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A HISTÓRIA DE UM AFRICANO

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O livro acompanha a vida extraordinária de António Manuel Nsaku N’Vunda, um homem, padre, de origem congolesa cuja trajetória o leva do coração do Reino do Kongo – ia a escrever do coração das trevas – até grandes cidades europeias e às rotas atlânticas — daí o título que invoca o oceano Atlântico, os mares Mediterrâneo e Tirreno e os continentes Africa, América do Sul e Europa. O autor constrói um personagem que é, ao mesmo tempo, poderoso, épico, ingénuo e profundamente humano.

Embora seja ficção, o livro assenta numa investigação rigorosa e revela, para mim de uma forma magnífica, a viagem – trágica e extraordinária – do primeiro embaixador do Reino do Kongo no Vaticano, revelando tanto a dimensão humana deste homem como a brutalidade do tráfico de escravizados que dizimou povos e territórios durante séculos.

A história mistura aventura, amor e reconstrução histórica: acompanhamos o personagem em viagem, em encontros e desencontros com instituições religiosas e poderes coloniais – desejo, conflitos de fé, conversão e representação política – além das violências e contradições do mundo atlântico e não só do século XVI/XVII. O livro dá assim uma perspetiva muito particular sobre as complexas relações entre África e a Europa no início do século XVII.

A obra apresenta António Manuel Nsaku N’Vunda, bacongo nascido em Boko atraído pelo catolicismo introduzido pelos missionários e conduzido à vida religiosa até se tornar padre na sua aldeia. É então convocado pelo soberano congolês, Manicongo Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba, conhecido como D. Álvaro II (1587–1613), descrito no romance como “Manzou a Nimi, rei dos Bakongo de ontem, hoje e amanhã, chamado também Álvaro II pelos seus irmãos cristãos desde o batismo”.

D. Álvaro II compreendia plenamente o poder geopolítico da religião no mundo num tempo dominado pela Ibéria e pela influência missionária portuguesa. Decide, por isso, enviar uma embaixada direta à Santa Sé – gesto ousado, destinado a romper a mediação lusitana e a garantir ao Reino do Congo, para além de outros privilégios, o direito de nomear os seus próprios bispos, tal como os monarcas europeus. A escolha recai sobre o seu primo, Nsaku N’vunda, homem de fé sólida, carácter firme e domínio do português. Historicamente parece que a comitiva tinha cerca de 25 pessoas, das quais poucas, muito poucas mesmo, chegaram ao Vaticano. No romance é uma viagem solitária na companhia de marinheiros, escravos e piratas.

A documentação histórica confirma a dimensão épica da viagem feita. O percurso de Nsaku N’Vunda pode, como sugere o romance, dividir-se em duas grandes etapas: do Congo ao Novo Mundo e do Novo Mundo à Europa. A primeira etapa revela o ambiente violento do Atlântico, nomeadamente a vida no interior de um navio negreiro; a segunda, para além de relatar ataques de piratas e a fuga numa embarcação mais pequena, expõe o intrincado labirinto de interesses políticos de Portugal e Espanha. Com longas paragens no Brasil, em Portugal e em Espanha, a viagem acaba por demorar três longos anos.

O livro não fala disso, mas ele passou pelo Funchal, Lisboa, Alcobaça – onde viveu algum tempo no mosteiro – e também por Évora, a caminho de Madrid. Quando alcança Roma, carrega no corpo o desgaste da grande odisseia física e espiritual que protagonizou. Gravemente doente, é visitado pelo Papa Paulo V, que vai ao seu leito para receber a mensagem do Reino do Congo – gesto que demonstra o interesse da Santa Sé em um diálogo direto com o reino africano e a vontade de expandir a fé para além das fronteiras ditadas pelas coroas europeias, nomeadamente portuguesa e espanhola.

fresco da visita papal a Nsaku N’Vunda, em Roma

Nsaku N’Vunda morre a 6 de janeiro de 1608, mas recebe honras extraordinárias: é sepultado na Basílica de Santa Maria Maior, onde o seu túmulo, ainda hoje visitável, o designa como “Dom António Manuel, Príncipe do Kongo”. A história consagra-o como o primeiro embaixador africano na Santa Sé e antecede mesmo a Embaixada Keichō (1613–1620) do Japão. Hoje, a sua memória é celebrada em África, no Vaticano e em diversas instituições académicas. E, tal como o romance de N’Sondé sugere, revisitar a sua história é revisitar também a história de milhões cujas vidas foram moldadas – quando não roubadas – pelo Atlântico como espaço de circulação, de confronto, de dor e de resistência.

