Sabíamos que perdera a cabeça e até andámos às voltas com ela até percebermos que se encontrara a metade inferior duma ara romana.
Confesse-se que, à primeira vista, tantas são as pedras deste jeito, até hesitámos acerca da sua antiguidade. Depressa, porém, nos convencemos que sim, era um altar romano, dedicado a uma divindade, mormente depois de, pelas mágicas virtudes resultantes da aplicação, por Alexandre Canha, de milagrosos filtros fotográficos, termos logrado ler, no final, a fórmula ritual: ex voto, «por voto», o que de imediato nos deu a entender que se tratava, de facto, de uma inscrição votiva (que é o adjectivo que se aplica a este tipo de monumentos).

Na actualidade, acções de graças a Deus ou aos santos consubstanciam-se, habitualmente, na oferta de uma vela que se queima, simbolizando a chama e o fumo que dela se exala a prece que sobe para a entidade divina homenageada. Queimada a vela, o que resta pode ficar sem qualquer préstimo, a não ser – como acontece nos grandes santuários religiosos – que se proceda à respectiva reciclagem e daí novas velas venham a ser fabricadas.
Não pactuavam lá muito os Romanos com essas transitoriedades. Preferiam gravar na pedra dura, a fim de ser eterna a sua gratidão. Não podia, porém, o vulgar devoto dar-se ao luxo de, por exemplo, mandar fazer um altar, uma capela lateral ou mesmo uma ermida – como, também hoje, isso é apanágio de quem tem posses para tal. Por isso, limitava-se a ir a uma oficina de canteirio (havia-as, naturalmente, por perto dos grandes santuários), escolhia uma das miniaturas de altar que o artífice já teria à vista, explicava que dizeres queria fossem gravados e, encomenda recebida, lá iria depô-la no santuário divino.

O ideal seria haver pompa e circunstância. Que, como nas missas solenes, se queimassem incensos para purificar a doação e simbolizar, pelas cheirosas ondas de fumo a subir, a elevação das preces e do mui devoto reconhecimento. Daí que – embora habitualmente não chegasse a ser usado, era um símbolo – se esculpisse na parte superior do capitel uma covinha, teoricamente destrinada a que nela se derramassem as essências a queimar. Por isso se lhe dá o nome de fóculo, pequeno fogo. O pequeno altar romano achado à saída de Bracara Augusta (Braga) ostenta claros vestígios de fogo; o viandante, à saída ou à entrada da cidade, queimava aí essências em honra dos deuses das vias (Lares Viales) para que o protegessem na ida e, à vinda, para lhes agradecer a companhia.


Encontrámo-la decapitada a ara de Barcos. Estava em reutilização. Fora partida a meio. Mas arqueólogo que se preza não se deixa esmorecer e, se bem o pensou, melhor o fez: suspeitando-se de que a outra parte poderia estar no monte de pedras que os pedreiros da obra haviam levado para um terreno da proprietára, urgia que esse monte fosse remexido. Toca de ir ao monte e que a consabida perícia do maquinista fizesse o milagre. E fez! Em menos de uma hora, lá se encontrou o capitel, a cabeça que a pedra perdera. E até tinha fóculo, com 14 cm de diâmetro!
Correu-se a ajustar tudo, dava certo e aí temos o monumento inteiro, com 56,5 cm de altura total. Pronto para dele se fazer o estudo epigráfico minucioso, comparando-o, eventualmente, com outros achados pelas redondezas e acicatando-nos a curiosidade: donde é que o altar terá vindo? Que vestígio romano de alguma monta haverá por perto? Como sói dizer-se, «não há fumo sem fogo»; assim, aqui, se há altar, tem de haver o sítio original em que ele foi colocado!
(em co-autoria com José d’Encarnação)




