Início Site Página 34

GOVERNO IMPIEDOSO

0

Todos os anos, centenas de reclusos apresentam pedidos de indulto. As razões são conhecidas: doença, idade, proximidade do fim da pena, situações familiares limite. Não são argumentos fúteis. São, no mínimo, razões para serem avaliadas.

Técnicos dos serviços prisionais, da educação e da reinserção social produzem relatórios detalhados, num processo moroso. Horas de trabalho especializado, consumidas todos os anos numa engrenagem burocrática pesada. Depois, o ministro da Justiça seleciona alguns casos — nunca se sabe por que critérios — e envia-os ao Presidente da República. O resultado raramente varia: cinco ou seis indultos. Uma liturgia institucional que produz efeitos residuais.

Este ano, o Governo decidiu acabar com o ritual. Não haverá indultos. Ponto. O processo decorreu, como sempre, até ser interrompido no fim. Foram avaliados 125 pedidos. Nenhum foi considerado digno de clemência. Se noutros anos o desperdício de trabalho resultava em meia dúzia de benefícios, este ano o saldo é nulo.

No último Natal do seu mandato, Marcelo Rebelo de Sousa não perdoará uma única pena de prisão. Não por falta de pedidos, mas por decisão política do Governo de Luís Montenegro.

A justificação oficial é clara e fria. “Não foram identificadas razões de natureza humanitária, ou outras de especial relevo”, diz o gabinete da ministra da Justiça. Acrescenta que a gravidade dos crimes e as exigências de prevenção geral impedem qualquer indulto.

É um argumento. Em termos político é uma justificação confortável, que evita contestação nos parceiros do Governo, a direita e extrema-direita parlamentares. Revela a opção por uma justiça insensível, sem misericórdia institucional, sem simbolismo. Uma justiça reduzida à sua função punitiva.

O indulto nunca foi um perdão moral, nem uma negação da justiça. É um gesto excecional, político e simbólico, que reconhece que a aplicação da lei nem sempre esgota a ideia de justiça.

Este Governo escolheu um Natal sem clemência. Arquivou. E fechou a porta. A decisão não diz nada sobre os reclusos. Diz tudo sobre quem governa.

O PRESÉPIO DA LAPA

0

Os romeiros da Senhora da Lapa, esse místico Santuário desde há quinhentos anos pousado num resguardado desvão da Serra da Lapa, os romeiros que sobem à montanha têm por hábito primeiro atravessar a estreita quelha que rompe do coração do rochedo onde se encontra o altar da Senhora e desemboca, sobre o Norte, depois de atravessar esse estreito e metafórico caminho de Paraíso.

Santuário da Lapa, a passagem estreita

E logo reparam, enlevados, na rumorosa cenografia do Presépio, que se desdobra na funda abertura do rochedo e suspendem-se olhando, demorados, esse poético cenário de pastoral, que relembra as fantasiosas e inocentes figurações dos Natais inventados na Provença.

A Sagrada Família pousa, ao centro, sob o tecto colmado de um pouco extenso abrigo de gado, a que José terá dado um jeito, antes que tivesse chegado esse borborinho de pastores e de mulheres de Belém, que carregam cestinhos de ovos, frutas, guloseimas festivas e aves propícias para um caldo para a tão jovem mãe ainda assustada.

Maria aconchega ao peito o seu Menino, que os visitantes olham ainda de longe, esperando o gesto de José ou de Maria para que possam beijar os pezitos da criança.

Lá no alto, desdobra-se o muralhado de Belém, a cidade imaginal de onde Herodes acaba de despedir os Magos, que descem agora em tumultuosa cavalgada pela estrada real que os conduzirá a Belém.

Anjos cantam sobre as alturas, ao jeito de arautos de inusitada Boa-Nova, e a gente não sabe se as lavadeiras da fonte, se os aguadeiros, o almocreve que guia o macho carregado e se essa rapaziada que brinca na rua, os tocadores de sanfona também, ou a rusga de dançarinos perceberam a mensagem dos anjos que ecoou pelas quebradas. Pouco importa. À porta da gruta, são já multidão os pastores e os campónios das quintas de Belém.

