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A TELEVISÃO SEM MÉRITO

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A morte de Paula Coelho trouxe à memória um estranho programa de televisão chamado “Nutícias”. Tratava‑se de uma espécie de noticiário em que a apresentadora se despia à medida que lia o texto colocado no teleponto.

Tirando o pormenor de tirar a roupa, tudo o resto era, de facto, semelhante aos programas de informação em que as apresentadoras não se despiam.

Tenho memória de uma conversa com o então diretor‑geral da SIC, Emídio Rangel, sobre aquela ideia peregrina de um programa em que a apresentadora se despia. Rangel terá dito que se tratava de uma aposta do próprio patrão. Balsemão gostava de contemplar “Majas Desnudas”, como ele próprio afirmou, e aquilo seria, em certa medida, um programa para o patrão ver. Creio que nunca teve grandes audiências.

A SIC explorou indecentemente aquela mulher. O programa não era melhor do que uma vitrine de luzes vermelhas de Amesterdão. Paula Coelho não foi prostituta, mas não deixou de vender o corpo, exibindo‑o numa montra onde, potencialmente, milhões de pessoas a viam despir‑se. O cachet não deve ter sido grande coisa, porque não há notícia de a apresentadora ter ficado rica.

A verdadeira aberração do programa era a utilização de notícias reais, da atualidade do dia, naquele cenário. Olhando para a cena, ainda hoje é perturbador e desprovido de sentido ver a apresentadora anunciar que “nos caminhos do ambiente, o Governo procura alternativas à co‑incineração…” enquanto desabotoa a camisa e a deixa cair no chão.

Nos baús da internet encontram‑se outras evidências de como os canais de televisão abusam das ilusões e das necessidades das pessoas. No caso de Paula Coelho, anos mais tarde, acabou por aceitar um convite da SIC para participar num daqueles programas de exploração de sentimentos, expondo‑se ainda mais do que quando tirava a roupa no “Nutícias”.

No programa “Júlia”, apresentado por Júlia Pinheiro, Paula foi levada a falar de traumas de infância, do abandono, da adoção, da pobreza, de esmolar nas ruas, tudo sem qualquer sentido fraterno, apenas para engordar as audiências do canal.

VENDER A ALMA AO DIABO

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Fotomontagem, imagem descritiva.

Dino d’Santiago é uma figura pública amplamente reconhecida pela sua intervenção cívica no combate ao racismo, às desigualdades sociais e à exclusão. O seu percurso artístico e público tem sido marcado por um discurso de emancipação, diversidade e justiça social. Nesse contexto, o apoio a uma candidatura oriunda da direita política surge como uma contradição difícil de aceitar.

Luís Marques Mendes é um histórico do PSD: antigo secretário-geral do partido, deputado durante décadas e ministro em governos sociais-democratas. Ao longo desse percurso político, participou inevitavelmente na aprovação e na redação de políticas e diplomas que pouco ou nada têm a ver com os valores de igualdade substantiva, justiça social e fraternidade que Dino d’Santiago tem defendido de forma pública e, até agora, consistente.

Importa sublinhar que este apoio não se resume a uma declaração simbólica. Dino aceitou ser mandatário para as áreas da Cultura, Diversidade e Inclusão na candidatura de Marques Mendes. Trata-se de um papel político concreto, com responsabilidade funcional e significado político claro, que ultrapassa largamente a esfera do gesto pessoal ou da cordialidade institucional.

O enquadramento político torna esta opção ainda mais problemática. O PSD é o principal pilar do atual Governo, cujas iniciativas recentes têm sido marcadas por políticas restritivas no domínio da imigração, incluindo legislação orientada para a expulsão de imigrantes em situação irregular, um universo onde se encontram, evidentemente, cidadãos africanos. Em paralelo, multiplicam-se as notícias sobre situações de exploração extrema e até de escravatura moderna em setores como a agricultura intensiva, envolvendo trabalhadores africanos, asiáticos e sul-americanos.

Até ao momento, não se vislumbrou uma reação política à altura da gravidade destes casos, nem sinais de um reforço legislativo sério das penas e dos mecanismos de combate a estas práticas. O Governo não pareceu particularmente comovido, nem mobilizado, perante esta realidade.

