Início Site Página 38

NETANYAHU É CORRUPTO

0

O primeiro-ministro Netanyahu está envolvido num escândalo de corrupção, acusado de receber dinheiro de países árabes para facilitar negócios e cedência de tecnologia entre Israel e esses países.

O pedido de perdão presidencial é um extenso documento de 111 páginas, onde os advogados de Netanyahu justificam o alegado crime por “motivos de interesse nacional”.

O simples facto de existir um pedido de perdão, mesmo antes de uma decisão judicial (o caso anda nos tribunais há já cerca de 5 anos), revela que Netanyahu cometeu mesmo o crime de que é acusado. É uma espécie de confissão, como se o próprio estivesse a dizer “eu sou corrupto, mas desculpem lá”.

Segundo o The Guardian (o artigo é assinado pelo correspondente em Jerusalem), o gabinete do Presidente confirmou ter recebido o documento e informou que Herzog irá analisar a questão cuidadosamente, ouvir opiniões e decidir em conformidade.

Na opinião pública israelita e nos meios políticos, não está a ser considerado normal que exista um pedido de perdão antes de haver uma condenação. Além disso, segundo afirma o autor do artigo, um perdão presidencial preventivo será difícil de justificar e não deixará de ter consequências políticas. Seria necessário que Netanyahu assumisse publicamente a culpa, coisa que o primeiro-ministro isrelita não deve estar disposto a fazer.

Na televisão, Netanyahu afirmou mesmo que “está interessado“ em provar a sua inocência, mas que o “interesse nacional” exige que tome “um atalho” de forma a terminar com um caso que já se arrasta desde 2020 nos tribunais.

Israelitas protestam após Netanyahu ter solicitado um pedido de perdão para si próprio ao Presidente Isaac Herzog. O primeiro-ministro de Israel é investigado em três casos de corrupção e suborno, que podem levá-lo a até 10 anos de prisão caso seja condenado, Telavive 1 de dezembro 2025

Os críticos de Netanyahu dizem acreditar que a guerra em Gaza foi provocada para que Netanyahu tivesse argumentos de “interesse nacional” para pedir que o processo seja arquivado.

Um esquema que a oposição política israelita diz que jamais aceitará. Por exemplo, Yair Lapid, do Partido Yesh Atid, publicou nas redes sociais uma mensagem que enviou ao Presidente Herzog, onde diz que “Netanyahu não pode ser perdoado, sem antes admitir a culpa, demonstrar arrependimento e retirar-se imediatamente da vida pública”. Yair Golan, do partido Democrático, sentenciou que “só os culpados procuram perdão” e aconselhou Netanyahu a reconhecer que cometeu os crimes de que está acusado.

Para os que dominam a língua inglesa, fica aqui o recorte do artigo publicado pelo The Guardian.

DOIS HOMENS ENTRE MUNDOS

0

Ao ler o livro “Um Oceano, Dois Mares, Três Continentes” veio-me à memória a história de um outro extraordinário angolano do século XVII, o príncipe Lourenço da Silva Mendonça.

Alguns de vós talvez se lembrem, ou talvez não, de uma crónica que escrevi na Guiné em 2023 sobre Lourenço da Silva Mendonça. Resumidamente, era sobre um outro homem nascido em Angola, que também cruzou mares, oceanos e continentes, tal como N’Vunda uns anos antes. Lourenço saiu jovem de Angola, foi para o Brasil, chegou a estar no Quilombo de Palmares e depois seguiu para Portugal, estudou em Braga e em Lisboa, um percurso tão semelhante ao de Nsako N’Vunda que cheguei a pensar que poderiam ser a mesma pessoa.

A história do príncipe Lourenço é digna de uma poema épico Depois de ter concluído os estudos em Portugal, apresentou um caso contra a escravatura ao Tribunal do Vaticano, em 1684. O caso foi um marco histórico e levou à condenação da escravatura pelo Papa dois anos depois, em 1686. O Papa Inocente XI, nomeou-o Procurador-Geral das “Irmandades dos Homens Pretos”, em Lisboa.

