TRIBUTO A MÁRIO SOARES

Estadista da Descolonização, da Democracia e da Lusofonia

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O centenário de Mário Soares, celebrado a 7 de dezembro de 2024, constituiu uma oportunidade histórica para reavaliar, com serenidade e profundidade, o papel singular que este estadista desempenhou na construção da democracia portuguesa, na redefinição das relações entre Portugal e África e na edificação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
A sua figura transcende fronteiras e, na Guiné-Bissau, permanece associada a um período crucial de afirmação nacional, reconhecimento internacional e cooperação política baseada no respeito mútuo.

Mais do que líder político, Soares foi um arquiteto da paz num momento de transição complexa e sensível — o fim da guerra colonial e o início da convivência entre Estados soberanos unidos pela língua portuguesa.

Mário Soares com Nino Vieira, quando o Presidente da Guiné-Bissau visitou Lisboa

O Estadista da Descolonização e o Reencontro com África

A Revolução de 25 de Abril abriu em Portugal a urgência de resolver conflitos coloniais prolongados que desgastavam o país e bloqueavam o seu próprio desenvolvimento democrático. Como Ministro dos Negócios Estrangeiros do I Governo Provisório, Mário Soares assumiu a pesada responsabilidade de conduzir, em tempo curto, um processo histórico de enorme sensibilidade: negociar com os movimentos de libertação africanos a passagem de um império para uma comunidade fraterna de nações livres.

A Guiné-Bissau foi o primeiro grande teste dessa nova política externa. O PAIGC já controlava grande parte do território, exercia autoridade real sobre vastas zonas libertadas e tinha proclamado unilateralmente a independência a 24 de setembro de 1973, apoiado por um amplo reconhecimento internacional. O governo português não podia ignorar esta realidade nem prolongar uma guerra perdida no terreno.

Foi nesse contexto que surgiu o primeiro gesto político-diplomático de grande alcance de Mário Soares: sentar-se à mesa com o PAIGC, reconhecendo implicitamente a sua legitimidade histórica e política.

As Negociações Preliminares de Londres: o Primeiro Passo Corajoso

Em maio de 1974, apenas semanas após a queda do regime, Soares deslocou-se a Londres para manter contactos preliminares com dirigentes do PAIGC. Eram conversações discretas, mas decisivas. Portugal pretendia explorar possibilidades de cessar-fogo e modalidades de transição; o PAIGC reafirmava que a independência era irreversível e já exercida no terreno.

As negociações não produziram acordos imediatos, mas a sua importância não residiu no desfecho, e sim no gesto político: Portugal abandonava, pela primeira vez, a postura colonial e reconhecia que só um diálogo sério e de igual para igual com o movimento de libertação poderia construir a paz.
Foi em Londres que se iniciou a demolição diplomática do edifício colonial português.

Argel: a Viragem Histórica

Um mês depois, em junho de 1974, Soares dirigiu-se a Argel, onde o PAIGC se encontrava em posição de força política e moral. Acabaria por ser ali, e não em Lisboa, que Portugal reconheceria finalmente o essencial: a Guiné-Bissau já era um Estado soberano desde 24 de setembro de 1973.

As negociações de Argel foram mais formais e mais duras. Incluíram a definição do cessar-fogo, o calendário de retirada das tropas portuguesas, o estabelecimento de relações diplomáticas e a própria modalidade de reconhecimento político. O PAIGC mostrou capacidade organizativa, visão estratégica e coerência diplomática; Portugal demonstrou lucidez e coragem ao aceitar a inevitabilidade da história.

O resultado mais importante foi a decisão de Portugal de proceder ao reconhecimento formal e definitivo da independência, culminando no Acordo assinado em Lisboa a 10 de setembro de 1974.

Este desfecho deve-se, em grande medida, ao sentido de Estado de Mário Soares: reconheceu que a dignidade de Portugal e a paz com África só seriam possíveis se fundadas na verdade histórica, na igualdade soberana e no respeito pelas lutas de libertação dos povos africanos.

Relevância Política e Diplomática para a Guiné-Bissau

A Guiné-Bissau encontrou em Mário Soares não apenas o negociador da descolonização, mas um aliado duradouro na construção de relações bilaterais estáveis. Como Presidente da República, entre 1986 e 1996, Soares retomou e aprofundou uma política de cooperação com os PALOP baseada na confiança política, no diálogo permanente e no apoio à consolidação institucional.

Os sucessivos governos guineenses — de Luís Cabral a Nino Vieira — encontraram nele um parceiro que tratava a Guiné-Bissau com respeito e igualdade, defendia soluções políticas e diplomáticas para crises internas, promovia a formação de quadros e programas de assistência técnica, apoiava a integração do país nos mecanismos multilaterais lusófonos.

Este relacionamento contribuiu para consolidar a presença da Guiné-Bissau no cenário internacional e para reforçar laços que continuam estruturantes no âmbito da CPLP.

Mário Soares e a CPLP: o Visor Estratégico da Lusofonia

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, criada em 1996, não nasceu por acaso. Resulta de uma visão política formulada anos antes por Soares, que defendia a necessidade de transformar a antiga relação colonial num espaço multilateral horizontal, livre de complexos e assente em valores democráticos.

A CPLP viria a espelhar precisamente essa visão: igualdade soberana entre todos os Estados membros; difusão e valorização da língua portuguesa; cooperação para o desenvolvimento; resolução pacífica de diferendos; promoção da democracia, governação e Estado de Direito.

Soares compreendeu antes de muitos que a lusofonia não era um resíduo histórico, mas sim uma plataforma geopolítica com futuro, capaz de unir África, Europa, América e Oceânia em torno de uma herança linguística e cultural comum.
A Guiné-Bissau, como membro fundador, é parte essencial desse projeto.

Mário Soares com os líderes angolanos, José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi

O Legado para Portugal, para África e para a Guiné-Bissau

O legado de Mário Soares é plural, profundo e duradouro. Em Portugal, simboliza a democracia, a liberdade e a abertura ao mundo. Em África, representa o estadista europeu que mais compreendeu e respeitou as lutas de libertação. Na Guiné-Bissau, é recordado como o líder que transformou um processo doloroso de guerra numa relação de cooperação soberana. Na CPLP, é visto como um dos seus principais inspiradores, defensor de uma comunidade global unida pelo português e pelos valores democráticos.

Neste centenário, o tributo a Mário Soares é, portanto, mais do que um exercício de memória: é o reconhecimento de que a sua visão política continua atual, especialmente num mundo onde a paz, o diálogo e a solidariedade estão novamente ameaçados.

A Atualidade de um Legado

Celebrar Mário Soares é celebrar a coragem de negociar quando outros insistiriam na força, a capacidade de transformar derrotas em oportunidades de paz, a inteligência diplomática que permitiu reconciliar Portugal com África, a visão estratégica que lançou as bases da CPLP, o respeito profundo pelos povos que conquistaram a sua liberdade.

Na Guiné-Bissau, onde a história tem sido marcada por desafios contínuos, a memória de Mário Soares permanece como referência de diálogo, respeito mútuo e cooperação construtiva.

A sua vida política ensinou que a descolonização não é o fim de uma relação, mas o início de uma nova parceria, que deve ser nutrida com verdade, dignidade e visão. Esse é, talvez, o maior legado que deixou à lusofonia e à Guiné-Bissau.

Mário Soares, ficha da PIDE

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