É neste contexto que a pergunta se impõe, ainda que de forma incómoda: que papel vai desempenhar Dino d’Santiago numa candidatura da direita política? Trata-se de um cálculo de benefício pessoal ou profissional? O estatuto de mandatário abrir-lhe-á portas adicionais no circuito cultural ou mediático? Ou estaremos perante ambições políticas que, afinal, se acomodam no espaço ideológico da direita?

Durante muitos anos, a vida de Dino d’Santiago, como a de tantos afrodescendentes portugueses, não terá sido fácil. O racismo estrutural existe e deixa marcas. Mas a superação dessas barreiras não exige, nem justifica, a abdicação de princípios fundamentais. Para fugir às injustiças, não é necessário vender a alma ao diabo.

RETRATO A ÓLEO

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Kaihan Hamidi. Não é a primeira vez que escrevo algumas palavras sobre este pintor afegão. Kaihan fugiu do Afeganistão, depois dos EUA terem abandonado o país nas mãos dos taliban. Kaihan fugiu, não deixou ninguém para trás, trouxe a mulher e os dois filhos.

Depois de muitas peripécias, estão já há uns anos em Portugal. Kaihan trabalha, ganha o salário mínimo, claro. O dinheiro que é pouco para comprar comida para quatro, tem ainda de chegar para as tintas, pincéis e as telas. Porque a alma precisa de alimento que só a arte lhe consegue dar.

Em Kabul era professor de arte e pintor. Um artista de grande prestígio na sociedade afegã. Em Lisboa é só mais um a tentar sobreviver. Mas seria mais interessante e útil se, também aqui, ele pudesse ensinar a sua técnica artística às crianças e aspirantes a artistas portugueses.

A escola de arte de kaihan Hamidi em Kabul

Kaihan retrata o que vê, num estilo muito original. As suas aguarelas são caracterizadas pelo contraste entre a luz e a sombra. É uma pintura muito interessante e esteticamente bela.

Lisboa
Kabul

Também faz retrato. Neste vídeo, vemos um óleo, que este escriba lhe encomendou…

vídeo

Em conversa, Kaihan diz que os portugueses são “gentis e amáveis”. Diz que se não fosse a língua que seria “como se vivesse entre o meu próprio povo”. Kaihan fala como um homem agradecido.

Na verdade, somos nós que lhe deveríamos agradecer, porque a presença dele é regeneradora de feridas que sangram da intolerância e do racismo que persistem entre nós.

UM PRECEDENTE PERIGOSO

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A recente decisão da União Europeia de manter imobilizados os ativos do Banco Central da Rússia, baseada numa cláusula de “emergência económica”, consolida um padrão preocupante porque arbitrário. Este mecanismo, justificado como excecional, permite contornar a regra da unanimidade entre Estados-Membros, princípio fundador que garante equilíbrio e soberania dentro do bloco. A prática, já testada durante a pandemia de Covid-19, revela como a classificação de uma situação como “emergência” serve frequentemente de pretexto para decisões políticas rápidas, pouco escrutinadas e potencialmente arbitrárias.

O Equilíbrio Perdido: Segurança contra Soberania

Este caso vai além do juízo sobre a Rússia e coloca uma questão fundamental: qual é o equilíbrio adequado entre medidas de segurança económica ou estratégica e os princípios de propriedade privada e soberania financeira? E, sobretudo, quem decide esse equilíbrio, e com que mandato? O que hoje se aplica a ativos russos pode, amanhã, justificar o bloqueio de contas de qualquer cidadão ou Estado sob nova “emergência”. A arrogância do poder, a pretexto do Covid e da Guerra, está a corroer as garantias legais e a tornar-se insuportável para cidadãos conscientes.

A.Costa e Ursula von der Leyen, o apoio à Ucrânia na guerra contra a Rússia

Geopolítica na UE: A Lei do Mais Forte

A guerra na Ucrânia evidenciou, de forma crua, as divisões geopolíticas na Europa. Em vez de uma resposta verdadeiramente coletiva, assistiu-se ao oportunismo de uma Europa dividida, onde os interesses das grandes potências (Alemanha, França e, outrora, o Reino Unido), frequentemente se sobrepõem aos dos demais Estados-membros. Para impor os seus interesses, estas potências recorreram ao estratagema da “emergência”, suspendendo o compromisso da unanimidade e, com ele, o principal mecanismo de proteção das soberanias nacionais mais pequenas.

