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ASSOCIAÇÃO IMPROVÁVEL

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A Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR) é, talvez, um dos exemplos mais sólidos da capacidade de resistir contra todas as adversidades – institucionais, sociais e morais. Primeiro, porque se dedica a apoiar pessoas que foram julgadas e condenadas à prisão, uma missão que continua a ser incompreendida e até malvista por tantos que preferem imaginar a punição como um sofrimento interminável, muito para lá do que as sentenças judiciais determinam. Depois, porque a APAR mantém uma independência rara: recusa apoios do Governo e não aceita quotas de sócios que estejam a cumprir pena.

Apesar de tudo isto – ou talvez por causa disso – a APAR não só persiste, como se fortalece. Continua na linha da frente da defesa dos direitos dos reclusos, e consegue, ano após ano, juntar à volta desta causa um número crescente de pessoas vindas das mais diversas áreas: do direito à medicina, da educação às engenharias, do jornalismo à sociologia. É uma rede improvável, mas profundamente necessária, unida por uma ideia simples e sempre esquecida: a de que a dignidade humana não termina à porta de uma prisão.

A sociedade também se mede pelo modo como trata os que estão numa prisão e no modo como os reinsere. Uma frase que, dita assim, é uma crítica à sociedade portuguesa. Mas foi o que disse o Presidente da Assembleia da República, numa mensagem que enviou ao congresso da APAR.

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De 21 a 23 de novembro, essa energia converte-se em prática no II Congresso Internacional da APAR. Durante três dias, no Templo da Poesia, em Oeiras, médicos, advogados, guardas prisionais, sociólogos, autarcas, jornalistas, professores, padres, engenheiros, empreendedores e muitos outros estão a “partir pedra” sobre um tema de que quase todos preferem desviar o olhar – embora ninguém esteja verdadeiramente livre de um dia enfrentar o sistema prisional, seja por dentro, seja através de alguém próximo.

A entrada é livre. E talvez seja essa liberdade – a de entrar, ouvir, pensar, fazer perguntas – o primeiro passo para perceber que a prisão, sendo um problema de poucos, é uma responsabilidade de todos.

A MORTE DO GATO

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Com a partida do Yoschi, o meu “Bicho” de dezanove anos, não partiu apenas um gato. Partiu um pequeno embaixador de um mundo paralelo, que sempre coexistiu com o nosso. Ele era siamês, mas a sua verdadeira pátria era um reino de gestos simples e verdades profundas. Era sábio não por acumular conhecimento, mas por viver numa curiosidade perpétua. Era limpo e aprumado, não por vaidade, mas por um respeito inato pelo seu próprio ser e pelo espaço que partilhava connosco. Chamávamos-lhe Yoschi, seu nome alemão, e “Bicho” para mim; dei-lhe o nome de “Bicho” como título de honra, que celebrava a centelha de selva soberana que nele ardia, domada, mas nunca extinta.

O Yoschi/Bicho era um mestre da arte de ser. As suas lições eram silenciosas. Ensinou-nos que a sociabilidade não é barulho, mas presença selectiva. Afectuoso, mas não carente; aproximava-se para receber carinho e, uma vez satisfeito o seu grau de necessidade sentimental, recolhia-se com uma dignidade serena para as suas “meditações místicas”. Esta independência não era frieza, era autossuficiência. Nós não éramos os seus donos, éramos os seus companheiros de jornada. E, nessa qualidade, servi-lo, encher a taça de água, providenciar o conforto, tarefa que a senhoria assumia com carinho, tornava-se um acto de reverência, não de posse.

A sua maior magia era a sua percepção aguçada do ambiente. Parecia decifrar as emoções humanas com uma precisão que nos humilhava. Se a tristeza ou a doença pairassem no ar, ele dirigia-se ao coração da dor e, com o seu ronronar terapêutico que se assemelhava a um zumbido ancestral que parecia vibrar na própria frequência da cura, oferecendo consolo. Era um calmante vivo, um ajudante antisstress que não exigia mais do que o reconhecimento da sua existência única.

