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ENQUANTO A EUROPA PERDE O PASSO A CHINA ACELERA

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O diagnóstico da paralisia europeia em contraste com o passado

A Europa encontra-se, nesta fase da história, numa posição paradoxal: nunca acumulou tantos recursos de conhecimento, nunca discursou tanto sobre o futuro e nunca esteve tão emperrada. O que outrora foi ponta de lança das civilizações, do método científico ao Estado de direito, da Revolução Industrial à integração pós-nacional, reduz-se hoje a um continente que marca passo, tropeçando até nas suas próprias instituições.

O problema não é de conteúdos. Muitos dos valores e princípios que a Europa produziu continuam válidos: a separação de poderes, a liberdade de investigação, a protecção social, o humanismo crítico. A questão está na linguagem e na forma de os tornar operativos. A linguagem tornou-se antiquada quando tenta evocar um passado glorioso sem o traduzir para os desafios presentes; e tornou-se verborreica quando se refugia em jargão sociopolítico, “Defesa dos valores”, “transição justa”, “soberania estratégica”, “resiliência”, que funciona menos como conceito operacional e mais como analgésico discursivo para um povo distraído. O resultado é uma cultura política que confunde intensidade declamatória com acção.

A lição incómoda da China

Criticámos a China de maneira sobranceira, muitas vezes com razão, especialmente no que toca ao controlo comunista, à ausência de um cidadão soberano no sentido ocidental e à repressão sistemática de liberdades fundamentais. Essa crítica sobranceira impediu-nos de ver o óbvio: a China passou-nos a perna em sectores decisivos da ciência e da técnica, sobretudo nas tecnologias limpas.

O caso do automóvel eléctrico é exemplar. A indústria europeia, protegida durante décadas por um status quo confortável de motores de combustão, foi apanhada em contrapé. Enquanto o debate europeu se consumia em quotas de emissões e calendários de proibição, a China produzia, escalava e baixava preços. Hoje, oferece ao seu cidadão comum um veículo eléctrico acessível, não por caridade, mas por planeamento industrial agressivo, economias de escala e uma lógica que a Europa esqueceu: a de que a inovação sem penetração de mercado é mero exercício académico.

As pessoas e isto é um facto empírico, não um juízo moral, querem comer e viver bem. Não olham com rigor a quem as obriga, desde que as necessidades primárias estejam satisfeitas e haja perspectiva de melhoria. Este realismo elementar, que Maquiavel já entendia, continua a escapar às elites europeias, demasiado ocupadas a gerir a sua própria virtude sinalizadora.

A hipocrisia do controlo velado e dos discursos vazios

A Europa sempre se prezou dos seus valores humanistas e do seu pioneirismo. Mas, paradoxalmente, nunca exerceu tanto controlo sobre as populações como hoje; fá-lo de maneira mais sofisticada e aparentemente democrática. Onde a China usa um partido único e uma arquitectura explícita de vigilância, a Europa usa regulamentação assimétrica, algoritmos de pontuação social disfarçados de “análise de risco”, condicionalidades de fundos europeus que moldam comportamentos, e uma correcção política que actua como censura difusa, sem necessidade de decretos.

A diferença não é de essência, mas de estilo. O Ocidente aproxima-se perigosamente do sistema que critica, a nível de controlo e influência da consciência social. A diferença é que o faz de maneira velada e hipócrita, de maneira a que a maioria das populações não se dê conta, porque as suas necessidades primárias encontram satisfação. O cidadão europeu médio, entretido com o acesso ao crédito, à saúde e à conectividade digital, não percebe que o seu espaço de dissentimento se estreitou tanto como o do chinês, apenas com verniz procedimental.

A economia política dos preços altos

Há uma verdade incómoda que raramente se enuncia: na Europa, quem conta primeiro a nível de empreendimentos são as grandes empresas. O Estado e os seus governantes não estão interessados em preços baixos para o povo, porque quanto mais caros são os produtos, mais o Estado ganha à custa do povo que paga (IVA, impostos especiais de consumo, contribuições sociais embutidas nos preços). O sistema fiscal europeu é progressivo na retórica, mas profundamente regressivo na prática quando sobrecarrega o consumo de bens essenciais e de transição energética.

A China, inversamente, usa o seu controlo estatal para forçar preços baixos em sectores estratégicos, mesmo à custa de margens e de concorrência predatória externa. O resultado é que o cidadão chinês médio acede a tecnologias limpas, telecomunicações e infraestrutura a custos que o europeu considera irrealistas. Enquanto a Europa impõe tarifas “anti-dumping” ou regulações ambientais que funcionam como barreiras não pautais, está na realidade a proteger não o trabalhador, mas a ineficiência instalada e a captura de renda pelas grandes empresas que considera relevantes para o Estado.

O futuro: aprender uns com os outros sem dogmas

A tese final é simples e incómoda para ambos os lados: a China tem muito a aprender com a Europa em matéria de soberania do cidadão, de garantias processuais e de pluralismo. Mas a Europa tem muito a aprender com a China em matéria de eficácia executiva, de visão industrial de longo prazo e de coragem para subordinar interesses instalados ao bem-estar material da população.