Os Pequenos Estados: Campo de Batalha das Potências

Esta dinâmica segue a lógica da “lei do mais forte”, que só é contida por um poder equivalente. Na sua ausência, os países menores tornam-se o campo de batalha onde as potências disputam influência, vendo-se obrigados a “pôr-se em bicos de pés” para se alinharem com os grandes. Essa posição é instável e leva à abdicação dos seus próprios interesses nacionais, como se observa no isolamento imposto a países como a Hungria quando ousam divergir. O fraco é instrumentalizado, e a solidariedade europeia revela-se seletiva.

O Presidente da Hungria contestatário das políticas da UE em relação à Rússia e à guerra na Ucrânia

Consequências: Erosão da Confiança e Danos Colaterais

O congelamento prolongado de ativos soberanos, agora normalizado como procedimento automático, fragiliza a confiança no sistema financeiro internacional e levanta sérias dúvidas sobre a proporcionalidade e a transparência das instituições da UE. Além disso, o recurso crescente a sanções económicas como instrumento político raramente atinge apenas as elites; os danos espalham-se maleficamente por sociedades inteiras, afetando cidadãos comuns tanto do lado sancionado como do lado sancionador. A história mostra que os conflitos são muitas vezes alimentados por elites, mas os custos são invariavelmente distribuídos pelos povos.

O Imperativo da Vigilância Cívica

Num momento em que decisões cruciais são tomadas em nome da Europa, é fundamental que os cidadãos mantenham um espírito crítico aguçado e exijam transparência absoluta. É urgente recordar aos representantes que a democracia não pode degenerar num governo tecnocrático, autoritário e opaco, desligado do bem comum. A vigilância cívica é o último garante contra a corrosão da democracia, das liberdades e o abuso de poder. Não podemos permitir que “emergência” se torne sinónimo de arbitrariedade institucionalizada.

(artigo também publicado no blog Pegadas do Tempo)

JORNAIS IMPRESSOS EM ESTADO TERMINAL

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A distribuição de jornais e revistas deixou de ser negócio há muito. A principal distribuidora nacional, a VASP, limitou-se agora a reconhecer o óbvio: se não vende, não vale a pena meter carrinhas na estrada para descarregar quilos de papel em distritos onde a procura colapsou. Do ponto de vista estritamente empresarial, a decisão é lógica. Do ponto de vista da coesão nacional, é um abanão no edifício democrático.

A VASP, entretanto, reinventou-se como qualquer empresa que queira sobreviver. A antiga distribuidora da imprensa escrita é hoje parte ativa da engrenagem do comércio eletrónico: encomendas da China, artigos “pechisbeque”, roupa contrafeita, ração para animais. Falta-lhe apenas entrar no circuito das pizzas ao domicílio. O negócio da imprensa tornou-se um parêntesis na atividade da própria distribuidora.

Perante este cenário, os diretores dos jornais e revistas que ainda insistem em imprimir, alguns até fazem notícias, divulgaram agora uma carta conjunta, a que chamaram “manifesto“.

fonte Alerta Democrático: Risco de Colapso da Imprensa Escrita em Portugal

Não é a primeira. Em setembro, outra carta, assinada por pesos pesados como os patrões Pinto Balsemão e Marco Galinha, pedia uma reunião urgente ao ministro da tutela. A reunião aconteceu, mas o problema continuou.

NAS REDES SOCIAIS, O JORNALISMO NÃO SOBREVIVE

Os diretores vêm agora avisar que Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança vão ficar sem jornais nos quiosques. E sublinham, com razão, que a ausência de jornais significa a interrupção do acesso a “notícias profissionalmente validadas”. Mas eles sabem que o problema é que as pessoas já abandonaram, há muito, essas mesmas “notícias validadas”. A quebra da distribuição é apenas a fase final de um processo iniciado na erosão, alteração se preferirem, dos hábitos de leitura.

