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O IRÃO É O “PAPÃO” NAS POLÍTICAS DO OCIDENTE

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O modo como o Irão é retratado nos média ocidentais é uma “encomenda” dos seus inimigos, EUA, Israel e as democracias europeias. A caracterização do regime teocrático, arcaico, medieval, é uma mentira seletiva para diabolizar o regime, esquecendo outros em tudo semelhantes e que fazem igualmente parte do problema que se vive no Médio Oriente.

É rizível a forma como o Irão é apresentado no discurso dominante, como se fosse ali a incubadora de todos os ovos de serpente do mundo. Como se a sua ação no Médio Oriente surgisse por capricho ideológico ou fanatismo religioso. Talvez esse discurso seja mais aplicável a Israel, mas isso nunca é dito.

O Irão não age no vazio. Age num tabuleiro onde a presença militar dos Estados Unidos se estende por todo o lado, onde alianças estratégicas com Israel e com as monarquias árabes moldam regimes sustentados por petrodólares e jogos bolsistas. O Irão não está “cercado” no sentido literal, mas está suficientemente pressionado para que qualquer leitura ingénua da sua política externa se torne inútil.

É neste contexto que Teerão investe numa estratégia que o Ocidente prefere reduzir a um rótulo: apoio a grupos armados terroristas. O Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza. Grupos que servem para o Irão projetar poder sem entrar em confronto direto com adversários militarmente superiores.

Chamar-lhe “terrorismo” não resolve o problema. Chamar-lhe “resistência” romantiza o que é, na prática, uma guerra assimétrica onde civis pagam sempre a fatura. Nenhuma das categorias, por si só, chega.

Mas há um facto de que ninguém fala: no vazio deixado pelas democracias europeias e pelos Estados Unidos, na defesa da Palestina, o Irão ocupou o espaço da ação. Talvez não por altruísmo, mas por oportunidade.

Enquanto Israel prossegue operações militares recorrentes em Gaza e expande colonatos na Cisjordânia, enquanto os Acordos de Oslo se tornaram um artefacto diplomático inconsequente, e enquanto a retórica humanitária substitui qualquer forma de pressão eficaz, o Irão faz o que os outros não fazem: interfere. O Irão percebeu que a causa palestiniana é uma oportunidade estratégica.

A narrativa de que Teerão “desestabiliza” a região é apenas meia-verdade. Como se a região fosse estável antes. Como se décadas de ocupação, bloqueio e ciclos de violência fossem um detalhe. Como se o problema começasse sempre no momento em que o Irão reage, e nunca no contexto que provoca essa reação.

O resultado é um discurso falacioso: de um lado, Estados que “se defendem”; do outro, atores que “provocam”. O resto é apagado: o duplo critério, a incapacidade, ou falta de vontade, do ocidente em enfrentar as causas estruturais do conflito israelo-palestiniano.

E é nesse vazio que o Irão cresce.

“A DEMOCRACIA MATA” DIZ IBRAHIM TRAORÉ, PRESIDENTE DO BURKINA FASO

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As declarações foram proferidas em 2 de abril, numa entrevista transmitida pela televisão estatal do Burkina Faso, a Radiodiffusion Télévision du Burkina (RTB)

Ibrahim Traoré falava na televisão do seu país, um Estado em guerra, onde a democracia levada pelos franceses não trouxe paz, nem controlo, nem desenvolvimento, nem futuro.

vídeo – extracto de uma longa entrevista coletiva

É por isso que a frase é incómoda. Porque, vista por Traoré, a democracia tem um historial estranho. Na antiga Jugoslávia ou Líbia, veio com bombardeamentos da NATO e deixou Estados desfeitos. Na Síria, foi palavra de ordem antes de se tornar sinónimo de guerra por procuração. Em Gaza, convive com bombardeamentos e o genocídio de um povo.  No Líbano, não resiste às políticas expansionistas do sionismo israelita.

E se viajarmos para outras geografias, para a América Latina, as democracias foram frequentemente interrompidas quando incomodavam os EUA. É deste enquadramento geopolítico que fala Traoré.