A sua vida foi um testemunho eloquente. Um gato como o Yoschi não é um substituto para uma relação humana; é uma ponte para uma forma de relação diferente, mais silenciosa e intuitiva. Ele não preenchia lacunas humanas; ensinava-nos a preenchê-las connosco próprios, mostrando-nos os valores da autonomia, da percepção e da comunicação não-verbal. Os animais, tantas vezes ignorados, são precisamente estes embaixadores. Eles não anseiam ser humanos, anseiam por ser compreendidos no seu próprio direito que lhe vem da nossa estima e companhia. O segredo da empatia entre os nossos mundos, como o Yoschi tão bem ilustrou, reside na nossa disponibilidade para “entrar em relação”, para ouvir a lição contida no seu olhar sereno, no seu ronronar regenerador, no seu modo de caminhar pelo mundo com uma soberania tranquila. Enfim, um exemplo do modo de se relacionar do cidadão com as suas chefias.

Naturalmente, o preço deste vínculo autêntico é a dor da despedida. No seu último dia, o Yoschi, já debilitado pela diabetes, percorreu todos os cantos da casa que outrora frequentava, um derradeiro ritual de despedida ao seu lar. A sua morte deixa um vazio, mas também a semente de uma compreensão mais profunda. Ele foi feliz, teve um lar como seria de desejar para muitos. E, ao fazê-lo, ofereceu-nos a rara oportunidade de espreitar os mistérios da vida animal, não para os dominar, mas para com eles aprender, honrando a sua memória através de um olhar mais respeitoso e empático para com todas as criaturas com quem partilhamos este mundo.

À memória do Yoschi, o “Bicho”, cuja vida foi uma lição de afeição sem dependência e de uma ligação que liberta em vez de aprisionar.

O MENINO E A LUZ

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Era uma vez um menino chamado Cid Adão. Tinha decidido apanhar um pirilampo, daqueles, dos que brilhavam muito no meio dos “outros”, para que iluminasse a sua vida, quando chegavam os medos da “noite”. O que ele sabia, e até via, o brilho do pirilampo era uma ”luz” irradiada por ele, a que lhe iria iluminar a “noite”, altura em que lhe apareciam muitos medos… Também pressentia que aquele brilhar intenso era, com toda a certeza, melhor do que a “luz antiga” que tinha, e toda a noite ou para sempre seria iluminada; e, assim, perderia os medos.

O pirilampo tinha-lhe prometido que sim, que a sua luz era a mais brilhante de todas as que andavam pelo “bosque”, pelas ruas. Trazia a “verdade”. E o menino ouvia-o, acreditando em tudo o que eram promessas.

Veio para a rua. Conversou com os amigos. Alguns disseram-lhe que essa luz era a melhor de todas; outros alertavam-no para não ir procurar o pirilampo, porque essa luz era de fantasia, ele, se o “apanhasse”, iria ver que não iluminaria nada, que, afinal, a luz irradiada teria, no máximo, metade do que prometia, porque era muito, mas muito intermitente. E era só quando o pirilampo queria. Então, se o “apanhasse”, não lhe serviria para nada, o seu quarto continuaria com a luz antiga, ou pior. Seria, depois, muito difícil livrar-se do pirilampo, porque acabaria por ter pena dele e, por frustração não assumida, justificar sempre, aos amigos, o ter entrado para “aquela luz”. Devia era ir mudando a luz do quarto para outras mais modernas, mas com segurança, estudando sempre a luz que lhe interessava.

Ora, o menino não gostou do que lhe diziam. “Estudar outras luzes”? Para quê, se tudo já estava delineado! E ele acreditava nisso e – claro –, no que o pirilampo dizia. Não tinha tempo para estudar “essas coisas deles”. Se a “luz” iria acabar com os seus medos, por que razão tinha de ouvir as opiniões dos amigos que não gostavam do pirilampo? Muitos amigos, desses, até diziam ao pirilampo que ele era uma fantasia, que só se apresentava a piscar de quatro em quatro, ou de cinco em cinco anos. Aqui, o pirilampo sorria para dentro, porque ninguém sabia o que ele sabia: só vivia sessenta e um dias e a sua irradiação eram só dois dias. Mas não interessava. O que interessava é que ele seria muito bem tratado durante a sua vigência pelos que o apoiavam e queriam a sua luz para se iluminarem.

