SEMPRE QUE O OUTONO VEM

MEMÓRIAS DA INFÂNCIA

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O texto que ora se apresenta foi escrito muito antes dos últimos dias do verão que acabou de passar, esses terríveis e assustadores dias que bem pareciam de um findar de mundo, quando as gigantescas chamas de um brutal incêndio ultrapassaram os sagrados limites da aldeia e desaguaram à beira das moradas assustando os moradores.

Traziam já, por despojos, as cinzas de campos cultivados, de vinhas cujos cachos maduros já não puderam ser vindimados, de pomares de macieiras abrasados, de soutos, a principal riqueza destas terras, dizimados, soutos de castanheiros, alguns dos quais tinham mais de quinhentos anos e que parecia terem ainda todo o vigor de uma longa idade em começo.

O texto a seguir apresentado fica apenas como dolorosa memória de uma paisagem antiga e humanizada de uma aldeia habitada, a minha aldeia – a Sarzeda, no concelho de Sernancelhe – fica apenas como cinza de um corpo que o fogo sacrificou. Memória.

Sempre que o Outono vem os deuses antigos estendem sobre a terra uma paz patriarcal, carregam de orvalhadas as manhãs para que os frutos apeteçam na estreme doçura com que o sol de Verão os caldeou, para que a terra receba, festiva, as sementes do pão que breve irá nascer.

Sempre que o Outono vem, Proserpina desce, magoada, aos escuros corredores do Hades onde tem fatal morada, a mão desprendida da mão de Deméter, sua mãe, uma e outra magoadas.

Sempre que o Outono vem eu desço à minha infância, ao grato chão da minha aldeia, tomo a sacola dos livros e ponho-me a caminho da Escola, – “Bom dia, Senhora Professora”!…, contas de somar fáceis de fazer, nomes de rios aprendidos e onde nunca fui nadar, histórias de reis que tão mal nos souberam governar, caminhos de ferro onde não cheguei a ter bilhete para andar.

Sempre que o Outono vem desço, à tarde, à quinta de meu pai com o bonito nome de Quinta do Valbom, mulheres andam cantando com cestas de vindima, na eira há alqueires de milho espalhados a secar, os ouriços começam, no souto, a dourejar, as maçãs perfumam, dentro de casa, todo o ar, barba de milho, flor de tília e sabugueiro, alfazema, que minha mãe guardava em saquinhos de riscado, e os macios feixes de linho, assedado, prontos para a roca e para fiar.

Sempre que o Outono vem eu lembro os meus amigos dos tempos de criança, os que partiram para o Brasil ou para França, as vívidas memórias dos jogos no Adro, bilharda ou pião, escorregas de giesta nos outeiros, boinas espanholas cheias de cerejas ou de amoras, que essas colhíamos Verão fora.

Sempre que o Outono vem apetece-me acender outra vez fogueiras de bela-luz e rosmaninho aos deuses antigos.

Sempre que o Outono vem… vêm à memória estas lembranças.

Mais agora quando, há pouco, nos parecia ter chegado o fim do mundo.

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