou dois passos para encontrar um lugar mais confortável. E nós ficámos ali, a assistir. Foram momentos de grande deslumbramento.
Ao fim do dia, regressámos à água, num lento percurso pelo Zambeze ao pôr do sol, esse mesmo rio que atravessa países e histórias antes de chegar ao Índico. Conheci o rio Zambeze em 1995 em Tete, Moçambique. O Zambeze nasce no noroeste da Zâmbia passa pelo território de Angola e Zimbabwe e atravessa Moçambique de oeste para leste, para desaguar a sul da cidade de Chinde, no oceano Índico.

8.º dia: O meu amigo Henry
De Livingstone (Zâmbia) a Kongola (Faixa de Caprivi, Namibia) passando pela fronteira de Katima Mulilo – 7h de carro.
A distância engana. São poucos quilómetros, mas muitas horas. Em Km o trajeto é curto, cerca de 350km, mas em tempo é longo, quase 7h.
Durante cerca de 250Km, ainda em território da Zâmbia, seguimos por picada. A estrada de terra impõe o seu ritmo, e eu prefiro assim. Prefiro 4h de picada do que 4h de espera numa fronteira vazia.
A fronteira, desta vez, foi rápida. Do lado da Namíbia, o asfalto devolve-nos alguma fluidez e conforto, foi como se a viagem respirasse um ar novo.
A chegada ao Camp Kwando compensa tudo. Situado nas margens do rio com o mesmo nome -mais um que nasce em Angola -, está envolvido pela beleza selvagem da região do Zambezi (faixa de Caprivi), na Namíbia. É um pequeno oásis, um glamping sem internet, mas com dois hipopótamos residentes. Um chamado Henry e outro ainda sem nome, que estabeleceram a fronteira dos seus territórios, e os hipopótamos são animais muito territoriais, mesmo em frente às tendas do glamping. O Henry até saiu da água para se mostrar.
Este é um lugar simples, quase suspenso. Aqui, o luxo mede-se pela ausência: de rede, de pressa, de ruído, de distração.

Dia 9: Estranhos sinais de transito
De Kongola a Tsumeb passando por Rundu (Namibia) – 8h de carro.
A estrada, agora boa, atravessa paisagens onde os sinais de trânsito avisam de elefantes, cães selvagens, antílopes. Há pouco tempo, seriam sinais exóticos; agora, parecem-me naturais.
Vimos girafas a atravessar a estrada -duas passaram primeiro, outras ficaram para trás, hesitantes, à espera que passássemos. Há uma prudência naquele gesto que reconheço.
Chegámos ao Callie’s Lodge ao pôr do sol. Já dentro da fazenda, ainda vimos impalas e gnus, como um último aceno da vida selvagem.
Fechámos o dia como tínhamos fechado o primeiro: com uma cerveja Windhoek.

10.º dia: Regresso
De Tsumeb (Namíbia) ao Lubango (Angola) – mais de 10h de carro
O regresso faz-se sempre mais longo. Atravessámos a fronteira de Oshikango / Santa Clara com demora – problemas de sistema, ou falta dele – num regresso a Angola que se fez esperar.
Almoçámos em Santa Clara e seguimos por estradas irregulares, marcadas por buracos e interrupções constantes: umas pela polícia, outras pelos animais em movimento, que continuam a impor o seu próprio ritmo à estrada.
Já perto do fim, a pouco mais de cem quilómetros do Lubango, parámos em Chiange-Gambos para ver o pôr do sol e abrir o champanhe que nos acompanhava desde o dia 1 de abril -aniversário de uma das companheiras de viagem.
Chegámos ao Lubango já de noite, por volta das 21h, mas ainda houve tempo para um vinho tinto do Douro ao jantar.
Nesse dia, quando me deitei na casa 21 do Kimbo do Muholo no Pululukwa Resort, percebi que a Road Trip terminava ali. Tinham sido dez dias, 3.428 quilómetros, quatro países -cerveja local q.b., muitos animais, muitas paisagens… e, acima de tudo, muita água. Esse elemento essencial à vida, que afinal esteve sempre presente. No fundo, sempre no centro de tudo.

(último de dois artigos)

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