AS “ESTRELINHAS DE PASTOR”

AO JEITO DE METÁFORA DA MINHA INFÂNCIA

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Quando as noites de Verão se estendiam pela aldeia; quando se fazia, escurecendo, o regresso da gente nos caminhos; quando a lua-cheia acompanhava os nossos passos vigiando a montanha; quando os grilos cobriam com seu canto a paisagem repousada; quando uma coruja piava numa rocha a deslado do caminho, de assustada – de onde em onde, uma estrela qualquer riscava o céu, como se partisse para viagem.

Eram as “estrelinhas de pastor”. Era assim que, em miúdos, lhes chamávamos. Não sabíamos porquê. Talvez porque se escapavam do céu, como ovelhas transviadas. Talvez porque só elas distraíssem a vigília do pastor, noite fora demorada.

Estrelas cadentes foi o nome que aprendemos, quando, um dia, nos sentámos no banco da escola. Mas não eram bem estrelas, explicava, com amor, a professora. Eram meteoritos, uma palavra mais difícil de dizer. Restos de uma estrela que, há milhões de anos, se perdera.

No trajecto veloz que faziam no espaço, talvez que procurando o corpo aconchegante da estrela-mãe antes perdida, riscavam de luz o ar da noite, não fosse ela aparecer.

Era assim que acontecia com as pedras que a gente atirava, ao desafio, para zenir como os silvos de moderna nave, sobre os outeiros. Era assim, mítica e real a nossa infância.

Sobre o céu da minha aldeia perdem-se agora estes riscos das estrelas. Já não há pastores que velem, nas cabanas, os rebanhos. Já não há camponeses que regressem, a desoras, do trabalho. Nem desfolhadas. Nem lua-cheia a viajar por detrás da ramagem dos pinheiros. Nem crianças soltas ainda pelo adro. Nem histórias de avós.

Ainda passam, de onde em onde, solitárias, as velhas estrelinhas de pastor. Esperando, talvez, que alguém acene, cá de longe, com um lenço, um gesto de adeus feito saudade.

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