A notícia fala no “número dois” do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (SNCGP), que terá desviado mais de 9 mil euros dos cofres do sindicato. As motivações do crime não são relatadas, nem o nome do suspeito é referido.
No entanto, o SNCGP divulgou um comunicado onde esclarece que o dirigente sindical em questão se chama Rui Santos, que já foi afastado da direção do sindicato e que todos os factos apurados foram comunicados ao Ministério Público.
Há textos que não apenas respondem a uma opinião: restabelecem a dignidade da verdade. Foi isso que fez Fernando Vaz, ao enfrentar, com coragem, lucidez e sentido de justiça, uma velha estratégia de negação que regressa ciclicamente sempre que se tenta falar de reparações históricas, de colonialismo, de racismo estrutural e da responsabilidade dos Estados que enriqueceram à custa da escravização de povos africanos.
A sua resposta merece ser saudada. Porque foi clara onde muitos preferem a ambiguidade. Porque foi moralmente firme onde muitos tentam relativizar o horror. E porque disse o que ainda hoje demasiados europeus recusam admitir: a escravatura transatlântica não foi apenas uma página triste da História, foi uma arquitetura internacional de pilhagem humana que financiou impérios, construiu fortunas, alimentou bancos, portos, companhias comerciais, indústrias e Estados modernos.
Não foi apenas escravidão. Foi desumanização organizada. Aqueles que hoje procuram esvaziar o debate sobre reparações recorrem quase sempre ao mesmo expediente: dizem que “a escravidão sempre existiu”, que “também houve escravos em África”, que “não se pode julgar o passado com os olhos de hoje”.
Mas esse argumento é intelectualmente fraudulento. Porque aquilo que a Europa organizou no Atlântico não foi apenas mais uma forma de dominação antiga. Foi uma máquina global de comércio humano, sustentada por leis, teologia, violência militar, finanças, seguro marítimo, classificação racial e uma narrativa de inferiorização do africano que haveria de contaminar séculos inteiros de relações internacionais.
Pela primeira vez em escala planetária, milhões de seres humanos foram transformados em mercadoria racializada, reduzidos a peças, avaliados como ativos económicos, transportados como carga e explorados como força de trabalho descartável.
Isto não foi um desvio. Foi um modelo económico. A riqueza de uns nasceu da amputação histórica de outros. É aqui que o debate sobre reparações se torna incontornável.
Os países que hoje se apresentam como modelos de civilização, democracia, racionalidade económica e prosperidade esqueceram-se, convenientemente, de que uma parte decisiva do seu enriquecimento foi construída com base em captura e venda de africanos, trabalho forçado nas plantações e colónias, extração colonial de matérias-primas, destruição de estruturas políticas e sociais africanas, descapitalização humana de continentes inteiros.
A Europa moderna não nasceu apenas do Iluminismo, da Revolução Industrial ou do génio comercial. Nasceu também do porão dos navios negreiros. Nasceu também do sangue, do suor e da desumanização de milhões de africanos.
E é precisamente por isso que o argumento “isso aconteceu há muito tempo” é moralmente insustentável. Porque o tempo não apaga quando os efeitos permanecem vivos. A injustiça histórica continua a produzir injustiça presente.
As reparações não são um capricho ideológico. Não são um gesto de vitimização. Não são um favor. São, antes de mais, uma exigência de coerência histórica e de justiça internacional. Porque a linha entre escravidão, colonialismo, subdesenvolvimento, racismo estrutural, dependência económica e fragilidade institucional africana não é imaginária. É concreta. É estudável. É documentável. É visível.
Quando África continua a enfrentar desvantagens estruturais, dependência financeira, fragilidade infraestrutural e assimetrias brutais na ordem internacional, não estamos apenas perante “problemas internos”.
Estamos também perante as consequências prolongadas de séculos de pilhagem organizada. Quem lucrou com o crime histórico não pode hoje posar de neutro, de inocente ou de árbitro civilizacional. Não se pode invocar a participação africana para absolver o sistema europeu
Outro argumento recorrente dos negacionistas é lembrar que houve africanos envolvidos na captura e venda de escravos. Isso é historicamente verdadeiro em parte. Mas o uso político desse facto é profundamente desonesto. Porque uma coisa é reconhecer a existência de cumplicidades locais, guerras internas e intermediários africanos. Outra, completamente diferente, é fingir que isso elimina a responsabilidade de quem criou a procura, financiou o sistema, armou a logística, organizou a escala e acumulou os lucros.
