Sernancelhe é vila beirã, quase confins da Beira Alta, que ali ganha já o designativo de Beira Transmontana. Lá, onde os homens se assemelham, na inteireza de carácter e nos vínculos que têm com a terra, a seus irmãos que vivem e labutam nas terras de Além-Doiro.
Ali nasci, em terras de Sernancelhe, onde nasceu também o célebre Padre João Rodrigues, que foi missionário no Japão, na era de Quinhentos e que, perguntado sobre a sua terra de origem, contava que nascera em terras da Senhora da Lapa, essas abençoadas terras onde o Céu se revelara a uma pastora, terra-mãe de onde exilaram esse carismático homem do pensamento que foi Ribeiro Saraiva, porque se mantivera fiel aos ideais de D. Miguel, terra-mãe que foi, está já provado, de Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal, lá onde sua família teve solar e amplas terras de sua posse.

Ali nasci num tempo que já vai, ficando distante esse tempo, que designamos agora por memória, velha morada de gentes que já ali não habitam, destinos cortados, como sempre acontece, destinos transferidos para países de emigração que tornaram também terra sua.
Ali nasci e ali volto, com frequência, à aldeia que tive por berço, não muito longe da vila, e ali encontro, sempre que lá vou, as memórias de uma grata infância onde retorno, de memória.


Hoje recordo os velhos dias de feira, que, ao tempo, se designava por mercado, que se realizava de quinze em quinze dias, em espaços que a tradição há muito fixara e cujo designativo remetia para o tipo de comércio que ali se fazia. Feira era só a Feira dos Santos, em Novembro, para a gente da aldeia. Ou a Feira de Ano, em Trancoso, onde também se ia. Ou a Feira Franca de Viseu onde se ia, na carreira.
Passo quase sempre no velho terreiro. Recordo as feiras da minha infância onde ia algumas vezes com meus pais.

Nesse tempo, fazíamos a pé essa curta légua de caminho que separa a aldeia da Sarzeda e a fronteira da vila que, ao tempo, se demarcava com o painel azul de azulejos implantado num murete ostentando o brasão do concelho que, no ano que passou, comemorou os novecentos anos de história.
E eram as voltas por essa geografia onde os pousos dos tendeiros de há muito estavam cativos.
A “feira dos bois”, num chão alargado, que o urbanismo novo rompeu. Mas eu ainda lembro a mansidão dos bichos, antes cativos da reverência de seus donos, que, medrosos da agulhada, que eles empunhavam como se cetro fosse; a “feira dos porcos” e a dos galináceos, lá ao pé, de asas atadas, coitados ou resguardados num cesto com rede.
Das tendas dos sapateiros me lembro, daquelas caixas oblongas, do festivo ensaio de experimentar uns sapatos novos que os pais me compraram para a comunhão ou o exame da quarta, como se dizia.
Aos meus olhos ainda ressaltam os painéis de veludo negro dos ourives de Cantanhede ou Gondomar, onde brilhava todo o ouro do mundo feito cordão, brinco ou anel, filigranas de encantamento seduzindo olhares de afilhadas ainda crianças e de madrinhas ternurentas, de moças da aldeia na idade núbil, de lavrador honrado espreitando correntes de relógio, de noivos escolhendo anel, que noivos havia que tinham de pedir anel emprestado.
E das tendas de panos, que ainda hoje povoam meus olhos as prateleiras armadas com as barras de fazenda, de veludo, de cotim, de riscado, de flanela, de pano-cru, de chitas e outros que não sei.
Ah! E as mesinhas armadas das doceiras com “doce da Teixeira” ,que o pai comprava sempre, rebuçados de mel, “santinhas de açúcar”, “beijinhos” de vária cor e garrafinhas de ginjinha caseira.
E, depois, as bancas de comer e de beber, quatro tábuas armadas em cavaletes usados, toalhinhas azuis ou vermelhas, aos quadrados e a gente sentada, e o cheiro a marrã no tempo dela, ou o salpicão que a mãe trazia numa bolsa de retalhos, e as fritas de trigo e ovos e a meia canada de vinho que o vendeiro servia numa caneca também de risca azulada e o trigo de quatro quartos que, na distância, ainda me sabe bem.
E os copos tilintando nas mãos de lavradores festejando o alvoroque, essa estranha designação dada a esse simbólico acto com que culminava a venda de uma junta de bois e que valia como se de documento de Notário se tratasse, de testemunhas valendo aqui os amigos de ocasião.


E as ciganas lendo sinas em troca de uma moeda, adivinhando nos traços da palma da mão os caminhos que nunca se cumpriam vida fora.
Um cauteleiro estendendo as cautelas, vendendo a sorte. Ceguinhos cantando trágicos romances de ocasião, desditas que vendiam escritas em folhetos de cordel e que eu, ainda menino, até comprei.
Ainda sei a história que num desses folhetos se contava. A triste história da rapariga de uma aldeia vizinha da minha que se apaixonara por um pastor e que uma das companheiras da aldeia, movida por doentios ciúmes, lhe sai ao caminho, em certa noite e a afoga num poço, pecado que nunca lhe perdoei.
E os vendedores de “banha-da-cobra”, que havia também.
Houve um, o primeiro, de que nunca me esqueci. Tinha seis anos. Fiquei ao lado de meu pai, que ali parou a escutar. Era um senhor importante na fala e no trajar. Era dono do automóvel parado ali ao pé e que tanto me impressionou que ainda o reconheceria se o visse num museu. Implantara no tejadilho a boca larga de um altifalante. E fez-se uma roda de gente. Lembro-me que o homem falava sem parar. Vendia caixinhas de comprimidos brancos para cura de reumáticos.
Não sei se o meu pai comprou a droga. Certo é que em breve se queria vir embora. E era eu que não queria sair da roda porque o embusteiro prometera que mostraria um monstro caído da Lua entre os rochedos de um descampado. E ali me demorei. Até que entendi que o homem me estava, como aos outros, a iludir. Não lhe perdoei o meu primeiro desengano.
Tinha seis anos. E às vezes pergunto a mim próprio porque é que não aprendi, de vez, a lição. Porque é que tanta vez ainda me deixo enganar!…
Lembro-me, às vezes, quando vou a Sernancelhe, dessa feira ou do mercado, como mais vezes a gente lhe chamava. E lembro-me, uma vez mais, do embusteiro.





como não gostar ? impossivel.
obrigada meu grande amigo Alberto Correia.