busto de Nsaku N’Vunda

Para além da biografia romanceada deste homem extraordinário, António Manuel Nsaku N’Vunda, este livro, que recomendo vivamente, fala-nos, e de que maneira,do colonialismo, da religião e do poder, da escravatura, da condição da mulher, europeia e africana no séc. XVI e XVII, do capitalismo desenfreado que mercantilizou os seres humanos, da identidade, da corrupção e do racismo.

GUINÉ-BISSAU: GOLPE E INTRIGALHADA

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Os militares que tomaram o poder nomearam um general para o cargo de Presidente da República interino. O general Horta Inta-A já tomou posse.

Nos meios políticos afetos ao PAIGC dizem, agora, que Horta Inta-A tem uma relação familiar com o Presidente deposto e, com essa alegação, pretendem reforçar a narrativa de que o golpe de Estado é uma encenação, uma forma de Umaro Sissoco Embaló continuar a governar o país “na sombra”. Trata-se de uma intriga mal feita. A Guiné-Bissau é uma sociedade muito estratificada em termos tribais e há etnias que não se cruzam com outras. O general Inta-A é Balanta, Umaro Sissoco Embaló é de origem Mandinga/Fula. Não há nenhuma relação de parentesco entre os dois.

General Horta Inta-A, Presidente da República de Transição da Guiné-Bissau

Noutros quadrantes, anunciam-se alegados envolvimentos do líder do PAIGC, Domingos Simões Pereira, no golpe. Segundo o site Eurecanews, em língua francesa, Aristides Gomes, antigo primeiro-ministro atualmente a residir em França e Domingos Simões Pereira terão unido esforços e financiamentos para orquestrar o golpe.

Aristides Gomes (à esquerda) e Domingos Simões Pereira (à direita)

A mesma fonte alega que Domingo Simões Pereira está em Bissau, na Base Aérea, mas não detido, antes “refugiado” sob proteção de militares que lhe são afetos.

Entretanto, o Presidente deposto está já no exílio na capital da Costa do Marfim, para onde foi transportado esta manhã. Abidjan tem sido um “porto de abrigo” recorrente para governantes africanos caídos através de golpes de Estado.

O Presidente deposto, Umaro Sissoco Embaló

ACTUALIZAÇÃO: segundo o site Senegal7, Umaro Sissoco Embaló está em Dakar, onde foi acolhido pelo Presidente Diakhar Faye.

recorte do título do site Senegal7: Presidente deposto Umaro Sissoco Embaló chegou a Dakar são e salvo

COM O REI NA BARRIGA

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O calcanhar de Aquiles dos egocêntricos é a sua fragilidade emocional, mas a arruaça, a grosseria, para disfarçarem o ponto fraco, são parte intrínseca dos tais donos da verdade. O simples cidadão não está consciente, porque desconhece os “grandes desígnios” que o dono da verdade transporta sobre os seus ombros. Poderá dizer-se que tem uma missão messiânica, que é “abrir os olhos” do povo para fenómenos como a corrupção, que lavra pela sociedade e ganha um terreno que tem de ser atalhado rapidamente. Este é o estandarte do DdV. Sacrificar-se pelo povo, pois só ele sabe do que fala e do que vê. Um verdadeiro vidente. Mostra o caminho, a luz que a maioria não vislumbra, e até, alguns, preferem viver na escuridão. O DdV não pode permitir que o povo continue a passar por situação semelhante. Este DdV é um paladino da justiça.

A sua forma de catequizar é baseada em pressupostos que carecem de confirmação, porque não são verdade ou estão fora de contexto. Quando for analisado o que disse, o que o dono da verdade afirma, já a sua mentira ou ideia confusa se tornou verdade no espírito iletrado. A análise do discurso, logicamente, acaba por ser feita fora de tempo, porque demora. Logo, a mentira entrou no espírito dos incautos e já fez a sua “progressão”, tornando-se em verdade absoluta.