É tentador exigir ao Estado que intervenha. Mas o que exatamente se pede? Que subsidie a VASP para continuar a distribuir produtos que já não têm mercado? É isso que sobrará: um apoio público para que a arquitetura simbólica da democracia não colapse de forma demasiado visível. Porém, subsídio por subsídio, talvez fosse mais honesto que os diretores dos jornais fizessem uma vaquinha para criar uma nova distribuidora que possa viver desse subsídio estatal. Seria também uma forma de dar solução ao conflito de interesses de Marco Galinha que é, simultaneamente, proprietário da VASP e de vários jornais que a própria VASP distribui.

No fundo, o que se discute não é a distribuição, mas a sobrevivência da imprensa impressa. É uma questão política. A anunciada interrupção do serviço apenas expõe o que já se sabia: o modelo ruiu. Resta o digital, a selva das redes sociais, plataformas globais e conteúdos instantâneos, onde talvez as empresas se safem, mas o jornalismo não irá sobreviver.

DIREITOS LABORAIS A ARDER

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O Governo classificou a greve geral como “inexpressiva”. Uma escolha de palavras curiosa para um dia em que milhares de trabalhadores decidiram expressar-se precisamente através da única linguagem que o poder raramente consegue ignorar: parar o trabalho e vir para a rua gritar.

Do outro lado, os sindicatos falam em milhões nas ruas, numa mobilização “das maiores de sempre”. Entre estes dois extremos, os patrões garantem que tudo funcionou normalmente, como se o país tivesse avançado ao ritmo habitual. Entretanto, os repórteres no terreno descreveram “elevada adesão”, sobretudo nos transportes, no ensino, nos hospitais e nos serviços públicos.

Em Lisboa
No Porto

As centrais sindicais insistem: números podem ser torcidos, a realidade já não é tão flexível. E a realidade mostrou que, embora o país não tenha parado por completo, o Governo ganhou hoje um retrato bastante claro da resistência que enfrentará se insistir no “pacote laboral”. Não foi uma greve para ganhar de imediato, foi uma greve para avisar que a contestação pode ser longa, ruidosa, persistente.

No aeroporto de Ponta Delgada

Nas redes sociais, o país que parou de trabalhar documentou a mobilização com textos, fotografias e vídeos. Não são comunicados oficiais, mas na era da transparência digital, às vezes uma imagem tremida de telemóvel vale mais do que um porta-voz treinado.

Em Coimbra
A fogueira nas escadarias da Assembleia da República

E, claro, houve o episódio da fogueira perto das escadarias da Assembleia da República. Para a RTP, tratou-se de “desacatos”, outros canais falaram em “tensão”. Palavras de conveniência para chamar a atenção dos senhores telespectadores, num tom condenatório para o ato. Mas havia outra forma de ver a cena: aquilo podia muito bem ser lido como metáfora – a vida a arder dos explorados, a combustão lenta dos direitos laborais, a resistência a ganhar temperatura. Uma fogueira não é uma conferência de imprensa; é um símbolo. E os símbolos, quando se podem tornar incómodos, costumam ser rapidamente renomeados.

A comunicação social como fonte de poder

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Umberto Eco defendeu que ‘se se quisesse tomar conta do poder político num país, era suficiente controlar o exército e a polícia… Porém, actualmente, um país pertence a quem controla a Comunicação’.

Vivemos na era da Comunicação e a informação, de instrumento para produzir bens, transformou-se no principal dos bens. Ou seja, a informação passou de forma de transmitir notícias para um modo de condicionamento e formação da opinião. A objectividade na informação não existe e, por isso, não se pode falar em formação ou no papel formativo da opinião pública. Informar significa dar informação, mas, também, esclarecer. Assim, informar é o acto de dar notícias e esclarecê-las.

A informação é fundamental na definição dos grandes princípios do Direito e da Cidadania. Estamos perante aquilo que Cunha Rodrigues chamou de ‘novas fronteiras do direito’ que se vão dilatando à medida que evolui o conhecimento. Aquilo que era dado como princípios do Direito não oferece resposta aos novos desafios, aos novos direitos. Daqui resulta a importância da interacção entre os media e o Direito, como forma de dar a conhecer aos cidadãos a realidade judiciária, os seus direitos e os seus deveres, os elementos estruturantes da Cidadania.

