Cid Adão é o meu comparsa nas tertúlias. Conversávamos os dois sobre os auxílios aos que ficaram sem nada, ou sem possibilidades de poder voltar a produzir como o faziam anteriormente na zona de Leiria, Marinha Grande, Ourém, por causa da depressão Kristine, que ainda não tinham sido implementados como deveria ter sido feito… muito “negócio” clandestino estava a ser feito com as dádivas: telhas, cimento, plásticos para estufas, tijolos, conforme se viu numa reportagem do dia 13, no NOW.
Resposta: “Pois é, quando estou no sofá a ver jogos de futebol, farto-me de meter golos.” Fiquei a olhar para ele… Pensava que o Cid Adão teria a ideia que as dádivas deveriam ser guardadas, distribuídas e justamente doadas rapidamente nos locais onde a necessidade é imperiosa. Nunca me passou pela cabeça que a resposta dele seria um “deixa andar, a nossa missão na autarquia é cumprir o nosso orçamento, entrar às nove e sair às dezassete…” Penso que não deveria ser assim.
Retorqui que “se eu tivesse dado materiais para ajudar, retirando dos lucros da minha empresa, uma parte para acudir a quem praticamente ficou sem nada, ao ver o que vi na reportagem, meteria uma acção em tribunal contra quem, na autarquia deixa que isto se processe assim.”
Resposta do Cid Adão: “Para quê? Para gastar dinheiro ao meter o processo? Para que o caso nunca mais se resolvesse e ande arrastado pelos tribunais durante anos? Para ter problemas, posteriormente, por isto e por aquilo? Meu amigo, deixe-se desses pensamentos, ainda é de bom tempo.”
Decididamente, hoje, não consigo conversar com ele…
Há propostas políticas que não são apenas erros de julgamento, são atos de provocação. A tentativa de atribuir o nome de Marcelino da Mata a uma rua em Portugal, levada ao Parlamento português por setores ligados ao Partido Social Democrata e ao Chega, não pode ser lida como um gesto inocente. Trata-se de uma escolha política carregada de simbolismo e, no atual contexto guineense, de uma gravidade que não deve ser subestimada.
Não é sobre uma rua. É sobre memória, dignidade e poder
A atribuição de um nome a um espaço público é um ato político de consagração. É uma forma de dizer quem merece ser lembrado. E como deve ser lembrado. Ao propor a elevação de Marcelino da Mata à condição de referência pública, certos setores políticos portugueses procuram impor uma narrativa que ignora, deliberadamente, a memória histórica de um povo que sofreu diretamente as consequências da guerra colonial.
Para muitos em Portugal, Marcelino da Mata pode ser apresentado como um “herói militar”. Para os guineenses, porém, essa leitura é, no mínimo, incompleta e ofensiva. A sua atuação enquanto membro dos chamados Comandos Africanos está associada, na memória coletiva, a operações de repressão brutal contra populações locais, num contexto de dominação colonial.
Não é irrelevante que esta proposta surja num momento particularmente sensível da vida política da Guiné-Bissau. Quando um país enfrenta tensões internas, disputas de narrativa e tentativas de deslegitimação institucional, iniciativas externas com forte carga simbólica podem funcionar como instrumentos de pressão indireta.
A pergunta impõe-se: porquê agora?
A resposta mais plausível é desconfortável: porque há setores políticos em Portugal, particularmente na extrema-direita representada pelo Chega, que continuam a instrumentalizar o passado colonial como arma ideológica. Ao fazê-lo, não apenas reabilitam figuras controversas, como também enviam sinais políticos a determinados atores internos africanos que se alimentam de divisões históricas.
A falsa neutralidade da História
Há quem argumente que “a História deve ser vista no seu contexto”. Esse argumento, embora tecnicamente correto, é frequentemente utilizado como escudo para evitar julgamentos morais. Mas há um limite. Uma democracia madura não é neutra face à violência histórica. Não pode ser.
A tentativa de glorificação acrítica de figuras associadas à repressão colonial revela uma recusa em confrontar o passado com honestidade. E pior: revela uma hierarquização implícita das vítimas, onde o sofrimento africano continua a ser relativizado.
