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A PEDRA PARTIDA

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Sabíamos que perdera a cabeça e até andámos às voltas com ela até percebermos que se encontrara a metade inferior duma ara romana.

Confesse-se que, à primeira vista, tantas são as pedras deste jeito, até hesitámos acerca da sua antiguidade. Depressa, porém, nos convencemos que sim, era um altar romano, dedicado a uma divindade, mormente depois de, pelas mágicas virtudes resultantes da aplicação, por Alexandre Canha, de milagrosos filtros fotográficos, termos logrado ler, no final, a fórmula ritual: ex voto, «por voto», o que de imediato nos deu a entender que se tratava, de facto, de uma inscrição votiva (que é o adjectivo  que se aplica a este tipo de monumentos).

parte inferior do altar

Na actualidade, acções de graças a Deus ou aos santos consubstanciam-se, habitualmente, na oferta de uma vela que se queima, simbolizando a chama e o fumo que dela se exala a prece que sobe para a entidade divina homenageada. Queimada a vela, o que resta pode ficar sem qualquer préstimo, a não ser – como acontece nos grandes santuários religiosos – que se proceda à respectiva reciclagem e daí novas velas venham a ser fabricadas.

Não pactuavam lá muito os Romanos com essas transitoriedades. Preferiam gravar na pedra dura, a fim de ser eterna a sua gratidão. Não podia, porém, o vulgar devoto dar-se ao luxo de, por exemplo, mandar fazer um altar, uma capela lateral ou mesmo uma ermida – como, também hoje, isso é apanágio de quem tem posses para tal. Por isso, limitava-se a ir a uma oficina de canteiro (havia-as, naturalmente, por perto dos grandes santuários), escolhia uma das miniaturas de altar que o artífice já teria à vista, explicava que dizeres queria fossem gravados e, encomenda recebida, lá iria depô-la no santuário divino.

Ara aos Lares Viales, de Braga

O ideal seria haver pompa e circunstância. Que, como nas missas solenes, se queimassem incensos para purificar a doação e simbolizar, pelas cheirosas ondas de fumo a subir, a elevação das preces e do mui devoto reconhecimento. Daí que – embora habitualmente não chegasse a ser  usado, era um símbolo – se esculpisse na parte superior do capitel uma covinha, teoricamente destrinada a que nela se derramassem as essências a queimar. Por isso se lhe dá o nome de fóculo, pequeno fogo. O pequeno altar romano achado à saída de Bracara Augusta (Braga) ostenta claros vestígios de fogo; o viandante, à saída ou à entrada da cidade, queimava aí essências em honra dos deuses das vias (Lares Viales) para que o protegessem na ida e, à vinda, para lhes agradecer a companhia.

Parte superior do capitel com o fóculo
Ara aos Lares Viales, de Braga – fóculo

Encontrámo-la decapitada a ara de Barcos. Estava em reutilização. Fora partida a meio. Mas arqueólogo que se preza não se deixa esmorecer e, se bem o pensou, melhor o fez: suspeitando-se de que a outra parte poderia estar no monte de pedras que os pedreiros da obra haviam levado para um terreno da proprietária, urgia que esse monte fosse remexido. E, assim, o amigo Fernando Moreira, a nosso pedido, toca de ir ao monte e que a consabida perícia do maquinista fizesse… o milagre. E fez! Em menos de uma hora, lá se encontrou o capitel, a cabeça que a pedra perdera. E até tinha fóculo, com 14 cm de diâmetro!

Correu-se a ajustar tudo, dava certo e aí temos o monumento inteiro, com 56,5 cm de altura total. Pronto para dele se fazer o estudo epigráfico minucioso, comparando-o, eventualmente, com outros achados pelas redondezas e acicatando-nos a curiosidade: donde é que o altar terá vindo? Que vestígio romano de alguma monta haverá por perto? Como sói dizer-se, «não há fumo sem fogo»; assim, aqui, se há altar, tem de haver o sítio original em que ele foi colocado!

