COMO A UNIÃO EUROPEIA ESCORREGOU NA PRÓPRIA NARRATIVA

A recente cimeira em Washington Trump-Zelensky serviu como um espelho implacável para a União Europeia. A imagem refletida não é a de um bloco coeso e confiante, mas a de uma potência que, ao apostar tudo na demonização de figuras como Donald Trump e Vladimir Putin, compromete a sua própria soberania e relevância estratégica por muito tempo. A UE escorregou na sua própria baba, na narrativa pegajosa e simplista que criou e da qual agora não consegue libertar-se. Pelos vistos insiste em não arredar caminho para poder levantar-se.

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Antes e após a eleição de Donald Trump em 2016, a grande máquina política e mediática europeia dedicou-se à sua caricaturização. Trump foi pintado não como um político de ruptura do padrão estabelecido, com uma agenda “America First”, mas como uma anomalia perigosa. Essa postura, foi profundamente incauta. Ignorou-se uma realidade fundamental: Trump não é um acidente, mas a expressão de uma corrente substancial da sociedade norte-americana (e de parte do mundo) , cansada do globalismo e do custo percebido de alianças que, na sua visão, penalizam os EUA.

Agora, perante a realidade da sua presença revinculada, a UE vê-se numa posição de profunda vulnerabilidade. A aposta emocional, que mobilizou a opinião pública interna, deixou de fora a preparação para um cenário de negociação dura com um parceiro que não se rege pela sentimentalidade diplomática de Bruxelas. O resultado foi uma cimeira onde a Europa, que tanto criticou Trump, se viu forçada a abordá-lo com cautela, quase com súplica, para assegurar compromissos básicos de economia e segurança. As quedas abruptas nas acções do setor de armamento alemão e britânico após a cimeira são um sintoma claro deste pânico: a perceção de que o guarda-chuva norte-americano pode não ser tão fiável expôs a fragilidade da autonomia estratégica europeia.

A Narrativa Simplista sobre Putin e a Ucrânia

O mesmo mecanismo de simplificação aplicou-se a Vladimir Putin. Retratado como um ditador expansionista e irracional, a narrativa pública europeia omitiu convenientemente as complexidades que levaram ao conflito. Raramente se discutiu com profundidade o expansionismo contínuo da NATO para Leste, que Moscovo vê como uma quebra de promessas feitas após a queda do Muro de Berlim. Ignorou-se o papel da UE e de alguns dos seus Estados-membros na promoção de mudanças de regime, como o Euromaidan em 2014, que alteraram dramaticamente o equilíbrio geopolítico na fronteira russa.

A razão repetida de que Putin ambiciona “submeter a Europa até Lisboa” é um exemplo perfeito de como se cria um preconceito útil. É uma projeção dos medos europeus, não uma análise estratégica credível. A Rússia é a maior nação do planeta, com recursos naturais inimagináveis e uma densidade populacional baixíssima. A ideia de que cobiça uma UE superpovoada, assoberbada por regulamentação e com tensões sociais crescentes é, no mínimo, questionável. Esta narrativa, no entanto, foi um ovo galado que vingou: serviu para mobilizar a opinião pública para uma guerra apresentada como um bem contra o mal, silenciando o debate sobre os custos reais e os objetivos finais.

E o preço foi alto. A UE impôs a si própria um embargo económico à Rússia, uma medida que, muitos argumentam, prejudicou mais a economia europeia do que a russa, um custo pago docilmente pelos cidadãos. Pior ainda, em 2022, a UE e o Reino Unido alegadamente bloquearam negociações de paz nascentes entre Kiev e Moscovo, numa altura em que um cessar-fogo seria mais viável. Agora, o mesmo bloco exige um cessar-fogo, mas apenas para dar tempo à Ucrânia de se rearmar; este cinismo estratégico que não escapa a muitos.

A Projeção e o “Divide et Impera” Moderno

No cerne deste problema está um vício de fundo: a projeção. A elite europeia, habituada a trabalhar com medos e a manipular a vontade popular em vez de a informar com factos, projetou os seus próprios métodos e ambições sobre a Rússia. A rectórica sobre “democratizar” a Rússia escondia, muitas vezes, a velha doutrina colonial de “dividir para reinar”, a esperança de que uma Rússia fragmentada em estados menores seria mais fácil de controlar e dos seus recursos mais fáceis de aceder.

A estratégia da NATO de impor valores à força, apoiando revoltas e mudanças de regime em nome da democracia, é percebida por Moscovo e por outros BRICS como a continuação do imperialismo ocidental por outros meios, um imperialismo mental, como bem se pode observar se temos em conta anúncios de funcionários da EU e da NATO.

A Hora da Soberania do Real

A UE encontra-se agora numa encruzilhada humilhante. Zelensky, outrora apresentado como herói indiscutível, é cada vez mais uma “bola de jogo” num conflito cujo fim parece cada vez mais distante. Putin, o “diabo” absoluto, é agora recebido com tapete vermelho em capitais mundiais, forçando a Europa a um realinhamento pragmático para o qual não está preparada.

o Presidente da China e o Presidente da Rússia em Pequim

O grande desafio para a UE não é Trump nem Putin. O verdadeiro desafio é superar a sua própria infantilização política, a dependência de narrativas emocionais e a arrogância de acreditar que pode ditar a ordem mundial através da projeção do seu poder normativo ou dos seus “valores mais altos”. Para evitar escorregar de novo na sua própria baba, Bruxelas precisa urgentemente de uma visão de estadista: realista, soberana, baseada em interesses nacionais claros e no respeito pelo mundo multipolar que emerge. Só assim poderá deixar de ser um actor que reage às crises e passar a ser um que as previne. O debate sério que precisamos deve começar por aqui.

O Espelho da Química Velha

A União Europeia assemelha-se a um alquimista que, obcecado por transformar o mundo à sua imagem, passou décadas a misturar os elementos da sua própria narrativa, uma pitada de medo, uma medida de demonização, um litro de superioridade moral. O resultado não foi ouro, mas uma cola pegajosa e ilusória, uma “química velha” com a qual revestiu os seus espelhos.

Ao olhar para estes espelhos, a UE não via o mundo real, com as suas complexidades e nuances. Via apenas o reflexo que ela própria tinha fabricado: um Trump caricatural, um Putin demoníaco, e uma imagem heroica de si própria como bastião incontestável da virtude.

O problema é que a realidade tem o hábito teimoso de não se deixar colar. Quando Trump regressou, não era o monstro do espelho, mas um negociador pragmático. Quando Putin resistiu, não era o demónio expansionista, mas um adversário geopolítico astuto, a receber tapete vermelho noutras paragens. A cola ilusória começou a soltar-se, e os espelhos, um a um, a caírem e a partirem-se.

Agora, a UE não se debate apenas com os estilhaços no chão. Debate-se com o facto de ter ficado presa no próprio adesivo que fabricou, escorregando no resíduo pegajoso da sua própria miragem. A única forma de se libertar não é procurar cola nova para criar outro espelho. É ter a coragem de olhar, finalmente, para a superfície dura, lisa e implacável da realidade. Só assim poderá deixar de ser o alquimista iludido e passar a ser o arquiteto de um futuro soberano.

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