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ISALTINO BOM GARFO

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O Ministério Público acusou o presidente da Câmara de Oeiras e outros 22 arguidos de peculato e abuso de poder. Em causa estão refeições que terão sido pagas indevidamente com dinheiro da autarquia. Gastos de 150 mil euros em refeições pagas pelo município, durante os mandatos autárquicos de 2017-2021 e de 2021-2025, totalizando nestes períodos mais de 1.400 refeições pagas com dinheiro da autarquia.

O procurador defende a perda de mandato de Isaltino Morais e dos restantes autarcas visados, pedindo também que o presidente da Câmara de Oeiras devolva 70 mil euros, individualmente, e mais 79 mil euros, solidariamente, em conjunto com os restantes arguidos.

Portanto, ao longo de dez anos, Isaltino e demais autarcas consumiram 150 mil euros em refeições. O Presidente da Câmara Municipal de Oeiras recusa qualquer ilegalidade. Diz que quando recebe um outro autarca, por exemplo, que organiza um almoço de trabalho onde engloba a comitiva visitante, por vezes, uma dúzia de pessoas, número que não surpreende até porque sabemos que Isaltino não deixa ninguém sem comer, incluindo motoristas.

Vamos fazer contas. Se dividirmos os 150 mil € pelas 1400 refeições, dá qualquer coisa à volta dos 107 euros por fatura. Quantas pessoas comeram em cada fatura? Não sabemos. Mas, vamos imaginar uma média de 4 comensais por refeição, dá um gasto individual de pouco mais de 26 €. Não acho muito.

Ah!, mas algumas foram de lagosta e lavagante!, acusam os invejosos. Outras terão sido de frango assado, digo eu.

As imagens que acompanham este artigo foram retiradas de vídeos onde o Presidente da Câmara de Oeiras promove os restaurantes do concelho

Só almocei uma vez numa mesa onde estava Isaltino Morais. Eramos 4 ou 5, sentados numa mesa no gabinete do vice-Presidente da Câmara, se a memória não me falha. As refeições foram encomendadas por telefone a um restaurante de Oeiras que as entregou no local. Foi um almoço de trabalho. Não me lembro do que comi. Não sei quanto custou ao erário camarário. Não cometi a indelicadeza de perguntar…

PORQUE VER NÃO É SABER

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Ver a fome dos outros

Há qualquer coisa de profundamente enganadora na forma como hoje nos relacionamos com a informação. Nunca vimos tanto e, ainda assim, raramente compreendemos o suficiente.
Não é uma questão de falta. É precisamente o contrário.
Vivemos numa lógica em que a informação deixou de ser apenas isso e passou a ser consumo. Circula, acumula-se, substitui-se. Como tudo o resto. Não há tempo para fixar, porque tudo foi desenhado para não ficar.
O gesto é sempre o mesmo: deslizar.
E, nesse movimento contínuo, instala-se uma ideia confortável, a de que estamos atentos ao mundo. Que sabemos. Que acompanhamos. Mas aquilo a que chamamos ver é, muitas vezes, apenas reconhecer fragmentos que nos são servidos de forma rápida, organizada e, acima de tudo, selecionada.
Porque esta ilusão de totalidade não é neutra.

Vivemos numa estrutura onde a própria circulação da informação está integrada numa lógica económica, uma lógica que transforma tudo em conteúdo, tudo em fluxo, tudo em algo passível de ser consumido. Até o sofrimento. Até a injustiça. Até a urgência política.

E é precisamente aqui que importa ser claro: nunca tivemos tanta liberdade de acesso à informação, nem tanta possibilidade de participação. Hoje, qualquer pessoa pode falar, publicar, mostrar. Isso é, em si, profundamente transformador e deve ser defendido.
Mas essa liberdade não existe fora de um contexto. E é esse contexto que importa olhar.
Porque aquilo que parece abertura total é, muitas vezes, uma circulação orientada. O que vemos, quando vemos, como vemos, tudo isso acontece dentro de uma dinâmica que privilegia velocidade, impacto e retenção, não necessariamente compreensão.

E quanto mais participamos nesse fluxo, mais ele se intensifica.
Este excesso, que à primeira vista se apresenta como emancipador, funciona também como um mecanismo de alienação. Não porque nos esconda o mundo, mas porque o transforma numa sequência contínua de estímulos que não se deixam aprofundar.

Ver a guerra lá longe

Sem tempo, não há pensamento. Há reação.
Saltamos de tragédia em tragédia, de indignação em indignação, com a sensação de que estamos politicamente despertos, atentos, envolvidos. Vemos guerras, crises, violência, tudo à distância de um gesto. Tudo reduzido à mesma superfície.

E é importante ver. Não se trata de defender ignorância, nem de propor qualquer tipo de proteção face ao real. O problema não está no acesso, está na forma como esse acesso é estruturado.

Porque este modelo não aprofunda a consciência. Muitas vezes, dilui-a.
Quando tudo é urgente, nada permanece. Quando tudo nos chega, nada se organiza.
Há uma espécie de anestesia que se instala, não por falta de sensibilidade, mas por excesso de exposição. Como se o mundo inteiro passasse por nós sem realmente nos atravessar.

E, ao mesmo tempo, confundimos cada vez mais informação com entretenimento, como se fossem coisas distintas.
Mas talvez nunca tenham sido.
Há sempre uma mediação. Uma escolha. Um enquadramento invisível que decide o que aparece, em que ordem, com que intensidade. Mesmo aquilo que nos parece caótico já foi organizado antes de chegar até nós.

