A GREVE GERAL

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A greve geral de 11 de dezembro promete ser mais do que uma simples perturbação na rotina do país. Será, muito provavelmente, um abanão político. Com dezenas de sindicatos envolvidos — saúde, educação, indústria, banca, comunicação social, transportes — e convocada pelas duas centrais sindicais, CGTP e UGT, o protesto é tudo menos banal. É raro ver este grau de convergência sindical; quando acontece, é porque algo arde mesmo no centro do edifício social.

E o que arde? A proposta governamental de um novo pacote laboral que reabre debates que muitos julgavam enterrados: contratos a termo mais longos, o regresso do banco de horas individual, o adeus ao travão ao outsourcing logo após despedimentos, entre outras pérolas que já fazem sorrir as confederações patronais e ranger os dentes a quem vive do salário.

Não admira, portanto, que os setores onde a exaustão já é permanente — transportes, saúde, escolas — sejam também aqueles onde o impacto da greve deverá ser mais visível. A TAP nem esperou para ver: cancelou todos os voos do dia. É sempre uma boa metáfora quando uma companhia aérea assume, à partida, que a realidade vai aterrar à força.

Nenhuma destas mudanças constava do programa dos partidos que formaram a coligação que venceu as eleições. PSD e CDS não mencionaram contratos a termo mais longos, não prometeram ressuscitar o banco de horas, não anunciaram o desmantelamento do travão ao outsourcing. Nada disso foi submetido ao escrutínio popular. E, no entanto, eis que surge agora como inevitável, inadiável e — dizem — indispensável.

É a velha arte da política silenciosa: esconder as reformas impopulares durante a campanha eleitoral para as aplicar com pressa depois da tomada de posse. Um método recorrente na tradição do PSD, e que só funciona porque o eleitorado tem memória curta e porque a propaganda, em vésperas de eleições, funciona como nevoeiro denso. Promete-se tudo, cumpre-se quase nada — ou cumpre-se o contrário.

Aliás, basta ver a mais recente manobra comunicacional do primeiro-ministro, que, perante o anúncio da greve, decidiu lançar para o ar números que fariam corar um economista minimamente sério: salário mínimo a chegar aos 1500 ou 1800 euros, salário médio a atingir os 3000.

Montenegro fala como quem vende banha da cobra. Espantosamente, consegue dizê-lo sem se rir. Talvez porque o riso, neste contexto, seria a única parte verdadeiramente honesta de todo o discurso.

A greve geral, por isso, não é apenas uma interrupção de serviços: é um teste ao grau de tolerância do país perante esta espécie de truque político. E talvez seja também o momento em que muitos perceberão que aquilo que se aprova em nome da “modernização” do mercado laboral tem, quase sempre, uma tradução concreta: perder direitos, ganhar precariedade — e ouvir o Governo a elogiar a coragem das suas próprias medidas.

No dia 11, Montenegro vai furar a greve

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