A informação deveria ser, essencialmente, formativa para que se reduza a tensão social provocada por reacções emocionais e pela ampliação destas, diante de poderosos meios de comunicação como são as televisões. Contudo, transformou-se numa arma de arremesso político ou no uso indevido para exercer o poder, mesmo que ilegítimo.

A transformação nas relações entre os media e a Cidadania resultou de diversas causas, como as do enfraquecimento dos direitos, liberdades e garantias, os excessos da comunicação numa sociedade de mercado em que a concorrência obriga a que a informação vá ao encontro do gosto de receptores, em que o défice cultural leva a um voyeurisme exacerbado.

As notícias, verdadeiras ou falsas, sobre crimes passaram a ter um elevado valor, num jogo de poderes fácticos que distorceu o papel informativo e formativo.

A irracionalidade que, por vezes, se verifica na transmissão de peças sobre casos de violência sexual ou de morte, com as populações à porta dos Tribunais, ou quando os jornalistas pretendem saber se o cidadão está de acordo com a pena aplicada pode ser, do ponto de vista meramente jornalístico, informação mas não é, de certeza, jornalismo formativo.

As democracias modernas vivem emparedadas entre as televisões e a sociedade de informação-espectáculo pelo que é essencial retomar o conceito formativo no jornalismo, uma vez que elas se prendem com os direitos, liberdades e garantias, com o conceito de cidadania e com a existência de novos direitos e o consequente alargamento do ‘catálogo de direitos’, em que se incluem os direitos de ‘terceira geração’, direitos de que são beneficiários grupos e não indivíduos.

‘Falar pouco é ser natural’, dizia Lao Tsé. Ora, na época das comunicações em massa, falar é uma virtude e nunca tantos falaram e disseram tão pouco. Mas esta realidade traduz o que se pode esperar da relação entre o Direito, Cidadania e Jornalismo: informação concreta, simples, de modo a que os cidadãos compreendam o que se passa à sua volta e as decisões do poder político ou do poder judicial, sendo possível manter ou reforçar o respeito pelas instituições, na certeza de que os direitos são assegurados e os deveres são exigidos.

A crise da justiça é ‘uma crise geral societária, crise de valores, da família, da escola, das religiões’, como defendeu o conselheiro Cardona Ferreira que aponta como uma das causas a ‘ausência de difusão pública de regras essenciais para a compreensão e respeito por essas regras.

Como é evidente, a intervenção dos media é sempre positiva. Porém, estes não podem ter uma ‘verdade própria’. A verdade é só uma e os vários espelhos que a reflectem não podem ser deformados; a verdade não é a da comunicação social, não é a que se quer vender em troca de audiências, mas a verdade dos factos. É por aqui, pelo rigor na informação, que passa o papel formativo da comunicação social quanto às questões do Direito, mas que a voracidade das audiências destruiu sem pudor.

A MEMÓRIA MEDIÁTICA

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Quero lembrar, primeiro, Alexandre Correia. Jornalista, nascido a 9 de setembro de 1958, creio que em Luanda, Alexandre Correia fez parte daquele grupo de profissionais cuja passagem pela comunicação social foi discreta, marcada sobretudo por um período na RTP, onde integrou grupos de trabalho que produziram e realizaram programas conduzidos por Carlos Pinto Coelho –  nome que marcou o jornalismo em Portugal.

A carreira de Alexandre não se prolongou por décadas nem ocupou as primeiras páginas dos jornais, mas passou por redações onde deixou memória em alguns colegas, num tempo em que a televisão pública ainda era um espaço pequeno, mais artesanal, onde muitos talentos entravam e saíam sem que a história lhes fixasse o nome. Era um tipo divertido, sempre pronto para pequenas transgressões que não faziam mal a ninguém. O percurso profissional de Alexandre foi interrompido por circunstâncias relacionadas com uma doença incapacitante.

Durante muitos anos viveu num lar em Setúbal. A doença que lhe limitou o corpo e a autonomia, nunca lhe tirou o interesse pela televisão, pelos noticiários, pelas séries históricas, pelos documentários que o acompanhavam nos dias longos da reforma forçada. Gostava de ver os antigos camaradas que continuavam no ativo, com quem falava frequentemente pelo telefone.