Os Magos estão perto. Maria e José talvez já saibam. Alguém chegara, correndo, trazendo a nova das visitas reais. Retomarão depressa os caminhos de regresso, os Magos, e irão despedir-se na lonjura do deserto jurando estar juntos quando o Menino for Rei.

Que não será Rei, o Menino.

Ei-lo ao longe, no colo da mãe que monta a burrica que José conduz, emigrante sem terra, ao Egipto distante. José só conta esconder o Menino dos maus olhos de El-Rei. Valeu-lhes o homem que andava no campo a ceifar o pão. Quando voltar, José irá vê-lo e agradecer-lhe o favor. Que um dia há-de voltar!…

Fuga para o Egipto. À esquerda, azulejos da igreja da Trofa, Portugal. À direita, pintura de Fra Angelico, Museu de San Marco, em Florença, Itália

Enlevo de pastoral este meu Presépio de menino.

VIAJAR ATÉ GUILDFORD

1

– Vais para Lisboa?
Não. Eu não ia para Lisboa, mas para uma vila dos arredores. Para os meus companheiros de Coimbra, era tudo a grande Lisboa.

Tive agora a mesma sensação quando me perguntaram:
— Vais para Londres?

E eu respondi que sim, porque iria aterrar no aeroporto de Gatwick. Porém, não fui alojar-me em Londres. O meu destino era Guildford, uma cidade dos arredores londrinos, digamos assim, de que eu jamais ouvira falar, situada bem a ocidente da capital inglesa.

Depois do almoço no Positano, ementa italiana a preceito, regada por um tinto Montepulciano d’Abruzzo, senti-me numa verdadeira cidade inglesa. Nada do cosmopolitismo londrino, raças e trajes exóticos não se viam. Tudo era do mais puro estilo inglês: nas vestes e no falar. O casario, os monumentos  tudo respirava tradição. Por um túnel sob os prédios, desci à margem do rio Wey, afluente do Tamisa. Uma barca descia as águas turvas, nada inspiradoras de um mergulho. A escultura de um homem de outro tempo, que lançava amarras, invocava épocas em que dali partia a mercancia até à grande capital.

Na rua principal, a High Street, muito movimentada, um pregoeiro procurava vender jornais para a associação que cuidava dos sem-abrigo. Outro pedia uma esmola para soldados desprovidos de meios financeiros, que sofriam de PTSD — Perturbação de Stress Pós-Traumático.

Tudo estava bem conservado. Aquela antiga casa, com o grande letreiro num edifício histórico, já não permite, a partir do nível da rua, ler por completo a inscrição que ostenta. Mas não será muito diferente de outras onde se consegue ler: “VITA IN MOTV EST” — a vida está em movimento

À entrada doutro edifício nobre a placa informava que estávamos diante do Abbot’s hospital. Georges Abbot, natural de Guildford, fora arcebispo de Cantuária e fundara esta estalagem em 1619. Há cerca de 400 anos foi transformada em alojamento para maiores de 60 anos com poucos recursos.

A igreja anglicana da Santíssima Trindade tem mais de mil anos, pois começou no século XI. Possui no seu interior uma capela medieval, construída em tijolos vermelhos, no chamado estilo Early Georgian, que tem telhado curiosamente desprovido de suportes internos. Reza a promoção turística que é conhecida pelos seus  ‘deslumbrantes vitrais e pela atmosfera tranquila, que proporciona aos visitantes uma fuga serena da agitada vida quotidiana’ Estava fechada quando por ela passei, mas acredito piedosamente que assim seja. Sucessivas foram os restauros até à actualidade. Atrás, semi-abandonado, ficava o cemitério; se tinham letras, as placas verticais já as perderam; poderiam começar por “Consagrado à memória de…”.

Algo que também pode causar estranheza é a forma como são aproveitados para passagem de uma rua para as outras os muito estreitos espaços entre prédios. Ninguém diria. As pessoas usam essas vielas com a maior descontração.

Não estranhei, porém, quando, a meio de uma compra numa das lojas, a funcionária, ao verificar que as freguesas eram portuguesas, passou a atendê-las em português. Ela também era portuguesa!… Foi, pois, o grande final de uma jornada singular.

