Eu acho que o artista se apaixonou pelas cores lisboetas. É a segunda vez que pinta exuberantemente recantos da nossa capital. Acredito que, sendo paisagista brasileiro natural de São Paulo, sinta, ainda, espelhada na policromia do casario que Lisboa mantém, uma sonhadora alegria de quem permanece de pé. Não a meter raiva às urbes que diariamente drones, ciclones e furacões se comprazem em estilhaçar, mas a proclamar que é possível manter uma cidade aprazível.
«Os bairros, as ruas e os jardins, o Tejo e o Castelo são transportados para as telas de um modo singular, com uma paleta riquíssima de cores quentes e com uma técnica inconfundível» – escreve-se na apresentação da mostra.
E é verdade.
Não me canso de admirar o quadro, saído da sua primeira exposição aqui, em Dezembro de 2021: o eléctrico passa, deslumbrantemente vermelho, frente à solenidade da igreja da Madalena. Não há vivalma na rua. Reluzem os carris; incomodam-se uns aos outros, às dezenas, dir-se-ia, os fios eléctricos, riscando, inocentes, a fachada cinzenta do templo antigo.

E esta Calçada de S. Francisco? O eléctrico, mais uma vez! É noite; chuva; a luz pardacenta que mostra os prédios à direita não se sabe donde vem, pois que há morna escuridão a envolver a ala esquerda. Lisboa a claro-escuro?

Praça do Príncipe Real, a clássica panorâmica para a outra encosta, a do castelo. Ressalta a vermelhidão dos telhados. A cor quente em que o artista muito se compraz em descansar.

A nós o que apetece é sentarmo-nos a admirar. A absorver o encantamento. Num veemente repúdio aos drones cujos comandos, por essoutro desentendido mundo, se comprazem em… fabricar ruínas. Sem cor, as ruínas; salpicadas de rubro sangue as avenidas.





Magnifica, pur nella cruda realtà, la chiusa dell’articolo, poetica e sensibile. Ruinas…
Eugenia Serafini 💐
Bem hajas, mui querida Eugenia, por teres realçado o final da crónica: a contemplação da beleza urbana que subsiste não pode fazer que se esqueçam outras belezas urbanas que a loucura de quem comanda os drones e os mísseis teima em transformar em ruínas.
Boa noite José d’Encarnação
Parece que os artistas que vêm de fora conseguem ver melhor Lisboa do que nós, que a habitamos.
A cor e os sentimentos povoam-nos a memória. Quem vem de outras geografias onde o medo e a violência se propagam, apanha o espírito da cidade que os acolhe numa manhã ou numa tarde de sol e usa a paleta da gratidão, que é sempre mais exuberante.
São quadros que iluminam uma sala, para quem gosta de pintura realista. E devo dizer que bem trabalhosos na captura dos detalhes.
Os meus parabéns a este artista que terá outro modo de vida, mas a quem não parece faltar a paciência para meter “fragmentos” da cidade numa tela.
Noite muito feliz.