O futuro em que todos aprendem uns dos outros não é um futuro sem conflitos, é um futuro sem posições dogmáticas. O dogma ocidental de que a democracia liberal é condição sine qua non para o desenvolvimento tecnológico está factualmente errado: a China desmentiu-o. O dogma chinês de que o controlo partidário é compatível com a inovação sustentada a longo prazo também enfrenta os seus limites, na demografia, na criatividade reprimida, na fuga de cérebros.

A política não deve emperrar as relações económico-comerciais entre os povos, não por idealismo cosmopolita, mas por realismo: porque só assim se serve o povo. E servir o povo significa entregar resultados mensuráveis: poder de compra, esperança de vida, mobilidade social, acesso a tecnologia, liberdade efectiva de escolha. Qualquer sistema que se meça apenas pela pureza dos seus princípios, e não pelos seus efeitos, está condenado à irrelevância ou à hipocrisia.

A Europa ainda pode reivindicar o seu lugar como ponta de lança. Para isso, a elite europeia terá de abandonar a verborreia, baixar a sobranceria, e enfrentar uma verdade desconfortável: já não é ela só a ensinar; também ela tem de aprender. E aprender, para uma civilização que se quer humanista, é o acto mais humilde e mais forte porque passa a caminhar com o povo sem perder a bússola da mão.

TIREM-ME DESTE FILME…

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A contradição é apenas aparente. O problema não está na extensão (um calhamaço com mais de 700 páginas), está na saturação. A sucessão de esquemas manhosos, dissimulações e episódios criminosos que envolvem militantes e dirigentes do Chega, acabou por produzir um efeito estranho: não me chocou, cansou-me. Não me surpreendeu, enjoou-me.

O livro expõe com clareza um padrão de comportamento. Uma repetição insistente de práticas que atravessa a história do Chega desde a sua fundação até à sua consolidação política. O líder do Chega tem a habilidade de ignorar as críticas, contornar as questões, virar os problemas a seu favor, é um habilidoso contra-atacante. O livro consolida essa perceção que temos dele.

E talvez seja aqui que começa o problema sério. Não no que o livro revela, mas no que acontece fora dele. Perante este tipo de retrato, o partido não só não perde relevância como cresce, instala-se, normaliza-se.

A mim, não me surpreende que esse partido seja uma associação de oportunistas e malfeitores. Enoja-me. Mas o mais inquietante é que, para muitos, isso parece não ser motivo suficiente para recusar o voto. Verdadeiramente perturbador, por isso, não é o conteúdo do livro. É o facto de, perante este tipo de retrato, uma parte relevante do eleitorado continuar a ver ali uma alternativa credível.

CHÃO DE ROMANOS

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Depois de, no dia 10, se ter oficialmente inaugurado a apresentação do ‘pavilhão’ que passou a resguardar esse policromado pavimento, agora consolidado, que tanto teria embelezado a casa do senhor romano que, com a família e toda a criadagem, aí viveu, há dois mil anos, importava mostrar como essa requintada peça arqueológica fora descoberta, protegida, consolidada e, agora, devidamente mostrada à população.

Falou José d’Encarnação, sob cuja orientação (em colaboração com Guilherme Cardoso) haviam decorrido, entre 1985 e 2002, os trabalhos arqueológicos que levaram à identificação e estudo do sítio.

A recuperação e preservação do mosaico, na sequência da atenção que a villa foi merecendo do Município ao longo dos anos, constitui para ambos os arqueólogos, disse, motivo de gratidão e natural felicidade, por ser o culminar do projecto em curso. Referiu a circunstância de, para ambos, então docentes na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Faculdade Nova de Lisboa, essas campanhas anuais terem sido mui proveitoso complemento prático das aulas teóricas, regozijando-se por desse leque de estudantes terem saído bastantes arqueólogos actualmente em plena actividade. Agradecem-lhes, a esses estudantes, a toda a equipa e ao Município, cujos técnicos souberam compreender o património ali posto a descoberto.

E, por ter dito que ‘se está em continuidade’, mostrou a capa do livro que acabou, há dias, de ser impresso, edição da Associação Cultural de Cascais: o repositório ilustrado dos mais significativos objectos de uso quotidiano exumados não apenas de Freiria, mas das outras villae, cuja descoberta nos últimos tempos se havia concretizado. Neste A Presença Romana em Cascais – Um território da Lusitânia ocidental”, estão publicadas imagens de 271 peças e mais de 50 fotos e plantas de sítios arqueológicos.

Nesta foto: José d’Encarnação.
Na fotografia da direita: Guilherme Cardoso

Guilherme Cardoso historiou, por seu turno, o que havia sido esse labor, desde a descoberta da villa, em 1980, e a razão por que se tomara a decisão de iniciar aí trabalhos arqueológicos, primeiro de prospecção e depois de escavação. Deteve-se a mostrar as fases por que passara o mosaico, desde a mui cuidadosa alegria da sua descoberta, em 1986, e a sua escavação na integra, em 2002, até agora.

