Portugal está em chamas desde a última semana de julho, quando deflagrou o primeiro grande incêndio florestal. Desde então, uma vasta extensão do território ficou reduzida a cinzas. As chamas consumiram habitações, instalações industriais, armazéns, maquinaria, cães, gatos, galinhas, gado e fauna silvestre. Duas pessoas perderam a vida. É este, para já, o balanço sinistro dos fogos que continuam a devastar o país.
O Presidente da República pediu contenção a jornalistas e partidos, sugerindo que não utilizem os incêndios como arma de arremesso na campanha eleitoral autárquica que se avizinha. Mas ainda não encontrou palavras para criticar o aparente desgoverno que o país testemunha: bombeiros a denunciar falhas dos comandos, autarcas a protestar contra a ineficácia dos meios, populações entregues a si próprias. Os aviões contratados pelo Governo permanecem no chão, o pedido de ajuda internacional foi tardio e as chamas avançam sem oposição eficaz.
Dizem-nos que estes megaincêndios são fruto das alterações climáticas e da “modificação da paisagem florestal” — um eufemismo conveniente para não assumir a praga dos eucaliptais que domina o território. A perceção que sobra é a de um governo à deriva, incapaz de agir à altura da tragédia. A ministra da Administração Interna, que deveria ser a voz firme da resposta, revela ignorância sobre o fenómeno dos fogos e mostra-se impreparada, fugindo às perguntas mais elementares dos jornalistas.
Já houve quem perdesse a paciência. Um autarca mandou os comandos da Proteção Civil “à merda” em plena revolta, e um cidadão, no meio das cinzas, resumiu o drama que viveu com uma frase que ecoa mais forte do que muitos relatórios oficiais: “Precisamos de mais cabras nos montes e de menos cabrões nos gabinetes.”




Excelente e oportuno texto.
Ando há semanas para escrever sobre o tema, mas é tanta a revolta, que as palavras em dispersão não assentam para servirem frases assertivas e brandas.
Não pode haver brandura. São demasiados anos a ver sofrimento de pessoas, animais e desolação da paisagem antes magnífica.
Classes políticas de décadas apartadas do interesse em servir as populações que as elegem. Só incompetência, maldade ou interesses esconsos podem justificar que nada se tenha aprendido com tanta calamidade. Que não haja planos, verbas, meios.
Ou deixar áreas desertificadas é um plano?…