AS BRANCAS ÁRVORES DE NATAL DA MINHA INFÂNCIA

0

No meu tempo de menino, as árvores de Natal eram apenas os pinheiros altos que cresciam, por largo, ao redor da minha aldeia. Ficava sempre branca a coruta dos pinheiros no dia de Natal, fosse da neve ou da geada, era assim que eu esperava vê-los em cada ano, logo de manhã.

Aprendi na catequese a história antiga de uma árvore que seria tal e qual as macieiras dos campos de meu pai, aprendi que o Paraíso seria como a nossa Quinta, com ribeiros, uns bois mansos, rebanhos a pastar e a paz dos fins de tarde, como aqueles em que Javé se entretinha conversando com Adão. Nunca soube bem porque se vieram embora do jardim Eva e Adão. Não seria só por terem colhido no jardim uma maçã.

Meu pai não se importava que os rapazes colhessem maçãs para comer. Só não queria que quebrassem as ramagens ou estragassem os frutos pelo chão. Rezava o Catecismo que Javé pelo seu acto os expulsou, mas que ainda teve pena deles e que, antes de saírem do jardim, os vestiu com peles de cordeiro acabadas de curtir. Não rezava o Catecismo, fui eu quem li mais tarde, que Eva trouxera por memória o ramo de uma árvore que mais tarde plantou.

Tinha a cor branca de neve a tal árvore que ela plantou no chão vazio desse mundo novo que passara agora a ser o seu. O ramo fez-se árvore frondosa e ela deu à árvore que trazia a cor branca da árvore original o nome de Árvore da Vida. E foi ela quem depois cortou ramos aos braçados, nesta árvore, foi ela quem plantou pelo mundo fora a floresta de pinheiros que ganharam a cor verde ao romper a luz do sol.

Não sei se há nisso algum mistério, mas era talvez para lembrar a cor branca original que os pinheiros da margem da aldeia dos meus tempos de menino ficavam brancos na Noite de Natal.

CRISTO, PELA LIBERDADE DA PALESTINA

2

O primeiro paradoxo surge quando percebemos que nem sequer no território onde Cristo nasceu o Natal tem hoje qualquer impacto significativo na vida das pessoas. Na Palestina, e em particular em Belém, a cidade que a tradição identifica como o local do nascimento de Jesus, a celebração perdeu substância. Em contextos de profunda instabilidade política, de ocupação militar e de repressão sistemática, não há espaço para rituais simbólicos que pressupõem paz, comunhão ou esperança. Este ano, como nos anteriores, não haverá peregrinos em número relevante, nem turistas religiosos a visitar a gruta onde se diz que Maria deu à luz. A economia local, já fragilizada, está asfixiada. O quotidiano é dominado por postos de controlo, cercos, incursões militares e medo.

Entre os muitos paradoxos da Palestina, o lugar de Cristo é talvez um dos mais perturbadores. Os cristãos existentes na Palestina são palestinianos. São uma minoria, é certo, mas uma minoria histórica, enraizada naquele território há séculos. Não existem judeus cristãos enquanto grupo social relevante; existem palestinianos cristãos, submetidos à mesma ocupação, às mesmas restrições e à mesma violência que os seus compatriotas muçulmanos. Ainda assim, a figura de Cristo não surge como referência central da luta palestiniana pela autodeterminação e pela libertação nacional.

E, no entanto, Cristo foi uma figura profundamente política. Um opositor da ordem estabelecida, um crítico do poder imperial e das elites colaboracionistas do seu tempo. É plausível admitir que o movimento que se formou em seu redor não tivesse como objetivo inicial a fundação de uma nova religião, mas antes a organização de uma forma de resistência política, moral e talvez espiritual, contra uma ocupação estrangeira. Só assim se compreende que um pregador sem exército, sem linhagem real, sem poder material, tenha sido considerado suficientemente perigoso para justificar a tortura e a execução pública.

Naquele contexto histórico existiam inúmeras seitas, cultos e crenças de pequena escala, animistas, politeístas ou monoteístas, que coexistiam sem fricções nem grande relevância política. Nada obrigava o poder romano a reagir com tamanha brutalidade a mais um pregador errante. A morte de Cristo não se explica pela teologia; explica-se pela política. Foi eliminado porque representava uma ameaça à ordem vigente.