Coubera à arquitecta Ana Rita Aguiar, da Divisão de Projetos de Edifícios e Equipamentos da Câmara, a elaboração do projeto de cobertura para o mosaico. Não lhe tendo sido possível estar presente, foi o arqueólogo Severino Rodrigues quem fez a respectiva apresentação, desde o projeto inicial até à musealização.

Paulo Rebelo e Catarina Bolila, da empresa Neoépica, falaram dos trabalhos arqueológicos levados a efeito, por precaução, nos sítios onde foram implantadas as sapatas dos alicerces que suportam a estrutura de proteção do mosaico.

Por último, Victor Gonçalves, da ERA – Arqueologia, falou dos trabalhos que a empresa executou para conservar e restaurar o mosaico, que decorreram desde 2017 até 2026.

da esq. para a direita: Severino Rodrigues, Paulo Rebelo, Catarina Bolila e Victor Gonçalves

Enfim, um Dia Internacional aqui comemorado de forma bem especial e até, porventura, incomum, num concelho de características (diz-se…) privilegiadamente urbanas, pois que ali se falou de… características rurais desde mui recuadas eras.

                                                                      

DA SINISTRALIDADE À PRESCRIÇÃO DE CRIMES

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Sejamos claros, se o governo quisesse, efectivamente, reduzir a sinistralidade, não teria aprovado a aprendizagem com um tutor, que representa ‘um grande retrocesso’ e ‘um risco para a segurança rodoviária’.

Acresce que, apesar da sinistralidade, em Portugal, apresentar uma das taxas mais altas da Europa, com elevado número de mortes e pessoas incapacitadas, ocorreu uma redução do número de óbitos e de feridos desde 2005.

Vejamos: naquele ano, tivemos 1.094 vítimas mortais e 3.762 feridos graves. O relatório da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), referente a esse ano, manifestava a intenção de reduzir, até 2010, o número de mortos para 874 e fixar o número de ferido graves em 3.799.

Em 2026, e até esta data, registaram-se cerca de 44.063 acidentes, com 146 vítimas mortais e 641 feridos graves, ou seja, um número bem inferior ao de 2005 e da previsão para 2010.

Portugal, de acordo com dados de 2024, é o sexto país da UE com mais mortes na estrada por milhão de habitantes, atrás de outros como a Roménia (78), Bulgária (74), Grécia (64), Croácia (62) e Letónia (60), uma realidade que, ao longo dos anos, vem assolando as vias rodoviárias portuguesas e, cruelmente, destrói as famílias, constitui um flagelo social de enormes proporções que impõe a todos quantos podem contribuir para a sua redução – órgãos de soberania, responsáveis técnicos pela concepção, construção e manutenção das vias, autoridades policiais, passando por condutores e peões – o dever de colaborar num permanente esforço em defesa da vida e da segurança rodoviária.

Com efeito, não pode o País continuar a aceitar e conformar-se com o facto de as suas estradas se encontrarem entre as mais perigosas da União Europeia, como sobejamente o demonstram as estatísticas oficiais da sinistralidade.

Importa, por conseguinte, contribuir para o aperfeiçoamento e prossecução da política de prevenção e segurança, apostando no reforço da prevenção e da fiscalização, na melhoria da segurança das infraestruturas e da sinalética, a par de outras que passam pela introdução do ensino da circulação nas escolas e pelo reforço dos meios colocados à disposição das autoridades com competência para regular e fiscalizar o trânsito.

O ministro da Administração Interna e o governo apostam na repressão, como forma de dissuasão da sinistralidade. Esta opção, pode ser rentável para os cofres do Estado, mas não irá resolver o problema. A aposta tem e deve ser na prevenção, que não dá tanto impacto a pulsões populistas, mas que se torna, a prazo, muito mais eficaz e consolida o combate à sinistralidade.

A prevenção é fundamental e um governo que governasse a pensar no País, e não em outras coisas, deveria, no âmbito da Prevenção:

1. Implementar o ensino da circulação e segurança rodoviária nos pré-primário, básico e secundário;

2. Promover projectos educativos de prevenção rodoviária, envolvendo as famílias e as escolas, e criação de escolas de trânsito, integradas nos equipamentos urbanos, ao nível autárquico;

3. Promover campanhas pedagógicas de informação e sensibilização sobre a circulação e segurança rodoviária, alertando para os perigos do excesso de velocidade e de manobras perigosas e para a condução sob o efeito de bebidas alcoólicas, de estupefacientes e substâncias psicotrópicas, como comportamentos destrutivos e anti-sociais;

4. Criar uma linha verde destinada a permitir o alerta para a sinalização errada, contraditória ou omissa, o mau estado dos pavimentos e demais deficiências das infraestruturas rodoviárias; 5. Assegurar maior participação institucional nas campanhas de prevenção das entidades não governamentais, com actividades nas áreas de prevenção e segurança; 

6. Condicionar a venda de bebidas alcoólicas em todas as áreas e postos de abastecimento de combustível;

7. Alertar para o risco da utilização de telemóvel durante a condução. Também é necessário alertar os peões para o perigo que representa o uso do telemóvel na rua.

E no âmbito da Segurança:

1. Realizar novos estudos visando o levantamento das zonas de acumulação de acidentes e a apresentação das necessárias medidas correctivas e de melhoria das infraestruturas viárias, que conjugue a cooperação entre todas as entidades envolvidas no processo.

