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ENTRE A DOR E A MANIPULAÇÃO: A GUINÉ-BISSAU NÃO PODE SER GOVERNADA PELO RUMOR

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Nenhuma sociedade séria pode banalizar a perda de uma vida humana em circunstâncias violentas. E nenhuma autoridade responsável pode fugir à obrigação moral, política e institucional de exigir que toda a verdade seja apurada.

É precisamente por isso que importa dizer, com clareza, o que muitos preferem esconder no meio da emoção: uma tragédia desta natureza não pode ser transformada, à pressa, num tribunal político de rua, num laboratório de agitação ou numa plataforma de manipulação da opinião pública.

Desde as primeiras horas após o crime, instalou-se no espaço público um vox pop carregado de insinuações, certezas sem prova e acusações pré-fabricadas, apontando de imediato o dedo ao militares, ao actual quadro de poder e até ao ex-Presidente Úmaro Sissoco Embaló.

Mas uma pergunta séria impõe-se: com base em quê?

Num Estado que se quer reconstruir, a verdade não pode ser substituída por boatos organizados, nem a justiça por convicções partidárias. Acusar antes de investigar não é coragem cívica, é irresponsabilidade política.

Há, aliás, um dado que qualquer observador minimamente racional deve considerar: num momento em que o actual regime procura consolidar-se, reduzir tensões, recuperar confiança interna e obter sinais crescentes de compreensão e apoio por parte dos principais parceiros de desenvolvimento da Guiné-Bissau, seria politicamente contraditório e estrategicamente absurdo admitir, sem prova, que teria interesse em provocar um acto com tamanho potencial desestabilizador.

Isso não significa absolver ninguém antecipadamente. Significa apenas recusar a preguiça intelectual de transformar suspeitas em sentença. O mesmo vale para o silêncio do ex-Presidente Úmaro Sissoco Embaló. Num ambiente emocionalmente carregado, não é intelectualmente sério nem moralmente aceitável converter o silêncio político de uma figura influente em prova de culpa ou cumplicidade. Em democracia, a responsabilidade criminal não se constrói por ódio, nem por conveniência narrativa.

Mais preocupante ainda é o facto de, quase em simultâneo, certos actores políticos, comentadores militantes e activistas habituais terem surgido com mensagens convergentes, tentando empurrar o país para uma leitura étnico-política do caso, como se a dor de uma família e a indignação de uma comunidade pudessem ser transformadas em combustível para agendas de confronto.

A Guiné-Bissau deve rejeitar com firmeza qualquer tentativa de incitamento emocional dirigido à comunidade balanta ou a qualquer outra comunidade nacional. Nenhuma etnia deve ser usada como tropa de choque de ambições políticas. Nenhuma dor colectiva deve ser transformada em arma de desestabilização.

É legítimo pedir justiça. É legítimo exigir transparência. É legítimo desconfiar de versões fáceis. Mas não é legítimo incendiar o país para colher dividendos políticos.

Também por isso, algumas intervenções externas, inclusive vindas de círculos políticos em Portugal, deveriam ser mais responsáveis. A Guiné-Bissau não precisa de paternalismo moral em formato digital, nem de julgamentos instantâneos feitos a partir de redes sociais, sem acesso aos factos, sem responsabilidade directa no terreno e sem preocupação real com as consequências internas de cada palavra pronunciada.

O país precisa, sim, de coisas simples e decisivas: investigação séria, sem zonas de protecção, sem intocáveis e sem encobrimentos. Justiça efectiva, sejam quem forem os autores, mandantes, cúmplices ou beneficiários. Serenidade nacional, porque a verdade não nasce do pânico, nem da propaganda, nem da histeria colectiva.

Neste ponto, importa reconhecer que o Governo e o Primeiro-Ministro assumiram a posição institucional correcta: condenaram o crime, pediram investigação até às últimas consequências e defenderam o apuramento integral dos factos. Essa é, neste momento, a única postura compatível com a responsabilidade de Estado. Quem realmente ama a Guiné-Bissau não deve perguntar primeiro: “quem me convém acusar?”. Deve perguntar: “como evitar que mais uma morte seja usada para empurrar o país para o abismo?