(em co-autoria com José d’Encarnação)

As duas partes do altar

COMEMORAR ABRIL NUM TEMPO SEM TEMPO

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A festa do 25 de Abril de 1974 transformou-se, 52 anos depois, num imenso deserto de ideias, de projectos, de esperança e Portugal continua um País adiado, permanentemente adiado.

Juntos 52 anos, em democracia, não nos permitem, tal como Patxi Andion, dizer com amor:

‘20 anos de estar juntos
Esta tarde se cumpriram
Para ti flores, perfumes
Para mim, alguns livros
No te disse grandes coisas
Porque no me haviam saído
Já sabes coisas de velhos
Ressentimento do que não fui.
Há muito tempo que tentamos
Qualificar o nosso destino
Tu descias a persiana
E eu provava o meu último vinho.’

Portugal é um País triste, ‘ansiolítico’, que vive à beira do precipício, numa ‘insustentável leveza do ser’, tal como Tomás, um personagem criado por Milan Kundera, que escolhe ser ‘leve’ para não pensar, nem se preocupar com o que o rodeia.

E leve, bem leve, é a relação de Portugal com as graves questões sociais, económicas e financeiras neste Mundo global, neste tempo sem tempo, em que, vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas, os mercados financeiros não param e destroem os países e as Nações, na voragem do lucro que levará, inevitavelmente, à destruição do sistema financeiro, com a conivência de países que lançam guerras sem fim dando a ganhar, a alguns, fortunas imensas.

No caso português, os governos desperdiçaram, sucessivamente, as oportunidades de enfrentar os desafios do futuro, não tendo reestruturado o tecido produtivo, não criaram nichos de mercado que alargasse as exportações e trocaram a agricultura e a pesca por meia dúzia de ‘sestércios’.

Ao longo dos anos nunca foi definido um rumo e um objectivo para Portugal. Sempre vivemos ‘à bolina’, na expectativa de encontrarmos um caminho que não desse trabalho, não obrigasse a pensar e não exigisse massa crítica. Uma boa parte da nossa classe empresarial apenas sobrevive porque se tornou subsídio-dependente do Estado e dos Fundos Comunitários. Tal como no tempo das Descobertas, em que vivemos, parasitariamente, das especiarias, do ouro e da escravatura, encontrámos na Europa uma nova forma parasitária de sobrevivermos e fingir que éramos um País desenvolvido.

E agora, voltando a Patxi Andion, ‘Passaram-nos a conta e tu terás que pagar e eu terei que pagar também, teremos que pagar.’

Porém, por muito que se queira esconder a realidade e que se viva no reino da fantasia, o Mundo está conturbado e agita-se a um ritmo imparável, sem rumo e com um destino incerto.

A guerra desencadeada pelos Estados Unidos e por Israel, contra o Irão, com o objectivo de colocar em crise o poder religioso, num confronto entre laicismo e religião, pode ser um erro clamoroso e as alterações no Médio Oriente acabarem por ser um completo desastre para a economia global. As repercussões desta agitação, na Europa e no resto do Mundo, estão a ser avassaladoras, com graves efeitos na economia e no sistema financeiro, além de alterarem conceitos culturais e concepções políticas.

Foi neste quadro mundial que se comemorou o 25 de Abril de 1974, com dois discursos antagónicos, o do Presidente da República e o do Presidente da Assembleia da República, que, sem pudor, fez uma intervenção inqualificável, de total desprezo pela data e pelos princípios democráticos.

Mas, afinal o que foi o 25 de Abril de 1974? Não é possível dar uma resposta simples, clara e unificadora, porque houve vários 25 de Abril. A devolução da democracia aos portugueses é um dos poucos pontos em comum entre as diversas concepções do 25 de Abril (mais para uns do que para outros), que se ergueu como o Nirvana, mas que não passa de um imenso vazio, fora de uma profunda reformulação do Estado e da sociedade.