A bravura em combate, por si só, não é critério suficiente para a consagração pública. A História está repleta de figuras militarmente eficazes que, ainda assim, não são, nem devem ser, celebradas.
O que está em causa não é negar a existência de Marcelino da Mata. É recusar a sua elevação simbólica num espaço público que representa valores universais: dignidade humana, justiça e memória inclusiva.
Portugal perante o seu próprio espelho
Esta proposta coloca Portugal diante de uma escolha clara: ou assume uma leitura crítica e responsável do seu passado colonial, ou cede à tentação revisionista de sectores políticos que procuram reescrever a História à luz de nostalgias imperiais.
O chumbo da proposta no Parlamento português, se confirmado e mantido, não será um ato de fraqueza. Será, pelo contrário, um sinal de maturidade democrática e de respeito pelas relações históricas com os povos africanos.
Guiné-Bissau não é um detalhe na História portuguesa. Há uma linha que não pode ser ultrapassada: a desconsideração pela memória de um povo. A Guiné-Bissau não é um apêndice da História de Portugal. É uma nação soberana, com a sua própria narrativa, construída com sangue, resistência e dignidade. Ignorar essa realidade é mais do que um erro político. É uma forma de violência simbólica.
A proposta de homenagear Marcelino da Mata revela que, décadas após o fim do colonialismo, persistem forças que se recusam a aceitar plenamente as implicações morais desse período.
Mas também revela algo mais importante: que há resistência, que há memória e que há dignidade. E essa, ao contrário de qualquer rua, não pode ser renomeada.
Vamos lá ver se nos entendemos quanto ao apoio judiciário e às suas envolventes – expressão tão do agrado do ex-Procurador-Geral, Cunha Rodrigues – que colocam em causa o bom nome de muitos advogados e constituem a motivação para que se proceda a mudanças no sentido de beneficiar apenas alguns ‘amigos’.
Antes do sistema ser implementado, os advogados oficiosos eram quase sempre os mesmos, numa fórmula ‘nebulosa’ nascida nas secretarias dos Tribunais.
Esse patrocínio tinha custos e seria útil comparar o seu custo com o custo do actual sistema, que não é perfeito, mas que recoloca os advogados, que querem exercer o patrocínio judiciário e que não possuem conhecimentos nas secretarias, na mesma posição dos outros.
A maioria dos advogados que exercem – e continuam a exercer o patrocínio oficioso, apesar de não serem bem pagos, porque não têm contratos leoninos com o Estado (e seria interessante saber quanto é que foi pago às grandes sociedades de advogados por pareceres que poderiam ter sido feitos pelo Ministério Público) – fazem-no com dignidade, sem subterfúgios, sem habilidades, sem tentar defraudar o erário público.
A alternativa ao actual sistema de apoio judiciário não passa, como o Bastonário João Massano sugeriu, por resolver uma questão específica, a de nomear uma task-force de advogados para acompanhar os processos mediáticos, mas pela criação de um sistema de apoio judiciário praticado por defensores oficiosos, avençados, com a atribuição de um número de processos, previamente definido, o que permitiria reduzir custos e assegurar a qualidade de defesa dos beneficiários do apoio judiciário.
Sei que a Ordem dos Advogados é contrária a esta solução, mas também é tempo de a OA mudar os seus conceitos e não ficar prisioneira de um modelo conservador. A Ordem dos Advogados não pode exigir mudanças na Justiça se ela própria não mudar. Acresce que a tese de que esta solução colocaria em causa a ‘independência’ do patrocínio é atentatória da dignidade e do profissionalismo de quem viesse a exercer essas funções. Qual a diferença entre ter uma avença com o Estado, para a defesa de quem não tem capacidade de custear um advogado, e a relação de advogados com vínculo laboral a uma sociedade onde prestam serviços de forma remunerada, subordinada e habitual? Talvez seja de se pensar fora da caixa, neste tempo incerto, complicado e em mudança.