A verdade deve ser dita. A justiça deve ser feita. Mas a Nação não pode ser entregue ao rumor, ao cálculo e à exploração da dor. A Guiné-Bissau precisa de sangue-frio, verdade, sentido de Estado, mas não de incendiários disfarçados de indignados.

CRISTO EM CASA DE MARTA

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Museu Nacional Grão Vasco, Cristo em Casa de Marta e Maria, Gaspar Vaz, c. 1535

De uma demorada passagem pelo Museu Nacional Grão Vasco, essa emblemática casa de cultura de Viseu onde a pintura de Grão Vasco pontifica como “Tesouro Nacional”, uma pintura me cativa ainda, como sempre aconteceu, esse virtuoso quadro, de título “CRISTO EM CASA DE MARTA E MARIA”, que Gaspar Vaz, colaborador que foi de Grão Vasco, terá executado para a áulica Capela de Santa Marta, que D. Miguel da Silva mandara construir no Paço de Fontelo, onde Santa Marta figura como patrona.

Ficaremos, hoje, pelo sumário descritivo desta obra-prima, cuja materialidade é a de uma extensa tábua de castanho pintada a óleo onde se representa, num cenário intimista, quase familiar, uma refeição servida, ao findar de uma tarde, me parece, a ajuizar pela luz morna do janelão mainelado que descobre a paisagem.
Talvez tenha sido Lázaro, com o assentimento de suas irmãs que com ele coabitam nesse espaço de agradável mansão, a convidar o Mestre. que veio, nesse dia, trazendo apenas Pedro e João.
O serviço da refeição cumpre-se no amplo espaço de uma sala de aparato, espaço construído e decorado de acordo com padrões renascentistas que o Bispo D. Miguel da Silva trouxera da sua estada em Roma e cultivara.
Chamam-nos a atenção as poderosas colunas de jónica feição, que, sobre plintos volumosos, suportam um tecto apainelado, havendo a notar, como insólito, a cartela inscrita na face dos plintos, com a reprodução da heráldica do Bispo, sem dúvida, o encomendante: o “Leão entre silvas”.
Sobre um chão pavimentado com mosaicos de expressão hispano-árabe, levantou-se a mesa cerimonial da refeição, logo recoberta por uma rica tapeçaria oriental, cujo padrão testifica uma concreta origem. Sobre esta pousa uma branca toalha que, se pudéssemos tocar-lhe, distinguiríamos o tecido de linho relevado importado das oficinas da Flandres.
Sobre a mesa, algo despojada, ainda se encontram três pães. Nota-se, vazio, frente a João, um prato de estanho e uma pequena taça, mais longe. Pedro desdobrou já o individual guardanapo, que Cristo mantém ainda dobrado e nele repousa a faca de estanho para ulterior serventia.

Um pesado dossel, pano de honra, drap d´honneur, de nobre tecido de damasco talvez, desce do tecto, recobre a espaldas o espaço da mesa, descendo sobre esse espaço, frente ao qual se senta o nobre convidado.
À esquerda de quem olha, abre-se um aposento intimista onde, sobre as libertas prateleiras de um armário recobertas de linho pousam, resguardadas, peças de estanho, para serviço de aparato, que se acompanham de pequenos cântaros de fino barro vermelho, que pousam a deslado, talvez sobre um estrado.
Os convidados virão, sentar-se-ão nos lugares que o seu estatuto lhes consigna e a mesa depressa se tornará lugar de vivo conciliábulo, discurso breve que, todavia, expressa profundos conceitos de doutrina, a verdadeira mensagem do quadro.
Para ler num outro dia!…

CONSENSO OU RUPTURA INSTITUCIONAL

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A escolha dos nomes dos Juízes para o Tribunal Constitucional constitui uma questão relevante, no quadro constitucional consolidado nos últimos 40 anos, potenciando o fim do chamado bloco central, que dominou a nossa vida política desde o 25 de Abril de 1974, ou confirmando o acordo de regime entre o PSD e o Chega. Para alguns será uma tragédia, para outros o princípio de uma nova fase da vida política, ainda para mais num quadro mundial de enorme incerteza, com uma crise económica cujas consequências podem arrasar o equilíbrio nascido após a II Guerra Mundial e a criação da União Europeia.

Importa entender o que poderão ser a evolução da política interna, as alterações da política partidária e as suas consequências para os portugueses.  