Nenhum mercado de escravos atlântico teria existido naquela dimensão sem a engenharia económica, marítima, militar e jurídica.
A autora, radicada em Cascais há mais de 40 anos, tem no seu palmarés livros de poesia e romances históricos de assinalável êxito; a este último, porém, ainda que susceptível de ser considerado ‘romance histórico’, porque evoca ambientes e situações próprias da História, será, de preferência, um romance só, porque não faltam as paixões, os amores incompreendidos, as traições e, até, conjunturas próprias de… romance policial!
Maria Helena Ventura e o seu mais recente livro ‘O Amuleto de Gaudi’, no Centro Cultural de Cascais
Aliás, porventura aí reside o entusiasmo que desperta, na medida em que se verifica, de facto, intrincada caça ao que se designa «amuleto» e que será o documento em que Gaudì, quiçá em linguagem cifrada, consignou preciosas ilustrações e desenhos acerca do modo como, após a sua morte, se deveria completar o templo da Sagrada Família, ícone maior da cidade de Barcelona.
E, nesse âmbito, dado haver suspeitas de quem o terá comprado, sem ter bem a noção do que era, num antiquário de Lisboa, o entrecho do romance situa-se, primordialmente, nas diligências – em que vale tudo, até matar! – para que o documento venha ficar, alfim, a bom recato, no âmago do próprio templo, a guardo de uma sociedade secreta, propositadamente criada para o efeito.
Prende-nos, pois, do princípio até ao fim, tendo de permeio os inevitáveis enleios amorosos a emoldurar o relato e o recurso a aviões particulares para, num ápice, se vir de Barcelona ao aeródromo de Tires ou daqui partir para Paris… Descrição de ambientes que a autora bem conhece, não se eximindo, aqui e além, a mostrar a sua notável experiência em preparar uma ementa de fazer crescer água na boca!
Prosa bem burilada, a de Maria Helena Ventura, a preciosamente servir esses intentos. Permita-se-me, por conseguinte, que, em jeito de aperitivo, destaque algumas passagens:
– a beleza inequivocamente patente na exacta pintura a revelar súbita mudança de estado de espírito: «Como, num instante, uma espécie de vento brando se converte em vendaval e agita os momentos de prazer em novelos emaranhados» (página 157);
– «O que é a loucura senão o colorido de um sonho?» (página 175);
– a crítica certeira e lapidar: «O mundo está em desespero, por darmos demasiadas oportunidades a quem não presta e subjuga os que podiam construir e amar» (p. 190);
– os toques de mui suave sensualidade: «A seguir a um banho curto e cheiroso, os nossos corpos encaixaram na perfeição, as bocas molhadas pediram repetição da intimidade, as mãos carentes de afagos pelo corpo divagaram»; «Depois voltou a beijar-me docemente, como se uma chuva miúda inundasse a minha boca» (páginas 63-64);
– as descrições inesperadas: «A tarde a escorregar para o horizonte sôfrega pela noite» (p. 66); «Já uma toalha dourada caía sobre a verdura dos campos, incrustava-se em finos trechos do rio, serpenteando entre caniçais, e as aves saíam em bandos direitas a um baptizado» (p. 81-82); «Nunca mais seriam arrastados como bola de poeira ao sabor de ventos ruins» (p. 121);
– a análise: «Até um cavalheiro tem vielas secretas na alma» (p. 102);
– a cozinheira: «Picou cebola, espargos verdes, colocou um fio de azeite na frigideira e deixou amolecer, ao mesmo tempo que eu batia dois ovos com sal e pimenta» (p. 16);
– «As mulheres vigiavam o cabrito, o arroz de forno, o leite-creme para cerca de 50 pessoas» (p. 81);
– «Colocar os bifes num prato fundo com o molho e, depois de limpar a frigideira com papel absorvente, estrelar dois ovos como ele nunca comera: sal na clara, pimenta no centro da gema (p. 119-120»;
– «Eu cozinho batatas de todas as maneiras e ficam deliciosas» (p. 150).