Na verdade, derrubado o regime salazarista, os partidos e os militares esqueceram-se do fundamental: pôr fim às concepções napoleónicas e rasgar a estrutura administrativa nascida com o Código de Rodrigues Sampaio, que o Estado Novo integrou como seu, ou seja, limitaram-se a dar umas pinceladas democráticas no Estado corporativo, mantendo o essencial dessa estrutura. E este erro, básico, inquinou todo o processo democrático e a evolução do País.

Falar de Abril, comemorar Abril, não pode ser uma ideia redutora da data, transformada, cada vez mais, num feriado que serve para fazer uma ponte e ter mais uns dias de férias.

Falar de Abril é falar do futuro, de uma concepção dinâmica da sociedade portuguesa, dizer o que se quer, para onde vamos e como podemos lá chegar. Porque Abril não alimenta, não dá pão, não dá emprego, não cria riqueza. Em 52 anos de democracia, o regime envelheceu. O Mundo está a mudar, os partidos de extrema-direita e populistas, estão a crescer, sendo que no nosso País esse fenómeno também se verifica.  

Os cidadãos começam a estar fartos desta classe política. E que não se entenda esta afirmação como um discurso contra a classe política. É precisamente o contrário, ou seja, um chamamento a melhores políticos e a mais e melhor democracia. É verdade, os tempos são de mudança em Portugal e no resto do Mundo e todos nós, inevitavelmente, também mudámos, porque, como diz Eduardo Lourenço, ‘o Mundo está a mudar rapidamente e os políticos europeus e portugueses relativizam as coisas, sem pensar no global’.

Defensor do ideal da liberdade, igualdade e fraternidade, preocupado com a justiça social, acompanho, com apreensão, a deriva demo-liberal nos mais diversos países europeus, um desastre de proporções tão gravosas que não a quero para o meu País. Portugal precisa de crescer, de se desenvolver, de criar massa crítica, de ter capacidade para reduzir o desemprego, de aumentar a riqueza, para que se combata a pobreza – a visível e a envergonhada – dos reformados, dos idosos, de uma classe média que empobrece e tem vergonha de mostrar a sua decadência. Para isso, é fundamental ter coragem para mudar! Portugal é um País de navegadores, de conquistadores, de descobridores (‘navegar é preciso; viver não é preciso’, dizia Fernando Pessoa).

Mas é fundamental ter esperança para se sair da crise. Porque, sem esperança, nada será possível num regime envelhecido, em que não se vislumbram sinais ou vontade de que os responsáveis o queiram repensar ou mudar. Esperança, mudança, democracia, coragem, lucidez é só isto que se exige a quem queira estar na política.

O mar de jovens que encheu as ruas no dia 25 de Abril pode dar corpo a esta esperança, vamos acreditar que, com essa onda, venha a coragem e a lucidez que ancorará a mudança.

“A MENINA DAS CAMÉLIAS”

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O pintor José de Almeida e Silva e o seu "A Menina das Camélias". Imagem construída com recurso a IA.

José de Almeida e Silva, o “Silva Pintor” como foi chamado, viveu em Viseu entre 1864 e 1945. A sua actividade quase se perdeu nos inventários da arte portuguesa;  legou-nos, porém, incrível produção artística, onde a pintura sobreleva, em número e aparato, as suas dispersas criações, que se estendem pela escrita polimorfa em livros, jornais e álbuns, ilustrados, sobretudo, com as caricaturas de uma sociedade do seu tempo. Ocasional foi a sua abordagem da escultura com um busto de Camões.

Presença assídua, em Lisboa, nas Exposições da Sociedade Nacional de Belas Artes – onde se detinha, lápis em punho, escrevendo notas demoradas –, mostrou também a sua arte em Paris ou no Brasil, e o seu quadro, as Hortaliceiras, hoje no Museu Nacional Grão Vasco, recebeu até “Medalha de ouro”.

Deter-nos-emos, agora, apenas face a um dos quadros do inventário do Museu Nacional Grão Vasco, retrato a óleo sobre tela de título A Menina das Camélias, que o artista produziu em 1912.