O problema não será a democracia em si, mas o seu uso seletivo. Promove-se quando convém. Suspende-se quando atrapalha. Atraiçoa-se com facilidade. Ignora-se nos territórios ocupados. E, quando necessário, impõe-se. Com sanções. Ou com mísseis.

Por tudo isto, o Presidente do Burkina Faso diz que não quer democracia. Mas Traoré não está a vender filosofia política. Num país onde o Estado perdeu território para grupos armados, onde aldeias desaparecem do mapa e onde o quotidiano é insegurança crónica, eleições parecem um luxo exótico. E por isso, Traoré aproveitou a ocasião para adiar para data incerta a realização de novas eleições. Porque não há democracia sem Estado,
Enquanto denuncia a democracia, Traoré dissolve partidos, adia eleições e prolonga o seu poder. A crítica ao modelo serve para legitimar a sua suspensão. Por quanto tempo, não se sabe. Talvez para sempre.

A reação europeia será previsível: condenação, preocupação, retórica sobre valores. Mas há um problema. É difícil dar lições sobre democracia quando se aceita, ou apoia, a sua violação noutros contextos estratégicos. Esse duplo padrão já não passa despercebido. É ainda muito fresca a memória que temos sobre o que se passa em Gaza, no Irão, na Venezuela.

O mais relevante não é se Traoré tem razão. É se outros começam a falar como ele. Porque, no Sahel, e noutros lugares, a equação está a mudar: a legitimidade deixa de vir das urnas, passa a vir do controlo do território e da capacidade de impor ordem. Se isso se consolidar, adeus democracia.

A CRISE DA SOCIEDADE OU A CRISE DA JUSTIÇA

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O aumento exponencial da litigância, a crise económica e social, o aumento das pequenas dívidas, o crime de menores dimensões, mas com maior impacto social e, mais recentemente, o aumento de violações e de assassinatos em contexto de violência doméstica,  bem como inúmeras denúncias de crimes de corrupção, que, na sua grande maioria, não chegam a ser julgados, dão-nos a ideia de uma ruptura total do sistema judicial e da incapacidade de resposta por parte dos magistrados judiciais, dos agentes do ministério público e dos órgãos de polícia criminal.

Por outro lado, nunca a Justiça foi tão escrutinada como agora, neste novo tempo mediático, em que um dos primeiros a ter a perfeita consciência das consequências deste fenómeno foi o ex-Procurador-Geral da República, Cunha Rodrigues.

A realidade é que estamos perante um momento crítico que pode condicionar a estrutura da sociedade e a viabilidade da democracia, ainda para mais quando temos no Parlamento um partido que faz da mentira a sua estratégia e que inventa e distorce a realidade, empolando os números da criminalidade, esquecendo que, nas suas fileiras, estão alguns ex-elementos dos grupos terroristas do ELP e do MDLP, responsáveis por graves crimes entre os anos 76 a 78.

A tradicional concepção da separação de poderes, que tem sido uma das pedras de toque da democracia, está em perigo, quer por força das opções securitárias, quer por interferência, em sistema de vasos comunicantes, do poder político no poder judicial e do poder judicial no poder político.

A judicialização do poder político, uma tentação perversa que se iniciou em Itália, na fase mais aguda do combate à corrupção e ao crime organizado, e se alastrou, subtilmente, a Espanha – em que o caso mais mediático é o de Baltazar Garzon – tem pairado entre nós, por muito que os interessados a neguem à exaustão.
Do desempenho, por magistrados judiciais e agentes do ministério público, de funções eminentemente políticas, à passagem de alguns para a política activa e para a militância partidária, ainda que em situação de licença por tempo indeterminado, temos assistido à sedução que a política representa para esses magistrados, o que é legítimo.

Mas a questão principal não passa por aqui, porque quem faz uma opção expõe-se publicamente.

