Votamos, sim, mas quase nunca para autorizar governos a envolver o país em guerras alheias. Em campanhas eleitorais, ninguém promete dificuldades, sacrifícios ou crises, mas, no entanto, é precisamente isso que acaba por definir as experiências governativas.
Também a justiça, dito pilar central do Estado de direito, está longe de ser o garante absoluto que imaginamos. As custas judiciais funcionam muitas vezes como barreira de acesso, e os próprios agentes do sistema não estão imunes a pressões políticas nem à moldura legislativa produzida pelos que governam. A ideia de uma justiça plenamente isenta é, no mínimo, discutível, mesmo em regimes democráticos.
E aquilo que tomávamos como conquistas civilizacionais sólidas revela-se, afinal, reversível. Os direitos à autodeterminação sexual, por exemplo, enfrentam hoje recuos legislativos em Portugal.
Se alargarmos o olhar, o problema ganha outra escala.
O país que durante décadas foi apresentado como “farol da democracia” mostra sinais de captura por oligarquias com poder financeiro suficiente para comprar tudo: da indústria do armamento à produção de drogas legais, das televisões globais às redes sociais, passando inevitavelmente pela esfera política. Foi nesse ecossistema que emergiu uma figura como Donald Trump, financiado pelos oligarcas americanos Musk, Bezos, Zuckerberg, McMahon, entre outros.
O mundo vive hoje uma espiral de violência e um desequilíbrio crescente nas relações internacionais. Trump não é apenas um sintoma, é um acelerador desse processo: um líder errático, que combina extorsão política, desinformação sistemática e culto da sua própria imagem. Ainda assim, chefes de Estado e de governo continuam a curvar-se perante exigências arbitrárias, normalizando o que antes seria politicamente impensável. Primeiro-ministros como o espanhol Pedro Sanchez são uma raridade absoluta.
Se não for travado internamente pelo Congresso dos EUA ou por uma bala “perdida”, não será surpreendente que arraste o mundo para um conflito de escala global, sobretudo se se convencer de que pode enfrentar potências como China ou Rússia e sair vencedor.



