No meu tempo de menino, as árvores de Natal eram apenas os pinheiros altos que cresciam, por largo, ao redor da minha aldeia. Ficava sempre branca a coruta dos pinheiros no dia de Natal, fosse da neve ou da geada, era assim que eu esperava vê-los em cada ano, logo de manhã.
Aprendi na catequese a história antiga de uma árvore que seria tal e qual as macieiras dos campos de meu pai, aprendi que o Paraíso seria como a nossa Quinta, com ribeiros, uns bois mansos, rebanhos a pastar e a paz dos fins de tarde, como aqueles em que Javé se entretinha conversando com Adão. Nunca soube bem porque se vieram embora do jardim Eva e Adão. Não seria só por terem colhido no jardim uma maçã.
Meu pai não se importava que os rapazes colhessem maçãs para comer. Só não queria que quebrassem as ramagens ou estragassem os frutos pelo chão. Rezava o Catecismo que Javé pelo seu acto os expulsou, mas que ainda teve pena deles e que, antes de saírem do jardim, os vestiu com peles de cordeiro acabadas de curtir. Não rezava o Catecismo, fui eu quem li mais tarde, que Eva trouxera por memória o ramo de uma árvore que mais tarde plantou.
Tinha a cor branca de neve a tal árvore que ela plantou no chão vazio desse mundo novo que passara agora a ser o seu. O ramo fez-se árvore frondosa e ela deu à árvore que trazia a cor branca da árvore original o nome de Árvore da Vida. E foi ela quem depois cortou ramos aos braçados, nesta árvore, foi ela quem plantou pelo mundo fora a floresta de pinheiros que ganharam a cor verde ao romper a luz do sol.
Não sei se há nisso algum mistério, mas era talvez para lembrar a cor branca original que os pinheiros da margem da aldeia dos meus tempos de menino ficavam brancos na Noite de Natal.



