O VINHO COMO PRESENTE DE NATAL

UM CURIOSO COSTUME BEIRÃO

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Trago de memória um velho costume da época do Natal que era prática comum na minha terra, a Sarzeda, pequena aldeia da Beira Alta, no concelho de Sernancelhe.

Terra fria também, a neve caía no inverno bastas vezes e travava o caminho da fonte, da igreja ou da taberna e até dos currais do gado e necessário se tornava, aos homens, de enxada em punho, abrir caminho, que os ritmos da vida tinham de cumprir-se.

Valia a lenha de pinho, resinosa, os toros de velho castanheiro ou carvalho para manter a fogueira acesa na lareira.

Valiam as arcas do pão, o centeio que se dava a moer aos moleiros do Rio Távora; valia a tulha com batatas para todo o ano; valiam as taleigas cheias de feijão, de grão-de-bico; valia a salgadeira com a abastança da carne de porco; valia a caça dos coelhos e das lebres desse tempo de defeso; valia o pipo, cheio ainda, cheirando a vinho novo e as maçãs que duravam, duravam, cheirosas, numa loja, sobre a palha.

Mas não era vasto, na aldeia, este jeito de viver meio patriarcal que ainda ultrapassou, largamente, os meados do século XX, esse tempo que parece mítico, dos avós de muita gente.

Nas aldeias da Beira vivia uma larga faixa de gente que não tinha gado, nem terras de lavra que produzissem vinho ou pão.

Não tinham mais do que os braços. E uma relativa abastança desse pão de cada dia que se ganhava, com suor, nos meses das grandes tarefas agrícolas, rogados para trabalhos de ocasião nas casas de lavradores.

Era ainda um tempo em que, pelas aldeias, transitavam pobres de pedir, pedindo esmola pela-mor-de-Deus, pelo amor de Deus, queriam dizer, ou pelas almas de quem lá tem a quem rezavam Padre-Nossos.

Era, no geral, a mãe de família quem vinha à porta, mas era, muitas vezes, um filho ainda criança quem trazia ao pobre a tigela de sopa ou uma grossa fatia de pão com um pedaço de toucinho.

Que o pobre agradecia com esse ingénuo dizer: – Que Deus lhe pague!…

O vinho como presente de Natal, “O Dom do Vinho”, como lhe chamei, há muito, em texto de letra de forma numa revista de matriz regional, a Beira Alta, acontecia, ano-a-ano, quando eu era menino, e depois se prolongou, na véspera de Natal.

Minha mãe enchia, na adega, uma púcara de vinho, essas púcaras vidradas que, na aldeia, se compravam aos louceiros, enchia uma garrafa, um pequeno garrafão ou uma cabaça e mandava-me seguir para determinada casa, para entregar esse presente da Véspera de Natal.

Não era bem ao jeito de esmola, que, às vezes, esse vinho era entregue à porta de franca casa de lavoura, abundante de outros bens mas escassa em vinho.

Lembro-me sempre, em dia de Natal, como hoje, em que isto escrevo, dos meus passos pela geografia da aldeia. Lembro-me das vozes de gratidão das donas de casa, onde eu ia, algumas lavradoras, outras não. Lembro-me das palavras com que agradeciam: “Diz à tua mãe que bem-haja”!… Lembro-me de uma velhinha, a Senhora Maria do João, que vivia sozinha. Também me agradecia. E me dava em troca uma mão-cheia de castanhas secas. Sempre tão doces que nunca outras, iguais, encontrei em minha vida.

Memórias de Natal!…

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