O mais complicado tem a ver com a forma perspicaz como o poder judicial, diante da fraqueza e da incompetência do poder político, se afirma como o único poder imune a escândalos e que se constitui como o garante do Estado e da democracia.
O poder político português tem demonstrado, ao longo de cinco décadas, que vive obcecado e atemorizado pelo poder judicial e pelo poder do Ministério Público

Isto quer dizer alguma coisa, ainda para mais quando a Constituição da República Portuguesa é clara ao definir os Tribunais como órgão do soberania e a magistratura do MP como uma estrutura hierarquizada, dirigida pelo Procurador-Geral, nomeado pelo Presidente da República mediante proposta do Governo, e a quem compete ‘representar o Estado e defender os interesses que a lei determinar, bem como (…) participar na execução da política criminal definida pelos órgãos de soberania, exercer a acção penal orientada pelo princípio da legalidade e defender a legalidade democrática.’

As regras estão lá: o poder judicial tem uma legitimidade indirecta, uma vez que não está sujeito a sufrágio universal, e directa, e o Ministério Público deve reger-se por regras próprias.
Tudo simples e claro, seria suficiente que o poder político fosse competente se não sofresse de um medo atávico.

CRISTO EM CASA DE MARTA

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Escrevemos, num dos últimos dias, a propósito da materialidade de uma tábua pintada, cerca de 1535, por Gaspar Vaz, colaborador que foi de Vasco Fernandes, o Grão Vasco, documento que, no solene espaço do Museu Nacional Grão Vasco, se afirma como repositório de múltiplas lições que nela se cumprem. Hoje completamos a tarefa de interpretar o quadro.

Nessa imaginal Sala Grande de uma residência da Renascença, que habitualmente se situava no 1.º piso dos palácios, o piano nobile onde se recebiam os convidados, à volta dessa mesa montada sobre cavaletes recobertos pela preciosa tapeçaria dos mercados do Oriente e a toalha de linho adquirida na Flandres sentaram-se para tranquila refeição, quem sabe, o senhor dos nobres aposentos, Lázaro, figura interpretada como sendo a do encomendante, o Bispo D. Miguel da Silva, sentado à mão direita do Mestre. À mão esquerda de Cristo, o convidado principal, ao qual se destinou o lugar de honra, sentam-se os amigos que trouxera consigo: Pedro, a quem haveria de prometer as chaves da sua igreja, e João, que conhecemos como o “discípulo amado”.

A refeição estaria pronta a servir, que tal afirma a presença de uma serviçal que se suspendeu a caminho da mesa, nas mãos a iguaria, bem como o mordomo ou serviçal que sobe do jardim, com um cestinho das deliciosas peras, que colheu, ao tempo em que Marta parece ter entrado de rompante, ao ver que a irmã, Maria, que até a teria ajudado a preparar a refeição, a tinha deixado agora, ao chegar dos convidados e ali estava, sentada sobre uma esteira, deduzo, escutando, simplesmente escutando, atenta, a conversação do irmão e dos convidados, deles colhendo, certamente, informação acerca da nova doutrina que o Mestre trouxera. Apoia o rosto sobre o braço, que não lhe importam os ruídos exteriores, abandona a outra mão sobre o colo, onde tem pousado um livro, talvez da antiga Lei e escuta. Simplesmente escuta. Não era ainda o tempo em que uma mulher tivesse voz.

Marta surge da cozinha, não diz nada à irmã, mas estende, numa rispidez mal contida, estende o braço na direcção de Maria e é ao amigo da casa, Cristo, que ela havia decerto acompanhado tantas vezes, que parece censurar:

– Senhor, não se te dá que minha irmã me deixe só a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar”.

Lázaro, ao lado, suspende-se, estranhando, decerto, a atitude da irmã que compreende, mas não diz nada. Cristo, o amigo, não se perturba. Estende mansamente a mão direita para Marta e com a outra mão faz um manso sinal para que Pedro e João suspendam a conversa que entre os dois acontece.

E tranquiliza Marta, advertindo-a com bonomia:

– Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte que lhe não será tirada.

Cristo põe, deste modo, em correlação, duas atitudes na prática religiosa discutidas ao tempo, a prática da vida contemplativa a que Maria parece aspirar versus a vida activa que Marta escolheu, as duas, de qualquer modo, vias salvíficas.