O DdV, no seu pavonear, quando lhe é dirigido um “não”, vindo de um qualquer interlocutor, a reacção destes “doentes” é de raiva ou abandono do local de diálogo, mas acaba em tentativas imediatas de manipulação a quem pronunciou o não. Se estes DdV estão em posição de chefia, numa empresa, ou partido, por exemplo, vão “pisar” quem disse a palavra, até conseguirem o seu despedimento ou expulsão da agremiação.

Esta sensibilidade à crítica, construtiva ou destrutiva, seguida de uma doentia ideia de rejeição, faz com que tenham sempre presente a necessidade de aprovação dos seus actos, nem que paguem a uma plateia para terem “aplausos” à sua gestão. São um embuste, porque dão sempre um ar de seres confiantes, sobretudo superiores, dentro da sua incapacidade em serem competentes, no que quer que seja. São só donos de retóricas. Se não é a plateia, a tal dos aplausos, para os “admirar”, o seu ego minga, e isso não pode acontecer de forma alguma. Não estão com ninguém, não ouvem ninguém, não esperam conselhos de ninguém, estão sempre prontos a reagir de uma maneira brusca, especialmente espalhafatosa, para que todos vejam o seu papel de vítimas ou, bem aproveitada a circunstância, o de uma firme liderança. Querem dar sempre a ideia de seres perfeitos, imaculados, porque os outros é que são taxistas e/ou corruptos.

Diremos então que existe uma necessidade constante, deste grupo de “doentes”, em serem admirados e aplaudidos permanentemente, isso para ter lugar a tal admiração e credibilidade externa ao grupo, que dê suporte a uma auto-imagem e à percepção subjectiva da sua superioridade. 

Bom, recordo, nos meus tempos de adolescente, que um elemento do nosso grupo, filho de pais com capacidade financeira, possuía uma magnífica bola, igual àquela dos jogos, toda em cabedal que, quando o contrariávamos dizia: – A bola é minha, ninguém joga, ou as equipas são como eu quero!

Com toda a implicação que isto possa ter, agora, neste brilhante mundo partidário…

Existem DdV, de vários tipos, os que só usaram a verdade, por um período de tempo, tipo empréstimo, mas que entendem ser os donos, mesmo assim. Bom, são os que só servem para uma conversa na mesa de um café durante um jogo de futebol, com todos os presentes interessados em que Portugal ganhe… Ninguém quer saber do que dizem. Se calhar nem capacidade económica possuem para chamar a atenção dos presentes. Na verdade, são apenas maçadores. Educadamente olhamos para eles, de vez em quando, e referir: “Ah, sim, sim. Tem razão”. Sim, nisto somos educados.

Agora, existem os DdV que estão escudados pela retaguarda. Com suporte financeiro substancial e que acenam o estandarte da verdade constantemente, com a mentira na ponta do discurso. Quando se for analisar essa mentira, já ela produziu o seu efeito e a verdade já não “vai a tempo” de repor o contexto nem o objectivo da desmistificação. O que interessava aos Donos da Verdade está dito e conta como verdadeiro todo o contexto da mentira anunciada. Esse apoio financeiro tem um objectivo, o da multiplicação, tal como nas culturas do bolor: em ambiente (depois) favorável.

O que tiramos de ilação daqui? Estudar estes comportamentos? Ler mais para se ter mais dados para fazer uma análise, neste nosso caso? Trocar ideias e conhecimentos com quem sabemos estar à altura de saber mais sobre estes casos ou para detectarmos estes charlatões? Detectar as mentiras destes discursos e comunicá-las aos demais?

Não digamos, peremptoriamente, que não temos tempo para o trabalho básico, seja, “ver/ler/ouvir” com olhos, ouvidos e cérebro de “ver/ler/ouvir”. Para conseguirmos ter uma democracia com verdade, temos que ter tempo para tudo isto. E temos! Finalizarei com uma frase simples que pode ser transformada para esta nossa vivência e cuidado democrático. Foi-me referida há muitos anos: “Dizes sempre que nunca tens tempo para ir ao médico, mas vais acabar por ter tempo para estares doente”.

GOLPE DE ESTADO EM BISSAU

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O Presidente da República Umaro Sissoco Embaló foi detido e deposto, há notícias não confirmadas de outras detenções como, por exemplo, a de Fernando Dias, candidato à Presidência nas eleições em curso e que reclamava vitória e também de Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC.

O Presidente Umaro Sissoco Embaló foi detido no Palácio Presidencial. Segundo fontes em Bissau, a maioria dos militares afetos à rebelião pertence à chamada Guarda Presidencial, uma Divisão do Exército que o Presidente deposto tinha reforçado especialmente para garanir a sua própria segurança.