Saiu o menino para as ruas e bosques com uma rede para apanhar um pirilampo. Não precisou de andar muito. O pirilampo que ele conhecia estava ali, na sua frente e perguntou-lhe:

                – Para que queres a rede, se eu sou livre e tu também? Eu tenho a luz que queres, não necessitas de andar de rede para me apanhares. Como vês, eu até fui ter contigo. É que és verdadeiro, queres acabar com a falta de uma luz autêntica na tua vida, queres acabar com a falta de felicidade. Sou eu que vou iluminar as tuas “noites”, sou eu que vou acabar com os medos que tens, dando-te esperança, desde que me apoies sempre. Não ligues ao que dizem de mim. Se vires, os teus amigos não têm luz à noite no quarto deles, não são meninos felizes, ralham-lhes muito e não querem que eles brinquem quando querem. Comigo, vais ter tudo para ser feliz.

O menino agradeceu e foi para casa. Em casa, descobriu que o pai tinha colocado uma nova luz no quarto e que a luz era muito mais bonita do que a que estava lá. O pai disse-lhe que era altura para mudar para outra melhor e explicou-lhe o que era a “nova luz”. Ficou muito contente e pensou: de facto, de luz em luz, podemos perder medos. Pensou muito, lembrou-se de que a luz do pirilampo, afinal, não está sempre acesa, e só (recordou) até quando o pirilampo quiser…

Quando apagou aquela nova luz, notou que tinha perdido alguns medos. Para surpresa sua, viu sobre a cómoda do quarto um pirilampo que sorria para ele e piscava, ora dando luz, ora não. Na verdade, a luz que o pai colocara e o informou disso, era bem melhor que a do pirilampo. Acabou por ver que ele só era “engraçado” e, de facto, não dava luz nenhuma para afastar os medos. Agora já não tinha tantos. Deu conta, com satisfação, que, com mais luz, a que lhe tinha dado e explicado o “pai”, os medos estavam, mesmo, quase todos afastados.

Os amigos,  afinal, tinham razão: o tal de pirilampo é uma luminosa ficção que não os liberta dos medos, os tais que – até ele agora diz – há que eliminar. Pensou: “Quão infeliz é o pirilampo que, afinal, só vive 61 dias, não ilumina nada, e começou-se a descobrir que, afinal, a sua luz é efémera, porque é uma perfeita ficção, uma modelação do próprio…”. Acabou por adormecer sorrindo e o brilho do pirilampo… apagou-se naturalmente.

O BONECO DO PRÍNCIPE

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Há anos que Ronaldo insiste que é “apenas um futebolista” e não um ativista político – um argumento que lhe serve para fugir a qualquer pergunta sobre regimes autoritários, abusos de direitos humanos, execuções públicas ou jornalistas esquartejados em consulados. Mas, curiosamente, essa mesma neutralidade evapora-se quando o convite vem acompanhado por cifras obscenas. Aí, já não existe desconforto político, nem dúvidas morais, nem distância saudável. Existe, isso sim, disponibilidade total para posar ao lado de um dos líderes mais repressivos do planeta e oferecer-lhe a legitimidade simbólica de que Bin Salman tanto precisa.

Ronaldo tornou-se, na prática, um troféu. Um objeto de luxo que a Arábia Saudita exibe ao mundo para anunciar a sua nova era dourada, lavada e perfumada a sportswashing. Um país que compra clubes, compra mundiais, compra influência e que também compra rostos mundialmente reconhecidos. Ronaldo não é o único, mas é talvez o mais valioso desses emblemas humanos. O futebolista que não quer falar de política, mas que se deixa usar como instrumento político.

É por isso perfeitamente legítimo concluir que, se outro regime – por mais abjeto, repressivo ou violento que fosse – lhe oferecesse montantes equivalentes, Ronaldo, muito provavelmente, não hesitaria. O critério não parece ser moral, ético ou humanitário. O critério é financeiro. Um tipo de pragmatismo que Ronaldo exibe sem corar.

Cristiano Ronaldo na sala oval, Casa Branca
Cristiano Ronaldo com Donald Trump, Casa Branca

À beira do final de uma carreira desportiva extraordinária, Ronaldo entra agora num período ainda mais lucrativo: o da reforma dourada, com avenças garantidas, contratos de embaixador, presenças coreografadas e aparições protocolares para regimes que perceberam que o futebol se tornou a forma mais barata de comprar credibilidade internacional.