Esta, a minha maldosa conclusão em acepipes – para despertar o apetite à leitura!…
No artigo é descrito como, contrariando o discurso oficial, os 17 contratos assinados pela então directora-geral da DGS Graças Freitas e as Farmacêuticas responsáveis pela disponibilização das vacinas, na sequência do Acordo de Compra Antecipada celebrado pela Comissão Europeia, encontram-se declarações como “O Estado membro participante reconhece que os efeitos a longo prazo e a eficácia da Vacina não são atualmente conhecidos” ou que em caso de serem provadas lesões pela vacina “(…)terá de ser o Estado português a indemnizar as pessoas”.
Em primeiro lugar fica a questão de quanto tempo as farmacêuticas se referem a “efeitos de longo prazo”. Mais de 2 meses? É porque foi pouco mais do que isso que duraram os ensaios em humanos nos ensaios clínicos. Para além do facto dos grupos de controlo terem sido todos vacinados no início de 2021 perdendo-se toda a possibilidade comparativa.
Em segundo lugar Portugal permanece como um dos países que lavou completamente as mãos em relação às pessoas vítimas de lesões provocadas pelas vacinas. Portanto falha triplamente: por um lado isenta as farmacêuticas de responsabilidade e, por outro depois de fazer forte coação para uma vacinação que não sabe se é segura, abandona à sua sorte os seus cidadãos que ficaram gravemente afetados na sua saúde porque acreditaram no slogan , repetido “ad nauseam” do “segura e eficaz”
Esta publicação no jornal “Sol” peca por tardia e por, na realidade, não vir dar novidade nenhuma para quem, desde cedo, teve dúvidas.
Apesar do eurodeputado Cristian Terhes ter, a partir de 2022, mostrado bastante indignação pela falta de transparência de Úrsula Van der Leyen na formulação dos contratos e de estes se encontrarem bastantes redigidos, quando publicados pela Comissão Europeia, o facto é que, por exemplo, o contrato da Pfizer-BioNTech foi publicado pela emissora pública italiana RAI a 17 de Abril de 2021, tendo permanecido no seu servidor deste então. Quatro dias após a publicação do artigo da RAI, no dia 21 de Abril, o diário espanhol La Vanguardia, o terceiro maior jornal espanhol em termos de leitores, também anunciou que tinha obtido o contrato não editado da Pfizer-BioNTech e publicado um artigo intitulado “O contrato com a Comissão Europeia isenta a Pfizer de responsabilidade”.
Porque razão algo que provocou tanta indignação, em alguns círculos, nos últimos dias, passou completamente despercebido em 2021? Vou arriscar algumas razões: desde já o pânico moral que se viveu durante mais de dois anos numa comunicação social completamente imersa numa narrativa de fim-do-mundo, do qual tinha que entretanto sair. A solução, já tinham todos decidido, só podia ser a vacinação massiva por isso quaisquer notícias que levantassem dúvidas ou questões na mente do cidadão comum, eram ignoradas. Também o shadow banning que imperou nas redes sociais poderá ser o responsável. Tanto o Twitter como o Facebbok admitiram publicamente que censuravam todas as publicações que pudessem levar a hesitação vacinal mesmo que tivessem um fundo de verdade.
Ainda no mesmo dia, a Reuters também publicou um artigo sobre o contrato, citando La Vanguardia. A Reuters, porém, evitou discretamente mencionar a questão da indemnização, concentrando-se apenas no preço das vacinas.
O que é certo é que a Direcção Geral de Saúde não só “comprou” o marketing do “seguro e eficaz” como não se inibiu de promovê-lo ativamente, escondendo-se ocasionalmente por trás da Agência Europeia do Medicamento.
Mas qualquer pessoa minimamente preocupada com os seus utentes veria várias bandeiras vermelhas a esvoaçar freneticamente que, no mínimo, indicariam ao Governo que era preciso calma.
A 21 de Outubro de 2020 Peter Doshi, editor associado do The BMJ publica o artigo “As vacinas contra a Covid-19 vão salvar vidas? Os testes atuais não foram projectados para nos dizer?” Começa por apontar que os ensaios de fase III, então em curso, não estavam configurados para comprovar que as vacinas eram eficazes. Nenhum dos ensaios teria sido concebido para detectar uma redução em qualquer resultado grave, como hospitalizações, utilização de cuidados intensivos ou mortes. Também não conseguiam avaliar o efeito na transmissão.