Não desfruta da atenção que os visitantes dão a essoutra menina, a Menina de Madrazo, de que já aqui se falou. Porventura, o visitante apenas se deterá, por instantes, olhando essa menina envergonhada, que suspendeu a marcha, aconchegou ao peito o bonito ramo de camélias que levava e cativa ficara do gesto ternurento do pintor que a eternizou no seu retrato.

A Menina das Camélias (1912) – José de Almeida e Silva

Era tempo de Páscoa, das camélias abertas nos jardins da cidade – o do Paço dos Bispos, que ainda floresce, hoje, ao Fontelo – ou nos recatados jardins do Solar dos Treixedos ou da Casa do Cerrado, onde as últimas fidalgas demoravam.

Ia de caminho, a menina, talvez a casa da madrinha que lhe ofertara como prenda, nessa Páscoa, os brincos de oiro que ela agora lhe vai mostrar, tímida e envergonhada que ela vai.

Suspende a marcha, a menina, fica-se a olhar o ternurento gesto do pintor que ali se quedou também, cativo do olhar melancólico da criança, antes que possa voltar a caminhar, soltas as mãos, sem desprendê-las do ramo fresco das camélias com que retribui a prenda bonita da madrinha.

E lá seguirá, rua fora, até à casa grande da madrinha. A mãe vestiu-lhe um casaquinho de lã verde, que ainda havia frio em Abril, penteou-lhe o cabelo como ela gostava, ela disse que sabia o caminho, a casa da madrinha não ficava longe.

Almeida e Silva lavou os pincéis, mandou fazer uma moldura como aquela com que fechava os seus tesouros nessa arca imaginal do seu estúdio, onde, às vezes, distraído, deixava entrar um atrevido raio de sol.

Talvez tenha saído para a margem da cidade, há sempre uns velhos que regressam da horta, um velho roçando mato. Ter-se-á cruzado, no caminho, com a pequena lavradeira a que chamou Flor Agreste e terá ido mais longe, quem sabe, passear nas áleas do Fontelo, terá descido, não sei, à Ponte da Azenha onde há sempre lavadeiras batendo roupa branca, enquanto cantam virtuosas canções de romanceiro.

Almeida e Silva raramente gostava de sair da sua terra.

CARTA AO CID ADÃO

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Meu caro Cid Adão,

Começo então por lhe dizer que se fomos inventados por Deus é porque o macaco o desiludiu mesmo muito a sério.

Não é que somos uma espécie muito complexa, capaz de fazer desistir quem se dedique a estudar-nos? Como portugueses, gostamos de ligar os complicadores, e aqui para nós, arranjámos maneira de nos dividirmos em esquerda e direita. E agora, tome nota, para que não tornemos muito complicado o estudo que eventualmente nos fizerem neste campo, inventámos os centros. O centro esquerda e o centro direita. O que inventamos. Somos pródigos.

A quantidade de ideias que planeamos, que diabo Cid Adão, somos intelectuais. Inventámos tudo que é torneio de diversão… Neste momento estamos em plena sessão de “tiro ao PS”. Grande campeonato. Notamos que a fidelidade dos que sempre beneficiaram com o PS, deixa muito a desejar. É sempre assim. Ninguém está com ninguém. A verdade se diga, é que a fidelidade só se faz notar nos equipamentos de som.

Precisamos com urgência de um futurologista, um vidente que nos informe o futuro. Seria muito bom, mas esta arte é dificílima.

É muito difícil viver neste continuado e bem armadilhado contexto. Vamos ter a confiança de que o sistema parasitário que se agarrou ao país, desapareça (refiro os políticos que continuam a entrar nas nossas “vidas” por favoritismo partidário, ou lugar na fila e que até legislam quando entram na “máquina”). Se fosse por mérito não passavam da porta!

Vamos ter que trabalhar muitas horas mais. Dez, doze… dormir cinco, seis, sete? Meu caro Cid Adão, desfrute o dia, antes que um qualquer imbecil lho estrague.