Importa sublinhar que Mendonça fez isto um século antes da Revolução Francesa, que dizem inspirar o abolicionismo, e quase 150 anos antes do Parlamento britânico ter abolido a escravatura (1833).

Nsako N’Vunda e Lourenço da Silva Mendonça, percursos paralelos

António Manuel Nsaku N’Vunda e Lourenço da Silva Mendonça foram visionários antes do tempo. Predestinados a grandes feitos. Não se conheceram, nunca se cruzaram, mas percorreram os mesmos oceanos e as mesmas calçadas das ruas de Lisboa e Roma. N’Vunda morreu no Vaticano em 1608 e Lourenço esteve em Roma entre 1670–1680.

Embora não exista prova documental de um vínculo familiar direto, ambos pertenceram à nobreza cristianizada de Angola, foram educados em instituições católicas, ambos eram fluentes em línguas europeias, ambos se envolveram nas redes políticas entre M’Banza Kongo, Luanda, Lisboa e Roma.

A trajetória de Mendonça — tal como a de Nsaku N’Vunda — só é possível graças à posição social elevada dessas famílias africanas que, desde o século XVI, ocupavam cargos administrativos, eclesiásticos e diplomáticos.

Ambos, Nsaku N’Vunda e Lourenço da Silva Mendonça, inscrevem-se na tradição diplomática africana independente, iniciada pelo Reino do Congo no final do século XV para dialogar diretamente com o papado e com a monarquia portuguesa.

Nsaku N’Vunda inaugurou a presença diplomática africana permanente na Santa Sé, como embaixador oficial do rei Manicongo D. Álvaro II. Lourenço da Silva Mendonça, 60 anos depois retomou essa rota diplomática para denunciar à Santa Sé e ao rei de Portugal os abusos da escravatura praticada pelos europeus, nomeadamente os portugueses. O caso levado perante o Tribunal do Vaticano coloca-o como um dos primeiros ativistas abolicionistas conhecidos da história.

Lourenço, herdeiro diplomático e político de Nsaku N’Vunda

Em suma, ao comparar os dois, percebe-se que ambos viveram tensões semelhantes: eram africanos formados na tradição cristã, navegando entre culturas, línguas e poderes que muito raramente davam palco a vozes do continente africano. Cada um, no seu tempo e em seu modo, usou as estruturas da igreja para defender a dignidade do povo.

N’Vunda procurou reconhecimento diplomático e proteção ao reino do Kongo. Mendonça confrontou diretamente o sistema esclavagista que naquele tempo dominava o mundo atlântico. O primeiro personifica o ideal de embaixador africano e é citado, frequentemente, como modelo da diplomacia angolana. O segundo, personifica o papel de intelectual e religioso, um africano a defender os direitos humanos em Roma.

Ambos, reivindicaram direitos e reconhecimento para os africanos. Resumindo, quem quiser aprender, tem agora dois livros para ler.

“Lourenço da Silva Mendonça and the Black Atlantic Abolitionist Movement in the 17th Century”, de José Lingna Nafafé.
Um Oceano, Dois Mares, Três Continentes”, de Wilfried N’Sondé

O PRETEXTO ESTÁ MADURO

0

Há coisas que já nem surpreendem. A narrativa disseminada pelos média segundo a qual os Estados Unidos se preparam para atacar território venezuelano – talvez até Caracas — para “combater o tráfico de droga” é uma dessas pérolas de propaganda que Washington renova sempre que precisa de justificar mais uma operação de mudança de regime. É como o velho espantalho das “armas de destruição em massa”, versão latino-americana, passado na trituradora e reembalado com o selo de “guerra às drogas”.

Segundo os EUA, Nicolás Maduro lidera cartéis transnacionais, responsáveis por encharcar o mercado americano de cocaína. Lula da Silva e Gustavo Petro levantam a sobrancelha, mas o resto da comunidade internacional, acobardada, parece preferir o silêncio.