É um futuro “brilhante”, sem dúvida. Mas brilha com a luz baça dos palácios autocráticos, não com a dos estádios onde Ronaldo conquistou o mundo. É essa a ironia trágica: depois de tanto querer ser recordado como o melhor de sempre, CR7 arrisca-se a ser lembrado também como um dos rostos mais caros e venais da propaganda contemporânea.

Ronaldo garantiu mais um marco na sua história pessoal, um sonho que acalentava, segundo disse há dias numa entrevista. Como previmos, os produtores do marketing político americanos e sauditas apressaram-se a aproveitar a oportunidade.

A IRRESPONSABILIDADE DE QUEM AMEAÇA SÉCULOS DE RELAÇÃO HISTÓRICA

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A recente guerra verbal entre a Televisão Pública de Angola (TPA) e o ultra-direitista André Ventura reabriu um debate que muitos insistem em ignorar: a forma como determinados discursos populistas, inflamados e politicamente incivilizados procuram destruir, por oportunismo eleitoral, uma relação histórica que custou demasiado para ser reconstruída.

Assistimos, nos últimos dias, a um espetáculo indigno. Primeiro, o pivô da TPA, Ernesto Bartolomeu, reagiu às declarações provocatórias de André Ventura e classificou-o, em direto, como “mentecapto”, acrescentando que, se por algum cataclismo fosse eleito Presidente da República, os portugueses emigrariam e Ventura ficaria “a governar as cabras da Beira Alta e da Beira Baixa”.

A resposta do líder do Chega não tardou: chamou tirano, corrupto e ladrão ao Presidente João Lourenço – um chefe de Estado de um país soberano que celebrava, justamente, 50 anos de independência. Esta escalada verbal seria apenas ridícula se não fosse profundamente perigosa.

A HISTÓRIA COMO ARMA ELEITORAL

A desilusão que sinto é imensa. Ver um português em plena campanha eleitoral, consciente da fragilidade que a memória histórica ainda provoca entre Portugal e os países africanos que colonizou, optar deliberadamente por incendiar relações diplomáticas, ofender símbolos nacionais e instrumentalizar o passado colonial para ganhos internos, é mais do que lamentável: é irresponsável.

Ventura sabe que existe, nos países africanos de língua portuguesa, uma profunda sensibilidade histórica – não apenas contra o colonialismo, mas contra qualquer discurso que cheire a superioridade racial ou a nostalgia imperial. Apesar disso, escolhe alimentar tensões, manipular feridas ainda não totalmente cicatrizadas e degradar a imagem de Portugal no espaço lusófono.

O líder do Chega age como se a História fosse uma arma eleitoral. E isso, para um país que tem em África uma parte essencial da sua identidade, é perigoso e moralmente inaceitável.

ANGOLA, 50 ANOS DE INDEPENDÊNCIA, O PAPEL DE PORTUGAL

Enquanto Ventura insultava chefes de Estado e alimentava polémicas vergonhosas, o Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, cumpria com dignidade o papel que lhe cabe: representar Portugal numa data histórica para Angola.

Marcelo ouviu João Lourenço referir que o colonialismo português oprimiu o povo angolano “durante séculos” – uma afirmação factual e historicamente irrefutável – e, em vez de reagir com arrogância ou revanchismo, sublinhou que as relações entre ambos os países “nunca estiveram tão bem”.

A intervenção de António Costa, enquanto Presidente do Conselho Europeu, foi igualmente equilibrada: saudou o marco histórico, reconheceu o fim do colonialismo europeu e apelou a uma parceria forte entre Angola e a União Europeia. Tudo no registo diplomático que se exige.

Portugal oficial esteve à altura do momento. Ventura, pelo contrário, fez questão de rebaixar o país e provar, uma vez mais, que não possui maturidade política para defender os interesses nacionais – nem a sensibilidade para compreender a complexidade da história comum entre Portugal e África.

A RELAÇÃO ENTRE PORTUGAL E ÁFRICA

A CPLP, as comunidades migrantes, as relações económicas, as memórias partilhadas e até as feridas históricas tornam a ligação entre Portugal e Angola – e entre Portugal e África – demasiado profunda para ser tratada com leviandade.

Nenhum português deveria aceitar que, em pleno século XXI, um político nacional tente quebrar laços que tantas gerações sacrificaram para construir e reconstruir. As relações lusófonas não pertencem aos populistas: pertencem aos povos.