Teve uma presença ténue nas redes sociais, feita de pequenas pistas: um “like” partilhado, um comentário ocasional, ecos de alguém que, apesar das dificuldades, procurava manter-se ligado ao mundo. O ChatGPT não sabe nada sobre ele.

No dia do funeral, em 6 de dezembro, reuniu à sua volta a ex-mulher, os filhos, e uma mão cheia de amigos. Um círculo pequeno, mas verdadeiro. Numa mensagem enviada pelo Messenger, a informação: “fez-se um funeral digno (…) Que descanse em paz.”

A morte de Alexandre passou em silêncio, sem manchetes, sem textos de homenagem, num contraste evidente com as mortes recentes de figuras públicas como Clara Pinto Correia ou Constança Cunha e Sá, com quem ele também se cruzou nos afazeres profissionais. Esse silêncio diz algo sobre a crueldade da memória mediática: alguns nomes sobrevivem porque ocuparam o centro do palco; outros – como Alexandre – existiram, contribuíram, trabalharam, mas a sua história não ficou guardada.

«DIZER QUE UMARO SISSOCO EMBALÓ ORGANIZOU O GOLPE DE ESTADO É MENTIR»

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Nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros a 29 de novembro, após o estranho golpe que derrubou Umaro Sissoco Embaló, João Bernardo Vieira fala sobre o golpe, as negociações com a CEDEAO e o destino dos opositores detidos.

Ele é um dos rostos civis do novo poder em Bissau. João Bernardo Vieira, de 48 anos, foi nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros três dias após a queda de Umaro Sissoco Embaló por uma junta militar, a 26 de novembro, na véspera do anúncio dos resultados das presidenciais e das legislativas.

Ele próprio foi candidato à magistratura suprema, João Bernardo Vieira é o depositário de uma história familiar que resume a instabilidade que corrói o país. Deve o seu nome ao tio, «Nino» Vieira, herói da guerra de independência e autor, em 1980, do primeiro golpe de Estado que o país conheceu. Primeiro presidente eleito em 1994, teve um fim violento, assassinado por militares em 2009, após ter passado mais de vinte anos à frente do país. «É uma fonte de inspiração para mim e é preciso respeitar a sua história», diz hoje João Bernardo Vieira.

O novo ministro também conhece bem os opositores detidos na sequência do golpe. Entre 2014 e 2020, foi porta-voz do poderoso Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde (PAIGC) e durante muito tempo assegurou a comunicação do líder do partido, Domingos Simões Pereira (DSP), em detenção desde o golpe de força. Hoje, as suas relações são más. «Estamos a trabalhar com a CEDEAO para que sejam libertados o mais rapidamente possível», promete ele, apesar de tudo. Quanto às suspeitas insistentes sobre um golpe de Estado que alguns supõem ter sido orquestrado por Umaro Sissoco Embaló em maus lençóis nas urnas, ele garante que «isso é mentira».

A ENTREVISTAA ENTREVISTA

Jeune Afrique: A CEDEAO pediu « que se permita ao processo eleitoral chegar à sua conclusão lógica ». O que lhes respondeu?

João Bernardo Vieira: Que isso não depende de nós, mas da Comissão Nacional de Eleições [CNE]. E a CNE estabeleceu que, tecnicamente, já não é capaz de restabelecer o processo eleitoral, pois as actas das eleições foram levadas, tornando impossível a publicação dos resultados.

– No entanto, o chefe dos observadores da União Africana durante a dupla votação, o antigo presidente de Moçambique Filipe Nyusi, afirmava que « há resultados e [que] esses resultados devem ser publicados ».

É a opinião dele. Nós temos uma instituição competente para se pronunciar e publicar os resultados: a CNE. Filipe Nyusi deve respeitar essa instituição. Se ela diz não estar em condições para o fazer, quem é ele para garantir o contrário?

– A missão da CEDEAO poderia participar numa nova compilação dos resultados?

A Guiné-Bissau é um país soberano e esse não é papel da CEDEAO. Não penso que tenham todos os elementos para o fazer, e seria uma falta de confiança para connosco. Em qualquer caso, isso não faria sentido.

– Devem realizar-se novas negociações antes da cimeira da CEDEAO de 14 de dezembro?

Estamos disponíveis para trabalhar num plano que garanta uma transição de no máximo um ano, com o objetivo de devolver o poder aos civis através de novas eleições livres.