Em Janeiro de 2021 Peter Doshi voltaria a alertar para os suposto 95% de eficácia das vacinas. Com efeito, os 95% reflectiam a redução de risco relativo (a redução de risco absoluto era de apenas 0.84%). Os efeitos adversos graves ocorreram duas vezes mais no grupo dos vacinados vs o grupo placebo(1.2% vs 0.6%). Morreram também mais pessoas no grupo vacinado, incluindo o dobro de eventos cardíacos repentinos.
Já os cientistas, Dr. Gerald Dyker, Professor de Química Orgânica na Ruhr University Bochum, e Dr. Jörg Matysik, Professor de Química Analítica na Universidade de Leipzig, alertaram em 2023, no programa on-line Punkt.Preradovic da jornalista alemã Milena Preradovic sobre a grande variabilidade que existiria nos lotes. O ponto de partida foi um estudo dinamarquês que mostrava uma enorme variação nos eventos adversos associados a diferentes lotes da vacina Pfizer-BioNTech levando a crer que muitos destes lotes seriam placebo e que nem todos estariam sujeitos aos mesmo critérios de regulação pela empresa alemã.
Já a Agência Europeia do Medicamento também observava, em fevereiro de 2021, que não havia sido feito “nenhum estudo farmacológico de segurança”.
Não fosse tudo isto suficiente ainda tínhamos os inevitáveis conflitos de interesses dentro da Comissão Europeia.
A vacina mais amplamente distribuída na Europa foi a da Pfizer-BioNtech mas a verdade é que o consórcio com a Pfizer só serviu para a vacina ser aprovada nos EUA pela FDA, aparentemente menos “picuinhas” que a Agência Europeia do Medicamente. Quem era responsável pela qualidade do produto colocado no mercado e quem lucrou verdadeiramente com as vacinas de mRNA foi a empresa alemã BioNTech.
A BioNTech não é uma empresa alemã qualquer. É uma empresa alemã que, foi fortemente promovida e subsidiada pelo governo alemão ao longo de sua breve história. De facto, o governo alemão patrocinou o fundador da BioNTech como parte de um programa “Go-Bio” especialmente dedicado para fomentar startups de biotecnologia alemãs, que forneceu não apenas financiamento, mas também orientação governamental, bem como assistência na atração de investimentos privados.
A presidente alemã da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi ela mesma membro dos dois governos alemães sucessivos que forneceram financiamento inicial “Go-Bio” para a equipa de pesquisa do CEO da BioNTech, Ugur Sahin. Durante mais de uma década, apesar do apoio contínuo do governo alemão, a BioNTech nunca chegou perto de trazer um produto ao mercado. Até o advento do Covid-19, quando a empresa rapidamente mudou o foco de seu trabalho no desenvolvimento de uma terapia contra o cancro baseada em mRNA para o desenvolvimento de uma vacina covid.
Sem surpresa, o patrocinador estatal da empresa, a Alemanha, também se tornaria o seu principal patrocinador.
Mas não foi apenas o governo alemão que apoiou a vacina da BioNTech, também a própria UE! De fato, em junho de 2020, o próprio Banco Europeu de Investimento a UE – sob a liderança de seu presidente de longa data, o ex-funcionário do Ministério das Relações Exteriores alemão Werner Hoyer – forneceu à empresa 100 milhões de euros em financiamento de dívida para apoiar os seus esforços de vacina C-19.
Este foi o segundo crédito que o BEI concedeu à BioNTech. Em meados de dezembro de 2019 – sim, praticamente simultaneamente com o primeiro surto relatado de Covid-19 em Wuhan, China! – o BEI já tinha fornecido à empresa 50 milhões de euros em financiamento de dívida.
São precisamente estas relações incestuosas, entre a BioNTech, o governo alemão e a própria UE que cheiram mal! Mas a conivência ou a completa submissão do Governo Português a estes jogos de interesses em Bruxelas só revelam a total perda de credibilidade da Direcção Geral de Saúde ou de quem, por ela, dá a cara.