Ao conseguirmos a democracia, começámos com um primeiro gesto e desapareceu a fome latente, fizemos outro e quase desapareceu a injustiça, fizemos um terceiro e desapareceram as nossas intolerâncias. Agora, um “génio” da política, pode aparecer, e com um gesto conseguir acabar com a democracia.

Um abraço,

FARTO DO FACEBOOK

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As plataformas de redes sociais existem para gerar lucro às empresas que as detêm. O modelo de negócio assenta, sobretudo, em duas vias: cobrar subscrições a quem não quer ser soterrado por publicidade e vender espaço publicitário a quem quer captar atenção.

Se alguém ainda acreditava que estas redes nasceram para as pessoas comunicarem gratuitamente entre si, convém desfazer o equívoco. A comunicação entre utilizadores é o meio que cria o campo de negócio.

O problema surge quando a publicidade que circula nessas plataformas nem sempre é propriamente edificante. Aparece de tudo: esquemas duvidosos, promessas milagrosas, sexualização barata, especulação travestida de oportunidade. E é aqui que o discurso oficial começa a cheirar a farsa.

As famosas políticas de “defesa da comunidade”, supostamente criadas para garantir um ambiente saudável, parecem muitas vezes mais empenhadas em proteger os interesses de quem paga anúncios e de quem financia mensagens políticas patrocinadas.

O caso mais recente que me aconteceu é revelador. Republiquei no meu grupo de Facebook uma imagem publicitária que me surgiu na timeline: em cima, uma mulher de pernas abertas “disponível para conversar”; em baixo, mais uma promessa de enriquecimento instantâneo através de ações que renderiam 780 euros por dia.

A publicação desta imagem foi enquadrada por um texto curto onde criticava este tipo de publicidade

Resultado: fui castigado pelo algoritmo zelador. Fiquei impedido de publicar em grupos, sem acesso a várias ferramentas, com limitações no perfil e nas páginas onde colaboro como administrador.

Penalização por criticar a publicidade do Facebook

Reclamei. Inicialmente reconheceram o erro. Minutos depois voltaram atrás e repuseram as sanções. Justificação? Nenhuma.

Antes e depois, no espaço de minutos. Sem qualquer justificação.

Ora, se a mensagem era ofensiva ou perigosa, quem a publicou primeiro foi a própria plataforma. Quem a monetizou foi a própria plataforma. Mas, pelos vistos, denunciar a publicidade tóxica é mais grave do que vendê-la. Eis a hipocrisia em estado puro.

As redes sociais têm dono, evidentemente. Mas isso não lhes devia dar licença para exercer poder arbitrário. No mínimo, deveriam cumprir três regras simples:

  1. Não aplicar sanções sem dar ao utilizador oportunidade de resposta.
  2. Justificar de forma clara qualquer penalização imposta.
  3. Impedir que decisões punitivas sejam tomadas exclusivamente por automatismos opacos.

Dá trabalho? Custa dinheiro? Exige contratar pessoas em vez de delegar tudo num algoritmo? Sem dúvida. Mas empresas que acumulam fortunas colossais não podem invocar pobreza quando chega a hora de respeitar quem lhes sustenta o negócio.

25 DE ABRIL, SEMPRE

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Os que descem a Avenida da Liberdade neste 25 de abril de 2026 não são apenas os que se lembram do país de antes de 1974. São, sobretudo, os que recusam esquecê-lo. Há quem traga na memória os dias vividos sob ditadura; há quem tenha aprendido, nos livros e nos testemunhos, o que significaram a pobreza, a repressão, a guerra colonial e o analfabetismo. A memória é uma escolha contínua. A memória é um vício.

Os mais velhos, que podem falar na primeira pessoa, são cada vez menos. O tempo faz o seu trabalho. Cabe aos mais novos não apenas saber, mas compreender e agir à altura do que herdaram.

Cinquenta e dois anos depois da revolução, o país mudou, como sempre muda. As maiorias parlamentares também mudaram. Hoje, temos na Assembleia da República deputados de extrema-direita, notóriamente fascistas. A democracia está em perigo, temos de lutar por ela, de novo. Esse é um compromisso exigente, que todos os democratas devem assumir.