Para terminar uma gostosa visita ao quadro, vale um atento olhar sobre a paisagem do janelão iluminado por um cenário urbano, que interpreta o desenho de uma gravura de Albrecht Dürer de título o Regresso do Filho Pródigo. E ainda, sobre a direita alta do quadro, nesse quadro dentro do quadro, vale a pena ler um episódio da vida de Santa Marta que, desembarcando em Marselha com Maria e Lázaro, intenta a pregação de uma doutrina nova. Confrontada com a terrível história da Tarrasca, que afligia as gentes de Tarrascon, conduz o dragão, aspergindo-o com água-benta, até Arles onde é morto. Facilitada ficava a sua missão apostólica na região. Imagem que interpreta uma outra gravura de Albrecht Dürer, Melancolia I.                          

Um quadro para ver num Museu que, como este, integra diversos “Tesouros Nacionais”.

INCAPAZES DE DIZER NÃO

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Quem são os responsáveis pelas mortandades a que temos assistido, por todo o mundo, mas em especial na Ucrânia, na Rússia, em Gaza, no Líbano, no Irão? Quem decide os alvos? Os generais ou os políticos? O que obriga um militar a aceitar ordens ilegais, face aos códigos de conduta militar e ao direito internacional?

Míssil lançado por um F-35, guiado por GPS ou laser, infalível, certeiro, mortal

Há uma narrativa sobre a guerra moderna, que é precisa, controlada, tecnológica, que tem “bombas inteligentes”. Uma guerra de alvos, de coordenadas. Mas, depois, somam-se as pilhas de cadáveres, e não são de militares nem de combatentes: são civis, são mulheres, são crianças.

Gaza é o exemplo acabado do que pretendo dizer. O genocídio de um povo, não tem maneira de se disfarçar. É um ato criminoso executado por militares.

valas comuns em Gaza

No caso de Gaza, a documentação independente acumulada ao longo do conflito aponta para matanças sistemáticas, orientadas, incluindo a destruição de infraestruturas civis essenciais. Organizações como a Human Rights Watch e a Amnesty International têm descrito padrões de ataques com número muito elevado de vítimas não combatentes, violações graves do direito internacional humanitário.

A questão não é apenas o número de vítimas. É a destruição sistemática de hospitais, escolas e zonas residenciais. No caso de Gaza, não sobrou nada. Foi tudo terraplanado à bomba. Quem falar em “acidentes operacionais” faz figura de urso e perde credibilidade.

Boa parte da destruição provocada nos principais campos de batalha da atualidade, tem sido provocada por bombardeamentos aéreos e ataques de drones. Um piloto de F-35 pode tentar argumentar que não vê os alvos que ataca, que se limita a introduzir coordenadas que recebeu no briefing da missão, mas difícilmente nos vai convencer que, depois, não vê na televisão ou nas redes sociais os efeitos do que acabou de fazer.

E, no entanto, não há notícia de recusas ao cumprimento das missões atribuídas. Nenhuma rutura documentada no momento da missão. Nenhuma cadeia de comando interrompida por objeção ética explícita. Nenhuma fissura visível no ponto em que a decisão se transforma em ação.

Houve precedentes históricos, como a Carta dos pilotos israelitas de 2003, mas são exceções situadas fora do contexto da atual guerra.

fonte https://elpais.com/internacional/2003/09/25/actualidad/1064440806_850215.html

A arquitetura da obediência moderna

A explicação imediata tende a ser técnica: as regras de empenhamento, a obediência à cadeia de comando. O piloto ou o artilheiro não decide o alvo; executa uma missão previamente certificada.

Na verdade, podemos imaginar que o “desenho” de um ataque militar seja obra de diferentes indivíduos com níveis de responsabilidade diferentes. Haverá os que identificam alvos, provavelmente gente ligada à espionagem militar, seja no terreno ou por satélite, depois deve haver os que validam a missão, os que a autorizam e os que a executam. Esta corrente de responsabilização acaba por desresponsabilizar todos eles. Nunca há culpados por um ataque a uma escola onde morreram 160 crianças, por exemplo.

Depois temos a narrativa conveniente, que nos fala em “dano colateral aceitável”  e que é disseminada pelos média. Um triste papel, o dos jornalistas.

