A Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR) é, talvez, um dos exemplos mais sólidos da capacidade de resistir contra todas as adversidades – institucionais, sociais e morais. Primeiro, porque se dedica a apoiar pessoas que foram julgadas e condenadas à prisão, uma missão que continua a ser incompreendida e até malvista por tantos que preferem imaginar a punição como um sofrimento interminável, muito para lá do que as sentenças judiciais determinam. Depois, porque a APAR mantém uma independência rara: recusa apoios do Governo e não aceita quotas de sócios que estejam a cumprir pena.
Apesar de tudo isto – ou talvez por causa disso – a APAR não só persiste, como se fortalece. Continua na linha da frente da defesa dos direitos dos reclusos, e consegue, ano após ano, juntar à volta desta causa um número crescente de pessoas vindas das mais diversas áreas: do direito à medicina, da educação às engenharias, do jornalismo à sociologia. É uma rede improvável, mas profundamente necessária, unida por uma ideia simples e sempre esquecida: a de que a dignidade humana não termina à porta de uma prisão.
A sociedade também se mede pelo modo como trata os que estão numa prisão e no modo como os reinsere. Uma frase que, dita assim, é uma crítica à sociedade portuguesa. Mas foi o que disse o Presidente da Assembleia da República, numa mensagem que enviou ao congresso da APAR.
De 21 a 23 de novembro, essa energia converte-se em prática no II Congresso Internacional da APAR. Durante três dias, no Templo da Poesia, em Oeiras, médicos, advogados, guardas prisionais, sociólogos, autarcas, jornalistas, professores, padres, engenheiros, empreendedores e muitos outros estão a “partir pedra” sobre um tema de que quase todos preferem desviar o olhar – embora ninguém esteja verdadeiramente livre de um dia enfrentar o sistema prisional, seja por dentro, seja através de alguém próximo.
A entrada é livre. E talvez seja essa liberdade – a de entrar, ouvir, pensar, fazer perguntas – o primeiro passo para perceber que a prisão, sendo um problema de poucos, é uma responsabilidade de todos.