O acordo de regime já se verificou na Lei da Nacionalidade, abrindo o caminho a outros entendimentos, noutras questões relevantes para a sobrevivência do governo porque, para Luís Montenegro, é isto que está em causa: sobreviver o máximo de tempo possível.

Este acordo de regime levará, inevitavelmente, à extinção do CDS, a um reforço do Chega em diversas estruturas do poder – os até aqui chamados ‘tachos’ – e a uma clivagem clara entre a direita e o centro-esquerda moderado, representado pelo Partido Socialista.

Na Europa os partidos da direita radical vão ganhando cada vez mais espaço e, em muitos casos, alcançam o poder ou ficam mais próximos de o atingir ou de o influenciar, o que implica entender duas coisas: quais as causas que determinam a subida dos partidos radicais de direita e o que é ser de esquerda no segundo quartel do século XXI.

Por que motivo cresce o sentimento de apoio a regimes autocráticos, com compressão dos direitos, liberdade e garantias, ou, de forma mais clara, por que motivo os eleitores entre os direitos e a compressão dos direitos, optam pela compressão dos direitos.

Para tentar compreender estes movimentos, temos de entender o que levou a esta situação.

De forma simplista, podemos afirmar que as causas do crescimento da direita radical derivam da iliteracia, da desinformação, alimentada pelas redes sociais e por centrais de informação controladas por grupos económicos, dos movimentos migratórios na Europa, da falta de resposta a questões fundamentais como a habitação, a segurança e a saúde. Podemos igualmente dizer, com alguma certeza, que a cultura do ódio, o medo, o empobrecimento da classe média e baixa ajudam ao crescimento destes movimentos radicais.

Aqui chegados, temos de questionar qual o papel que a esquerda moderada deve ter para recuperar a sua influência e as diferenças para com esta direita radical? O que é ser de esquerda, hoje, num quadro em que se perderam muitos dos valores nascidos com a Revolução Francesa e com o reforço das democracias na Europa.

A esquerda, mesmo a esquerda moderada, enredou-se em questões wokistas que, numa visão complexa de graves problemas económicos e sociais, nada dizem à grande maioria dos eleitores e dos cidadãos.

A defesa das minorias é um pressuposto da democracia e do exercício dos direitos, mas não pode ser o alfa e o ómega da política nem, de modo algum, a única preocupação da esquerda moderada, sob o perigo de alienar eleitores e deixar o campo aberto à direita radical.

Existem problemas concretos, no dia-a-dia, que penalizam os cidadãos e aos quais se deve dar uma resposta. Sem ela, engrossam os apoiantes da extrema-direita.

Como se assistiu no dia 2 de Abril de 2026, nas comemorações dos 50 anos da CRP, a direita radical está a subir o tom, a lançar o ódio e a usar a mentira para ganhar terreno. Alguns dos membros do Chega estiveram ligados a movimentos terroristas no pós-25 de Abril, incluindo o ELP e o MDLP. Assassinaram cidadãos, colocaram bombas, são criminosos que ficaram impunes. Nestes tempos de deriva, é necessário recordar esses crimes, porque a grande maioria dos eleitores ainda não era nascida quando foram praticados.

Por este motivo, a esquerda moderada, em concreto o Partido Socialista, tem a obrigação de repensar o seu papel no actual quadro político-partidário português. E, de uma vez por todas, tem de repensar se quer manter consensos com o governo PSD/ Chega ou se é preferível uma ruptura institucional. Há momentos, na política, em que é necessário coragem e capacidade de romper com o status quo, e este é o momento. Se nada for feito, o Partido Socialista e a  esquerda moderada perderão qualquer possibilidade de recentrar o País e de garantir uma democracia liberal, estável e desenvolvida.

O Partido Socialista e todos os defensores de uma democracia parlamentar, com desenvolvimento económico e social, têm a obrigação de separar as águas. De um lado fica o PSD e o Chega e do outro os defensores de uma sociedade livre, democrática e desenvolvida. As coisas são simples e apenas se tornam complicadas na bolha mediática e nos arquétipos que alguns analistas têm usado, sistematicamente, ao longo destes 50 anos.