A capital do Líbano, Beirute, sob bombardeamento israelita no final de março de 2026

A questão não é a ausência de regras formais. Nem a ausência de enquadramento legal. O problema é que aceitámos as justificações pelos crimes de guerra decididos e executados por autênticos calhordas.

Já há 81 anos, os pilotos que comandaram os bombardeamentos atómicos sobre o Japão não se arrependeram do que aceitaram fazer. Tiveram longas carreiras militares, chegaram a generais, morreram na cama. Nenhum deles meteu uma bala na cabeça.

Paul W.Tibbets no cockpit do bombardeiro antes de partir para a missão de destruir Hiroshima e Charles W.Sweeney à porta da messe de oficiais antes de partir para destruir Nagasaki
a bomba atómica baptizada Little Boy lançada duas vezes sobre cidades japonesas
O cogumelo atómico provocado pela bomba atómica sobre Hiroshima
Nagasaki
vitima agonizante em nagasaki

O CHEF DE MOEDAS

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Imagino que o presidente da CML não saiba que a capital do país é um lixo, que as ruas estão destruídas, que o preço das casas, verdade seja dita, desde que Luís Montenegro tomou posse, ainda não parou de aumentar. A título de exemplo no que respeita aos acessos, refiram-se as ruas de Sete Rios, só porque vão dar ao Instituto Português de Oncologia (IPO). As ambulâncias andam aos saltos até chegarem ao hospital, tamanhos são os buracos das únicas ruas que ali conduzem. Há mais de 30 anos que prometeram retirar os carris da rua que vai dar ao IPO. Construíram uma ciclovia sem continuidade, mas os carris lá continuam, ajudando a esburacar a rua.

E o que faz Moedas? Contrata um chef, que, no total, custará cerca de 36500 euros à autarquia, o que significa aos nossos impostos que, naturalmente, aumentarão. Portanto, as pessoas podem não ter casa, podem não ter que comer, podem viver em barracas e entre o lixo, incluindo na Rua José Malhoa. O presidente comerá de luxo.

Num momento em que o custo de vida aumentou muitíssimo e as famílias que estavam em dificuldades estão, claramente, pobres, já percebemos quais são as preocupações dos governantes, tanto do país como da capital.

No mercado de Benfica, dizia uma das vendedoras: “se anteriormente as pessoas compravam um quilo de tangerinas, agora compram três peças de fruta; ou um quilo de batatas, agora vão três batatas. Uma senhora chegou a comprar uma banana”. E passemos pelas farmácias onde se acumulam os mais velhos que não compram medicamentos: “ou levamos remédios ou comemos”.

Por outro lado, o governo desceu o IRS dos senhorios para 10 por cento no arrendamento habitacional (em todos os que tenham rendas inferiores a 2300 euros por mês, o tecto a que o governo chamou de “renda moderada”) e 6 por cento no IVA para a construção de habitação. Em suma, o IVA de 6 por cento será concedido a quem construa casa própria, quem a construa para venda desde que o preço não ultrapasse os 660.000 euros ou a ponha no mercado de arrendamento, desde que não cobre mais do que o valor da tal “renda moderada” de 2300 euros. Espera-se que o governo e as autarquias digam onde há casas, tanto para arrendamento como para venda, por aqueles preços, tendo em conta que um T1+1, por exemplo, em Benfica custa os tais 600 mil euros e não serve para uma família de quatro pessoas. A mesma família, ainda em Benfica, paga 1750 euros por um T1 com 55 metros quadrados. Naturalmente os filhos dormirão na varanda, que não existe, ou talvez na casa da porteira que também já deixou de haver.

E todos verificam que o custo de vida continua a aumentar, com lucros para as grandes empresas e prejuízos para os cidadãos. Com lucros para os senhorios e prejuízos para quem quer uma casa para viver.

fonte Evolução do preço das casas à venda, Benfica — idealista

Enquanto isto, o que é que não aumenta? Claro, os ordenados, os abonos de família, as pensões dos mais velhos. Uns têm de ser esticados, outros vão para pagar as refeições nas escolas e os últimos é bom que morram para deixarem de ser uma despesa, sendo certo que estes foram as grandes vítimas da Troika de Passos Coelho, não tendo ainda recuperado dos cortes nas pensões então sofridos. Por isso, não será despiciendo lembrar que o Estado só engordou para gastar mal porque alguém efectuou descontos durante dezenas de anos de trabalho…

ESTAR MORTO ANTES DE MORRER!…

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Comentava, há dias, com uma colega o facto de amigo comum não responder às mensagens, mesmo àquelas a que, em princípio, ele teria, por obrigação de ofício, uma palavra a dizer.

