FALAR SOBRE O FIM

Confesso que procurei este livro depois de ver alguns vídeos do Pedro Freitas. Ele diz poesia como poucos. Faz recordar um pouco o ator Mário Viegas que nunca teve redes sociais à disposição para disseminar os poemas que lia. Pedro Freitas tem uma forte presença nas redes sociais, onde partilha poesia, a sua e de outros. Li algures que tudo começou quando, em 2014, venceu um concurso da Fundação Calouste Gulbenkian sobre a arte de dizer poesia. “Vim sem Tempo” é o segundo livro do autor (o primeiro foi edição de autor, em 2022). Este livro venceu o Prémio Livro do Ano Bertrand 2024 na modalidade de poesia. A partir daqui, Pedro Freitas tem o mundo aos seus pés.

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Nestes poemas, o autor reflete sobre a finitude da vida, a percepção do tempo. Segundo entrevistas com o autor, o livro remete para uma dimensão pessoal ligada ao luto pela perda de uma avó. Não sei a idade do autor, mas pelo que aparenta é, ainda, um jovem. Ou seja, um jovem que disserta sobre a finitude da vida pode parecer uma contradição nos termos. Mas a reflexão sobre a finitude não é património da velhice; é, isso sim, património da consciência. A ideia, muito difundida, de que só quem “já viveu muito” pode falar legitimamente do tempo e da morte é mais cultural do que filosófica.

Os jovens de hoje crescem num contexto de colapso ambiental, precariedade estrutural, guerras transmitidas em tempo real e uma permanente sensação de instabilidade. Isso pode produzir uma consciência dos limites que nos cercam. Mesmo que não pareça, a malta jovem não anda despreocupada.

Ainda que este livro fosse “apenas” um exercício intelectual, já não seria pouco, de qualquer forma. Num tempo em que grande parte da produção cultural evita perguntas desconfortáveis, um jovem autor escolher a finitude como eixo central já indica uma recusa do trivial e do imediatismo.

Gosto de ler poesia, não sempre, mas de vez em quando. E penso sempre que é uma forma surreal de retratar alguma coisa muito concreta. Isto é, muitas vezes, quase sempre, diria, um poema pode ser resumido numa frase curta. Só que, o retrato que o poeta faz é sempre largo…

Essa sensação de “surreal” vem do facto de a poesia não respeitar as hierarquias da linguagem utilitária. Metáforas, imagens improváveis, associações livres – tudo isso serve para mostrar que a realidade concreta não é linear quando é vivida. O poema parece estranho porque a experiência interior também o é.

Ao contrário, a prosa informativa resolve-se numa linha. Um título, um lead, como dizemos nas redações de jornalistas. A poesia precisa de mais espaço porque trabalha com ritmos, silêncios, ecos.

No fundo, um poema poderia, de facto, caber numa frase. Mas se ficasse por aí, seria apenas uma ideia. A poesia começa quando essa ideia é esticada, torcida, iluminada por dentro, até deixar de ser apenas compreensível e passar a ser sentida. É esse alargamento, esse “retrato largo”, que faz a estranha beleza da poesia.

“Vim Sem Tempo” vale o tempo que leva a ser lido.

1 COMENTÁRIO

  1. Gostando tanto de Poesia, não podia deixar de saber um pouco mais sobre este jovem.
    É curioso que ele se lembre mais da avó do que da mãe. Por motivos pessoais-familiares, também eu me lembro mais de uma das minhas avós que marcou os dois primeiros anos da minha vida.
    Ouvi a voz suave do Pedro Freitas a dizer Querida Avó, mas em cada verso, como sugere o Carlos Narciso, há muito mais do que um verso. E uma estrofe é um pedaço da sua vida recheado de memórias que ele guarda com reverência.
    “Metáforas, imagens improváveis, associações livres – tudo isso serve para mostrar que a realidade concreta não é linear, quando é vivida”. Tem razão, Carlos Narciso.
    Na Poesia não cabem os métodos da inguagem utilitária. Cabem códigos que todos podem entender quanto mais lerem, mas numa estrutura mais depurada, que se vai melhorando como um vinho de boa qualidade.
    Muito grata por este texto e parabéns a este jovem, que só não podia ser meu neto, porque mal entre Janeiro farei 34 anos. Sim, vou retirando peso à vida…
    Feliz Natal para leitores, cronistas e director deste Jornal. Não é bem ordem inversa, é só dar graças a quem lê, para justificar a missão dos outros.
    Parabéns ao Pedro Freitas!
    Um Abraço Grande a Todos.

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