Para já, a cara da revolta é precisamente o homem que era o Chefe da Casa Militar da Presidência, o jovem general Dinis N´Tchama.

Dinis N’Tchama é da etnia Balanta, sobrinho de um outro militar histórico, um dos homens que fez a revolta contra Nino Vieira em 1998, o general Buota Na Batcha, já falecido.

Dinis fez a formação militar na Rússia e China. É um militar conhecedor da “profissão”. Poderá tentar ser um novo Ibrahim Traoré, se for esse o seu desejo.

O desenvolvimento mais previsível desta situação será a formação de um governo provisório de gestão, com um espaço temporal de um ou dois anos para atingirem os objectivos que se propõem e anunciar novas eleições. O golpe de Estado acontece na véspera da Comissão Nacional de Eleições anunciar os resultados da 1ª volta eleitoral, onde 11 candidatos disputavam a corrida eleitoral. No mesmo acto eleitoral, os guineenses votaram para a eleição de deputados para o parlamento. Com a anulação das eleições, o país vai continuar sem parlamento, agora sob regime militar.

CRAVOS & ROSAS

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A direita insiste em comemorar o 25 de novembro. Só falta mesmo decretar o feriado nacional. Nas cerimónias na Assembleia da República, o líder da extrema-direita parlamentar tentou ser o centro das atenções, como sempre. Mas, desta vez, foi ultrapassado. O protagonismo pertenceu a outros deputados, com destaque para Pedro Alves, do PSD.

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A VIDA NO CAMPO

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Quando a vida na cidade ou no aglomerado urbano acaba por se tornar difícil, não apenas pelo custo de vida, mas pelo bulício e pela ansiedade que o dia a dia sempre acarretam, é normal que a pessoa pense em se retirar para o campo.

Quem tiver ido para a cidade vindo da província, lá tem ainda a casa dos seus antepassados. Ser-lhe-á fácil esse regresso. Primeiro, através de um ou outro fim de semana; mais tarde, aquando da aposentação, acabará por a deslocação se tornar definitiva

É curioso verificar que essa tendência vem de todos os tempos. Assim, os escritores da época do imperador Augusto já o referiam, no século I da nossa era, chamando a atenção para a importância de viver no campo, o que chamavam uma «aurea mediocritas», ou seja, uma mediocridade de oiro, um viver com algum relaxamento, sem preocupações. E o campo servia justamente para isso.

Quando as dificuldades resultantes de crises várias surgiram no século III e, sobretudo, no século IV, os Romanos que viviam nas cidades e tinham posses refugiavam-se nas suas casas de campo, nas suas «villas», e aí procuravam viver dos rendimentos.

Ao tempo do século XVII, encontramos também essa tendência em Portugal, bem espelhada no livro de Francisco Rodrigues Lobo «A Corte na Aldeia», publicada em 1619.

Mas acontece (voltando ao século IV) que temos em Portugal algumas «villas» datadas dessa época que mostram a vontade de os seus proprietários bem receberem quem os visita. Poder-se-iam referir diversas delas. Cinjo-me, a título de exemplo, a duas situadas no Alentejo.

Uma está na Herdade da Torre de Palma, freguesia de Vaiamonte, concelho de Monforte, onde o proprietário, embeiçado pelo bom clima e pela uberdade das terras alentejanas, decidiu, no século IV, erguer a sua villa. Para se deliciar a ele e à família e aos convidados, quis atapetar a sua melhor sala com policromado mosaico em que resolveu mandar retratar os seus cavalos preferidos, com os respectivos nomes: Lenobatis, Ibero, Leneu, Pélops e Ínaco. Uma forma de imortalizar os companheiros que, eventualmente, o tinham ajudado nas fainas agrícolas e, sobretudo, nas corridas em que participou. São eles os antepassados do célebre cavalo lusitano. Mas também uma forma de mostrar a quem o visitava que tinha alguma riqueza.

Os antepassados do cavalo lusitano

Mais! Numa outra sala, quis que estivessem representadas as nove musas: Calíope (da eloquência e da poesia épica), Clio (a da história), Erato (da poesia lírica), Euterpe (da música), Melpómene (tragédia), Polímnia (hinos e oratória), Tália (comédia), Terpsícore (dança) e Urânia (astronomia).