– Está morto! – retorquiu-me ela.

– Morto, como?

– Não sabes? É a nova moda: faz-se de conta que se não existe, não se atende o telefone, não se fala para ninguém…

Fiquei abismado.

E raciocinei: de facto, três ou quatro dos meus antigos alunos, agora já colegas, com quem eu tivera maior relacionamento, inclusive de trabalho, morreram desta maneira!…

Metem-me dó! Ficam velhos antes do tempo. Carregam, sozinhos, pesada cruz, quando havia cireneus capazes de os ajudar,  «Olá, bom dia! Como estás?»… Não há bons-dias nem boas-noites, nem festas felizes!…

Tenho o privilégio de o construtor da minha casa ter usado tijolos furados, na parede exterior da minha casa-de-banho. Encanta-me o final da tarde, quando o sol começa a pôr-se, lá para as bandas do Guincho, porque, nessa altura, começa o rodopiar de umas duas dezenas de pardais. Pousam na buganvília, na romãzeira, nos fios do telefone e da eletricidade. Conversam animadamente uns com os outros. E, pouco a pouco, entra cada um num dos buracos. Saem. Dão uma espreitadela aos demais e acabam por se aninhar cada um no seu buraco.

Encanta-me vê-los, aconchegados, mesmo junto ao vidro interior. Uma comunidade!

Durante a jornada – que começa para eles assim que alvorece e vão à vida – não sei se andam juntos ou não. Sei que passam a noite connosco.

Vou para a cama, amiúde, a pensar nesses meus colegas e amigos que não são como os “meus” pardais: não convivem, estão mortos antes de morrer!

ANTES DA MALA DE CARTÃO, LEVAVAM PEDRAS TUMULARES

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Imagem descritiva, construída com recurso IA

Pode, efectivamente, parecer estranho, mas aconteceu. E a história foi-nos brilhantemente contada por António Correia e Silva, no decorrer das II Jornadas Portuguesas de Gastronomia recentemente realizadas em Cascais, a que houve oportunidade de aqui nos referirmos.

Emigra-se, de facto, para um outro país com a ideia habitual de, na idade da reforma, se voltar à terra natal. Pode, porém, emigrar-se na intenção de lá ficar até à morte.

Lápide sepulcral de Cristóvão Leitão Cabral, falecido aos 26 dias de Outubro do ano de 1608, igreja do Rosário da Cidade Velha, ilha de Santiago. Foto de Rui Carita

António Correia e Silva – professor na Universidade de Cabo Verde, sociólogo e historiador, autor de livros como Histórias de um Sahel Insular (1995), Nos Tempos do Porto Grande do Mindelo (2001), O Tempo das Cidades-Porto (1999), Cabo Verde, Combates pela História (2004) – depois de afirmar que a cachupa (a rica e a pobre) constituía, como Cesária Évora, um dos ex-libris de Cabo Verde, deu conta de que, quando chegou o momento de sair gente de Portugal para Cabo Verde, ia a família toda e, com ela, as pedras tumulares, porque se sabia não haver nas ilhas rochas que servissem para o efeito. Isso prova bem, salientou Correia e Silva, ser intenção de ali toda a família ficar.

De facto, se hoje observarmos as fichas patrimoniais das pedras sepulcrais, por exemplo, da cidade velha de Santiago, da igreja do convento de S. Francisco ou  da igreja do Rosário, lemos, neste caso, sem surpresa que se diz ser de «mármore continental europeu».