Ninguém no seu perfeito juízo acredita que Presidentes latino-americanos andem a comandar lanchas rápidas no mar das Caraíbas ou a supervisionar carregamentos clandestinos para Miami. Mas a narrativa serve: é simples, moralista, hollywoodiana. Como todas as histórias que o público americano está treinado para consumir.

Execuções no mar alto: justiça ou pirataria com bandeira estrelada?

O mais chocante, porém, não é a narrativa farsola – é o que já está em curso. Nas últimas semanas, dezenas de pessoas foram executadas extrajudicialmente no mar alto por militares dos EUA. A justificação? Eram traficantes. Não houve julgamento, nem identificação confirmada, nem direito de defesa. Apenas apontaram, dispararam e afundaram embarcações ao largo da costa venezuelana.

É curioso observar a facilidade com que alguns fardados conseguem dormir depois de cumprir ordens que violam todas as leis da guerra, do mar e da simples humanidade. Talvez baste a convicção de que são “do lado do bem”. Ou talvez a disciplina militar funcione melhor quando o inimigo é pobre, distante e latino.

O déjà-vu de Noriega

A história, essa senhora teimosa, repete-se. Há mais de trinta anos, Manuel Noriega, Presidente do Panamá, então aliado de Washington, foi transformado de um dia para o outro em narcotraficante número um. A invasão foi rápida, eficiente e “justificada”. Noriega foi levado para uma prisão nos EUA, de onde foi transferido para uma outra prisão em França e, mais tarde, para uma prisão no Panamá, onde acabou por morrer, com cancro. Hoje, é largamente consensual que a súbita demonização não teve nada a ver com cocaína, mas sim com a ousadia do Presidente panamiano em tentar libertar-se do controlo americano sobre si próprio (Noriega foi agente da CIA) e o canal do Panamá.

Se substituirmos “canal do Panamá” por “reservas petrolíferas” e “influência regional”, e Noriega por Maduro, o guião é praticamente o mesmo. Mudam os protagonistas, mantém-se a doutrina: qualquer Presidente da região que ponha em causa a hegemonia americana é imediatamente promovido a ditador sanguinário, narcotraficante ou ameaça global.

O silêncio cúmplice do mundo

Mais perturbante ainda é a anemia diplomática da comunidade internacional. Entre Estados que dependem da proteção americana e outros que receiam o seu poder económico, sobra pouco espaço para indignações morais. Brasil e Colômbia – ironicamente, países que conhecem de perto o efeito destrutivo da “guerra às drogas” – foram quase os únicos a questionar a legitimidade deste delírio bélico. O resto cala-se e observa.

Talvez porque já interiorizaram que, quando os EUA decidem intervir, o debate internacional resume-se a um coro de desculpas, lamentos tardios e relatórios da ONU publicados quando os factos consumados já não têm retorno.

A narrativa perfeita para esconder o óbvio

A verdade nua e crua é simples: as intervenções americanas raramente têm a ver com os pretextos apresentados. Têm a ver com controlo geopolítico, influência estratégica, recursos naturais. Têm a ver com a insistência em manter América Latina, África e Médio Oriente como quintais disciplinados do império.

E têm, sobretudo, a ver com a convicção profundamente enraizada em Washington de que qualquer vida fora das fronteiras americanas vale menos – logo, é sacrificável.

Maduro pode ser autoritário, populista, desastrado na gestão económica. Mas isso não transforma automaticamente os EUA em libertadores altruístas, nem lhes concede mandato para bombardear capitais estrangeiras ao gosto do dia.

UM DESABAFO SOBRE DEMOCRACIA E ÉTICA NO MEU PAÍS E NA EUROPA

0

Quem chega de fora e aqui pousa o olhar, sente primeiro um espanto mudo. O que vejo? A tragédia do potencial subjugado: um povo de seiva humana, facultoso e laborioso, cuja energia vital é drenada por um destino imposto e cujo fado paradoxal o ancorou no breve sonho do dia-a-dia, enquanto o seu horizonte mais ardente se transformou no mapa da partida.