Hoje, a analogia impõe-se com desconfortável clareza. A capacidade de sofrimento e de resistência demonstrada pelos primeiros cristãos após o assassinato do seu líder tem semelhanças, em muitos aspetos, com o que se passa na Palestina contemporânea. Um povo submetido a uma ocupação militar prolongada, alvo de uma política de limpeza étnica e de destruição sistemática das suas condições de vida, enfrenta exércitos tecnologicamente superiores e potências estrangeiras. Tal como no passado, a violência é justificada em nome da segurança, da ordem e da civilização.

Neste contexto, falar de “Natais felizes” soa obsceno. O Natal, enquanto símbolo de nascimento, redenção e esperança, esbarra na realidade concreta de um território transformado num inferno a céu aberto. No lugar onde, segundo a tradição cristã, nasceu uma criança destinada a desafiar o poder, resta hoje a prova de que a história raramente recompensa os que resistem. Na Palestina, até a memória de Cristo vive sob ocupação.

AS “ESTRELINHAS DE PASTOR”

0

Quando as noites de Verão se estendiam pela aldeia; quando se fazia, escurecendo, o regresso da gente nos caminhos; quando a lua-cheia acompanhava os nossos passos vigiando a montanha; quando os grilos cobriam com seu canto a paisagem repousada; quando uma coruja piava numa rocha a deslado do caminho, de assustada – de onde em onde, uma estrela qualquer riscava o céu, como se partisse para viagem.

Eram as “estrelinhas de pastor”. Era assim que, em miúdos, lhes chamávamos. Não sabíamos porquê. Talvez porque se escapavam do céu, como ovelhas transviadas. Talvez porque só elas distraíssem a vigília do pastor, noite fora demorada.

Estrelas cadentes foi o nome que aprendemos, quando, um dia, nos sentámos no banco da escola. Mas não eram bem estrelas, explicava, com amor, a professora. Eram meteoritos, uma palavra mais difícil de dizer. Restos de uma estrela que, há milhões de anos, se perdera.

No trajecto veloz que faziam no espaço, talvez que procurando o corpo aconchegante da estrela-mãe antes perdida, riscavam de luz o ar da noite, não fosse ela aparecer.

Era assim que acontecia com as pedras que a gente atirava, ao desafio, para zenir como os silvos de moderna nave, sobre os outeiros. Era assim, mítica e real a nossa infância.

Sobre o céu da minha aldeia perdem-se agora estes riscos das estrelas. Já não há pastores que velem, nas cabanas, os rebanhos. Já não há camponeses que regressem, a desoras, do trabalho. Nem desfolhadas. Nem lua-cheia a viajar por detrás da ramagem dos pinheiros. Nem crianças soltas ainda pelo adro. Nem histórias de avós.

Ainda passam, de onde em onde, solitárias, as velhas estrelinhas de pastor. Esperando, talvez, que alguém acene, cá de longe, com um lenço, um gesto de adeus feito saudade.

QUANDO O JORNALISTA JÁ MORREU

0

Dizem que são os artistas que criam a realidade. Não. Nunca um artista criou a realidade, esse acto é desígnio do jornalista. Nas arquitecturas dos meios audiovisuais, onde campeiam ordens com uma sequência de tarefas previamente definidas, onde a finalidade é pretender muitas audiências e muitos leitores, assim, surge a tarefa de sequenciar lógicas “fictícias” para criar situações, ou personagens, de modo a criar um consenso forjado para o povo, dando ideia que veio do povo, a criação de uma personagem “absolutamente necessária”, a criação de uma “necessidade”.

Nessa arquitectura utiliza-se também uma nova ferramenta: o algoritmo. O algoritmo dispõe, o algoritmo alcunha, o algoritmo cria uma ficção. A manobra sobre o algoritmo é que determina o que queremos. O algoritmo o que é? É um conjunto de sequências escritas, limitadas, expostas de forma muito clara, criadas para resolver um problema. Nada mais. Quem o criou? Os engenheiros informáticos. Ou seja, somos nós o problema quando organizamos o algoritmo.

Então, o jornalismo pode criar um artista, um político, um mito ou até uma ficção, caminhos para servir “senhores” que sabem usar um “adubo” infalível, o dinheiro, para concretizarem em seu beneficio objectivos bem definidos, para si. A estes, interessa que os média tenham e continuem com problemas financeiros, esses entraves são a primeira “linha” de uma subordinação ao poder financeiro obscuro.