Há no Museu Nacional Grão Vasco uma pintura cuja oficial designação é Retrato de Menina, mais vezes apelidado, o quadro, de A Menina de Madrazo, como se ela, a Menina do retrato, da qual se não conhecia, até há pouco, nome nem família, tivesse sido adoptada pelo pintor.
É assim desde há muitos anos, desde que Francisco de Almeida Moreira, o emérito primeiro director do Museu, trouxe para Viseu a preciosa pintura, que adquirira em Lisboa, em 1931, lá onde chegara pelas mãos de um antiquário que, em 1927, a adquirira em Paris.
Quem via no Museu o tal Retrato de Menina, toda a gente, suspendia-se a olhá-lo, que era um retrato vivo e ternurento e ela, a Menina, ali estava, fada ou moura encantada, à espera de alguém, talvez príncipe enamorado, que rompesse o encanto e a trouxesse, de mão dada, ao nosso mundo, onde faltava.
Demorou quase 100 anos, mas agora aconteceu. Como nas lendas.
Não perdeu o encanto, que ela não era nem moura nem fada, mas tão simplesmente criança, oito anos contados quando pousou para o retrato. Aconteceu em Madrid o desvelar da sua história, que essa tem o seu encanto. Aconteceu no âmbito da investigação para a realização da exposição retrospectiva do pintor Raimundo Madrazo y Garreta (1841-1920), caucionada pela Fundación MAPFRE, que ficou presente na Sala Recoletos, de 19 de Setembro de 2025 a 28 de Janeiro de 2026, nela se integrando a pintura do Museu de Viseu.
E aconteceu sair do limbo a bonita história da Menina com jeito de princesa, que vem habitar a verdadeira terra dos homens, entre eles cumprindo sua sina.
Tem o nome de Maria, esta menina, Maria Freiin von Stumm, filha segunda, na geração, de Ferdinand Freiherr von Stumm (1843 – 1925), embaixador da Alemanha do seu tempo, em Madrid, entre 1887 e 1892 e da Baronesa Pauline Freiin von Hoffmann (1858 -1950).
O casal, cuja vida decorre entre a diplomacia e o familiar empenho na grande indústria, teve quatro filhos: Ferdinand, Maria, Herbert e Friedrich Wilhelm.
Maria, a menina do retrato que se guarda no Museu, casou a 18 de Maio de 1911 com o Príncipe Hermann Furst von Hatzfeldt-Wildenburg, que levou uma intensa vida como militar graduado e diplomata encartado. Deles houve quatro filhos, três raparigas e um rapaz.
Raimundo Madrazo, estanciando em Madrid, fará o retrato de Maria, o nosso Retrato de Menina cerca de 1890, quando Maria andava pelos oito anos; o retrato do irmão Ferdinand Carl, em 1890, ao fazer os dez anos; e o retrato de Friedrich Wilhelm em 1893, ao fazer os cinco anos.
Desfeito o suave mistério que, por tantos anos, envolveu a Menina do Retrato ou o “Retrato de Menina” com jeitos de princesa, que, na vida real, casou efectivamente com um verdadeiro Príncipe e teve por morada um Palácio verdadeiro, não se perdeu o encanto do retrato, que, com tanta verdade, Raimundo Madrazo pintou, obediente aos cânones de uma Escola e onde permanecerá, para sempre, essa magia que nos cativa – como se a Menina continuasse como mourinha ou fada de uma bonita história encantada.
O recente debate entre Pacheco Pereira e André Ventura não foi apenas um confronto de ideias. Foi, acima de tudo, um espelho perturbador de um fenómeno que cresce silenciosamente, e perigosamente, no espaço público: a reabilitação do discurso colonial e a banalização do racismo sob a capa de “patriotismo” ou “revisão histórica”.
O que está em causa não é uma simples divergência académica sobre terminologias, “guerra colonial” ou “guerra do ultramar”, é algo muito mais grave: a tentativa deliberada de reescrever a história para relativizar crimes, diluir responsabilidades e, no limite, legitimar um sistema baseado na opressão, na violência e na desumanização de povos inteiros.