– No entanto, circulam atas da presidência, sugerindo resultados favoráveis a Fernando Dias, em detrimento de Umaro Sissoco Embaló. Será que este golpe foi organizado pelo presidente cessante para colocar militares no poder em vez de o transmitir aos seus opositores?

É uma mentira. Umaro Sissoco Embaló não cedeu o poder aos militares, isso não faz sentido nenhum. Se ele pudesse manter-se no poder, teria permanecido. A menos que nos mostrem provas de que se trata de um golpe de Estado falso, não acreditamos nisso. Candidatei-me à presidência e, como qualquer candidato, tenho as minhas próprias actas das eleições. Mas as únicas que são oficiais são as compiladas pela CNE. Essas actas que mencionam e que dariam Fernando Dias na liderança, não são a interpretação correcta da situação.

– Vários observadores afirmam também que se trata de um golpe de Estado fictício. Até o antigo presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, mencionou uma encenação e afirmou que o que aconteceu «não foi um golpe de Estado»…

Goodluck Jonathan faz afirmações sem fundamento e isso coloca em causa a sua credibilidade. Lamento as suas declarações.

– Segundo as nossas informações, esteve em contacto com Umaro Sissoco Embaló desde a sua saída do país. É verdade?

Não.

–  Que pensar dos rumores que circulam sobre o seu possível regresso a Bissau?

Não tenho informações sobre isso. Acho que, se ele regressar, será quando novas eleições forem organizadas.

– É crucial para a Guiné-Bissau manter boas relações com os seus parceiros externos. Que garantias pretende lhes dar para os tranquilizar?

É preciso dizer-lhes a verdade. Desde o advento do multipartidarismo, os partidos políticos não nos têm permitido viver verdadeiramente em democracia. Só conhecemos problemas. Este ano de transição deve permitir-nos levar a cabo as reformas necessárias: da Constituição, da lei eleitoral, da lei-quadro dos partidos políticos, da administração… Precisamos delas para assegurar a estabilidade.

– Segundo as nossas informações, contactou o Primeiro-ministro do Níger, Ali Lamine Zeine, e o seu homólogo do Mali, Abdoulaye Diop. Seria este o início de uma aproximação à Aliança dos Estados do Sahel (AES), ou até uma mensagem dirigida à CEDEAO?

Não se trata de enviar uma mensagem à CEDEAO ou a qualquer outra pessoa. Queremos trabalhar com a CEDEAO. Mas temos relações com o Níger e o Mali há anos, e é perfeitamente normal que continuemos. Pretendemos reforçar as nossas relações com todos.

– O que aconteceu aos opositores desde o golpe de Estado? Incluindo com a Nigéria, que ofereceu a sua proteção a Fernando Dias? 

Sim, isso não prejudicará a nossa relação. Falei com o meu homólogo nigeriano, Youssouf Touga. Nada poderá estragar a relação entre a Nigéria e a Guiné-Bissau. 

– O destino dos opositores detidos suscita grandes preocupações. Por que manter Domingos Simões Pereira, Octávio Lopes ou mesmo Roberto M’Besba em detenção?

O Alto Comando Militar negoceia para que sejam libertados o mais rapidamente possível, inclusive com a CEDEAO. 

– Os advogados salientam que foram detidos fora de qualquer enquadramento legal e que não puderam visitá-los. Do que são acusados?

Não tenho elementos para responder a essa pergunta. 

– São homens que conhece bem, uma vez que foi porta-voz do PAIGC durante muitos anos… As suas famílias denunciaram maus tratos na detenção. O que lhes responde?

Eles não sofrem maus-tratos e comem corretamente. Posso assegurar-lhes que estão de boa saúde.

– Diz que lamenta a fragilidade em que este novo golpe de Estado mergulha o país. Porque é que aceitou entrar no governo?

Eu tinha duas opções: ou ficava em casa a lamentar-me, ou aceitava ajudar a Guiné-Bissau a regressar ao caminho da paz e da estabilidade. Ao aceitar este cargo, posso trabalhar pela reconciliação. É por isso que aceitei, por patriotismo e apesar de se tratar de um regime militar, um facto sobre o qual não posso fazer nada.