Se o jornalista colabora em criar um político, dando-lhe tempo sobre tempo, de comunicação, está a manipular a verdade, a construir mais um personagem que não leva o país para lado nenhum, um ser que, conjuntamente com o seu criador, entende ter a “posse” de tudo o que imagina, por força de tantas palavras que levarão o povo ao engano.

PENSADOR

3

Sempre que passo junto a duas das estatuetas que tenho em casa, me interrogo: «Pensador? Porquê pensador?». Separaram-nas milénios; a intenção, porém, deverá ter sido a mesma. Qual?

Advém-me logo também a figura inconfundível do cantor brasileiro Gabriel, o Pensador, e, naturalmente, outra imagem admirável, a escultura «O Pensador», bronze saído do génio do francês Auguste Rodin (1840-1917).

Estátua “O Pensador” de Rodin
Cantor Gabriel “O Pensador”

E, ao abrirmos a página do Facebook, a pergunta lá está: «Em que estás a pensar?». Creio que, em princípio, o algoritmo quer controlar até os nossos pensamentos; contudo, a pergunta detém oportunidade premente. Não vale responder «Em nada», porque isso significaria – se verdade fosse – que não conseguíamos dominar a corrente dos nossos pensamentos. Ou, dizendo doutra forma: estávamos a esperdiçar a oportunidade de os dominar de forma efectiva e actuante. Que uma viagem de comboio, por exemplo, não pode servir apenas para nos embrenharmos no telemóvel: haverá um livro para ler ou, de modo especial, a possibilidade de pensarmos o que foi até aí o nosso dia e o que poderá ser a seguir. O domínio do pensamento reveste-se, de facto, de uma fecundidade incrível.

Uma das minhas estatuetas reproduz O Pensador de Angola. O Pensador é, vim a saber, uma das esculturas mais belas de origem tchokwe, que constitui hoje um referencial e um símbolo da cultura angolana. Pode ser uma mulher ou um homem anciãos. Simétrica, apresenta a face ligeiramente inclinada para baixo, a exprimir um subjetivismo intencional, pois, bem no sabemos (embora nem sempre disso estejamos conscientes), em Angola, os idosos gozam de um estatuto privilegiado, como detentores da sabedoria e da experiência. Como o tinham também na Antiguidade Clássica e nas filosofias do Extremo Oriente.

Atribui-se a Henrique Abranches a iniciativa de chamar à estátua “Pensador Tchokwe”, recordando a atrás citada escultura de Auguste Rodin e  relacionando-a com as pequenas figuras, esculpidas, de madeira usadas no ritual da adivinhação dessa cultura quioca do Nordeste angolano: o ‘ministro’ guarda-as dentro do ngombo, o cesto de que se serve para a cerimónia, onde adivinho (mubiki) as põe com objetos diversos (ossos, sementes) para interpretar mensagens dos espíritos. Considera-se que as primeiras esculturas angolanas do pensador foram esculpidas nas oficinas do Museu do Dundo, ao final da década de 40 do século XX.

O Pensador Tchokwe, Angola
O Pensador pré-histórico

Não deixa de ser sintomática a circunstância de se haver encontrado também em horizontes pré-históricos uma figura que, na sua rudeza, mais não é do que a representação do Pensador: é a segunda imagem que guardo. Símbolo, portanto, do relevante papel que o pensamento assume na vida do Homem, reconhecido em todos os tempos.

FALAR SOBRE O FIM

1

Nestes poemas, o autor reflete sobre a finitude da vida, a percepção do tempo. Segundo entrevistas com o autor, o livro remete para uma dimensão pessoal ligada ao luto pela perda de uma avó. Não sei a idade do autor, mas pelo que aparenta é, ainda, um jovem. Ou seja, um jovem que disserta sobre a finitude da vida pode parecer uma contradição nos termos. Mas a reflexão sobre a finitude não é património da velhice; é, isso sim, património da consciência. A ideia, muito difundida, de que só quem “já viveu muito” pode falar legitimamente do tempo e da morte é mais cultural do que filosófica.