A estratégia da falsificação
Ao tentar colocar no mesmo plano a violência estrutural da ditadura antes do Revolução dos Cravos com episódios isolados do período pós-revolucionário, constrói-se uma narrativa perversa: a de que “todos foram igualmente culpados”. Esta lógica é intelectualmente desonesta e politicamente tóxica.
Não se trata de negar que houve excessos após o 25 de Abril. Trata-se de recusar a manipulação grosseira que tenta equiparar décadas de repressão sistemática, com milhares de presos políticos, tortura institucionalizada e execuções, a casos pontuais num contexto de transição.
Essa falsa simetria não é inocente. Ela serve um propósito: limpar a memória da ditadura e tornar aceitável, ou até desejável, o seu legado.
Neste contexto, a intervenção de Pacheco Pereira assume particular relevância. Não por representar uma posição política específica, mas por traduzir uma exigência elementar de rigor histórico. Ao recusar a equivalência entre a violência estrutural da ditadura e episódios isolados do período pós-Revolução dos Cravos, Pacheco Pereira não está a “defender um lado”, está a defender a integridade da memória colectiva. A sua insistência na desproporção dos factos, entre milhares de vítimas de um regime e casos pontuais numa transição, expõe precisamente o núcleo da manipulação: transformar a exceção em regra para absolver um sistema inteiro. É esse rigor, hoje tão raro no espaço público, que impede que a história seja capturada pela demagogia.
O racismo implícito: negar a legitimidade da luta dos povos africanos
Talvez o momento mais revelador, e mais inquietante, do debate tenha sido a recusa em reconhecer a legitimidade das lutas de libertação africanas.
Quando se afirma que atacar o exército colonial português não pode ser considerado um acto político, está-se, na prática, a negar aos povos de Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau o direito fundamental à autodeterminação. Isso é racismo. Porque pressupõe que os africanos não tinham legitimidade para lutar pela sua liberdade. Que deveriam aceitar a dominação como destino. Que a sua resistência não era política, era criminal.
Esta visão é herdeira directa da ideologia colonial: aquela que considerava os povos colonizados como sujeitos inferiores, incapazes de decidir o seu próprio futuro. Aceitar esse discurso, ou pior, normalizá-lo, é abrir a porta ao regresso de uma mentalidade que nunca foi verdadeiramente erradicada.
A nostalgia colonial
A ideia de que a descolonização foi uma “traição” não é apenas historicamente absurda. É moralmente obscena. Significa, em termos simples, que milhões de africanos deveriam ter permanecido sob domínio estrangeiro contra a sua vontade. Significa que a liberdade desses povos é vista como um erro histórico.
Esta nostalgia colonial não é uma opinião legítima no quadro democrático. É uma forma de extremismo ideológico que tenta reabilitar um sistema baseado na exploração, na segregação e na violência.
E aqui reside o verdadeiro perigo: quando este tipo de discurso entra no espaço público e é tratado como “mais uma opinião”, ele deixa de ser marginal e passa a ser normalizado.
Quando o inaceitável se torna tolerável
Conviver com racistas e nostálgicos do colonialismo não é um exercício de pluralismo. É uma forma de cumplicidade passiva. Porque estas ideias não são neutras. Elas têm consequências concretas: alimentam a discriminação; distorcem a memória colectiva; enfraquecem os valores democráticos; criam as condições para o regresso de práticas autoritárias.
A história já demonstrou, de forma trágica, que o extremismo não começa com violência explícita. Começa com palavras. Com “debates”. Com a banalização do inaceitável.
Uma responsabilidade histórica inadiável
Para países como a Guiné-Bissau, este debate não é teórico. É existencial. A nossa independência não foi um acidente. Foi conquistada com sacrifício, com luta e com uma consciência política clara: a de que nenhum povo deve viver sob dominação.
Aceitar discursos que relativizam essa luta é trair essa memória. Mais do que isso: é permitir que se reabra uma ferida histórica que ainda não cicatrizou completamente. Não há neutralidade possível.