A lenda conta que, aquando da tomada pelos Mouros de Trancoso, essa importante praça fortificada da Beira Alta, morto o alcaide que a defendia, nela ficou prisioneira sua filha de nome Iberusa Leoa, que o Mouro, agora senhor do castelo, mandou encerrar numa das torres do castelo. Tinha para distracção seu açafate de bordar e, como única luz, a que entrava por uma pequena fresta talhada na parede da muralha, por onde ela, distraída, espreitava o horizonte distante, onde o tropel de soldados ou uma nuvem de poeira pudesse anunciar o exército cristão que a libertaria.
Fora da porta, dois guardas possantes guardavam a entrada, que apenas se abria para lhe entregar um pedaço de pão seco e uma sede de água, ao meio dia. Viam-na, às vezes, os guardas rezar e, um dia, aconteceu que ambos quiseram saber das orações e do Deus a quem rezava. Ela lhes contou. E com tal encanto o fez que os fascinou e os levou a requerer também o baptismo de cristãos. E que ela lhes disse que isso apenas poderia acontecer, quando os cristãos viessem, de novo, à posse do castelo.
Houve, um dia, em que o exército de D. Afonso Henriques acampou ao longe, esperando o melhor momento para poder atacar o castelo. Iberusa vislumbrou a bandeira das quinas e achou que a sua libertação estava perto.
E assim aconteceu. Certa noite, os soldados do rei cristão atacaram o castelo, que os soldados mouros não puderam defender. Mas, quando os soldados cristãos entraram na torre onde estava Iberusa e seus dois carcereiros mouros, ela rogou-lhes que lhes poupassem a vida, que cristãos se iriam tornar. Tal pedido chegou à voz do Rei, que lhes perdoou.
Iberusa pediu, então, ao Rei licença para mandar construir uma capela, a que daria o nome de Nossa Senhora da Fresta. E, desde então, ali ficou a preciosa capela, que rememora estes acontecimentos antigos. Como nos conta a lenda. A história verdadeira essa tem outra forma de contar.
Votamos, sim, mas quase nunca para autorizar governos a envolver o país em guerras alheias. Em campanhas eleitorais, ninguém promete dificuldades, sacrifícios ou crises, mas, no entanto, é precisamente isso que acaba por definir as experiências governativas.
Também a justiça, dito pilar central do Estado de direito, está longe de ser o garante absoluto que imaginamos. As custas judiciais funcionam muitas vezes como barreira de acesso, e os próprios agentes do sistema não estão imunes a pressões políticas nem à moldura legislativa produzida pelos que governam. A ideia de uma justiça plenamente isenta é, no mínimo, discutível, mesmo em regimes democráticos.
E aquilo que tomávamos como conquistas civilizacionais sólidas revela-se, afinal, reversível. Os direitos à autodeterminação sexual, por exemplo, enfrentam hoje recuos legislativos em Portugal.
Se alargarmos o olhar, o problema ganha outra escala.
O país que durante décadas foi apresentado como “farol da democracia” mostra sinais de captura por oligarquias com poder financeiro suficiente para comprar tudo: da indústria do armamento à produção de drogas legais, das televisões globais às redes sociais, passando inevitavelmente pela esfera política. Foi nesse ecossistema que emergiu uma figura como Donald Trump, financiado pelos oligarcas americanos Musk, Bezos, Zuckerberg, McMahon, entre outros.
O mundo vive hoje uma espiral de violência e um desequilíbrio crescente nas relações internacionais. Trump não é apenas um sintoma, é um acelerador desse processo: um líder errático, que combina extorsão política, desinformação sistemática e culto da sua própria imagem. Ainda assim, chefes de Estado e de governo continuam a curvar-se perante exigências arbitrárias, normalizando o que antes seria politicamente impensável. Primeiro-ministros como o espanhol Pedro Sanchez são uma raridade absoluta.
Se não for travado internamente pelo Congresso dos EUA ou por uma bala “perdida”, não será surpreendente que arraste o mundo para um conflito de escala global, sobretudo se se convencer de que pode enfrentar potências como China ou Rússia e sair vencedor.
Israel e os Estados Unidos persistem numa lógica de destruição que já não tentam sequer justificar. Em Gaza, a chacina continua. Multiplicam-se mortos e feridos, todos os dias. Paulatinamente, as infraestruturas civis continuam a ser sistematicamente reduzidas a escombros. Já não há escolas nem hospitais nem habitações. O mesmo padrão está a ser repetido no Líbano e no Irão.