2. Aprovar um programa de melhoria da segurança das infraestruturas das vias públicas, em especial nos pontos que apresentem elevado risco de acidente, bem como o reforço da segurança dos veículos e peões.

3. Reforçar a sinalização das vias ou troços de vias que apresentem elevada sinistralidade ou nas quais a intensidade do trânsito, as condições climatéricas ou as características dos pisos  o aconselhem, através da instalação de painéis electrónicos de informação variável, em número suficiente.

4. Fiscalizar regularmente o estado de conservação das estradas e pontes públicas, em especial sempre que estas evidenciem sinais de degradação, garantindo a sua manutenção e funcionamento em condições de segurança.

E no âmbito da Fiscalização / Repressão:

1. Reforçar os meios colocados à disposição das autoridades com competência para regular e fiscalizar o trânsito, em especial nos pontos que apresentem elevado risco de acidente, tendo em vista o combate às manobras perigosas e excesso de velocidade, designadamente, através de:

-Aumento do número de agentes e de viaturas destacados para regular e fiscalizar o trânsito;

-Aumento significativo do número de viaturas não identificadas e diversificação das suas marcas, modelos e cores;

-Instalação de radares fixos nos principais eixos rodoviários;  

-Intensificação da utilização da videovigilância na circulação rodoviária;

-Aumento do controlo da velocidade nos meios urbanos;

 -Utilização de meios aéreos para a fiscalização das vias rodoviárias;

– Reforço da fiscalização de condução sob o efeito do álcool ou de substâncias legalmente consideradas como estupefacientes ou psicotrópicas, com o recurso a instrumentos de medição mais fidedignos.

E, voltando ao quadro sancionatório na acção repressiva, último ratio do plano de combate à sinistralidade, agravar as coimas e a retenção da licença de condução, nos precisos termos da Lei e sem recurso à habilidade de alargamento dos prazos de prescrição, porque se se abrir a porta a este alargamento, também se abrirá a porta ao alargamento do prazo de prescrição para todos os tipos de crime. A não ser que seja este o caminho e a intenção do governo para obter o apoio da ultra direita com quem, de facto, está coligado.

O LUXO É A AUSÊNCIA DE PRESSA

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6.º dia: O esplendor de Mosi-oa-Tunya
De Kasane – Kazangula (Botswana) a Livingstone (Zâmbia) – 7h de carro.
Era para ser uma viagem curta, mas o trajeto até Livingstone ficou marcado por uma espera inexplicável na fronteira. Quatro horas suspensas, sem razão aparente, que nos obrigaram a chegar tarde – mas ainda a tempo. E, no entanto, nada prepara verdadeiramente para as cataratas.
O rio Zambeze precipita-se ali com uma força difícil de explicar: cerca de 5.000 metros cúbicos de água por segundo, num abismo de mais de 100 metros. Mas não é apenas a dimensão – é o som, constante, profundo, e a névoa que sobe, densa, justificando o nome local Mosi-oa-Tunya, “o fumo que troveja”.
Quando o explorador escocês, (Sir) David Livingstone, viu as cataratas pela primeira vez em 1855, não imaginava que estas mais de 100 anos depois seriam consideradas como uma das maiores quedas de água do mundo, uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo e Património Mundial da Unesco (1989). Já agora, ele não as descobriu, nem as encontrou, foi lá levado pela comunidade local com quem, entretanto, estabelecera laços de confiança e batizou-as de Vitória em honra da rainha Vitória.
Os locais sabiam da sua existência e chamavam-nas de Mosi-oa-Tunya (“fumo que troveja”) há milhares de anos. O que se vê agora é a mesma vista espantosa que os impressionou, que impressionou Livingstone e que impressiona todos os que têm a sorte de ver estas cataratas.

Cataratas Vitória ou Mosi-oa-Tunya (“fumo que troveja”)

Caminhámos durante mais de uma hora e meia – e, ainda assim, parecia pouco- sob aquela chuva suspensa. Saí encharcada, apesar do impermeável que alugámos à entrada. Uma experiência que sei que não esquecerei.

7.º dia: Mosi-oa-Tunya National Park
Saímos cedo para procurar rinocerontes. Encontrámos muito mais.
Saímos às 8h30m para o Rhino Walk, depois de assegurar que os animais estavam em liberdade e não em cativeiro. O objetivo era claro: ver rinocerontes-brancos. Mas não vimos só rinocerontes.
Passámos o portão do Mosi-oa-Tunya National Parque (aliás, o The David Livingstone Safari Lodge & Spa onde ficámos já se situa dentro do parque, nas margens verdejantes do rio Zambeze, integrando-se perfeitamente na paisagem circundante) e seguimos de jipe aberto pelos seus caminhos.
O parque é pequeno, mas guarda o maior grupo de rinocerontes-brancos da Zâmbia, espécie classificada como ameaçada. Antes deles, porém, cruzámo-nos com uma vida dispersa, mas intensa e presente: macacos a tomar o pequeno-almoço em alegre cavaqueira, enquanto “cavavam” o terreno à procura de iguarias; gnus em passo lento; girafas elegantes; zebras inquietas; aves de várias cores em movimento.