O debate entre Pacheco Pereira e André Ventura deixou uma coisa clara: a batalha pela memória não terminou. E perder essa batalha não é uma questão académica. Porque quando o racismo e o colonialismo deixam de ser combatidos, começam, inevitavelmente, a regressar.
Ao acusar o Papa de alinhamento ideológico, de fraqueza e até de conivência com agendas políticas, Trump não se limita a discordar com Leão XIV. Ele está a dizer que o líder da Igreja Católica deixou de ser uma figura espiritual e passou a ser tratado como mais um adversário da política americana.
Não contente, Trump insinuou que a eleição papal não passou de conveniência geopolítica. Pouca importa se o que Trump diz é mentira ou não, porque a ideia é maldizer tudo e todos os que o contrariem, neste caso, corroer a legitimidade do Papa.
cartoon de Hélder Dias
Este tipo de discurso assenta numa lógica simples: toda a autoridade que o critique deve ser imediatamente desqualificada. Já vimos a mesma técnica discursiva ser aplicada por outros políticos, um pouco por todo o mundo. Ventura aplica-a com grande sucesso, embora talvez não seja capaz de ir tão longe como o seu mestre.
O resultado é um espaço público muito ruidoso, de grande pobreza argumentativa, de disputa permanente por tudo e por nada. O pior é que as palavras do Presidente dos EUA são disseminadas globalmente e, mesmo que algum membro do Governo americano não concorde com o que foi dito, como os maluquinhos não se contrariam, essas palavras acabam por definir a agenda política dos EUA, condicionam os movimentos diplomáticos e influenciam o comportamento de outros dirigentes, principalmente dos aliados dos EUA.
Oriunda de uma família numerosa e pobre de pescadores, mandaram-na ainda criança para casa da irmã mais velha, em Lisboa, onde enfrentou maus-tratos. Com apenas 12 anos, tomou uma decisão ousada: cortou o cabelo, vestiu-se de rapaz e partiu em busca de um destino diferente. No movimentado cais da Ribeira lisboeta, conseguiu convencer o mestre da caravela Nossa Senhora do Socorro a levá-la como grumete, embarcando numa viagem que transportava trigo até Mazagão, atual El-Jadida, na costa de Marrocos.
Mal chegou, Antónia (usando o nome de António Rodrigues) denunciou irregularidades no carregamento dos cereais na caravela, chamando a atenção das autoridades. Impressionado com a sua inteligência, o governador Diogo Lopes de Carvalho decidiu mantê-la na praça e alistá-la como soldado.
Mazagão era uma praça-forte estratégica do império português: uma cidade totalmente fortificada, com muralhas renascentistas preparadas para resistir a ataques constantes. Funcionava como um ponto de apoio às rotas marítimas e como bastião da presença portuguesa em África. No seu interior, vivia uma pequena comunidade de militares, famílias e comerciantes, organizada segundo modelos europeus.
Foi nesse cenário que o cavaleiro António construiu a sua reputação. Durante vários anos, participou na defesa da cidade contra os ataques dos mouros, distinguindo-se pela coragem. Tornou-se conhecido como um dos mais destemidos combatentes de Mazagão, ganhando o apelido de “jovem fronteiro de África”, sem que ninguém suspeitasse da sua verdadeira identidade feminina.
Vivendo entre soldados, António partilhava a rotina militar, mantendo sempre o cuidado de preservar o seu segredo. No entanto, a sua crescente reputação levou-a a frequentar os círculos sociais mais nobres da praça, onde despertou a atenção de várias jovens mulheres. Entre elas, Beatriz, a filha de um cavaleiro local, apaixonou-se perdidamente por António Rodrigues, ao ponto de cair de cama doente.
A insistência num possível casamento colocou Antónia numa situação insustentável. Temendo ser descoberta, decidiu confessar a verdade ao padre de Mazagão. A revelação espalhou-se rapidamente, obrigando-a a assumir-se finalmente como mulher…
Apesar do choque inicial, a sua coragem e os feitos militares foram reconhecidos e o governador perdoou-lhe a “mentira”. O facto de ser mulher redobrou-lhe a fama; todos queriam conhecer “a Cavaleira”. Acabou por casar-se com um dos seus antigos companheiros de armas e mudou-se para Lisboa.
