VENDER A ALMA AO DIABO

Foi uma surpresa para muitos quando o cantor Dino d’Santiago anunciou o seu apoio à candidatura de Luís Marques Mendes à Presidência da República.

0
708
Fotomontagem, imagem descritiva.

Dino d’Santiago é uma figura pública amplamente reconhecida pela sua intervenção cívica no combate ao racismo, às desigualdades sociais e à exclusão. O seu percurso artístico e público tem sido marcado por um discurso de emancipação, diversidade e justiça social. Nesse contexto, o apoio a uma candidatura oriunda da direita política surge como uma contradição difícil de aceitar.

Luís Marques Mendes é um histórico do PSD: antigo secretário-geral do partido, deputado durante décadas e ministro em governos sociais-democratas. Ao longo desse percurso político, participou inevitavelmente na aprovação e na redação de políticas e diplomas que pouco ou nada têm a ver com os valores de igualdade substantiva, justiça social e fraternidade que Dino d’Santiago tem defendido de forma pública e, até agora, consistente.

Importa sublinhar que este apoio não se resume a uma declaração simbólica. Dino aceitou ser mandatário para as áreas da Cultura, Diversidade e Inclusão na candidatura de Marques Mendes. Trata-se de um papel político concreto, com responsabilidade funcional e significado político claro, que ultrapassa largamente a esfera do gesto pessoal ou da cordialidade institucional.

O enquadramento político torna esta opção ainda mais problemática. O PSD é o principal pilar do atual Governo, cujas iniciativas recentes têm sido marcadas por políticas restritivas no domínio da imigração, incluindo legislação orientada para a expulsão de imigrantes em situação irregular, um universo onde se encontram, evidentemente, cidadãos africanos. Em paralelo, multiplicam-se as notícias sobre situações de exploração extrema e até de escravatura moderna em setores como a agricultura intensiva, envolvendo trabalhadores africanos, asiáticos e sul-americanos.

Até ao momento, não se vislumbrou uma reação política à altura da gravidade destes casos, nem sinais de um reforço legislativo sério das penas e dos mecanismos de combate a estas práticas. O Governo não pareceu particularmente comovido, nem mobilizado, perante esta realidade.

É neste contexto que a pergunta se impõe, ainda que de forma incómoda: que papel vai desempenhar Dino d’Santiago numa candidatura da direita política? Trata-se de um cálculo de benefício pessoal ou profissional? O estatuto de mandatário abrir-lhe-á portas adicionais no circuito cultural ou mediático? Ou estaremos perante ambições políticas que, afinal, se acomodam no espaço ideológico da direita?

Durante muitos anos, a vida de Dino d’Santiago, como a de tantos afrodescendentes portugueses, não terá sido fácil. O racismo estrutural existe e deixa marcas. Mas a superação dessas barreiras não exige, nem justifica, a abdicação de princípios fundamentais. Para fugir às injustiças, não é necessário vender a alma ao diabo.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui