ASSIM ESCREVEU LAURA PULQUÉRIA

Istôrias da Minha Terra é um livro surpreendente, edição de 1996 da Junta de Freguesia de Santo Antão do Tojal. Na capa, da autoria de Alberto Severino, uma senhora sentada no rebordo do tanque do chafariz de Pintéus, olhar dirigido para o livro que tem nas mãos e que apoia no joelho mais levantado, postura direita, semblante sereno. O alçado branco do chafariz destaca a sua figura, blusa com padrão de suave colorido, saia preta.

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Assim se apresenta Laura Pulquéria Militão Santos, a autora.  Como saber se foi a seu pedido, ou se por indicação do fotógrafo, que este retrato saltou para a capa…

A abrir o livro, lida a Ficha Técnica no verso da primeira folha, no fundo da página uma nota cuja pertinência vamos descobrir à distância de um folhear, “Esta obra é uma reprodução do original manuscrito com o acordo da autora”. A partir da terceira folha entende-se o porquê da referência, surge-nos o fac-símile do caderno de Laura Pulquéria.

A surpresa estimula a leitura entusiasmada das páginas preenchidas pela poesia popular da autora, que é clara ao descrever-se, “Tenho álma de puéta/alguém em mim encarnou,/sêi a quilo que sinto/mas não sei a quilo que çôu.” Embora explique porque escreve, “D[e]us para me destrair/deume esta vucação, (…)”. E como surge a inspiração, “De noite ao deitar/custame adermeçêr,/dai nasçe a pôizia/para de dia escrever.”

Laura Pulquéria escreve sobre Pintéus, a terra onde nasceu a 23 de março de 1931, cresceu, casou, formou uma família e criou os filhos, viveu e morreu. A sua escrita traduz o empenho e prazer de alguém que frequentou a escola e guardou  a elementar aprendizagem como um tesouro. Usou esse tesouro ao jeito de preciosa ferramenta, fixando no papel  a tradução do que via e pensava. A leitura da sua escrita exige (quase) o mesmo empenho que se coloca aos paleógrafos, perante alguns desafios de escrita mais impenetrável. Mas, acredito!, do lado da autora a escrita terá sido leve e fluida, em cascata. Escreveu sobre o que conheceu e estimou, sobre as mudanças que viu acontecer na sua terra e que lhe provocaram sentimentos, lembra o que foi e já não é, mas também lembra a vida tão difícil da sua meninice e a de seus pais. Uma escrita que é um legado.

O local e a data, o espaço e o tempo, abrem  o caderno de memórias, “Pintéus Lôures 1991”. Ficamos situados. E para que não restem dúvidas, continua, “Istôrias da minha térra / é minha rrecurdação / ficão iscritas purmim”, assinando “Laura Militão”, sobre desenho de linha ondulada. Logo abaixo, obliquamente e numa escrita ascendente, surge o seu nome completo “Laura Púlquéria Militão Santos”, um arrojo gráfico que termina em sublinhado parcial, pleno de atitude. Fico a pensar se esta linha não marcará a conclusão do seu caderno…

Os 31 títulos atribuídos pela autora surgem no topo da folha do caderno, acima da mancha pautada. Quando a escreve, o que é raro, é também nesse espaço que coloca a data. No dia 23.9.1995, escreveu, e esta é a data mais recente que deixa.

Com exceção de um que ocupa 3 linhas, por norma os títulos são curtos. Na grande maioria refletem o respetivo conteúdo, mas também acontece surgirem breves, como é o caso de “1994”, com a particularidade de esta data ter sido usado duas vezes como título. Curiosos e enigmáticos são igualmente os dois títulos alfanuméricos, ou seja,  “Antigo Pádeiro 49” e “U soldado da minha terra/70 Faleceu em Moçambique em defêza/da Pátria. | Faleçeu em 23-1-1971”. A leitura não dá pistas para o entendimento quer do “49”, quer do “70”…

Eis a sequência dos títulos: “U mistério da Naturêza”; “Istória do Paláçio de Pintéus”; “Estória da Noça Senhora da Aprezentação.”; “Us grandes Artistas”; “Patriacha 1863”; “as maiores cheias”; “Lavandeiras em Lisbôa”; “o que meu coração sente.”; “A vida antiga”; “Os Carrosêiros”;  “A vélha suçiadáde”; “O carnabál á antiga”; “Mais tarde”; “Inaguracão da nó(-va) Capelinha 6.9.1992”; “No meu tempo de Escóla”; “Antigo Pádeiro 49”; “Pinteus 5.9.1993 a nóva imagem do nosso Pôuvo.”; “Obras na Capelinha 1994”; “1994”; “Sábado 9.9.1995 ináguraçao do Altoistráda”; “23.9.1995”; “19. Novembro. 1955”; “U soldádo da minha terra/ 70 Faleceu em Moçambique em defêza/da Pátria. | Faleçeu em 23-1-1971”; “A rozeira Murcha/Um dia enraizôu.”; “A minha maneira de sêr”; “O siclónio”; “A Lua”; “As régas na hórta”; “O carrosêiro a caminho de Lisbôa”; “Os rapazes e os pátos”.

O livro foi-me disponibilizado pelo Centro de Documentação Anselmo Braamcamp Freire (CDABF), do Museu Municipal de Loures, em 2024. Procurava, então, informação sobre Pintéus, povoação hoje na esfera da União de Freguesias de Santo Antão e São Julião do Tojal. Laura Pulquéria foi a “parceira de trabalho” que não esperava, uma ajuda na leitura da muito alterada paisagem local. Paisagem no sentido de território com o seu conteúdo, sua ocupação e utilização, e não as suas imagens óticas,  como aprendi lendo Ilídio Alves de Araújo. Precioso auxílio, os testemunhos sobre a construção da autoestrada, sobre o desaparecimento das azenhas. Acompanhou-me na localização de troços, até agora não sinalizados, do aqueduto de Santo Antão do Tojal. Na compreensão do caminho percorrido pela estrutura que em tempos conduziu a água das nascentes de Pintéus para a povoação de Santo Antão do Tojal e para o palácio e quinta que D. Tomaz de Almeida, 1º Patriarca de Lisboa, estabeleceu, com magnificência, nas primeiras décadas do séc. XVIII, neste território, então, exclusivamente rural.

Um caderno de imagens e memórias sobre um território que guarda marcas materiais e imateriais, que se procuram. Esteve muito bem a autarquia local de maior proximidade.

Pintéus

1 COMENTÁRIO

  1. Fez muito bem a autarquia em publicar o livro em fac-símile e fez muito bem a Dra. Cristina em nos presentear com essas preciosas informações no «Duas Linhas». Quantos casos destes, da maior utilidade para a história local, não ficarão esquecidos e, amiúde, não serão deitados fora sob pretexto de que só têm erros!? Erros propriamente não serão, porque traduzem a forma como se pronunciavam as palavras. Parabéns, Cristina, por este bom naco servido à nossa mesa cultural!

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