O que deve fazer o PS, uma vez que é o partido com representação parlamentar, mais próximo desta concepção? Deve deixar a coligação PSD/Chega governar, sem participar nas grandes decisões, desde o Orçamento do Estado a qualquer proposta legislativa? Deve deixar que a coligação se digladie entre si? Deve apresentar as suas propostas para o País, mas sem pedir ou propor que as mesmas sejam incluídas nas medidas tomadas pela coligação de direita e aguardar, serenamente, construindo uma alternativa para ganhar as próximas eleições legislativas, as quais, possivelmente irão realizar-se mais cedo do que se pensa?

É um dos maiores erros de um partido da oposição ‘aperfeiçoar’ o Orçamento do Estado, sugerir medidas correctivas dos erros que quem governa apresenta aos portugueses. É um disparate, ainda mais grave, tentar melhorar leis, apresentadas pelo governo, que são uma aberração. Um partido da oposição deve dar a conhecer as suas propostas, para que os cidadãos delas tomem conhecimento. Não deve ‘ajudar’ o governo, muito menos um de direita, submetido aos impulsos da direita radical, a melhorar as leis ou as medidas que a tomar. O governo deve ser responsabilizado por tudo o que fez, sem contemplações.

O Partido Socialista, se quiser ganhar as eleições, recentrar o País e recuperar eleitores, tem a obrigação de construir alternativas, captar os jovens e a classe média, apresentar propostas credíveis e sérias, que permitam aos eleitores ter esperança em que se vai mudar o País. A gestão das expectativas é fundamental. O PS precisa de entender o que é ser de centro-esquerda hoje, ou seja, que os cidadãos necessitam de ter esperança e de acreditar que os seus problemas concretos vão ser ultrapassados.

VIVAM OS FOTOJORNALISTAS

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os fotojornalistas Manuel Moura, Inácio Ludgero e Rui Ochoa

Seis fotojornalistas foram homenageados pelo Presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, na sessão solene comemorativa dos 50 anos da Constituição de 1976: Manuel Moura, Inácio Ludgero, Rui Ochoa, Alfredo Cunha, Eduardo Gageiro e João Ribeiro.

As fotografias que hoje vemos nos arquivos de jornais da época, foram feitas por eles. Contam-nos histórias de um tempo em que o país se transformou. Com a Constituição de 1976, os portugueses adquiriram a estrutura legal que lhes garante, até hoje, direitos e liberdades inexistentes durante os 50 anos anteriores, em que Portugal viveu sob uma ditadura.

Estes profissionais foram destacados pelo seu papel histórico no registo dos momentos fundadores da democracia portuguesa e do processo constituinte. A homenagem incluiu referências ao seu trabalho na cobertura da Assembleia Constituinte e a inauguração de exposições fotográficas dedicadas ao cinquentenário da Lei Fundamental.

50 anos depois, reformados, ainda com o dedo no “gatilho”, sempre armados com uma máquina fotográfica, como é o caso de Inácio Ludgero.

fotografia de Inácio Ludgero no exterior da Assembleia da República, em 1976
Inácio Ludgero hoje

UMA PEDRA ANTIGA ATRÁS DA OUTRA

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Arqueólogo em campo pode sempre agradar-lhe a companhia, mas o seu olhar é como diziam os Antigos, a propósito de negócios de feiras: «Um olho no burro, outro no cigano!» (salvo seja!). O achado desta pedra é disso prova bastante!

E o pior é que isso é mesmo vírus que se pega! Quem, alguma vez, acompanhou arqueólogo em prospecção pelos campos é muito capaz de ficar com a moléstia de tudo querer ver com atenção. Já o mesmo se passa quando levamos uma turma a visitar um sítio arqueológico: há sempre um dos estudantes que, a dado passo, vê no chão um caco ou uma pedrinha fora do normal e corre junto do professor: «Isto tem interesse, sôtôr?».

Boa moléstia, esta, que também atacou Fernando Moreira, que acompanhara José Carlos Santos, em algumas deambulações com vista à elaboração da Carta Arqueológica de Tabuaço, que a respectiva Câmara Municipal viria a publicar em 2025.

Pois Fernando Moreira falara, recentemente, a José Carlos Santos da existência de um silhar almofadado, reaproveitado na Casa da Colegiada, de que se deu conhecimento aqui.