Fotografia à esquerda: na Cidade Velha de Santiago, igreja do Convento de S. Francisco, ilha de Santiago. Fotografia à direita: na igreja do Rosário da Cidade Velha, ilha de Santiago

Foi, na verdade, notável a comunicação do professor cabo-verdiano, explicando como é surpresa grande para um cabo-verdiano recém-chegado a Portugal ter uma semana de chuva, quando, lá, chover é fenómeno bem raro; explicando que os navios negreiros vindos da Guiné também levavam milho maís (o único que se adapta nas ilhas) e arroz; que se promoveu a cultura de laranjeiras e limoeiros, fundamentais para a tripulação dos navios, a fim de se combater o escorbuto; que foi sempre fundamental a produção de gado caprino, dada a sua resistência às vissicitudes da aridez do clima, gado de que tudo se aproveita, constando a carne salgada como elemento necessário da dieta alimentar.

Aproveitou para se referir a duas festas tradicionais a que a gastronomia está intrinsecamente ligada: a Festa das Cinzas, especialmente intensa na ilha de Santiago, que marca o início da Quaresma com um grande almoço comunitário e familiar, com pratos tradicionais como peixe seco, xerém, cuscuz com mel, couve feijão com ovos escalfados, leite de coco, simbolizando partilha, união e tradição. E a festa da altura da Páscoa, em que se celebra a afirmação da vida e cada homem oferece à mulher um frasco de mel.

Terminou sublinhando que Cabo Verde tem a sua história e o novo turismo já não é apenas o de sol-e-praia, mas também o do património histórico e o do resgate da gastronomia tradicional. Note-se que, em relação às referidas pedras tumulares, terá que existir um movimento de verdadeiro salvamento da maior parte delas, na medida em que é fácil, por serem ‘velharias’ sem outro préstimo, acabarem reaproveitadas a trouxe-mouxe noutros edifícios. E assim se corre o risco de perder uma memória milenar. Louve-se, por conseguinte, a actividade da historiadora Vera Félix Mariz por, num colóquio internacional realizado, em Lisboa, em Junho de 2012, ter focado o caso da igreja da Nossa Senhora do Rosário, como exemplo de um património que deve ser devidamente valorizado; foi daí que tomei a liberdade de copiar a imagem das pedras sepulcrais que estão a servir de degraus de acesso ao adro duma das igrejas.

                                                                                                         

OS QUE MANDAM MESMO

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À pergunta, como é possível que os cidadãos tenham elegido, por duas vezes, um energúmeno como Donald Trump? A resposta é, porque o sistema político-partidário dos EUA está sustentado no poder financeiro.

Também pela mesma razão, pouca diferença se nota entre um Presidente oriundo do Partido Democrata e o Partido Republicano. Na política externa, não se nota mesmo nada: todos os presidentes americanos têm feito as suas guerras, igualmente injustas, injustificadas e violentas. Na política interna há algumas nuances nos apoios sociais e nos incentivos ao investimento, mas a verdade é que os números da pobreza e dos sem-abrigo não cessam de aumentar.

Os sistemas partidário e eleitoral são complexos e o acesso a eles é bastante caro. Por exemplo, não há tempos de antena para disseminação de propaganda, cada partido paga os seus, por canal de televisão. Ou seja, difundir uma campanha eleitoral pelas televisões nos 50 Estados da União custa uma fortuna.

Cada Estado tem as suas próprias leis de registo de partidos políticos. Quem quiser fundar um partido de âmbito nacional tem de o registar em todos os 50 Estados da União. Em alguns Estados o registo é gratuito, mas noutros o custo pode ascender a mais de 5 mil dólares como, por exemplo, no Louisiana.

AS MAIS CARAS CAMPANHAS ELEITORAIS DO MUNDO

Quando há eleições, o registo de candidatos também tem de ser pago. Além disso, o registo só é válido se o candidato reunir um número mínimo de assinaturas de eleitores que constem nos cadernos eleitorais. Estados como a Flórida podem exigir cerca de 145 mil assinaturas de eleitores registados. Como é quase impossível fazer isso apenas com voluntários, os partidos contratam empresas profissionais. Estima-se que recolher assinaturas para um único Estado possa custar centenas de milhar de dólares.