O guia, Steve, simpático e conhecedor, ia explicando a paisagem e contando fatos curiosos sobre os bichos.
Depois quase no fim do parque o jipe parou, um guarda armado juntou-se a nós (uma arma com sedativo para os animais -usada, raramente, em caso de ataque- mas que também pode ser usada contra caçadores furtivos), e, depois de uma breve explicação de segurança, perguntaram-nos quanto tempo queríamos caminhar, dissemos 1 hora, e seguimos a pé, em linha na savana, sob um sol que
começava a aquecer e muito.
A savana abre-se de outra forma quando se caminha dentro dela. Viamos sinais: pegadas, excrementos, rastos de passagem. Mas rinocerontes, nada. Até que de repente, o guarda aponta e lá estão eles, sete White Rhinos -que, na verdade não são brancos-, imóveis à sombra de uma árvore. Uma cria entre eles, inquieta, pedindo leite. O resto era silêncio e uma presença forte. Já tinham comido e pode-se dizer que dormiam a sesta, quando muito davam um ou dois passos para encontrar um lugar mais confortável. E nós ficámos ali, a assistir. Foram momentos de grande deslumbramento.
Ao fim do dia, regressámos à água, num lento percurso pelo Zambeze ao pôr do sol, esse mesmo rio que atravessa países e histórias antes de chegar ao Índico. Conheci o rio Zambeze em 1995 em Tete, Moçambique. O Zambeze nasce no noroeste da Zâmbia passa pelo território de Angola e Zimbabwe e atravessa Moçambique de oeste para leste, para desaguar a sul da cidade de Chinde, no oceano Índico.

8.º dia: O meu amigo Henry
De Livingstone (Zâmbia) a Kongola (Faixa de Caprivi, Namibia) passando pela fronteira de Katima Mulilo – 7h de carro.
A distância engana. São poucos quilómetros, mas muitas horas. Em Km o trajeto é curto, cerca de 350km, mas em tempo é longo, quase 7h.
Durante cerca de 250Km, ainda em território da Zâmbia, seguimos por picada. A estrada de terra impõe o seu ritmo, e eu prefiro assim. Prefiro 4h de picada do que 4h de espera numa fronteira vazia.
A fronteira, desta vez, foi rápida. Do lado da Namíbia, o asfalto devolve-nos alguma fluidez e conforto, foi como se a viagem respirasse um ar novo.
A chegada ao Camp Kwando compensa tudo. Situado nas margens do rio com o mesmo nome -mais um que nasce em Angola -, está envolvido pela beleza selvagem da região do Zambezi (faixa de Caprivi), na Namíbia. É um pequeno oásis, um glamping sem internet, mas com dois hipopótamos residentes. Um chamado Henry e outro ainda sem nome, que estabeleceram a fronteira dos seus territórios, e os hipopótamos são animais muito territoriais, mesmo em frente às tendas do glamping. O Henry até saiu da água para se mostrar.
Este é um lugar simples, quase suspenso. Aqui, o luxo mede-se pela ausência: de rede, de pressa, de ruído, de distração.

Dia 9: Estranhos sinais de transito
De Kongola a Tsumeb passando por Rundu (Namibia) – 8h de carro.
A estrada, agora boa, atravessa paisagens onde os sinais de trânsito avisam de elefantes, cães selvagens, antílopes. Há pouco tempo, seriam sinais exóticos; agora, parecem-me naturais.
Vimos girafas a atravessar a estrada -duas passaram primeiro, outras ficaram para trás, hesitantes, à espera que passássemos. Há uma prudência naquele gesto que reconheço.
Chegámos ao Callie’s Lodge ao pôr do sol. Já dentro da fazenda, ainda vimos impalas e gnus, como um último aceno da vida selvagem.
Fechámos o dia como tínhamos fechado o primeiro: com uma cerveja Windhoek.

10.º dia: Regresso
De Tsumeb (Namíbia) ao Lubango (Angola) – mais de 10h de carro
O regresso faz-se sempre mais longo. Atravessámos a fronteira de Oshikango / Santa Clara com demora – problemas de sistema, ou falta dele – num regresso a Angola que se fez esperar.
Almoçámos em Santa Clara e seguimos por estradas irregulares, marcadas por buracos e interrupções constantes: umas pela polícia, outras pelos animais em movimento, que continuam a impor o seu próprio ritmo à estrada.
Já perto do fim, a pouco mais de cem quilómetros do Lubango, parámos em Chiange-Gambos para ver o pôr do sol e abrir o champanhe que nos acompanhava desde o dia 1 de abril -aniversário de uma das companheiras de viagem.
Chegámos ao Lubango já de noite, por volta das 21h, mas ainda houve tempo para um vinho tinto do Douro ao jantar.
Nesse dia, quando me deitei na casa 21 do Kimbo do Muholo no Pululukwa Resort, percebi que a Road Trip terminava ali. Tinham sido dez dias, 3.428 quilómetros, quatro países -cerveja local q.b., muitos animais, muitas paisagens… e, acima de tudo, muita água. Esse elemento essencial à vida, que afinal esteve sempre presente. No fundo, sempre no centro de tudo.