A verdade é esta: Portugal precisa de África tanto quanto África precisa de Portugal; o futuro da lusofonia exige maturidade política, não insultos; a História é demasiado séria para ser usada como munição eleitoral.

A DEGRADAÇÃO DA POLÍTICA PORTUGUESA

A polémica entre a TPA e André Ventura não é apenas uma guerra de palavras. É o sintoma da degradação da política portuguesa quando se permite que o ódio, o ressentimento e o populismo superem a inteligência diplomática e o respeito pela história.

Como lusófono, como africano e como alguém que acredita na importância crucial da cooperação entre os nossos povos, recuso aceitar que um político – por mais barulho que faça – destrua o que tantos lutaram para construir.

A lusofonia merece melhor. Angola merece respeito. Portugal merece líderes à altura da sua história, não agitadores que transformam a política externa num palco de insultos.

BANGLADESH: EX-PRIMEIRA MINISTRA CONDENADA À MORTE

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O Bangladesh tem andado nas bocas do mundo, desde que foi usado de modo malévolo pelos propagandistas políticos do Chega, mas poucos saberão apontar no mapa onde fica esse país e ainda menos saberão alguma coisa sobre a política do Bangladesh.

Sheikh Hasina na fotografia da esquerda

Um tribunal do Bangladesh acaba de condenar à morte a ex-primeira-ministra e o ex-ministro do Interior. A senhora Sheikh Hasina chefiava um governo que caiu na sequência de protestos massivos da população. Na repressão contra os manifestantes, a polícia matou muita gente. Acusada de ter ordenado violência letal na repressão dos manifestantes, ex-primeira-ministra acabou por fugir para a Índia e é lá que continua refugiada desde agosto de 2024.

Após o veredicto, o atual Governo do Bangladesh apelou à Índia para extraditar Sheikh Hasina e o ex-ministro do Interior Asaduzzaman Khan Kamal. A Índia não devolveu ao país vizinho os condenados.

O atual Governo interino é liderado por um galardoado com o Prémio Nobel, o conhecido economista Muhammad Yunus, o “pai” do micro-crédito.

(fonte: Reuters)

O contra-ataque linguístico

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O abusivo recurso à terminologia inglesa está a gerar mui louvável contra-ataque linguístico. Ainda há dias, a local de um jornalista algarvio me obrigou a ir ao dicionário. Hugo Rodrigues não esteve com meias medidas e atirou: «Pode ver nesta reportagem não só vídeos que provam a força da bezaranha que atingiu Faro, mas também fotografias dos estragos que esta causou».

Claro, fui informar-me do significado: «vento forte e incomodativo». Mais: vim a saber que, durante a pandemia, os municípios da região algarvia criaram um programa cultural local que veio dar alento ao sector. E chamava-se… Bezaranha!

Já sugeri a inclusão do termo no Dicionário online da Academia das Ciências de Lisboa e estou certo de que estamos felizmente a assistir ao saudável contra-ataque das línguas locais contra esta bárbara invasão linguística, qual epidemia.

E como, em relação a questões pertinentes não é raro termos a Real Academia Sueca de Ciências a dar prémios Nobel ex aequo a dois ou mais cientistas, que, sem saberem uns dos outros, chegaram a conclusões idênticas, também neste caso acabei por conhecer duas curiosas reacções linguísticas, uma na região saloia e outra nos arredores de Castelo Branco.

Celestino Costa (já aqui o referimos) escreveu A Fala da Minha Gente (Associação Cultural de Cascais, 2024) a mostrar como, foneticamente, as frases e palavras dos saloios assumiam formas estranhas, de acordo com a oralidade:

Ora acontece que, nas suas crónicas, o Doutor João Lourenço Roque vai pelo mesmo caminho. Assim, no mais recente volume Digressões Interiores 4, editado por Palimage (Coimbra, 2025) incluiu mais duas crónicas dedicadas a essa «Linguagem à moda antiga». E se Celestino Costa quis documentar, como se viu, o uso dessas expressões. o mesmo intuito teve João Lourenço Roque. Não me escuso, pois, a transcrever duas dessas suas expressões, não apenas pelo seu tipicismo, mas também porque facilmente imaginamos as cenas referidas, que não deixam de nos fazer sorrir – função que muito nos agrada quando para tal, por toda a parte, bem escasseiam motivos:

O AMANSAR DA FERA

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Sabe-se que é comédia e que, por definição, de vez em quando, no decorrer do espectáculo, alguém virá à boca de cena a contar, explícita ou implicitamente, da razão por que a esses estratagemas se houve de lançar mão.

