De Gaza chegam-nos a toda a hora imagens de gente morta, crianças trucidadas, crianças que morrem de fome, bombas que explodem, hospitais destruídos, gente em ruínas num território arrasado. Imagens da aflição por uma malga de sopa ou uma saca de farinha. De Gaza, o que nos chega é tudo horrível, desumano, imperdoável.
Às vezes, chegam histórias que fogem à carnificina, mesmo se nos falam da capacidade de resistir a um genocídio.
Taha Hussein Abu Ghali tem 43 anos, é um artista plástico. É um daqueles casos cada vez mais raros de alguém que tem o núcleo familiar ainda intacto. Vive com a mulher e os cinco filhos. Até agora têm tido sorte, nenhuma bomba os encontrou ainda, nenhum sniper os viu.
Desde que a vingança israelita foi decretada, já tiveram de mudar de sítio 11 vezes. Fugiram da casa que tinham para se irem refugiando em escombros, tendas, sempre em fuga ao menor indício de perigo. Mas é tudo uma questão de sorte.
Taha é artista plástico e foi professor de arte. Agora que Israel destruiu todas as escolas que havia em Gaza, Taha já não ensina a sua arte, nem sequer consegue continuar a criar. Mas tem transportado consigo todos os quadros que guardava em casa quando a guerra rebentou.

As circunstâncias em que vive, ditaram o seu novo projeto, a que ele com ironia chamou “Pão das Cinzas”. Para fazer pão tem de ir arranjar farinha e água. E lume. O fogo que cai dos aviões de guerra não lhe serve para a fogueira e dos escombros sobra pouco que se possa aproveitar para a fogueira, uma vez que toda a gente na Faixa de Gaza usa seja o que for que arda para cozinhar.
Taha decidiu começar a desmantelar os seus quadros. A cada refeição, uma moldura transforma-se em cinzas, uma tela é rasgada em pedaços que sirvam de acendalha, para que haja pão para os cinco filhos e a mulher. E para ele.
“Eu tenho cinco filhos. Preciso alimentá-los e protegê-los”, disse ele ao jornalista da TRT World (canal internacional turco que tem correspondentes em Gaza).
“A arte pode ser recriada, mas se eu perder uma criança, não posso trazê-la de volta”, diz Taha.
Na rede Instagram, Taha Hussein Abu Ghali mostra-nos tudo.