Um país que se assemelha a um grande jardim infantil, onde as vozes mais altas não são as da razão, mas as do capricho. No centro deste recreio, sente-se um cadáver em putrefação, o cadáver da ética pública que é adornado com as fitas coloridas do discurso fácil e dos interesses mesquinhos. E o povo, confundido pela cantiga de embalar de uns e outros, vagueia sem rumo, apontando o dedo ao vizinho, pois foi despojado da sua única bússola que seria a Esperança.

Os instalados deste regime, cimentado em Bruxelas, vivem do engano, e o povo, tragicamente, parece não ter outra sorte que querer ser enganado. É um pacto tácito e doentio. Nos púlpitos da democracia, os mais corruptos são os que mais gritam, advogando por um Estado sem governação, para que o seu poder, absoluto e divorciado da justiça, permaneça inquestionável. Têm o poder, e por isso, aos olhos deste tempo enviesado, passam a ter razão. A autoridade que lhes foi emprestada pelo crédito do povo é usada para provar o seu cinismo final: a crença de que tudo, inclusive a consciência, se compra com dinheiro.

A Metamorfose dos Justos

Há uma tragédia íntima que se desenrola nos corredores do poder: a metamorfose da alma. Vi pessoas boas mudarem de casaca com uma facilidade que envergonharia um camaleão. Ao tocarem no número mágico do contribuinte, sentem-se absolutos, transfigurados. Já não os reconheço. O poder não os corrompeu; substituiu-os. E assim, a coisa pública torna-se um palco onde quem entra deixa à porta não só o casaco, mas a própria integridade.

Faltam-nos personalidades, sobejam políticos. Não temos homens de Estado, temos administradores da miséria, subordinados a um ritmo distante, coreografado em Bruxelas. São dançarinos do poder, abraçando-se em cena enquanto lançam um olhar cínico ao povo subordinado. O seu currículo não inclui os princípios cristãos da caridade ou qualquer noção de ética que não seja a do momento oportuno.

A República sem Virtude e o Espírito Adormecido

Platão sonhava com filósofos a governar a República, fundamentando-a na Virtude. Hoje, a virtude é um termo estranho, um anacronismo perigoso. Vivemos num regime que fomenta a banalidade, que difama a honra porque ela seria um impedimento à construção de uma sociedade sobre alicerces fúteis e mecanicistas. Destrói-se o senso comum, atafulham-se as cabeças com ideias individualistas, rouba-se a capacidade para o discernimento. Quase já não se estuda filosofia nem ética nos liceus; estuda-se o útil, o momentaneamente oportuno, preparando gerações de técnicos eficientes e cidadãos passivos.

Esta destruição gera uma paralisia existente. As ações e as tomadas de posição são adiadas, substituídas por um rosário interminável de lamentações. E eis a ironia mais cruel: este murmúrio queixoso tornou-se um dos sustentáculos do sistema. Confere a ilusão de uma vida ética, a sensação de que se está a criticar, quando na verdade se está apenas a gemer, inofensivamente porque disto se ri quem manda. A crítica verdadeira, que é a presença viva da pessoa na sociedade, capaz de formular ideias e soluções, é substituída pelo comentário primário, pelo “a favor” ou “contra” que tudo transforma em espetáculo e aplauso.

O Despertar das Consciências: Do Biótopo à Floresta

Uma sociedade consciente não nasce de um decreto, mas de consciências unidas. A consciência individual, formada na luta e no cultivo interior, precisa de se expressar em grupos que não se circunscrevam às meras necessidades económicas e políticas.

Numa sociedade regulada por interesses, a sociedade civil deve organizar-se em grupos de interesse que exijam, simplesmente, humanidade, paz e justiça. Tal como os sindicatos defendem o pão, estes grupos defenderão a alma. Uma opinião sensata só pode nascer da observação de todas as opiniões, um contraponto ao consentimento público fabricado pela retórica dos meios de comunicação, que forjam a opinião no sentido desejado por Lisboa e Bruxelas.

