É por isso estranho que, agora, várias capitais europeias insistam em que Volodymyr Zelensky e Vladimir Putin se sentem frente a frente, mesmo sem haver qualquer pré-acordo previamente negociado. O que poderiam dizer um ao outro, de útil e concreto, para terminar a guerra? A sensação que fica é que seria mais honesto desafiá-los para um duelo, à moda antiga: o vencedor decidiria o futuro da Ucrânia.
Outro aspeto merece atenção: a narrativa de que Donald Trump teria “retirado Putin do isolamento internacional”. De facto, logo após a invasão, a Europa e os EUA tentaram isolar a Rússia com uma sucessão de sanções e bloqueios comerciais. Mas o mundo é mais vasto do que o Ocidente. Hoje, a Rússia mantém relações mais próximas com a China e a Índia, reforçou laços com o Brasil e consolidou alianças no chamado Sul Global. Ostracismo? Nunca houve.
A polémica em torno do encontro entre Trump e Putin foi alimentada pelo argumento de que seria inaceitável receber um líder com um mandado de captura do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra, nomeadamente o rapto de crianças ucranianas. Isso equivaleria, dizia-se, a uma “lavagem de imagem” de Putin. O que quase ninguém referiu é que o mesmo aconteceu com Benjamin Netanyahu, que também tem contra si pedidos de detenção por genocídio na Palestina e, ainda assim, foi recebido repetidas vezes em Washington.
Mas há um detalhe fundamental: tanto os EUA como a Rússia não reconhecem jurisdição válida ao TPI. Nesse contexto, porque haveria Putin de ser detido em território norte-americano?
O caso revela uma contradição maior. O Ocidente continua a projetar a sua própria visão sobre o resto do mundo, ignorando que este já não se organiza em torno do eixo EUA–Europa. Pedir uma reunião entre Zelensky e Putin sem trabalho diplomático prévio é apenas mais um sinal de impotência política ou de hipocrisia. Quanto à acusação de “lavar a imagem” do presidente russo, só é convincente se for aplicada com a mesma bitola a outros líderes.
No fundo, tudo se resume a uma escolha: ou se procura um caminho realista para a paz, feito de negociações discretas, compromissos dolorosos e garantias mútuas, ou se insiste no teatro mediático de encontros impossíveis e indignações seletivas.