O mundo observa em silêncio, em complacência, ou numa impotência que já não serve de desculpa. Entre os líderes europeus, salvo raras excpções, expõe-se uma pobreza de pensamento que bloqueia qualquer ação consequente e os torna politicamente cegos perante sucessivos indícios de crimes de guerra.
É obsceno ver Benjamin Netanyahu invocar o direito internacional para condenar ataques de retaliação iranianos, ao mesmo tempo que ignora o rasto de destruição que as suas próprias decisões produziram: a devastação de Gaza, a escalada no sul do Líbano, os bombardeamentos sobre áreas urbanas no Irão, as vítimas civis que daí resultam.
Perturbador é também o silêncio da chamada comunidade internacional. Que lideranças são estas, incapazes de reagir perante corpos despedaçados de crianças? Que gente é esta que permite a normalização da barbárie? Um dia haverá prestação de contas. Quando lá chegarmos não haverá complacência com eles.
vídeo
Este vídeo do Crescente Vermelho do Irão mostra o resultado de um ataque aéreo a uma zona residencial em Tabriz que resultou na morte de um pai e dos seus dois filhos pequenos.
Neste vídeo comovente, trabalhadores humanitários resgatam dos escombros os corpos das três vítimas, duas delas crianças, Mahan e Mahour, que morreram com o pai.
Tanto quanto conseguimos apurar, o projeto para a implementação de bodycams na PSP e GNR continua a registar atrasos. Depois de uma década de discussões e indecisões, o processo foi aprovado mas tem havido impugnações judiciais a atrasar a sua implementação.
Em janeiro de 2026, o Governo aprovou o orçamento de 6 milhões de euros para a aquisição das câmaras, mas a coisa terá de ser decidida respeitando as regras dos concursos públicos que, pelos vistos, ainda nem sequer foi lançado.
O projeto prevê que apenas a PSP e a GNR venham a utilizar este equipamento, ficando de fora a Guarda Prisional. Quando o sistema prisional é frequentemente alvo de acusações de violência sobre os reclusos, as bodycams poderiam ser um fator de mediação dos conflitos que se geram no interior dos estabelecimentos prisionais, evitando-os ou esclarecendo-os.
NOS STATES
A utilização de bodycams por guardas prisionais está em fase experimental nas prisões do Idaho, nos Estados Unidos. Segundo um depoimento de um recluso, publicado no site Prison Journalism Project as bodycams “ajudam a moderar os ímpetos, tanto dos guardas como dos detidos”, disse o recluso Cody Fortin.
As declarações deste recluso podem ser sintetizadas assim: os guardas que usam bodycams tornam-se mais mais simpáticos, mais prestativos e mais profissionais. Também os reclusos moderam atitudes quando sabem que aquilo que fazem ou dizem está a ser gravado de perto pela câmara corporal do guarda.
No mesmo artigo, um guarda prisional presta declarações anonimamente. Diz ele que vê “as câmeras corporais como um meio de responsabilização”, uma ferramenta de trabalho que irá ajudar a separar o trigo do joio, uma vez que “guardas que são mais maliciosos e que tendem a antagonizar os reclusos, em vez de usar as táticas de resolução de conflitos e desescalonamento de tensões, ficarão mais expostos”.
EM PORTUGAL
Perguntámos ao Presidente da Associação Sindical de Chefias do Corpo da Guarda Prisional, Hermínio Barradas, o que pensava sobre a utilização de bodycams no interior das prisões.
Numa curta troca de perguntas e respostas via email, este dirigente sindical admitiu que a utilização das bodycams pode ser um fator de inibição de violência, ao mesmo tempo que poderia complementar os meios de segurança nos estabelecimentos prisionais. A opção do governo pela videovigilância (CCTV) é insuficiente para garantir a segurança nas cadeias, Hermínio Barradas diz que “o CCTV é um meio complementar/auxiliar/passivo de segurança, e compreende na sua natureza a existência de equipas de reacção para responder a “alarmes”. Como se sabe não existe efectivo para os serviços mínimos quanto mais para constituir equipas de reacção/resposta. Apenas serve para esclarecimentos pelo visionamento de imagens”.