Sucede que, depois de se visitar o imóvel, na companhia da mãe da proprietária, se encontrou mais um bloco de granito almofadado. Blocos almofadados, esclareça-se, são sempre boa ‘isca’ para um arqueólogo, na medida em que, constituindo um tipo de aparelho muito usado pelos Romanos, pode indiciar a presença, por perto, de mais vestígios dessas eras, eventuais construções onde tais pedras possam ter sido aproveitadas.

Acontece, porém, que os achados não se ficaram por ali: semanas depois, o mesmo Fernando (bem haja!) enviou fotografias de várias pedras que lhe chamaram a atenção, aquando da demolição da fachada voltada a noroeste do edifício (em fase de restauro). Uma delas despertou particular interesse, por aparentar ser uma ara romana. E, na verdade, tudo leva a crer que o será! O tão desejado primeiro monumento epigráfico romano identificado no concelho de Tabuaço!..

A Casa da Colegiada fica em Barcos, localidade que pertence, administrativamente, à União das Freguesias de Barcos e Santa Leocádia. Penhoradamente se agradece à sua proprietária, D. Bertilina Ferreira, as facilidades concedidas para o estudo do monumento.

Trata-se da parte inferior de uma ara de granito de grão fino de tonalidade esbranquiçada. Mede 33,5 cm de altura, 24,5 a 31 de largura e 20,5 a 26,5 cm de espessura. A fractura, oblíqua, ocorreu sensivelmente abaixo da meia altura. Resta, ainda, a moldura da base, nas quatro faces, moldura que seria de garganta reversa seguida de escócia também reversa. Portanto, um monumento a seguir os cânones morfológicos romanos.

A pedra quando foi encontrada
A face principal da ara na posição correcta

Perdeu-se a inscrição que teria na face principal, com letras de leve recorte, se atendermos ao que parece ler-se na última linha: um E quase imperceptível seguido de um amplo X e de V. Na linha anterior, quiçá se terá gravado AEL, mas sem garantia.

EX V deverá desdobrar-se em EX V(oto), «por voto», o que determina estarmos perante uma árula, pequeno altar votivo a uma divindade, cuja identificação estaria na parte superior perdida, onde se deveria ler também a identificação do(a) dedicante, que, em virtude de promessa feita, mandou esculpir o monumento.

A difícil decifração do letreiro…

Em suma: tanto as pedras almofadadas de que já se deu notícia como, agora, este fragmento de ara auspiciam outras descobertas. De muito longe não terão vindo para incorporação na Casa da Colegiada. E, doravante, todos os olhares serão poucos para outros vestígios romanos por aí virem a ser encontrados.

(em colaboração com José Carlos Santos)

VERGONHA ALHEIA

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Os países europeus alinharam-se no não apoio à guerra. Depois de Espanha ter afirmado que não permitiria que as bases americanas em território espanhol fossem utilizadas e no seu espaço aéreo passassem aviões dos EUA, vários outros países, incluindo a França, a Itália e a Alemanha, puseram-se de parte numa guerra que, claramente, viola o Direito Internacional. Sobra para nós a vergonha de ceder as Lajes, nos Açores, para a utilização dos drones (MQ-9 Reaper) que, em português e para que não haja dúvidas, são chamados de ‘assassinos’.

A ida de Paulo Rangel à Comissão de Assuntos Europeus na Assembleia da República, no 1 de Abril, parecia uma mentira reportada ao dia das mentiras. Ficou a vergonha alheia de o ouvir garantir que o nosso país não está envolvido nas operações contra o Irão e a utilização da Base das Lajes cumpre o Direito Internacional.

Ah! E tal, sim, claro. Foi por isso, porque está tudo bem, que foi confrangedor ouvi-lo dizer que essa utilização só pode ser feita “em resposta a um ataque sofrido, necessário e proporcional e não vise alvos civis” (as crianças assassinadas pelos aviões americanos, logo nos primeiros dias, deviam ser um alvo militar), ou que “se essas garantias nos forem dadas e puderem ser observadas, estamos tranquilos. Até agora foi isso que aconteceu”. E reina a tranquilidade, sobretudo por duas razões. A primeira porque o primeiro-ministro, Luís Montenegro (o chefe de Rangel) já disse que Portugal “não acompanha, não subscreve e não está envolvido nesta operação” (leia-se guerra), e a segunda porque um dos “amiguinhos” de Rangel, o Secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, já lhe ligou a agradecer e os EUA “registaram a importância da ligação transatlântica, tendo abordado também a relação bilateral Portugal/ EUA, a nível da economia e da defesa”, segundo palavras do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Uma vergonha mesmo. Não porque (e reitero o que já escrevi) pense que o regime iraniano é bom, mas porque nunca permitiríamos, antes do 25 de Abril de 1974, que outras potências viessem dar ordens no nosso país.