A sua história tornou-se lendária. Em 1619, o rei Filipe II de Portugal quis conhecê-la pessoalmente, aumentando a sua pensão anual em reconhecimento pelos serviços prestados ao reino e distinguindo também o seu único filho com o cargo de moço da Real Câmara.
Há um casal que o faz de forma natural em DOIS POETAS SOBRE O ESPELHO, caminhando lado-a-lado com essa cumplicidade poética, conjugando a diversidade das suas aptidões numa harmoniosa e empenhada colaboração capaz de mitigar vendavais.
Isso pressupõe que, de forma natural, cumpriram um treinamento no íntimo aconchego do lirismo polissémico (ela) ou na disciplina literária da Poesia mais realista (ele) em ambos os casos manifestações da mesma forma de mitigar longos e vazios discursos, na retórica falácia dos subterfúgios sociais e políticos.
A Poesia é, toda ela, um tratado de bem viver em sociedade, qualquer que seja o preço para atravessar os desertos que a vida fabricou.
Pilar Sastre Tarduchy, responsável máxima pelas Edições El Búho Búcaro “Poesia e Dança Espanhola”, é Professora, Editora, Poeta premiada e Gestora Cutural com um doutorameno Honoris Causa pela Universidade de Westerbrook USA. Conhece bem alguns desses desertos, mas soprada a poeira dos momentos duros, recolhe e afaga os grãos de luz que povoam a sua Poesia amadurecida, exemplarmente burilada até à perfeição estilística.
São composições livres de amarras discursivas, textualmente estruturadas com elegância. Reflectem instantâneos da sua alma que vão fluindo como um rio semântico no caudal das emoções. Escolho o poema paradigmático de Pilar, Márgenes de Algodón e fixo-me na densidade dramática da sua organização, percebendo, até nessa complexidade, que a beleza natural do seu talento se afirma. O mesmo poderia dizer de Miedo Azul: “Estoy en un cuerpo/que no me corresponde/atrapada en sus limites./Solo guardo piel amarga/de llanto invisible y miedo azul./No sé si el tiempo/pertenece o sólo es una ilusión/siento el asombro de las manos”.
As estrofes nunca perdem sonoridade musical, têm a graciosiade de uma escultura de palavras ondulando ao ritmo envolvente da leitura. Nem a plurissignificação dos versos, servida por belas metáforas, deixa de congregar leitores de diferentes sensibilidades presos à beleza descritiva dos estados de alma de Pilar S. Tarduchy.
Só lendo as suas composições e trabalhos premiados, se poderão avaliar melhor esses raios de luz, lenitivo para a obscuridade (palavra recorrente na sua obra) tão injustamente presente na existência deste ser humano de eleição.
Óscar Ródrigañez Flores, médico osteopata, licenciado em Estudos de Comércio Internacional e Aduaneiro pela Universidade Autónoma de Madrid, director técnico, poeta e também editor de El Búho Búcaro Poesia, partilha com Pilar Tarduchy cumplicidades condensadas nesta linguagem em que poucas palavras codificadas bastam para o entendimento e para a superação dos problemas.
Em DOIS POETAS SOBRE O ESPELHO, que já vai na terceira edição, temos 14 composições de cada um, como se ambos se desdobrassem em sonetos reflexivos e dialogantes que nos levam até onde, dos escombros da existência, se levantam sobreviventes em reconstrução de moradas semânticas, camada por camada, verso a verso. Dele escolho o poema Tacto de Algodón, para justificar a sintonia entre ambos e reproduzo Única igualdad: “Nunca hay dos besos iguales/ni dos caricias amargas/veo igual a las mujeres/veo igual a los hombres/y nadie es igual// Sabrifico mi percepción/y disimulo cuando te veo/intento ser igual a otros/esos que nunca lo son// Muero en vida/y entre medias de ti/reconozco que hay algo igual/tú, muerte/dulce compañera de la igualdad/y de la liberación.