Este teatro da violência simbólica, onde os dançarinos do poder encenam a nossa realidade, só cairá quando o espírito crítico despertar. Esse espírito não é um luxo intelectual; é o antídoto para a vida manietada entre a remuneração e o consumo. É a recusa em ser apenas um detergente social que limpa a sujidade dos interesses, prolongando-lhes inconscientemente a atividade.

O cadáver da ética pública está à vista. Cabe a nós decidir se continuaremos a adorná-lo com fitas, ou se, finalmente, o enterraremos para semear algo novo no terreno que ele ocupa. A exploração começa no exterior, mas a libertação começa no interior, no cultivo de um espírito que se recusa a ser enganado. A necessidade de o explorar em si não é uma sugestão; é, neste momento da história, um imperativo de sobrevivência.

LIBERTEM OS MÉDICOS

0

Corre nas redes sociais um abaixo-assinado pela libertação do médico Hussam Abu Safiya e de outros médicos, encarcerados pelos militares de Israel. Há suspeitas de que Abu safiya tem sido torturado, pelos depoimentos de outros detidos entretanto libertados e pelo que o seu advogado transmitiu das duas únicas oportunidades que teve para estar com Abu Safiya.

Estamos a falar de um médico pediatra, diretor do Hospital Pediátrico Kamal Adwan de Gaza, detido em dezembro de 2024, na sequência de um longo cerco e da lenta destruição das instalações onde trabalhava para salvar vidas de crianças palestinianas feridas nos bombardeamentos ou pelos tiros dos snipers militares.

Imagens recentes provenientes de Gaza mostram o estado em que ficou o Hospital Kamal Adwan, onde o doutor Abu Safiya trabalhava.

Este médico é testemunha dos crimes de guerra praticados pelos militares israelitas. Ele e os outros 90 médicos palestinianos que também estão encarcerados em várias cadeias do regime sionista israelita. Todos eles, testemunhas credíveis do horror imposto à população civil da Faixa de Gaza.

Os apelos para a libertação dos médicos palestinianos têm origens diversas. Também a Amnistia Internacional tenta pressionar as autoridades israelitas e a opinião pública para esta questão. Um médico, um enfermeiro, um socorrista, são profissionais que salvam vidas e estão ao abrigo de leis internacionais que deveriam impedir que fossem alvo de ações militares. Israel, no entanto, há muito que se lançou numa campanha militar assassina, violadora de todos os convénios que definem crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

imagem da campanha da Amnistia Internacional

Abu Safiya está detido sob “detenção administrativa”, um formato extra judiciário que permite detenções por tempo incerto, sem acusações ou julgamento, sistema sob o qual estão mais de 5.500 detidos palestinianos, incluindo médicos, jornalistas, crianças e mulheres.

Se quiser subscrever o abaixo-assinado mencionado no início do artigo, siga este LINK.

Um documentário, com legendas em inglês, do canal Al Jazeera sobre o sucedido com este médico pode ser visto neste LINK.

frame do documentário The Disappearance of Dr. Abu Safiya

O PRINCÍPIO DO FIM DO SNS

0

O Governo vai descentralizar uma parte da política de saúde e criar vice-presidentes exclusivamente dedicados a esta área na orgânica das cinco Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR). Esses dirigentes vão decidir sobre as grandes obras e planeamentos locais de saúde pública. Na prática, os presidentes das Unidades Locais de Saúde (ULS) passarão a tratar de alguns dos principais temas com o vice-presidente da CCDR da sua região, em vez de ser com dois organismos centralizados: a Direção Executiva do SNS e a Direção-Geral da Saúde (DGS).

Num quadro de intenções – hipócritas – de reforma da administração pública, com um ministro ‘faz de conta’, o governo, além de ter criado 89 grupos de trabalho, aumenta a confusão na gestão da saúde e do SNS, ao criar estes ‘ministrinhos’.

