Ao ler o livro “Um Oceano, Dois Mares, Três Continentes” veio-me à memória a história de um outro extraordinário angolano do século XVII, o príncipe Lourenço da Silva Mendonça.
Alguns de vós talvez se lembrem, ou talvez não, de uma crónica que escrevi na Guiné em 2023 sobre Lourenço da Silva Mendonça. Resumidamente, era sobre um outro homem nascido em Angola, que também cruzou mares, oceanos e continentes, tal como N’Vunda uns anos antes. Lourenço saiu jovem de Angola, foi para o Brasil, chegou a estar no Quilombo de Palmares e depois seguiu para Portugal, estudou em Braga e em Lisboa, um percurso tão semelhante ao de Nsako N’Vunda que cheguei a pensar que poderiam ser a mesma pessoa.
A história do príncipe Lourenço é digna de uma poema épico Depois de ter concluído os estudos em Portugal, apresentou um caso contra a escravatura ao Tribunal do Vaticano, em 1684. O caso foi um marco histórico e levou à condenação da escravatura pelo Papa dois anos depois, em 1686. O Papa Inocente XI, nomeou-o Procurador-Geral das “Irmandades dos Homens Pretos”, em Lisboa.
Importa sublinhar que Mendonça fez isto um século antes da Revolução Francesa, que dizem inspirar o abolicionismo, e quase 150 anos antes do Parlamento britânico ter abolido a escravatura (1833).
Nsako N’Vunda e Lourenço da Silva Mendonça, percursos paralelos
António Manuel Nsaku N’Vunda e Lourenço da Silva Mendonça foram visionários antes do tempo. Predestinados a grandes feitos. Não se conheceram, nunca se cruzaram, mas percorreram os mesmos oceanos e as mesmas calçadas das ruas de Lisboa e Roma. N’Vunda morreu no Vaticano em 1608 e Lourenço esteve em Roma entre 1670–1680.
Embora não exista prova documental de um vínculo familiar direto, ambos pertenceram à nobreza cristianizada de Angola, foram educados em instituições católicas, ambos eram fluentes em línguas europeias, ambos se envolveram nas redes políticas entre M’Banza Kongo, Luanda, Lisboa e Roma.
A trajetória de Mendonça — tal como a de Nsaku N’Vunda — só é possível graças à posição social elevada dessas famílias africanas que, desde o século XVI, ocupavam cargos administrativos, eclesiásticos e diplomáticos.
Ambos, Nsaku N’Vunda e Lourenço da Silva Mendonça, inscrevem-se na tradição diplomática africana independente, iniciada pelo Reino do Congo no final do século XV para dialogar diretamente com o papado e com a monarquia portuguesa.
Nsaku N’Vunda inaugurou a presença diplomática africana permanente na Santa Sé, como embaixador oficial do rei Manicongo D. Álvaro II. Lourenço da Silva Mendonça, 60 anos depois retomou essa rota diplomática para denunciar à Santa Sé e ao rei de Portugal os abusos da escravatura praticada pelos europeus, nomeadamente os portugueses. O caso levado perante o Tribunal do Vaticano coloca-o como um dos primeiros ativistas abolicionistas conhecidos da história.
Lourenço, herdeiro diplomático e político de Nsaku N’Vunda
Em suma, ao comparar os dois, percebe-se que ambos viveram tensões semelhantes: eram africanos formados na tradição cristã, navegando entre culturas, línguas e poderes que muito raramente davam palco a vozes do continente africano. Cada um, no seu tempo e em seu modo, usou as estruturas da igreja para defender a dignidade do povo.
N’Vunda procurou reconhecimento diplomático e proteção ao reino do Kongo. Mendonça confrontou diretamente o sistema esclavagista que naquele tempo dominava o mundo atlântico. O primeiro personifica o ideal de embaixador africano e é citado, frequentemente, como modelo da diplomacia angolana. O segundo, personifica o papel de intelectual e religioso, um africano a defender os direitos humanos em Roma.
Ambos, reivindicaram direitos e reconhecimento para os africanos. Resumindo, quem quiser aprender, tem agora dois livros para ler.