(último de dois artigos)

JOSÉ D’ENCARNAÇÃO ‘HONORIS CAUSA’

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Historiador, arqueólogo e epigrafista, Encarnação construiu uma carreira centrada no estudo das inscrições antigas, tendo sido o primeiro português admitido na Association Internationale d’Épigraphie Grecque et Latine, algo que nada diz ao público em geral, mas que tem peso considerável entre especialistas da área. A epigrafia, disciplina que exige rigor técnico e uma relação quase artesanal com as fontes, foi o eixo de um trabalho desenvolvido ao longo de décadas, em ligação estreita com a investigação arqueológica.

Professor na Universidade de Coimbra, onde deixou marca no ensino e na formação de várias gerações, Encarnação conciliou a actividade académica com trabalho de campo, nomeadamente no concelho de Cascais, onde dirigiu diversas intervenções arqueológicas. Esse cruzamento entre teoria e prática contribuiu para um perfil que não se esgota na produção científica, mas que se estende à valorização concreta do património.

Natural de São Brás de Alportel, lugar onde não há memória de terem nascido antes cientistas ou grandes vultos da intelectualidade nacional, o percurso de José d’Encarnação foi inovador no sentido em que parece contrariar esse estigma sobre a distância do lugar onde nascemos e os centros tradicionais de produção académica.

José d’Encarnação mantém uma presença regular no espaço público através da escrita. É autor de vasta bibliografia que inclui obras técnicas de referência, estudos sobre a romanização e livros dedicados à história local de Cascais. Ainda encontra tempo e disponibilidade para escrever em jornais regionais, blogs e no site Duas Linhas, onde publica textos sobre arqueologia e cultura, num registo que oscila entre a divulgação e a reflexão, sem se afastar da exigência intelectual que caracteriza o seu percurso.

A atribuição do Doutor Honoris Causa surge, assim, como formalização de um reconhecimento que, nos meios académicos, há muito estava estabelecido.

MAIS DE UM MILHÃO DE ASSINATURAS

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Há causas que se dizem apartidárias e é precisamente por isso que expõem, sem disfarce, as contradições políticas do nosso tempo. As questões humanitárias são uma delas: funcionam como um teste simples, quase binário. Ou se está, ou não se está.

Um abaixo-assinado promovido pelo Partido da Esquerda Europeia – em Portugal representado pelo Bloco de Esquerda – reuniu já mais de um milhão de assinaturas a favor da suspensão do acordo de associação entre a União Europeia e Israel, como resposta ao genocídio em curso em Gaza e na Cisjordânia e à guerra no Líbano. No momento em que escrevemos este artigo, a cifra que consta no site dos promotores da petição é esta:

Um milhão cento e vinte e três mil trezentos e trinta e três (e a contagem continua). Para partidos que, juntos, têm apenas 21 eurodeputados. O contraste não é apenas estatístico, tem uma dimensão política. Mostra que há uma base social muito mais ampla do que aquela que cabe na representação institucional, e que não se revê, necessariamente, nos partidos que lançaram a iniciativa.

Ao mesmo tempo, esta adesão popular expõe algo ainda mais incómodo: o duplo padrão da UE. A mesma União Europeia que rapidamente invoca sanções, suspensões e isolamento diplomático noutros contextos, não reage quando o problema envolve Israel.

Durante anos, décadas, a causa palestiniana foi remetida para um nicho ideológico. Mais de um milhão de assinaturas sugere o contrário: quando a questão é colocada em termos humanitários, sofrimento civil, destruição propositada de hospitais, escolas, chacinas de população civil, snipers que atacam intencionalmente crianças e jornalistas, médicos e socorristas, as fronteiras partidárias tornam-se irrelevantes. Ou seja, existe uma opinião pública disponível para ir mais longe do que os seus representantes. As organizações políticas devem passar a ter isso na devida conta.

Em Gaza, bombardeamentos israelitas continuam a matar diariamente pessoas não-combatentes

Em que é que isto incomoda Israel? A resposta está nos números do comércio externo, por exemplo: 28% das exportações israelitas destinam-se ao mercado europeu; as trocas comerciais entre os países da UE e Israel somam mais de 46 mil milhões de euros por ano; a Europa financia mais de 900 projetos de desenvolvimento que beneficiam centenas de empresas israelitas, algumas delas envolvidas nas ações militares do genocídio em curso em Gaza e Cisjordânia e na guerra no Líbano. Ou seja, a ideia é “magoar” Israel onde mais lhe dói: no bolso.

paisagem urbana no sul do Líbano já se assemelha a Gaza

PELOS CAMINHOS DA ÁGUA POR ANGOLA, NAMÍBIA, BOTSWANA, ZÂMBIA

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Dia 1: Cunene
Do Lubango (Angola) a Tsumeb na Namibia – 10h de carro
Surpreendeu-me a água. E o gado. Mas sobretudo a água. Há mais de cinquenta anos que ouvi, pela primeira vez, a palavra Cunene. Foi no início dos anos 70, quando um amigo do meu pai partiu para instalar a Estação de Orizicultura do Cunene. Desde então, ficou-me a ideia de uma região fértil, de zonas húmidas propícias ao arroz. Ainda assim, depois de meses a ouvir falar de seca persistente no Sul, não estava preparada para o que encontrei: extensões alagadas, reflexos de água onde esperava poeira, e rebanhos em movimento, como se seguissem um ritmo antigo, indiferente às previsões e aos alarmes de seca.
Foram dez horas de estrada até ao Callie’s Lodge, mas a viagem começou, na verdade, com esse espanto inicial – essa água inesperada que parecia querer contrariar as minhas expectativas.