Mas tudo isto não passa de um jogo de sombras em que o governo, a mando dos interesses dos grupos privados da saúde, visa acabar com o SNS e entregar, numa bandeja de prata, a esses grupos, os hospitais públicos e os dezassete mil milhões do orçamento do Estado.

A estratégia até é simples, «simplória mesmo, canhestra», como o meu patrono gostava de chamar às habilidades dos saloios armados em espertos: lança-se a confusão na gestão do SNS, nomeia-se um ‘coronel’, para combater a corrupção e o desperdício (já agora alterem o Código Penal para integrar o ‘desperdício’ no catálogo dos crimes económicos) e cria-se a percepção de que a corrupção, com o aumento de denúncias anónimas, mesmo que infundadas, está por todo o lado a corroer o SNS. Depois vem a solução: este SNS está corrompido, incapaz de responder às necessidades dos portugueses (enchem com a boca com esta preocupação e abrem os bolsos para as prebendas expectadas) e, como tal, há que acabar como ele, erguer um novo serviço de saúde, transformar os hospitais públicos em PPP, numa fase inicial, e depois privatizá-los, transferindo o orçamento da saúde, hoje de dezassete mil milhões, amanhã logo se vê, para os grupos privados. O resto, tudo o resto, é conversa para enganar os tolos.

O Presidente Sem Fronteiras

0

Bernardino Machado nasceu no calor do Rio de Janeiro, em 1851, filho e neto de emigrantes portugueses. Aos nove anos, cruzou a primeira fronteira — o oceano— levando na bagagem as recordações de brincadeiras ao sol tropical e um sonho português: as colinas verdes de Joane, a terra natal do pai.

O pai de Bernardino, tendo feito fortuna no Brasil, juntamente com outros brasileiros de “torna-viagem”, investiu na sua terra de origem. Mandou construir o “Palacete dos Machados” em Vila Nova de Famalicão, segundo o estilo arquitetónico que ficou conhecido como “casa de brasileiro”. Foi nesta casa que Bernardino passou a sua juventude. No interior, os tetos trabalhados em estuque, incluíam pinturas que recordavam as paisagens tropicais brasileiras da sua infância.

Ambicioso, aos quinze anos, já estudava em Coimbra. Tornou-se o mais jovem catedrático de Filosofia da Universidade.

Bernardino Machado, à esquerda ainda estudante de Matemática e Filosofia na Universidade de Coimbra, à direita já doutorado em Filosofia pela mesma universidade

Mas Bernardino queria mais do que ideias: queria ação. Aos vinte e um, optou oficialmente pela nacionalidade portuguesa e entrou na política. Foi ministro, embaixador de Portugal no Brasil, o país que o viu nascer, e Presidente. Em cada função política que ocupou, Bernardino procurava romper fronteiras e aproximar mundos diferentes.

No princípio do século passado viajar — principalmente além-fronteiras — não era ainda uma rotina, incluindo para os chefes de Estado. Na jovem Républica Portuguesa, a primeira viagem oficial ao estrangeiro foi organizada pelo Presidente Bernardino Machado, em 1917, no contexto da participação portuguesa na I Guerra Mundial. Ele quis visitar o Corpo Expedicionário Português, e foi recebido também pelos chefes de Estado de Espanha, França, Reino Unido e Bélgica.

Num período em que os submarinos alemães constituíam uma ameaça à navegação, e em que viajar de automóvel era difícil, o comboio foi a escolha óbvia para a primeira viagem presidencial. O comboio presidencial, partiu do Rossio e atravessou a fronteira em Vilar Formoso, onde fez uma breve paragem, com grande pompa.

Mas a política é um terreno movediço. Bernardino duas vezes subiu à presidência; duas vezes foi derrubado. Exilado em França, voltou a atravessar a fronteira de Vilar Formoso e, ao mesmo tempo a linha invisível entre o poder e o esquecimento.