– A sua campanha presidencial não conseguiu mobilizar. O que faltou? 

Estou orgulhoso da minha campanha, foi uma grande experiência. O que faltou, claramente, foi o apoio do meu partido, o PAIGC, do qual continuo, apesar de tudo, a ser membro do comité político. 

– Vai ser candidato numa próxima eleição presidencial? 

Não. É incompatível, não posso participar na organização das próximas eleições se for candidato.

MONTENEGRO E O FILHO DO PADEIRO

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Colagem fotográfica, imagem descritiva

O que importa que haja uma greve geral, marcada para dia 11? O que importa que as duas centrais sindicais estejam de acordo entre si? O que importa que os representantes das micro, pequenas e médias empresas estejam contra, com empresários a fazerem greve? O que importa que até anteriores ministros do Trabalho do seu partido sejam contra? O que importa que todos estejam contra o pacote laboral? Montenegro quer seguir em frente com a dita reforma. Marcha sozinho e quer que o aplaudam.

Mas, depois, quer fazer um jogo diferente do do padeiro, porque este, pelo menos, contou a verdade: o filho marchou sozinho. Montenegro quer que os portugueses acreditem e se distraiam com o seu aumento dos objetivos salariais para o País, falando agora em 1600 euros de salário mínimo e 3000 euros de médio. Fê-lo um dia depois de mencionar valores inferiores. E não se percebe quem quer enganar.

‘Nós não queremos crescer 2% ao ano. Queremos crescer 3%, 3,5%, 4%. Nós queremos que o salário mínimo não chegue aos 1100 euros. Esse é o objetivo que temos para esta legislatura, mas nós queremos mais. Que chegue aos 1500 ou aos 1600’.

Não sei onde Montenegro vai buscar aquele crescimento, dada a conjuntura do País e a mundial.

E penso logo nas rendas de casa que ele vai encontrar pelo valor ‘moderado’ de 2300 euros.

Pergunto-me em que País vive Montenegro, em que realidade paralela? E irá aumentar os reformados na mesma medida? Aqueles que recebem hoje 400 euros vão passar a receber 1000? Ou os que recebem 1500 vão receber 3000? Porque, verdadeiramente, foram estes que construíram o País que Montenegro quer continuar a destruir, numa marchar isolada, indiferente à realidade.

Mais de 400 camas desapareceram dos cuidados continuados dos hospitais e as urgências continuam a fechar e as crianças continuam a nascer na rua, nas ambulâncias, etc. ‘Não há verba’, justifica o Governo.

Há mais de 2,5 milhões de trabalhadores que têm um salário base bruto mensal inferior a 1000€, uma em cada cinco crianças é pobre porque os rendimentos dos pais não são suficientes, 1,3 milhões de trabalhadores têm um vínculo precário ou 1,9 milhões de trabalhadores laboram aos sábados, domingos ou feriados e à noite. Falta-lhes tempo para a família e os amigos, não têm qualidade de vida.

Então, tornem-se todos os trabalhadores mais precários, fragilize-se mais a esta classe, para que aumentem os números acima descritos. Mas, atenção, retire-se-lhes ainda o direito à greve. Ou vida!

Montenegro promete que ‘daqui a um ano’ as suas promessas ‘vão fazer ainda mais sentido’. Talvez façam para os grandes empresários e as grandes fortunas, como disse o representante das micro, pequenas e médias empresas. Os outros, os mais pobres, os das reformas mais baixas, os que não conseguem comprar medicamentos ou ter acesso a cuidados continuados, talvez já tenham morrido e as crianças continuarão a nascer fora das maternidades e dos hospitais, poupando sempre dinheiro a um Estado que é só do Governo de Montenegro. Porque já nem é dos que nele votaram: até o antigo líder do CDS-PP, José Ribeiro e Castro assumiu estar ‘embaraçado’ por ter votado na AD nas últimas eleições legislativas. ‘Antes podia refugiar-me na ideia de que não tenho culpa, não votei PS, mas agora embaraço-me ao dizer aos meus botões: eu tenho culpa, eu votei AD. É um pensamento bastante insuportável’.

Pronto, tudo isto me fez lembrar a velha anedota do filho do padeiro. Na esperança de que se marche com a realidade em que vivemos.