Anna Ukolova é militar israelita e porta-voz das IDF. Ou seja, é uma voz autorizada pelo Governo israelita. O que ela diz tem importância, até porque, supostamente, ela diz aquilo que o Governo quer que seja dito.
Há dias, Ukolova disse à rádio russa RBC que se as autoridades russas desejarem o “mal de Israel” poderiam estar sujeitas a “eliminação”, à semelhança do que aconteceu, por exemplo, com a liderança do Irão ou com os comandantes do Hamas e do Hezzbolah.
A porta-voz militar israelita alertou que “a eliminação de Khamenei mostra que as nossas capacidades são reais” e que “ninguém que nos queira mal será deixado de lado.” Acrescentou, ainda, que “espero que Moscovo não deseje mal a Israel neste momento, gostaria de acreditar nisso.” Não há maneira de fazer uma ameaça mais direta.
O Governo da Rússia não reagiu a isto, mas Alexander Dugin, acreditado como conselheiro de Putin, usou as redes sociais para lançar o alarme.
IDF spokeswoman Anna Ukolova threatens on Russian RBC radio Russian authorities to be killed if they take anti-Israel position in the war. She said that Israel controls all web-cameras in Russia and could hit easily whoever it wants including Putin. pic.twitter.com/aZmoCt1Hne
Depois disto, surgiram notícias sobre a utilização de um software controlado por uma empresa israelita que faz a gestão das câmaras de vigilância urbana. Trata-se do BriefCam, um software que está espalhado por muitos países, em todos os continentes.
Alarmados, os media russos dizem que o BriefCam é utilizado em muitos sistemas de vigilância, tanto em empresas privadas como em organismos públicos da Rússia. Através deste software, é possível tratar em poucos minutos informação contida em horas de gravação vídeo.
Desenvolvido pela Universidade Hebraica de Israel, o software foi implementado pelo Ministério do Habitação e Construção de Israel para proteger colonatos ilegais na Cisjordânia. Neste momento é amplamente utilizado por governos e empresas em todo o mundo, incluíndo forças policiais.
Em 2025, um tribunal francês considerou que o uso do BriefCam pelo governo era ilegal, citando múltiplas violações das leis de privacidade francesas e europeias. O governo francês tem sido desgastado por escândalos relacionados com o uso de tecnologias de espionagem, de tal modo que o Presidente Emmanuel Macron ordenou investigações sobre o uso desses softwares.
Terá sido através de imagens captadas por câmaras de vigilância de rua que os militares israelitas souberam qual a casa onde Khamenei tinha entrado. Minutos depois, os mísseis foram lançados.
Assim se apresenta Laura Pulquéria Militão Santos, a autora. Como saber se foi a seu pedido, ou se por indicação do fotógrafo, que este retrato saltou para a capa…
A abrir o livro, lida a Ficha Técnica no verso da primeira folha, no fundo da página uma nota cuja pertinência vamos descobrir à distância de um folhear, “Esta obra é uma reprodução do original manuscrito com o acordo da autora”. A partir da terceira folha entende-se o porquê da referência, surge-nos o fac-símile do caderno de Laura Pulquéria.
A surpresa estimula a leitura entusiasmada das páginas preenchidas pela poesia popular da autora, que é clara ao descrever-se, “Tenho álma de puéta/alguém em mim encarnou,/sêi a quilo que sinto/mas não sei a quilo que çôu.” Embora explique porque escreve, “D[e]us para me destrair/deume esta vucação, (…)”. E como surge a inspiração, “De noite ao deitar/custame adermeçêr,/dai nasçe a pôizia/para de dia escrever.”
Laura Pulquéria escreve sobre Pintéus, a terra onde nasceu a 23 de março de 1931, cresceu, casou, formou uma família e criou os filhos, viveu e morreu. A sua escrita traduz o empenho e prazer de alguém que frequentou a escola e guardou a elementar aprendizagem como um tesouro. Usou esse tesouro ao jeito de preciosa ferramenta, fixando no papel a tradução do que via e pensava. A leitura da sua escrita exige (quase) o mesmo empenho que se coloca aos paleógrafos, perante alguns desafios de escrita mais impenetrável. Mas, acredito!, do lado da autora a escrita terá sido leve e fluida, em cascata. Escreveu sobre o que conheceu e estimou, sobre as mudanças que viu acontecer na sua terra e que lhe provocaram sentimentos, lembra o que foi e já não é, mas também lembra a vida tão difícil da sua meninice e a de seus pais. Uma escrita que é um legado.