Bernardino Machado a bordo do comboio que o vai conduzir ao exílio em Paris, na sequência do golpe de Estado de Sidónio Pais, em 1917

KIEV A ARDER

0
fotomontagem

De repente, toda a gente descobriu que há corrupção na Ucrânia. Como se fosse notícia. Como se décadas de clientelismo, oligarquias e verbas evaporadas tivessem sido suspensas por decreto no dia em que a Rússia invadiu. O Ocidente, que precisava de um herói puro para a sua narrativa, fingiu não ver. Agora, porém, o fogo já é demasiado visível e o cheiro a fumo tornou-se impossível de ignorar.

Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia e o Ocidente decidiu apoiar o regime ucraniano na guerra, que se fala de desvios de verbas e, principalmente, de armamento para o mercado negro. A cifra destas eventuais ilicitudes atingirá muitas centenas de milhões de euros e as alegações apontam para a generalidade dos altos dirigentes ucranianos, incluíndo Zelensky. Até agora, as suspeitas foram menosprezadas, o falatório tem sido atribuído à contra-propaganda russa. Mas, agora, talvez a percepção esteja a mudar…

A QUEM INTERESSA ENFRAQUECER ZELENSKY

A queda do chefe de gabinete de Zelensky, alvo de buscas anticorrupção, foi o momento em que a cortina caiu. Não estamos a falar de um burocrata menor: é a cozinha presidencial que está sob investigação. Mas o detalhe mais interessante está na coincidência temporal: esta mobilização súbita das autoridades anticorrupção coincide com pressões crescentes dos EUA para que Kiev aceite discutir um cessar-fogo. Não antes. Não depois. Agora.

E como por milagre, organismos antes inofensivos surgem agora musculados, eficazes, hiperactivos. Há quem diga que esse músculo vem de Washington. E não é um palpite descabido: a luta contra a corrupção é, historicamente, uma ferramenta conveniente da diplomacia americana. Limpa o que precisa de ser limpo e torce o braço a quem precisa de ser torcido.

A dúvida que ninguém quer formular em voz alta é simples: estamos perante uma purga moral ou um trabalho encomendado? E há outra, mais incómoda ainda: estas investigações servem a justiça ou servem a estratégia?

recorte da notícia do Finantial Times sobre a queda do chefe de gabinete de Zelensky
recorte da notícia da Reuters sobre o envolvimento do ministro ucraniano Rustem Umerov nos casos de corrupção que estão a ser investigados

Para o Ocidente, admitir que o governo ucraniano está mergulhado em esquemas milionários será uma derrota política. A narrativa construída desde 2022 será uma mentira exposta. Por isso, a palavra de ordem é contenção de danos: apresentar as investigações e os afastamentos de dirigentes como prova de maturidade democrática, enquanto se evita qualquer explosão que comprometa a continuação da ajuda militar.

A Rússia, claro, aproveita cada detalhe como ouro propagandístico. Não precisa de inventar grande coisa, basta copiar e colar o que está realmente a acontecer. E o impacto na opinião pública ocidental é evidente: cada escândalo enfraquece a convicção, mina a solidariedade, oferece munição aos que defendem cortar o apoio.

No fim de contas, a verdade pode ser menos romântica do que a narrativa de guerra quis fazer crer. A guerra não inventou corrupção na Ucrânia. Apenas lhe deu um orçamento muito maior.

-/-

(outros artigos sobre o mesmo tema: CORRUPÇÃO EM UCRANIANO É КОРУПЦІЯ; ZELENSKY E A CORRUPÇÃO)

QUEM TEM CU…

0

Segundo a versão mais cinematográfica, na madrugada de 29 de novembro de 1807, Lisboa acordou envolta numa névoa de pânico. As naus rangiam no Tejo, as pratarias iam às costas de criados ofegantes, padres arrastavam crucifixos, e a corte empacotava o que podia enquanto o povo via o seu rei fugir.

As fontes históricas não poupam. Para o Moniteur Universel, D. João era um “covarde”. Para o Marquês de Alorna, um soberano sem honra. Para Alexandre Herculano, um exemplo de “pusilanimidade”. Ficou a imagem de um rei que abandonou o país para salvar a pele.