Dia 2: Há qualquer coisa de especial nos rios que são fronteiras
De Tsumeb a Divundu (Namibia) – 6h de carro
A manhã começou com a visita ao meteorito Hoba. Mas é a terra – e não o que vem do espaço – que me impressiona.
Ao fim do dia, chegámos ao rio a tempo de apanhar oa últimos minutos do “cruzeiro” ao pôr do sol, como se o próprio dia tivesse esperado por nós.
O Divava Lodge ergue-se sobre o rio Kavango, nome que o rio carrega, depois de se chamar Cubango, e antes de se transformar em Okavango ao entrar no Botswana.
Do outro lado, ao alcance do olhar, e quase ao alcance de meia dúzia de braçadas, é Angola.
Há qualquer coisa de especial nos rios que são fronteiras. Lembrei-me do Mekong, que separa / une países, como o Laos da Tailândia e do Camboja, e do rio San Juan, entre a Costa Rica e a Nicarágua. Aqui, como nesses lugares, a água não divide, apenas desenha limites que a paisagem, os animais e as gentes, parecem ignorar. A certa altura, estivemos numa pequena ilha no meio do rio. Não sei a que país pertence. Talvez isso nem importe.

Divava Lodge na margem do rio Kavango

Dia 3: do Kavango ao Okavango
De Divundu (Namibia) a Maun (Bostswana) – 6 horas de carro
Atravessar o Bwabwata National Park foi como entrar, mais uma vez espantada, num inventário vivo de África.
Primeiro, os antílopes, discretos e elegantes. Depois as zebras, como riscas em movimento. As girafas surgiram mais tarde, quase silenciosas na sua altura improvável. E, por fim, os elefantes — sempre eles, sempre maiores do que a paisagem que os contém. O leão apareceu como uma exceção, uma raridade breve que confirmou a regra.
A fronteira com o Botswana foi simples, quase despojada, e talvez por isso mesmo eficaz.
Do outro lado, o rio já se chama Okavango e começa a desfazer-se em múltiplos canais, insinuando o delta que mais à frente se expandirá. Não vemos a água da estrada, mas sei que se espalha, multiplica-se, abranda — como se recusasse qualquer pressa. Confirmei isso mais tarde, da varanda do Crocodile Camp, sobre um braço do rio coberto de nenúfares.

Dia 4: No coração do Delta do Okavango
O Mokoro desliza sem pressa. É esse o seu segredo.
As canoas, hoje feitas de fibra para preservar as árvores, mantêm o gesto antigo: o avanço lento, o silêncio quase absoluto, o som ritmado do pau que toca a água e o lodo. Navega-se com todos os sentidos.
Primeiro vamos ver os hipopótamos, numa espécie de lagoa, pesados e aparentemente tranquilos, mas donos de uma reputação que contrasta com a sua placidez. Afinal, são dos animais que mais matam em África, logo a seguir aos mosquitos.
Depois, já nos estreitos canais, um elefante. Imóvel. Tão imóvel que por momentos me pareceu de pedra.
As canoas param, saímos, caminhamos e aproximámo-nos a pé, em silêncio, até o ver de perfil. Abana as orelhas enquanto arranca a erva com a tromba e a leva à boca, num gesto repetido, quase mecânico. O guia explicou que aquele movimento das orelhas era sinal de tranquilidade. Mas o vento mudou, e com ele, a nossa posição na ordem invisível da savana. Recuámos.
De volta ao Mokoro, seguimos por canais cada vez mais estreitos, rodeados de papiros altos, até o reencontrar, de frente no fim de um estreito canal. Permanece ali, imponente, imponente como só os elefantes sabem ser, como se não pertencesse a este tempo. Fiquei a observá-lo. A tentar perceber, talvez inutilmente, o que faz ali um elefante sozinho. Há qualquer coisa de hipnótico naquela presença de elefante.


Continuamos a deslizar e lembrei me de um passeio semelhante, num outro delta, sem animais, mas também em silêncio. Um passeio que fiz com um velho barqueiro há mais de 20 anos no Delta do Danúbio (na Roménia).

Dia 5: Elefantes felizes
De Maun a Kasane (Botswana) – 7 horas de carro
Chegámos ao Senyati Camp ao fim do dia, no momento exato em que a luz abranda e tudo parece suspenso.
Da varanda do espaço comum que serve de bar, víamos o pôr do sol quando uma família de elefantes se aproximou da charca. Descemos ao bunker – uma ideia genial, simples e brilhante: observar os animais ao nível do solo, próximos e invisíveis.
Ali, a poucos metros, desenrolou-se uma cena de intimidade tranquila. Bebiam, brincavam, tocavam-se. Fiquei ali uma hora, talvez mais, a assistir àquilo a que chamei, em silêncio, de “família feliz”.
Quando voltei ao local, já depois do jantar preparado e comido junto às tendas, dois elefantes adultos tinham voltado, ou eram outros, não sei. Um último quadro na savana, antes de me recolher para dormir.