E, pelos dias anteriores à estreia, imagina-se encenador, ou seja, o responsável por fazer o enredo decorrer em determinado cenário. Pensá-lo-á à sua maneira, não lhe sendo obrigatório remontar à época em que a peça nasceu. Terá liberdade para lhe emprestar outra cronologia, mormente se o tema – como habitualmente acontece – é de todos os tempos. Além do espaço e do tempo, o vestuário, o guarda-roupa, a condizer com um e com outro. Na comédia haverá maior liberdade de ação.

Até à noite da estreia, a imaginação do futuro espectador deu cor, pensou movimentos, chegou mesmo a ‘ouvir’ os intérpretes nas cenas de maior realce.

um cenário relvado…

Se a peça, porém, vai ser estreada no Mirita Casimiro, pela gente do Teatro Experimental de Cascais,  desengane-se, amigo: por maior que seja a sua experiência teatral, quem teve a seu cuidado a dramaturgia, isto é, a necessária adaptação da versão original, trocou-lhe as linhas;  quem gizou o cenário deixou-o, a si, a inimagináveis léguas de distância; quem desenhou os figurinos – esqueça! – jamais suspeitaria, como espectador, o que é que dali iria sair.

Já era assim com Carlos Avilez; foi assim agora com Cucha Carvalheiro; sempre foi assim e, mais uma vez, agora, com a exuberante fantasia de Fernando Alvarez no despido cenário relvado e na extravagância do guarda-roupa. Ficou-nos o bem colorido garridismo dos exuberantes trajes de inesperado recorte, a fazer fosquinhas aos mais originais costureiros em moda.

Das interpretações de actores antigos e novos escusamo-nos de repetir que deram o seu melhor. Flávia Gusmão, a protagonista, demonstrou bem quanto superou, largamente, as lições aprendidas na Escola Profissional de Teatro de Cascais. É uma estrela. Renato Godinho também. Todos!

Sim, as interpretações espantam-nos; mas se já estávamos habituados a que, de vez em quando, os lugares reservados aos espectadores não eram os expectáveis, desta feita, todo o espaço se alterou por completo, de forma a melhor se conseguir dar ao público a ilusão de ser mesmo interveniente, estar por dentro daquilo, porque, dum momento para o outro, o actor pode saltar de trás de si ou passear-se-lhe pela frente. Louvor maior para o desenho e operação de som, a cargo de Hugo Neves Reis. Parabéns!

Saímos consoladamente bem dispostos e até aceitámos o discurso final da Catarina (Flávia Gusmão), sabendo que nos quer inocular o contrário do que está a dizer.

Assinale que a estreia, no dia 13, em que se comemoraram os 60 anos de vida do Teatro Experimental de Cascais, teve a presença discreta de Marcelo Rebelo de Sousa. Francisco Kreye e Noel Rog Menezes, respectivamente, presidente e vogal da Junta de Freguesia Cascais Estoril, foram os únicos representantes presentes das entidades autárquicas. Esteve também Paulo Raimundo, mui discretamente, na assistência.

João Vasco, de fala angustiada, evocando Carlos Avilez e congratulando-se vivamente com o prestígio já alcançado por muitos dos seus antigos alunos, não deixou de alertar para a necessidade de se preservar o espólio do Teatro Experimental de Cascais e de se olhar com outros olhos para a Escola Profissional de Teatro.

OS PRESENTES DO PAI NATAL

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O procurador-geral da República, Amadeu Guerra, não diz qual a data para o despacho sobre a investigação ao caso Spinumviva. O caso relaciona-se com a empresa da família do primeiro-ministro, que tanta tinta fez correr, mas o PGR afirmou que pode ser ‘um bom presente de Natal, mesmo que seja antes do Natal’, presume-se que para Luís Montenegro, que diz estar ‘tranquilo’. O Ministério Público está em fase de averiguação preventiva, esperando-se que decida se há ou não matéria para abrir um processo.

Fico na dúvida do que terá Amadeu Guerra pedido ao Pai Natal e se o seu desejo será concedido.

