A ENTREVISTA
Jeune Afrique: A CEDEAO pediu « que se permita ao processo eleitoral chegar à sua conclusão lógica ». O que lhes respondeu?
João Bernardo Vieira: Que isso não depende de nós, mas da Comissão Nacional de Eleições [CNE]. E a CNE estabeleceu que, tecnicamente, já não é capaz de restabelecer o processo eleitoral, pois as actas das eleições foram levadas, tornando impossível a publicação dos resultados.
– No entanto, o chefe dos observadores da União Africana durante a dupla votação, o antigo presidente de Moçambique Filipe Nyusi, afirmava que « há resultados e [que] esses resultados devem ser publicados ».
– É a opinião dele. Nós temos uma instituição competente para se pronunciar e publicar os resultados: a CNE. Filipe Nyusi deve respeitar essa instituição. Se ela diz não estar em condições para o fazer, quem é ele para garantir o contrário?
– A missão da CEDEAO poderia participar numa nova compilação dos resultados?
– A Guiné-Bissau é um país soberano e esse não é papel da CEDEAO. Não penso que tenham todos os elementos para o fazer, e seria uma falta de confiança para connosco. Em qualquer caso, isso não faria sentido.
– Devem realizar-se novas negociações antes da cimeira da CEDEAO de 14 de dezembro?
– Estamos disponíveis para trabalhar num plano que garanta uma transição de no máximo um ano, com o objetivo de devolver o poder aos civis através de novas eleições livres.
– No entanto, circulam atas da presidência, sugerindo resultados favoráveis a Fernando Dias, em detrimento de Umaro Sissoco Embaló. Será que este golpe foi organizado pelo presidente cessante para colocar militares no poder em vez de o transmitir aos seus opositores?
– É uma mentira. Umaro Sissoco Embaló não cedeu o poder aos militares, isso não faz sentido nenhum. Se ele pudesse manter-se no poder, teria permanecido. A menos que nos mostrem provas de que se trata de um golpe de Estado falso, não acreditamos nisso. Candidatei-me à presidência e, como qualquer candidato, tenho as minhas próprias actas das eleições. Mas as únicas que são oficiais são as compiladas pela CNE. Essas actas que mencionam e que dariam Fernando Dias na liderança, não são a interpretação correcta da situação.
– Vários observadores afirmam também que se trata de um golpe de Estado fictício. Até o antigo presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, mencionou uma encenação e afirmou que o que aconteceu «não foi um golpe de Estado»…
– Goodluck Jonathan faz afirmações sem fundamento e isso coloca em causa a sua credibilidade. Lamento as suas declarações.
– Segundo as nossas informações, esteve em contacto com Umaro Sissoco Embaló desde a sua saída do país. É verdade?
– Não.
– Que pensar dos rumores que circulam sobre o seu possível regresso a Bissau?
– Não tenho informações sobre isso. Acho que, se ele regressar, será quando novas eleições forem organizadas.
– É crucial para a Guiné-Bissau manter boas relações com os seus parceiros externos. Que garantias pretende lhes dar para os tranquilizar?
– É preciso dizer-lhes a verdade. Desde o advento do multipartidarismo, os partidos políticos não nos têm permitido viver verdadeiramente em democracia. Só conhecemos problemas. Este ano de transição deve permitir-nos levar a cabo as reformas necessárias: da Constituição, da lei eleitoral, da lei-quadro dos partidos políticos, da administração… Precisamos delas para assegurar a estabilidade.
– Segundo as nossas informações, contactou o Primeiro-ministro do Níger, Ali Lamine Zeine, e o seu homólogo do Mali, Abdoulaye Diop. Seria este o início de uma aproximação à Aliança dos Estados do Sahel (AES), ou até uma mensagem dirigida à CEDEAO?
– Não se trata de enviar uma mensagem à CEDEAO ou a qualquer outra pessoa. Queremos trabalhar com a CEDEAO. Mas temos relações com o Níger e o Mali há anos, e é perfeitamente normal que continuemos. Pretendemos reforçar as nossas relações com todos.
– O que aconteceu aos opositores desde o golpe de Estado? Incluindo com a Nigéria, que ofereceu a sua proteção a Fernando Dias?
– Sim, isso não prejudicará a nossa relação. Falei com o meu homólogo nigeriano, Youssouf Touga. Nada poderá estragar a relação entre a Nigéria e a Guiné-Bissau.
– O destino dos opositores detidos suscita grandes preocupações. Por que manter Domingos Simões Pereira, Octávio Lopes ou mesmo Roberto M’Besba em detenção?
– O Alto Comando Militar negoceia para que sejam libertados o mais rapidamente possível, inclusive com a CEDEAO.
– Os advogados salientam que foram detidos fora de qualquer enquadramento legal e que não puderam visitá-los. Do que são acusados?
– Não tenho elementos para responder a essa pergunta.
– São homens que conhece bem, uma vez que foi porta-voz do PAIGC durante muitos anos… As suas famílias denunciaram maus tratos na detenção. O que lhes responde?
– Eles não sofrem maus-tratos e comem corretamente. Posso assegurar-lhes que estão de boa saúde.
– Diz que lamenta a fragilidade em que este novo golpe de Estado mergulha o país. Porque é que aceitou entrar no governo?
– Eu tinha duas opções: ou ficava em casa a lamentar-me, ou aceitava ajudar a Guiné-Bissau a regressar ao caminho da paz e da estabilidade. Ao aceitar este cargo, posso trabalhar pela reconciliação. É por isso que aceitei, por patriotismo e apesar de se tratar de um regime militar, um facto sobre o qual não posso fazer nada.
– A sua campanha presidencial não conseguiu mobilizar. O que faltou?
– Estou orgulhoso da minha campanha, foi uma grande experiência. O que faltou, claramente, foi o apoio do meu partido, o PAIGC, do qual continuo, apesar de tudo, a ser membro do comité político.
– Vai ser candidato numa próxima eleição presidencial?
– Não. É incompatível, não posso participar na organização das próximas eleições se for candidato.