E, por baixo, a recomendação aos servos: Scopra aspra tesselam ledere noli «Não estragues o mosaico com uma vassoura áspera». Para concluir: Uteri felix, «Sê feliz!». Enlevo, felicidade! Cultura!

Por outro lado, numa «villa», em Santa Vitória do Ameixial, concelho de Estremoz, a imagem gravada também em mosaico é completamente diversa: apresenta-se um senhor de tanga, brandindo um vassoiro (daqueles que se usavam para tratar dos fornos), em jeito de fustigar as costas de uma mulher nua. E a legenda diz: «Felicião, quando está irado, é pior do que um carroceiro». Para mostrar que há ali alguma autoridade e que se preza, antes de mais, o bem-estar dos convivas, porque essa ira teria sido provocada, muito provavelmente, por a serva não ter sabido manter a água do banho das termas em adequada temperatura. Retrato duma cena real, mas, mais verosimilmente, uma admoestação em ar de chalaça, uma forma de mostrar aos seus convidados que não tenham receio, a água está boa para o banho, antes da conversa ritual.

Duradouras e eloquentes manifestações, portanto, da arte de bem receber. A preocupação, gravada em mosaico policromado, de agradar aos convidados e de os levar a pensar que a vida ali era digna de ser vivida.

FUTURO DAS RELAÇOES ENTRE A EUROPA E OS EUA

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A verdade é que a alteração do poder nos Estados Unidos se tornou a chave-mestra para o futuro da Europa, ou melhor da União Europeia, enquanto potência relevante num espaço multipolar em que a China e os Estados Unidos tentam assumir o controlo do Mundo.

Trump, que nunca gostou da Europa nem da democracia liberal que vai subsistindo no espaço europeu, usa a ‘guerra comercial’ e este plano de paz para impor um forte domínio dos Estados Unidos, vergando a Europa, numa tentativa de desagregação do bloco europeu, com o claro intuito de acentuar a vertente bipolar do Mundo, reduzido a duas esferas de influência: a China e os Estados Unidos.

A administração norte-americana sabe que a Europa tem líderes fracos, sem competência, sem carisma, amarrados aos conceitos do ‘politicamente correcto’, reféns de grupos de interesses e de pressão, desligados da realidade em que vive a grande maioria dos cidadãos, com graves problemas sociais e sem capacidade para encontrar soluções que impeçam o deslace das sociedades.

A Europa, na ânsia de alargar o seu espaço de influência, escancarou as portas a alguns dos Países que nasceram com o desmembramento da União Soviética, mas que estão longe do conceito de democracia liberal que existe nos Países da União Europeia, o que acabou por gerar fortes tensões numa situação de grave crise, como foi a que resultou da invasão da Ucrânia. Estes países elegeram governos conservadores, próximos da Federação Russa, ou seja, alguns países que são parte integrante da União Europeia, com direito de veto que pode condicionar as acções e as políticas europeias, estão mais alinhados com a Federação Russa do que com a União Europeia, o espaço económico e político em que, num determinado momento do seu percurso, escolheram integrar.

Este ‘plano de paz’, a ser verdadeiro e a ser aceite pelos europeus,  traduz-se numa profunda derrota para a liderança europeia, que se ‘rende’ aos Estados Unidos, perde influência e deixa de contar na cena Mundial.

Por outro lado, vai dar força aos que colocam em crise uma Europa forte, num Mundo multipolar, num espaço de liberdade e de democracia, reforçando os que querem uma Europa autocrática, dividida, com dois centros de poder, um em Pequim e outro em Washington.

Esta ‘paz’ na Ucrânia, num quadro de reforço de posições autocráticas, com líderes europeus fracos, vai acabar com as democracias liberais, com o estado de direito e com os Direitos, Liberdades e Garantias, tal como são entendidos desde a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, que lançou as bases dos direitos naturais e imprescritíveis como liberdade, propriedade, segurança e resistência à opressão. Estes princípios definiram a transição do absolutismo para a soberania popular e o Estado de Direito, com o predomínio da lei e do conceito de igualdade perante a lei e da separação dos poderes.

É claro que tudo está em aberto, dependendo dos ‘humores’ de Trump, fundamentalmente da realização dos seus interesses económicos, o que comprova a fragilidade da liderança europeia.