(continua)

A CULPA É DO FAZEDOR DE TAMBORES

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Os combustíveis são uma fonte de receita que dá a entender, pelo procedimento do governo, não existir nenhuma outra tão caudalosa, capaz de rivalizar com o lucro que o Estado obtém com a coleta de impostos sobre o litro de gasolina ou gasóleo vendido.

A informação que está disponível é que a gasolina, por cada 1000 litros tem um ISP (Imposto Sobre Produtos Petrolíferos) de 470,53 € onde se acrescenta o IVA de 23%, dando um final de 578,7519 €. No gasóleo, por 1000 litros, a taxa de ISP é de 311,63€, acresce 23% de IVA, temos um final para o estado, 383,3049 €. Tal como na gasolina, o imposto ronda os 50%.

Usando ideologia partidária para a continuação da crónica, e o “pensamento de uma parte do governo, uma em a) a outra em b)”:

  1. “… Os transportadores, distribuidores de produtos, têm mais que margens de lucros suficientes e podem pagar esta alta de preços dos combustíveis…”
  2. “… Qual é a empresa que pode comportar esta alta de preços, sem fechar e lançar para o desemprego muitos colaboradores, sem ser com a ajuda do estado?”.

O procedimento que a seguir fizemos (agitando os cérebros) foi para, exemplo, a gasolina. Considerando o imposto em cerca de 50% (claro que são contabilizações feitas de modo grosseiro/linear), a gasolina à data desta informação, deveria custar 1,15€ por litro, seja:

O Estado deve retirar do imposto que arrecada de modo a colocar o preço dos combustíveis ao nível, no mínimo, no inicio do conflito no Médio Oriente. O país não vai conseguir sair deste atoleiro, sim afundar-se, se não for imediatamente feito neste sentido uma reformulação de preços. Primeiro está a economia do país. Bruxelas não vai querer que as populações dos Estados membros passem problemas graves ou o encerramento de empresas fundamentais à economia dos países. Era uma insanidade política. Têm os estados membros que concertar estas políticas de modo rápido.

Enquanto espero e para tentar evitar “refluxos”… já comecei a tomar camomila em infusão… tal é a azia… à política.

TRUMP OU A CARICATURA DELE PRÓPRIO

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Quando o Papa Leão XIV disse que rezava pela paz e condenava todas as guerras, não estava a fazer nada de particularmente inovador. Estava, no fundo, a cumprir o papel do Papa. Ainda assim, conseguiu irritar uma das pessoas mais poderosas do planeta: Donald Trump. É preciso algum talento para se sentir pessoalmente atacado por uma oração genérica pela paz mundial. Mas Trump tem esse talento.

Ao longo da história recente, os Papas conviveram com figuras como Adolf Hitler ou Benito Mussolini sem nunca se terem destacado por apoiar guerras de forma explícita. Nenhum deles, porém, teve de lidar com um Presidente norte-americano que interpreta um apelo à paz como uma afronta pessoal.

Trump, fiel à sua gramática política, respondeu como responde a tudo: com suspeição, ruído e uma dose generosa de “conversa de tasca”. Insinuou motivações políticas, mencionou teorias obscuras, tratou o chefe da Igreja Católica como se fosse mais um adversário num comício.

Leão XIV não recuou. Ainda hoje, disse que “o mundo está a ser destruído pelos tiranos”. Não apontou o dedo. Não precisava. Quando alguém se reconhece na descrição, o problema já não é do emissor.

No cartoons da esquerda, Trump monta uma bomba mortífera e nas redes sociais tenta descrever o papa como perigoso. No cartoon da direita, o Papa diz que só adora Deus e Trump responde dizendo que só adora a ele mesmo.

O ataque ao Papa teve um efeito colateral previsível: abriu a época do cartoon caricatura de Trump. De repente, jornais e plataformas digitais encheram-se de caricaturas onde Trump surge como pateta, nunca esquecendo que estamos a falar de um pateta perigoso. A sátira política, que vive de exagerar o real, tem aqui a vida facilitada. Basta copiar.

No cartoon da esquerda, as políticas de Trump dão cabo da reputação dos EUA como “farol” da democracia no mundo. À direita, Trump proclama a “idade do ouro” dos EUA onde se somam os indícios de corrupção dos oligarcas do regime e do próprio Presidente dos EUA.

A saturação mediática destas imagens sugere algo mais que apenas crítica, mas um enorme desgaste político.

Nestes dois cartoons, publicados em diferentes meios dos EUA, Trump é um tipo que perde parafusos e torna-se num palhaço trágico…

Realce para os “bonecos” de Hélder Dias, o cartoonista português que gostamos de publicar aqui no Duas Linhas.

Três cartoons recentes de Hélder Dias sobre a questão do ataque dos EUA contra o Irão e as críticas feitas ao Papa Leão XIV