Por seu turno, António Costa não tem direito a Pai Natal, já que pediu quatro vezes para consultar processo Influencer e nunca foi autorizado pelo Ministério Público. Recorde-se que Costa se demitiu do cargo de primeiro-ministro na sequência do caso e é agora presidente do Conselho Europeu. A Procuradora do Ministério Público defendeu-se com o ‘segredo de justiça’ para impedir Costa de consultar o processo em que está a ser investigado, sendo certo que o primeiro pedido entrou antes de ser decretado o segredo de justiça.

Direito a Pai Natal também não têm os portugueses em matéria de Comunicação Social. Recentemente, uma amiga que vive fora de Lisboa disse que tinha ‘receio’ de vir à capital porque se tornou muito violenta devido aos imigrantes e justificações afins. ‘É só violência que vemos na televisão’, clarificou. Aconselhei-a a mudar rapidamente de canais televisivos, já que sempre que há um crime as imagens passam até à exaustão. Um crime passa tantas vezes que as pessoas ficam com a ideia de haver 30 ou 50 crimes.

Também lhe pedi que consultasse os índices de criminalidade em Lisboa no Instituto Nacional de Estatística (INE). De facto, os crimes diminuíram significativamente em 2024. A criminalidade geral diminuiu 7,6 por cento e a grave e violenta 1,8 por cento, segundo o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2024. Esta tendência de descida, que foi a segunda maior em 10 anos, contrastou com a subida da criminalidade em algumas zonas do interior do país. Em 2023, tinha havido um ligeiro aumento da criminalidade grave e violenta, estando esta tendência em inversão. Por isso, disse à minha amiga que pode vir a Lisboa quando quiser, que os imigrantes não são ‘papões’ e Lisboa é, até, das cidades mais seguras do Mundo.

Vai daí, perguntei-me o que queria eu pedir ao Pai Natal. Decidi pedir uma Comunicação Social mais séria, que invetive o PGR e o primeiro-ministro, que faça as perguntas certas, ainda que incómodas. Também pedi um PGR que não ofereça presentes de Natal a Luís Montenegro e se preocupe com os processos que continuam atrasados, sobretudo os que levaram à demissão de um primeiro-ministro e ainda não se entende como continuam em segredo de Justiça.

Preocupada com os meus concidadãos, pedi ao Pai Natal que encontre um primeiro-ministro que não queira fazer um pacote laboral lesivo dos trabalhadores e se preocupe com quem ganha 800 euros e tem para pagar uma ‘renda moderada’ de 2300, além de precisar de comida, de infantários, de despesas comuns de quem ainda tenta viver.

E pronto! Só me falta saber o que pediu o PGR que, aparentemente, também espera que o seu presente de Natal seja satisfeito.

ALUGUER DE LONGA DURAÇÃO

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Alguns dirão que, neste esquema, paga-se e nunca se é proprietário do veículo. Mas, acontece que os carros que são nossos envelhecem e quando acabamos de os pagar ao banco, são mais “amigos” da oficina do que do proprietário. Os carros do ALD nunca envelhecem, porque podem sempre ser trocados pelo modelo que acabou de sair.

Mas nada disto é novidade. A surpresa é que este modelo de “aluguer de longa duração” já se aplica a outros objetos. Acabei de descobrir, por exemplo, que já há quem alugue óculos graduados por tempo indeterminado.

O ALD para óculos permite substituir lentes (que é sempre o mais caro nos óculos) sem ter de as pagar. Isto é, pagamos nas tais mensalidades estipuladas pelo contrato estabelecido entre o fornecedor dos óculos e o cliente miope. O acordo também cobre qualquer acidente que possa ocorrer com as “gafas”.

No documento a que tivemos acesso, o cliente paga um pouco menos de 30 € pelo aluguer de dois pares de óculos, armações e lentes graduadas, incluíndo impostos.

recorte da fatura de aluguer de armações e lentes graduadas

O IVA das armações é de 23% e o das lentes é de 6%. Não se percebe esta diferenciação do imposto, uma vez que lentes sem armação não servem para nada. O imposto devia ser sobre a aquisição de um par de óculos (leia-se lentes) e respetiva armação. Mas enfim, é a proverbial mesquinhez do cobrador de impostos.

Tal como nos automóveis, o aluguer de óculos graduados implica um periódo de fidelização. No caso das cangalhas é de 2 anos.