Para um partido ser minimamente competitivo e aparecer em todos os Estados numa eleição presidencial, o custo de logística, equipas de advogados (consideradas fundamentais) e recolha de assinaturas pode ultrapassar os 2 milhões de dólares. E depois é preciso fazer campanha. É por isso que pequenos partidos políticos não conseguem entrar nas corridas presidenciais ou para o Congresso.

Ouvimos falar em orçamentos de campanhas eleitorais na ordem dos muitos milhões de dólares que dependem de financiamentos avultados de privados. Nas últimas eleições, um “sindicato” de multimilionários reuniu-se para pagar a eleição de Trump. Foram eles que pagaram toda a logística da máquina eleitoral, incluindo a propaganda nos media tradicionais e redes sociais.

As campanhas americanas são as mais caras do mundo.  Os candidatos precisam de angariar milhões de dólares apenas para comprar anúncios na TV. Os partidos Democrata e Republicano têm máquinas de angariação de fundos gigantescas. Nas eleições de 2024, a campanha de Trump arrecadou mais de 400 milhões de dólares em donativos e nem sequer foi a campanha que mais dinheiro angariou.

O PODER DOS OLIGARCAS

Nas televisões, todo o espaço é vendido. As estações de televisão não têm obrigação de dar tempo igual a todos os candidatos fora dos blocos informativos. A única regra igualitária, digamos assim, é a que obriga os canais de televisão a dar o mesmo preço a todas as candidaturas na corrida eleitoral. Não é tempo de antena gratuito, é apenas o direito de comprar ao mesmo preço do adversário..

Mesmo os debates televisivos não são “tempos de antena”. São organizados por entidades privadas ou redes de media. Os candidatos não só pagam bilhete de entrada para o debate como, na hipótese de haver candidatos apoiados por partidos mais pequenos, esses candidatos têm de atingir um limiar mínimo nas sondagens (geralmente 15%), o que cria um círculo vicioso: sem TV não sobem nas sondagens, e sem sondagens não vão à TV.

Tudo isto faz com que o Presidente dos EUA seja uma espécie de “mandatário” dos multimilionários que lhe pagaram o direito de concorrer e a campanha eleitoral. Não há nenhum mecanismo para verificar eventuais conflitos de interesse (nem mesmo de ordem política) dos financiadores. Podem ser sionistas e financiar sem problemas um candidato à Presidência dos EUA. A longa lista de multimilionários que pagou a campanha de Trump pode ser consultada aqui, num artigo da revista Forbes. Então, já percebemos como é que um tipo tão estranho como Trump chegou duas vezes à Casa Branca. Pagam-lhe para lá estar. E ele cumpre com os objetivos traçados.

fotomontagem satírica

 

PRESIDENTE SEGURA A CONSTITUIÇÃO

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Nos 50 anos da Constituição da República Portuguesa (CRP), o Presidente da República lembrou que a CRP é a voz de um povo que, depois da ditadura salazarista, escolheu a democracia, a dignidade e a justiça social.

António José Seguro agradeceu aos deputados da Assembleia Constituinte por terem cumprido a tarefa de escrever, discutir e aprovar uma CRP democrática em cerca de um ano de trabalhos parlamentares.

“Depois de décadas de silêncio, a voz do povo fez lei”, disse o Presidente, numa espécie de síntese da celebração que estava a decorrer na Assembleia da República.

Seguro lembrou que nestes 50 anos, a CRP já sofreu “sete revisões, sem perder a sua essência”.

O escudo do cidadão perante o arbítrio do poder. A garantia da cidadania. Todos iguais nos direitos e deveres. Os pilares constitucionais de um país que é hoje muito melhor do que foi durante o salazarismo. “Há uma verdade que importa dizer com clareza: não é a CRP que impede a resolução dos problemas concretos dos portugueses”.

Juramento do Presidente António José Seguro, 2026-03-09

Seguro lembrou que, tal como jurou na tomada de posse como Presidente da República, tudo fará para defender, cumprir e fazer cumprir a CRP”. Posicionou-se como contrapeso aos que querem destruir a Constituição da República Portuguesa.

O discurso do Presidente, na íntegra:

Discurso do PR nos 50 anos da CRP