Descer a Avenida da Liberdade não pode ser apenas um ritual. Deve ser um gesto de todos os que entendem que a democracia não é garantida, e que Abril é uma tarefa em aberto.

FERNANDO NEGRÃO NA APAR

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Em comunicado, a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR) anuncia que o antigo ministro da Justiça, Fernando Negrão, é o novo Presidente do Conselho Consultivo da APAR.

Lacónico, mas de onde transparece um sentimento de contentamento, talvez mesmo de agradável surpresa, o comunicado refere que o convite a Fernando Negrão foi feito pela nova Presidente da Direção, a advogada Mónica Quintela.

“Dificilmente a APAR poderia conseguir um nome que reunisse um consenso tão completo”, diz esta associação que pugna pelos direitos humanos no sistema prisional.  A constituição do novo Conselho Consultivo será anunciada em breve, promete a APAR.

No curriculum profissional e político de Fernando Negrão, constam múltiplos desempenhos, entre os quais, a profissão de Juiz de Direito, Vogal do Conselho Superior da Magistratura, Presidente do Conselho de Administração do Instituto da Droga e da Toxicodependência, Ministro da Segurança Social, da Família e da Criança, Director-Geral da Polícia Judiciária, Ministro da Justiça, Deputado e Presidente do Grupo Parlamentar do Partido Social Democrata. É, de facto, uma aquisição de peso, para a APAR.

O anterior Presidente do Conselho Consultivo foi o Juiz Desembargador Jubilado Jacinto Meca.

A FOTOGRAFIA DO MOMENTO

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É uma imagem reveladora. Há nela qualquer coisa de encenado, um simbolismo coreografado nas mãos sobrepostas, como se a tentativa de demonstrar unidade acabe por revelar, precisamente, a necessidade de a fabricar. Falta-lhe espontaneidade.

O pacote financeiro agora anunciado pode ser apresentado por Bruxelas como abrangente (apoio económico, reconstrução e assistência), mas Volodymyr Zelensky foi claro na sua leitura: para Kiev, o essencial continua a ser o reforço da capacidade militar e a continuidade do esforço de guerra contra a Rússia.

A ocasião serviu também para assinalar o 20º pacote de sanções à Rússia. A eficácia destas medidas é discutível. Não porque sejam irrelevantes, mas porque estão longe de produzir o efeito decisivo que, implicitamente, lhes foi sendo atribuído ao longo do tempo. Além de que existe um efeito de boomerang e onde o custo de vida sobe mais é nos países da Europa.

António Costa sublinhou ainda que está na altura de a Ucrânia iniciar o processo de adesão à União Europeia. Trata-se de um passo de enorme alcance político, mas que levanta questões inevitáveis sobre timing, critérios e coerência dentro da própria União.

Tudo isto nos leva ao essencial: quem decide, e com que grau de legitimidade? Nem António Costa nem Ursula von der Leyen foram eleitos diretamente para os cargos que hoje ocupam. São o resultado de equilíbrios institucionais, de escolhas e negociações entre outros líderes de Estados-membros. Já Volodymyr Zelensky é um Presidente eleito, mas com mandato caducado por imposição de um contexto de guerra que suspendeu o calendário eleitoral.

A arquitetura política da União Europeia permite precisamente isto: decisões estruturais tomadas por figuras cuja legitimidade é mediada, indireta, muitas vezes distante do escrutínio direto dos cidadãos. Eles podem ter legitimidade institucional, mas não podem negar que neste sistema político existe défice de proximidade democrática que se torna mais visível quando estão em causa opções de longo alcance, envolvendo centenas de milhões de europeus.

A fotografia, nesse sentido, vale mais do que o momento que pretende celebrar. Expõe um modelo político onde a aparência de unidade pode esconder tensões, e onde o exercício do poder continua a depender de mecanismos que nem sempre são claros para aqueles em nome de quem se decide.