O local e a data, o espaço e o tempo, abrem o caderno de memórias, “Pintéus Lôures 1991”. Ficamos situados. E para que não restem dúvidas, continua, “Istôrias da minha térra / é minha rrecurdação / ficão iscritas purmim”, assinando “Laura Militão”, sobre desenho de linha ondulada. Logo abaixo, obliquamente e numa escrita ascendente, surge o seu nome completo “Laura Púlquéria Militão Santos”, um arrojo gráfico que termina em sublinhado parcial, pleno de atitude. Fico a pensar se esta linha não marcará a conclusão do seu caderno…
Os 31 títulos atribuídos pela autora surgem no topo da folha do caderno, acima da mancha pautada. Quando a escreve, o que é raro, é também nesse espaço que coloca a data. No dia 23.9.1995, escreveu, e esta é a data mais recente que deixa.
Com exceção de um que ocupa 3 linhas, por norma os títulos são curtos. Na grande maioria refletem o respetivo conteúdo, mas também acontece surgirem breves, como é o caso de “1994”, com a particularidade de esta data ter sido usado duas vezes como título. Curiosos e enigmáticos são igualmente os dois títulos alfanuméricos, ou seja, “Antigo Pádeiro 49” e “U soldado da minha terra/70 Faleceu em Moçambique em defêza/da Pátria. | Faleçeu em 23-1-1971”. A leitura não dá pistas para o entendimento quer do “49”, quer do “70”…
Eis a sequência dos títulos: “U mistério da Naturêza”; “Istória do Paláçio de Pintéus”; “Estória da Noça Senhora da Aprezentação.”; “Us grandes Artistas”; “Patriacha 1863”; “as maiores cheias”; “Lavandeiras em Lisbôa”; “o que meu coração sente.”; “A vida antiga”; “Os Carrosêiros”; “A vélha suçiadáde”; “O carnabál á antiga”; “Mais tarde”; “Inaguracão da nó(-va) Capelinha 6.9.1992”; “No meu tempo de Escóla”; “Antigo Pádeiro 49”; “Pinteus 5.9.1993 a nóva imagem do nosso Pôuvo.”; “Obras na Capelinha 1994”; “1994”; “Sábado 9.9.1995 ináguraçao do Altoistráda”; “23.9.1995”; “19. Novembro. 1955”; “U soldádo da minha terra/ 70 Faleceu em Moçambique em defêza/da Pátria. | Faleçeu em 23-1-1971”; “A rozeira Murcha/Um dia enraizôu.”; “A minha maneira de sêr”; “O siclónio”; “A Lua”; “As régas na hórta”; “O carrosêiro a caminho de Lisbôa”; “Os rapazes e os pátos”.
O livro foi-me disponibilizado pelo Centro de Documentação Anselmo Braamcamp Freire (CDABF), do Museu Municipal de Loures, em 2024. Procurava, então, informação sobre Pintéus, povoação hoje na esfera da União de Freguesias de Santo Antão e São Julião do Tojal. Laura Pulquéria foi a “parceira de trabalho” que não esperava, uma ajuda na leitura da muito alterada paisagem local. Paisagem no sentido de território com o seu conteúdo, sua ocupação e utilização, e não as suas imagens óticas, como aprendi lendo Ilídio Alves de Araújo. Precioso auxílio, os testemunhos sobre a construção da autoestrada, sobre o desaparecimento das azenhas. Acompanhou-me na localização de troços, até agora não sinalizados, do aqueduto de Santo Antão do Tojal. Na compreensão do caminho percorrido pela estrutura que em tempos conduziu a água das nascentes de Pintéus para a povoação de Santo Antão do Tojal e para o palácio e quinta que D. Tomaz de Almeida, 1º Patriarca de Lisboa, estabeleceu, com magnificência, nas primeiras décadas do séc. XVIII, neste território, então, exclusivamente rural.
Um caderno de imagens e memórias sobre um território que guarda marcas materiais e imateriais, que se procuram. Esteve muito bem a autarquia local de maior proximidade.