A morte de Paula Coelho trouxe à memória um estranho programa de televisão chamado “Nutícias”. Tratava‑se de uma espécie de noticiário em que a apresentadora se despia à medida que lia o texto colocado no teleponto.
Tirando o pormenor de tirar a roupa, tudo o resto era, de facto, semelhante aos programas de informação em que as apresentadoras não se despiam.
Tenho memória de uma conversa com o então diretor‑geral da SIC, Emídio Rangel, sobre aquela ideia peregrina de um programa em que a apresentadora se despia. Rangel terá dito que se tratava de uma aposta do próprio patrão. Balsemão gostava de contemplar “Majas Desnudas”, como ele próprio afirmou, e aquilo seria, em certa medida, um programa para o patrão ver. Creio que nunca teve grandes audiências.
A SIC explorou indecentemente aquela mulher. O programa não era melhor do que uma vitrine de luzes vermelhas de Amesterdão. Paula Coelho não foi prostituta, mas não deixou de vender o corpo, exibindo‑o numa montra onde, potencialmente, milhões de pessoas a viam despir‑se. O cachet não deve ter sido grande coisa, porque não há notícia de a apresentadora ter ficado rica.
A verdadeira aberração do programa era a utilização de notícias reais, da atualidade do dia, naquele cenário. Olhando para a cena, ainda hoje é perturbador e desprovido de sentido ver a apresentadora anunciar que “nos caminhos do ambiente, o Governo procura alternativas à co‑incineração…” enquanto desabotoa a camisa e a deixa cair no chão.
Nos baús da internet encontram‑se outras evidências de como os canais de televisão abusam das ilusões e das necessidades das pessoas. No caso de Paula Coelho, anos mais tarde, acabou por aceitar um convite da SIC para participar num daqueles programas de exploração de sentimentos, expondo‑se ainda mais do que quando tirava a roupa no “Nutícias”.
No programa “Júlia”, apresentado por Júlia Pinheiro, Paula foi levada a falar de traumas de infância, do abandono, da adoção, da pobreza, de esmolar nas ruas, tudo sem qualquer sentido fraterno, apenas para engordar as audiências do canal.