Fica a ironia maior quando se olha para o lado se vê Israel, “uma democracia”, como tem sido sobejamente dito, cometer as atrocidades e invasões que estão à vista. Agora, para pôr uma cereja no topo da vergonha, foi aprovada uma lei antiterrorismo profundamente terrorista. Celebrada com champanhe no  Knesset, o parlamento israelita, a legislação inclui a pena de morte, que não se aplica a israelitas, para os palestinianos nos territórios ocupados da Cisjordânia. E mais, os condenados à morte ficarão em instalações próprias, sem direito a visitas e os contactos com advogados feitos por videoconferência. A sentença será proferida por uma maioria simples de juízes.

O mundo tem reagido contra esta nova lei. Ah! É verdade, não ouvi ninguém do governo americano pronunciar-se contra, apesar de a pena de morte não poder ser aplicada aos colonos extremistas israelitas que assassinam palestinianos.

Recorde-se que a pena de morte em Israel foi aplicada pela última vez ao criminoso de guerra nazi Adolf Eichmann em 1962.

Vergonha alheia, sim. De um mundo que permite que os governos israelita e americano façam o que estão a fazer com a oposição de alguns, mas não de todos.

O BUFARINHEIRO*

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A formação na escola era importante, mas deixámos campear a incivilidade social e politica. Claro, essa formação tem que ser dada na escola. A educação? Essa é de casa, de “berço”.

O bufarinheiro proporcionou-se a uma exibição sem precedentes. Queria humilhar os participantes e constituintes da nossa Constituição. Pessoas que estão muito, mas muito acima da sua craveira intelectual. A sua, é a de um mero anunciador parlamentar, de “histórias do absurdo”. Parece ter adeptos, por incrível que pareça.

Entretanto, quando os seus seguidores descobrirem que se está melhor agora do que se estava antes do 25 de Abril, que o país com a extrema direita tinha polícia que reprimia o povo (ao tempo, a PIDE/DGS) e que a direita depois de instalada, vive e viverá para as suas elites, nunca para o povo, então, estes delírios “limpeza” do país acabam num estalar de dedos.

O socialismo liberal democrático é sinónimo de democracia e de progresso. Não venham com velharias ideológicas, porque a democracia caber-nos-á sempre, neste país, por justiça.

*vendedor ambulante de bugigangas

ISRAEL É RACISTA

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O que esta nova lei faz é politicamente revelador. Ao incidir sobre crimes cometidos em contextos específicos e ao flexibilizar os critérios da sua aplicação, abre caminho a uma utilização regular da pena de morte num quadro territorial e político muito concreto. Não sendo formalmente exclusiva, a sua arquitetura aponta para um alvo: os palestinianos.

Quando a aplicação da lei deixa de ser universal e passa a depender do contexto, do território e, na prática, da identidade dos visados, o direito transforma-se num mecanismo de poder. E um sistema judicial que opera sob esse princípio deixa de garantir justiça para passar a gerir desigualdade.

A condenação internacional fez-se ouvir, mas ficou, uma vez mais, pela conversa mole. Bruxelas, Berlim e Paris falaram em “retrocesso” e “discriminação”, num discurso inconsequente. Não há sinais de medidas concretas que ultrapassem a retórica diplomática. E enquanto assim for, o governo liderado por Benjamin Netanyahu continuará a testar os limites do aceitável sem custos reais.

Os EUA continuam a pagar o “seguro de vida” de Netanyahu

Essa inação não é neutra. Ao evitar consequências políticas ou económicas, as principais potências ocidentais contribuem para um ambiente de impunidade. A manutenção do acordo de associação entre a União Europeia e Israel é um dos exemplos mais evidentes dessa dissonância entre discurso e prática. O mesmo se pode dizer da ausência de vontade política para dar execução aos mandados do Tribunal Penal Internacional contra membros do governo israelita por alegados crimes de guerra.