O FALSO TRIUNFO E O FUNERAL POLÍTICO DO PAIGC DE DOMINGOS SIMÕES PEREIRA*

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Nos últimos dias, assistimos a uma cena insólita no teatro político guineense: uma estranha explosão de alegria vinda “dos lados de lá”, algures entre a euforia improvisada e a tentativa desesperada de fabricar uma narrativa de triunfo. A imagem evocava, curiosamente, certas cerimónias tradicionais em que, na despedida dos mais idosos, as lágrimas dão lugar a gargalhadas e brincadeiras. Não se trata de desrespeito, mas de costume – uma celebração do fim de um ciclo de vida bem vivido.

Acontece que, no caso em apreço, o simbolismo não podia ser mais irónico: o PAIGC de hoje parecia celebrar não uma vitória, mas o seu próprio funeral político.

E esse funeral, tudo indica, tem organizador identificado: Domingos Simões Pereira, acompanhado da inevitável comitiva de oportunistas que transformaram o partido histórico num veículo pessoal de ambição ilimitada e resultados duvidosos.

A queda dos bastiões

A realidade eleitoral é implacável. Ao contrário do que sugerem os festejos eufóricos, o PAIGC não ganhou aquilo que proclama ter ganho. Os círculos eleitorais que outrora eram a alma do partido – alguns de Bissau, Bolama/Bijagós, Bigimita e outros – caíram um a um.
E, como esses bastiões, cairá também o próprio DSP, cujo maquiavelismo político já não impressiona ninguém.

O partido histórico – o verdadeiro PAIGC, o que libertou a Guiné-Bissau – está hoje sequestrado por uma liderança que confunde propaganda com poder e manipulação com legitimidade. Mas a História tem um princípio simples: o que perde raízes, perde força. E o PAIGC de DSP está a perder ambas.

A ironia da lei

Há ainda uma ironia adicional e profundamente reveladora. Existe uma lei, aprovada pelo governo do PAIGC, que impede qualquer partido de ter sede a menos de 500 metros das instituições da República.
Essa lei, se aplicada, significará a perda da sede histórica do partido – e com ela a simbologia que o mantém visível no imaginário nacional.

Domingos Simões Pereira poderá berrar vitória. Mas será forçado, pela lei que ele próprio patrocinou, a deslocar a sede do partido que diz defender.

A História gosta destas ironias.

A pressa de vencer antes do tempo

O desespero atingiu o auge quando, através de um porta-voz, o partido declarou que não haverá segunda volta nas eleições presidenciais. A afirmação, mais do que política, é emocional; é um grito de ansiedade.

A Comissão Nacional de Eleições dará o seu veredicto – e será esse, e apenas esse, que contará. As festas apressadas poderão então revelar-se pelo que são: uma encenação para encobrir a derrota.

Num momento em que o país enfrenta desafios complexos, a Guiné-Bissau não precisa de discursos inflamados nem de vitórias imaginárias. Precisa de responsabilidade, maturidade e serenidade. Aguardemos o pronunciamento da CNE. A verdade eleitoral não se fabrica; revela-se. E quando se revelar, talvez o PAIGC reencontre finalmente o seu caminho, livre do peso de ilusões, manipulações e lideranças que confundem o interesse pessoal com o interesse nacional.

*(nota da redação: autor é assessor do atual primeiro-ministro)

FOTOGRAFAR PRISÕES

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Entre 2016 e 2023, Luís Barbosa fotografou a vida dos reclusos nos estabelecimentos prisionais de Leiria, Viseu, Guarda, Beja, Évora, Odemira e Silves, num trabalho a que chamou “The Portuguese Prison Photo Project”.

Durante o II Congresso Internacional da APAR, os participantes tiveram o privilégio de assistir a uma mostra desse trabalho, em vídeo, apresentado pelo próprio autor das fotografias.

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ADVOGADO DESANCA SISTEMA PRISIONAL

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O sistema prisional é um sistema de poderes ocultos e a tarefa da APAR que o advogado Garcia Pereira mais aplaude é o rompimento do muro de silêncio e de indiferença que se construiu relativamente ao sistema prisional.

Quem é enviado para uma cela perde direitos cívicos, embora a lei diga que apenas deve perder o direito à liberdade.

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Garcia Pereira falava no II Congresso Internacional da APAR, que decorreu entre 21 e 23 de novembro no Templo da Poesia, em Oeiras.