Os jovens de hoje crescem num contexto de colapso ambiental, precariedade estrutural, guerras transmitidas em tempo real e uma permanente sensação de instabilidade. Isso pode produzir uma consciência dos limites que nos cercam. Mesmo que não pareça, a malta jovem não anda despreocupada.

Ainda que este livro fosse “apenas” um exercício intelectual, já não seria pouco, de qualquer forma. Num tempo em que grande parte da produção cultural evita perguntas desconfortáveis, um jovem autor escolher a finitude como eixo central já indica uma recusa do trivial e do imediatismo.

Gosto de ler poesia, não sempre, mas de vez em quando. E penso sempre que é uma forma surreal de retratar alguma coisa muito concreta. Isto é, muitas vezes, quase sempre, diria, um poema pode ser resumido numa frase curta. Só que, o retrato que o poeta faz é sempre largo…

Essa sensação de “surreal” vem do facto de a poesia não respeitar as hierarquias da linguagem utilitária. Metáforas, imagens improváveis, associações livres – tudo isso serve para mostrar que a realidade concreta não é linear quando é vivida. O poema parece estranho porque a experiência interior também o é.

Ao contrário, a prosa informativa resolve-se numa linha. Um título, um lead, como dizemos nas redações de jornalistas. A poesia precisa de mais espaço porque trabalha com ritmos, silêncios, ecos.

No fundo, um poema poderia, de facto, caber numa frase. Mas se ficasse por aí, seria apenas uma ideia. A poesia começa quando essa ideia é esticada, torcida, iluminada por dentro, até deixar de ser apenas compreensível e passar a ser sentida. É esse alargamento, esse “retrato largo”, que faz a estranha beleza da poesia.

“Vim Sem Tempo” vale o tempo que leva a ser lido.

A TEIA DE ARANHA

0

António Costa e Santos Silva deram início à urdidura da ‘teia de aranha’ em que tentaram enredar o PSD, fortalecendo o Chega, por forma a reduzir aquele que foi o partido alternativo do poder ao longo destes 50 anos e garantir uma continuidade do Partido Socialista na liderança do governo e das autarquias. Por força do golpe palaciano conduzido pela PGR, com a conivência de Belém, cujos contornos os arqueólogos talvez venham a descobrir, uma vez que dificilmente serão descobertos pelos historiadores, todo o trabalho de tecelagem foi interrompido. Assim, surgiu uma explosão de finos fios de influência, ao nível da comunicação social, que alteraram as traves-mestras daquela teia, dando origem a uma ruptura que conduziu o Chega a partido charneira do nosso sistema político, numa viragem à direita, que já se tinha começado a sentir a nível mundial.

Neste novo quadro político-partidário, em que o Partido Socialista, nas eleições legislativas, foi severamente punido – as autárquicas, dada a sua especificidade não contam para esta análise – o partido do governo decidiu reabrir a estratégia que antes criticara (e que, diga-se, para mim, foi um erro fatal do Partido Socialista), mas com uma vertente diferente, ‘cavalgar a agenda’ do Chega e tentar absorver o eleitorado deste partido. Desta forma, o PSD recriou a ‘teia de aranha’, para manter o PS refém do governo e sem capacidade de reacção, aproveitando o descontentamento e a reacção negativa ancorada na percepção do perigo da imigração e das facilidades supostamente dadas aos migrantes. A este propósito trago à colação a posição do governo italiano que concluiu pela necessidade de um acréscimo de mão-de-obra migrante para dar resposta às necessidades económicas do País.

O que o PSD não compreendeu é que a teia de aranha, em que está a tentar envolver o PS, acaba por enredar o partido do governo e permite ao CHEGA ser a viúva-negra, que capta na sua espiral pegajosa o PSD. Este será, no pós-presidenciais, o próximo passo de André Ventura, destruir o PSD/AD e vencer as eleições legislativas. Com o apoio de alguma comunicação social, o governo da AD irá implodir antes do termo do mandato, envolvido num qualquer escândalo ou, por inépcia, diante da sua natural incompetência, abrindo caminho a uma crise institucional que determinará a antecipação de eleições legislativas.

Com a esquerda e o centro-esquerda em convulsão, com o Partido Socialista sem um rumo certo e sem capacidade de se afirmar como alternativa para um governo coeso e forte, numa Europa em crise económica e social, o futuro será dos populistas.