Mas como acontece com frequência na História de Portugal, a realidade é ambígua. A historiografia oficial construiu outra versão: a de que a transferência da corte para o Brasil foi uma jogada estratégica, quase visionária, que salvou a independência portuguesa num tabuleiro europeu dominado por um Napoleão imparável. Portugal, militarmente incapaz de resistir, teria apenas duas hipóteses: ser ocupado ou deslocar a soberania para onde a marinha britânica pudesse protegê-la.

Entre estas duas narrativas há o território cinzento da política. D. João não partiu apenas por medo; partiu também porque as circunstâncias não lhe davam muitas alternativas. E, no entanto, o povo que ficou, esse, não via geopolítica: via um rei que se evaporava no nevoeiro, deixando para trás um território sem governo, entregue ao saque francês.

Mais interessante ainda é o que veio depois. Portugal sobreviveu, mas a decisão que muitos consideraram cobarde desencadeou o princípio do fim do império português. A corte no Rio abriu os portos, modernizou a administração, elevou o Brasil a Reino, e transformou a colónia tropical na capital do império. E quando D. João, já velho, regressou a Lisboa, deixou no trono do outro lado do Atlântico o seu filho, Pedro. O mesmo Pedro que, poucos anos depois, iria declarar a independência do Brasil, contra as expectativas do pai, mas como consequência direta da transferência da corte.

Ou seja: a fuga que pretendia preservar o império acabou por fragilizá-lo definitivamente. A manobra estratégica que salvou a soberania portuguesa terminou como catalisador da autonomia brasileira.

Herói ou covarde, D. João VI não foi apenas o monarca que abandonou Lisboa naquele amanhecer frio. Foi, involuntariamente, o último grande arquitecto de um império que começou a desfazer-se nas suas mãos. Os destinos de Portugal e do Brasil separaram-se naquela manhã enevoada de 1807.

MAU SERVIÇO DA VODAFONE

0

Na Vodafone, o serviço de “apoio ao cliente” dá má imagem da empresa. É um serviço ineficaz, incompetente, mal concebido. E a culpa não será dos operadores de call center que atendem os clientes da Vodafone. Esses seguem um guião onde não devem constar as palavras “pedimos desculpa pelo mau serviço que prestamos”.

O número 16912 é um serviço essencialmente automático. Quando se liga para lá, a primeira opção que surge pela “voz” da máquina é marcar o zero caso queiramos falar com um assistente de carne e osso. Mas, depois de marcar o zero, é a máquina que continua a “dialogar” com o cliente, pedindo informações inúteis, tipo números de contribuinte ou códigos postal do serviço instalado

Se o cliente vai na lenga-lenga acaba por ser remetido para um sms que a máquina nos enviou para o telemóvel, onde estará um link que irá abrir portas para a resolução do problema que, entretanto, identificámos. Acontece que o tal link não funciona. Dá uma resposta remetendo-nos para uma outra tentativa num futuro próximo para tentarmos resolver a questão.

primeiro, o link não dá resposta
depois, o link é quebrado

O cliente tenta mais uma vez ou duas, até perceber que se ficar calado perante as solicitações da máquina que atende o 16912, acaba a falar com alguém de carne e osso. Nada disto faz sentido, mas é assim que funciona o “apoio ao cliente” da Vodafone, eventualmente todos os “apoio ao cliente” de empresas similares.

Também não faz sentido o serviço através do 16912 ser alegadamente gratuito, mas passar a ser pago quando é direcionado para o atendimento humano. No caso vertente, dos 21 minutos de chamada telefónica, dois terços foi tempo passado a ouvir música de elevador e uma gravação sistemática a informar o óbvio, que “ainda não nos foi possível atender a sua chamada”. A palavra “desculpa” sempre ausente, claro.

Máquinas a substituir humanos no atendimento ao público. Isto não vai dar bom resultado.