ZELENSKY ABRIU NEGÓCIO DE VENDA DE ARMAMENTO

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Zelensky diz que “a Ucrânia possui seu próprio armamento de mísseis de longo alcance.” E mostrou os modelos ‘Flamingo’, ‘Ruta’, ‘Peklo’ e ‘Neptuno’, ‘Palianytsia’ e ‘Vilcha’, uma panóplia de mísseis sofisticados que ficam à disposição dos EUA e aliados, na condição, porém, de apoiarem a Ucrânia na guerra contra a Rússia.

Além dos mísseis de longo alcance, Zelensky mostrou, igualmente, drones voadores, terrestres e marítimos, máquinas de combate comandadas à distância com um joystick, como nos jogos da Playstation. “Todos veem o alcance histórico de nossos drones, atingem alvos a mais de 1750 quilômetros da nossa fronteira”, gabou-se o Presidente ucraniano.

E são muitos e variados, a julgar pelas designações com que foram baptizados: ‘Sichen’, ‘Liutyi’, ‘Morok’, ‘Bars’, ‘Obriy’, entre outros.
Ainda há dias, a imprensa ocidental reproduziu o êxito destas máquinas, quando (a acreditar na narrativa divulgada) “pela primeira vez na história desta guerra, uma posição inimiga foi tomada exclusivamente por plataformas não tripuladas, NRK e drones.”

Zelensky vende a tecnologia militar que americanos e europeus introduziram ou ajudaram a desenvolver e vende, também, a experiência dos seus militares. Diz o Presidente da Ucrânia que, se o ocidente quiser desimpedir o Estreito de Ormuz, os seus rapazes resolvem o problema, “se os parceiros oferecerem cooperação em igualdade de condições, a Ucrânia pode ajudar.”

Zelensky percepciona as guerras de Trump como uma oportunidade para a Ucrânia renovar votos de parceria guerreira com os principais países europeus e, talvez, até com o próprio Trump. Se for bem sucedido, teremos uma nova escalada na guerra contra a Rússia.

PORTUGUÊS: O ‘DESESPERO DE CAUSA’

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A desculpa costuma ser a mesma: é o novo acordo ortográfico. Não. Não é! São conjugações verbais, são verbos. Por muito que eu rejeite o malfadado AO.

E há mais desculpas, ridículas. Não seriam desculpas se não fossem como todas as outras desculpas, ridículas. ‘Todas as cartas de amor são/ Ridículas./ Não seriam cartas de amor se não fossem/ Ridículas’. Não que Fernando Pessoa gostasse que eu aplicasse o seu brilhante poema à burrice que grassa por aí. Mas, enfim. Haja paciência!

Vem tudo isto a propósito do verbo ‘meter’. Hoje toda a gente mete tudo em todos os sítios. Metes graça, metes nojo, metes no livro, e tantos outros exemplos. Basta, aliás, ligar as televisões e aí está o verbo meter. As pessoas ignoram o verdadeiro significado da palavra: inserir, pôr dentro, fazer entrar, introduzir, incluir.

E todos estes ‘meter’, em lugar de pôr, colocar e outros sinónimos, me fizeram lembrar a história de uma velha amiga, exigentíssima professora de Português, que, depois de sucessivas chamadas de atenção para o uso indevido do verbo, ao ouvir um aluno do 11º ano afirmar que ‘a reação dela meteu-o furioso’ e ‘meti no texto’, perdeu a cabeça. Saturada do insucesso das suas pregações, decidiu recorrer a um momento performativo: pediu ao aluno que enrolasse muito bem uma folha. ‘Um rolo que ficasse fininho, e que depois o METESSE naquele sítio que ele bem sabia’.

Confessa a minha amiga que não tem orgulho deste episódio, ‘antes pelo contrário’. Mas, pelo menos, acredita que, pelo inusitado do argumento, ele tenha ficado na memória do aluno prevaricador ‘como uma espécie de semáforo semântico’, bem como na do resto da turma que assistiu à situação, entre incrédula e divertida.

Espero que, depois disto, metam juízo na cabeça quando aprendem português. DE UMA VEZ POR TODAS!!!!