Como vemos, a Poesia de Óscar Flores é, também ela, erguida sobre fundações linguísticas sólidas, num discurso sem vacilações, habituado à disciplina formal desta linguagem purificadora, livre de asperezas, mas capaz de as enunciar sem receio. E ambos se completam, se amparam, nessa aventura poética de se mirarem a um espelho que ora conta a verdade, ora a consegue alterar em signos que estabelecem a dulcificação do menos bom, numa experiência de vida de grande riqueza exploratória.
Em DOIS POETAS SOBRE O ESPELHO, Pilar Sastre Traduchy e Óscar Rodrigáñez Flores passam a ser um só corpo com que partilham estratégias de vida e ideias redendoras e por elas sobrevivem aos rios caudalosos que todos somos obrigados a atravessar na vida. É o milagre da metamorfose.
A rotina diária é pesada. A conjuntura mundial assustadora, mas encontrada a equação que alimenta a epifania de um poema alta madrugada, vale a pena abrir a janela, deixar entrar a pureza do amanhecer e soltar as emoções como pássaros migratórios. É uma forma de viver num retiro conceptual feito de versos, estrofes, composições livres.
Como não saudar a Poesia, ponto de encontro, permanência e relicário de afectos?
Pilar S. Tarduchy e Óscar Ródrigáñez Flores são essenciais a essa linguagem de entendimento na sua persistente sementeira de beleza que dará frutos saborosos. Um poema, vários poemas, sempre rendem bem-estar sem obrigação do pagamento de impostos, nem perda de identidade.
Jeffrey Sachs é um economista norte-americano de projeção internacional e professor na Columbia University, uma das mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos. Ao longo da sua carreira, passou por diferentes fases ideológicas: nos anos 80 e 90 foi um dos rostos das políticas de liberalização económica aplicadas em países da América Latina e da Europa de Leste; mais tarde, reposicionou-se como defensor do desenvolvimento sustentável e crítico das instituições financeiras internacionais.
Mais do que um simples professor universitário, Sachs tornou-se um ator no espaço mediático e geopolítico, alguém que já não se limita a interpretar o mundo, mas que procura, sem inibições, influenciar a forma como ele é entendido. Neste excerto de uma entrevista recente, Sachs sugere que a Índia, atualmente na Presidência dos BRICS, ponha os EUA na ordem.
vídeo
O logótipo “New Order” que aparece neste vídeo não corresponde a uma organização, mas sim a um programa televisivo do canal internacional Rússia Today. A presença de Jeffrey Sachs nesse espaço deve ser lida como participação mediática, o homem é livre de dar entrevistas a quem quiser, ainda que revele o tipo de plataformas onde o seu discurso encontra maior ressonância.
Seja como for, Sachs é uma presença frequente no debate público global, onde combina o estatuto académico com uma intervenção política cada vez mais direta. Tem-se destacado pelas críticas à política externa norte-americana, ao papel das sanções económicas e à arquitetura do sistema internacional dominado pelo ocidente. Essa evolução transformou-o numa figura simultaneamente influente e controversa: para uns, um académico que denuncia os excessos de uma ordem internacional desigual; para outros, uma voz que, embora de reconhecido valor técnico, ecoa narrativas alinhadas com o chamado “Sul Global”. É bem possível que Donald Trump não goste dele.
Academia Portuguesa da História, conferência intitulada A Ponte de Vouga, símbolo da região de Aveiro, por Luís Seabra Lopes. Foi um grito de alerta que importa ouvir. Com urgência.
Escrevia-me ele:
«A petição (que assinou há 2-3 anos, como se deve lembrar) já permitiu convencer o Património Cultural, I. P., a abrir procedimento de classificação. No entanto, a Câmara nada faz e a burocracia de Lisboa é muito lenta… Qualquer dia, cai mais um bocado da ponte».
O que se passa, afinal?
A história
A ponre de Vouga na «Illustração Portuguesa», nº 150, 1909.