Israel pretende aplicar esta lei a factos ocorridos na Cisjordânia e em Gaza, territórios que não lhe pertencem, mas que mantém sob ocupação militar. Não se trata apenas de uma questão jurídica: é um sinal político inequívoco. Reforça uma lógica de soberania de facto que acompanha, passo a passo, a estratégia de anexação.

Neste contexto, a nova lei é mais uma peça de um sistema em consolidação. Um sistema em que direitos, deveres e punições são progressivamente definidos em função do território, do enquadramento político e, na prática, da identidade de quem ali vive.

A comparação com o regime de apartheid da África do Sul não é um exagero. Tal como então, não está em causa apenas discriminação social, mas a construção de um edifício legal que institucionaliza a desigualdade. Entre 1948 e 1994, o apartheid organizou-se precisamente assim: através da lei que separava pessoas, legitimando a dominação de uma minoria sobre a maioria. A história não se repete de forma mecânica, mas reconhece-se nos padrões. E o padrão que aqui se desenha não é o de uma exceção jurídica, mas o de uma normalização política.

Sobra uma questão. Uma indignação. Como é possível que Portugal e a comunidade internacional continuem a fingir que não vêem?

No Knesset, o ministro Itamar Ben Gvir celebra com vinho espumante a aprovação da lei racista

FALAR DE COMIDA

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O serviço da Câmara Municipal de Cascais a que, seguindo os ditames da estranja, optou por se designar Cascais Food Lab – assim uma espécie de «laboratório de comida» – organizou as II Jornadas Portuguesas de Gastronomia, que se revestiram de acentuado interesse.

Primeiro, porque a equipa responsável, chefiada por Cláudia Mataloto, de Cascais, com a mais ampla colaboração de Inês de Ornellas e Castro, da DIAITA, souberam convocar especialistas de várias zonas do País e de variados campos de actividade; depois, porque o programa soube, mui inteligentemente, alternar comunicações e degustação. Por outro lado, o facto de a manhã do segundo dia ter sido passada no ambiente ímpar do Casal Saloio, em Outeiro de Polima, emprestou às jornadas superior encanto, por quase haver permitido uma vivência saloia in loco.

Abriu as jornadas o director municipal de Cultura, João Aníbal Henriques, que, além das palavras de ocasião, sublinhou quanto a Arqueologia se interessa pela comida, porque, num sítio arqueológico, as montureiras, por nelas se acumular toda a espécie de resíduos, mormente alimentares, constituem fonte importante de informação acerca da vida quotidiana.

Tivemos palestras muito eruditas sobre história da gastronomia saloia, aulas de culinária, degustação de “obras de arte” para o paladar de autoria de chefs, recordaram-nos ementas do tempo dos nossos avós, tivemos doces, petiscos, curiosidades culinárias de agora, do passado e de sempre. Foi de “comer e chorar por mais”, acreditem. Mais do que as palavras, o que consagrou a excelência da especificidade culinária saloia foram as iguarias bem seleccionadas e ainda mais apreciadas nas pausas das palestras.

Terminou o 1º dia com a realização de um ateliê de doçaria e petiscos saloios, com os chefs Rui Mota e Leonardo  Sousa (Cascais Food Lab). O 2º dia, debruçado sobre o passado, o presente e o futuro da cozinha saloia, teve por palco o Casal Saloio, em Outeiro de Polima, onde, em mesa-redonda, moderada pelo chef Luís Lavrador, se falou de queijos, vinhos, produtos hortícolas e frutícolas. A ementa do jantar foi, naturalmente, inspirada na cozinha saloia, com curadoria do Cascais Food Lab.

Pela mui auspiciosa e alargada troca de impressões e de experiências gustativas que estas II Jornadas Portuguesas de Gastronomia possibilitaram entre investigadores e meros apreciadores da nossa gastronomia, o saldo foi altamente positivo.

O número 2

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A notícia fala no “número dois” do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (SNCGP), que terá desviado mais de 9 mil euros dos cofres do sindicato. As motivações do crime não são relatadas, nem o nome do suspeito é referido.

No entanto, o SNCGP divulgou um comunicado onde esclarece que o dirigente sindical em questão se chama Rui Santos, que já foi afastado da direção do sindicato e que todos os factos apurados foram comunicados ao Ministério Público.

(notícia atualizada em 1/04/2026 às 20:00)