A Ponte de Vouga, também conhecida como Ponte Velha de Vouga, Ponte do Vouga, Ponte Velha do Vouga e Ponte de D. João V, construída no século XIII, localiza-se sobre o rio Vouga, entre as freguesias de Lamas do Vouga e Macinhata do Vouga, no município de Águeda, distrito de Aveiro, a cerca de 200 m para montante da nova ponte da EN1/IC2.
Junto a esta ponte monumental se formou e desenvolveu o histórico burgo e vila de Vouga, que foi sede de concelho até meados do século XIX, sede do mais extenso e antigo município do Baixo Vouga, conhecido como terra de Vouga. A importância da ponte para esta região levou a que a figura central do seu brasão fosse precisamente a representação de uma ponte.
Selo de Vouga, com a ponte (1317)
As mais antigas referências actualmente conhecidas são dois legados testamentários a favor da ponte, um não posterior a 1239 e outro datado de 1245. Tinha já nessa altura, pelo menos, 10 arcos, dos quais ainda existem e estão visíveis os pilares e as abóbodas até 2 m acima do plano da imposta. Pensa-se que teria, no total, 12 arcos, com um comprimento a aproximar-se dos 160 m.
Fazia parte da chamada estrada coimbrã, que ligava Coimbra ao Porto e ao Noroeste, seguindo de perto, pensa-se, a velha estrada romana. Aliás, importa citar a informação dada por Gaspar Barreiros, na sua Chorographia, datada de1561, segundo a qual ao rio Vouga se chamou primeiramente Vacca «não por causa do rio senão por causa do nome do lugar». Trata-se, por outro lado, de um dado deveras importante também para a história antiga da região, por nas proximidades se terem descoberto altares da época romana dedicados a uma divindade pré-romana designada Vacus.
Árula a Vaco
A deterioração
As cheias e o progressivo assoreamento do rio foram obrigando a sucessivas reconstruções da ponte, por vezes com alteamento e/ou alongamento do tabuleiro, mas foi sempre deveras famosa. Sabe-se, por exemplo, que, em 1594, o italiano Giovanni Battista Confalonieri, secretário do patriarca de Jerusalém, passando por ali em peregrinação a Santiago, relatou que a ponte de Vouga era tão longa como a ponte de Sant’Angelo, em Roma!
Em 1708, já estava, porém, tão assoreada que, em tempo de cheias, se passava o rio em barca e, por volta de 1713, a mando de D. João V, foi construída uma nova ponte em cima dos pilares e arranques de arcos da ponte medieval. A nova ponte ficou com 15 arcos.
Contudo, o tempo não perdoou e, devido ao seu mau estado de conservação, acabou por ser encerrada, a 2 de Maio de 2011, ao trânsito automóvel, continuando a ter trânsito de peões, bicicletas e motociclos. De resto, na fotografia de David Machado (vista de jusante e margem sul – Fig. 4), tirada apenas algumas semanas antes da queda do 7º pilar, já se notava a deterioração do contraforte e ligeiro abatimento no tabuleiro.
Ponte velha de Vouga, vista de jusante e margem sul, apenas algumas semanas antes da queda do 7º pilar (fotografia de David Machado)
Mui provavelmente, essa classificação pouco adiantará, no entanto, em prol da conservação do que do monumento hoje resta, porque ainda sobrecarregará com novos e constantes pareceres qualquer intervenção urgente que aí deva ser feita. E há em Lisboa centenas de processos para apreciação!…
A ponte de Vouga, lado de jusante, em 2021 (fotografia aérea de Skyview – Manuel Ferreira)
O nosso apelo vai, pois, para a população e, de modo especial, para a Câmara Municipal: que se unam esforços, se movam vontades e se ponham mãos à obra!
Enfim, uma longa história que pode ler-se com proveito em https://pt.wikipedia.org/wiki/Ponte_Velha_do_Vouga, donde, com a devida vénia, tomei a liberdade de retirar elementos, com um agradecimento muito especial a Luís Seabra Lopes, estrénuo defensor do património local.