E é aqui que a fronteira se dissolve, aquilo que consumimos para nos distrair é, muitas vezes, o mesmo mecanismo que estrutura aquilo que pensamos saber sobre o mundo.
Não é novo, é apenas mais sofisticado.

Mudam os formatos, mantém-se a lógica: captar atenção, reter atenção, orientar atenção. Do espetáculo coletivo às formas mais íntimas de consumo individual, há sempre uma dimensão de direção. Uma narrativa implícita.

E isto não significa que não mereçamos leveza, descanso, alegria. Significa apenas que nada disto existe fora de relações de poder.

A televisão não desapareceu, fragmentou-se. As redes sociais não são uma rutura, são uma intensificação. O ecrã mudou de forma, mas a lógica permanece.
E, no meio disso, vamos acreditando que escolhemos tudo. Que vemos tudo. Que sabemos.
Mas talvez estejamos apenas a percorrer, vezes sem conta, os limites de um mesmo circuito.

E talvez seja por isso que a contradição se torna cada vez mais evidente: acreditamos que estamos mais informados do que nunca, quando, na prática, estamos cada vez mais afastados de qualquer entendimento sólido.

Saber exige outra coisa. Exige tempo, contexto, continuidade. Exige conflito com aquilo que lemos. Exige parar.
E parar, hoje, é quase um gesto político.
Talvez por isso faça sentido regressar, não por nostalgia, mas por necessidade, a formas mais lentas de informação. Ao que não é imediatamente substituível. Ao que foi pensado para durar mais do que alguns segundos de atenção.

Ver a manipulação das perceções

Porque no momento em que tudo se torna consumível, até a informação, até a dor, até o próprio posicionamento político, também nós entramos nessa lógica. Consumimos o mundo enquanto nos distraímos com ele, convencidos de que estamos a compreendê-lo.
Mas não estamos.
Estamos, muitas vezes, apenas a assistir à sua versão mais circulável.
E essa pode ser a forma mais eficaz de alienação: aquela que se apresenta como consciência.

Porque ver não é saber.
E estar exposto a tudo não é o mesmo que estar verdadeiramente atento ao mundo.

CRIME DE LESO PATRIMÓNIO

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Boa parte das dificuldades da sua interpretação resultam do ‘crime’ de se tentarem avivar as letras com tinta. Normalmente, é operação levada a cabo por quem não percebe o que lá está escrito e pinta como lhe parece bem. Aliás, o procedimento a ter seria, sim, de limpar suavemente a superfície epigrafada e fazer diversas fotos com diferentes ângulos de luz, para que os sulcos de letras bem se evidenciassem. Nada de sugerir letras que, amiúde, lá se não encontram e tudo isso causa confusão.

Veja-se a inscrição que ocupa a arquivolta do portal ocidental da igreja matriz de Santa Maria Maior, de Valhelhas.

 É um texto em latim, cheio, porém, de siglas e de abreviaturas, que, para mais, tendo sido pintadas, dificultam a interpretação.

Os caracteres apresentam bem grosseira mescla de módulos capitais e cursivos e dá-nos a impressão de que o letreiro até terá sido mui atabalhoadamente gravado, já estando no sítio os blocos da arquivolta. E mais atabalhoadamente foi avivado. Veja-se, a título de exemplo, o gracioso M inicial, a contrastar com o outro que significa ‘mil’ e tem por cima o sinal ondulado a explicar que se deve ler como sigla também.

Lemos:

Bem visto o cuidado de se dever interpretar a data como pertencendo à era de César, pois que será apenas por carta régia d’el-rei D. João I, datada de 2 de agosto de 1422, que em Portugal se adoptará a era cristã. Assim, 1222 corresponde a 1184,  ano em que ainda reinava D. Afonso Henriques, que viria a falecer no ano seguinte. Estamos, consequentemente, perante um templo primitivamente românico, mesmo dos primórdios da nacionalidade.

Magius (por Maius) é forma do latim popular. De certeza que não terá sido gravado o 2 em algarismo árabe antes do X, afigurando-se curioso que assim se possa ter querido informar que se devem ler duas vezes a letra X. Alicia-nos, claro, a ideia de, em vez de dois X, o artista se haja divertido como que a esclarecer «olhem que são dois X!». Merece-nos atenção a grafia da palavra ecclesia, porque nos parece haver um anexo alto LE e o actual rabisco poderá corresponder a um A bem cursivo ou às três letras SAI, que se não tenham conseguido ler.

Também o final causou dificuldade ao pintor. Crê-se que a palavra correcta seria SACRATA, para dizer que a igreja fora ‘sagrada’, ‘consagrada’. O que, todavia, se lê é são e do, havendo a possibilidade de o d ser ct – o que daria sancto (por sancta).

Anotem-se, por conseguinte, as interpretações que diferem da que estamos a propor.

Escreveu Alípio Rocha a Monografia de Valhelhas (Coimbra, 1962). Na página 171, copia do Portugal Antigo e Moderno, de Pinho Leal (volume X, 1873, p. 159), a seguinte leitura:

Copia também a tradução: «Esta igreja foi sagrada no mês de março de 1200». E faz-se eco da explicação dada por Pinho Leal: «Esta data deve ser do ano do nascimento de Jesus Cristo; e não da era de César, que então correspondia ao ano de 1162, época em que esta terra estava despovoada».

Ana Penisga e Cláudia Pinto, da empresa Clay Arqueologia, no artigo intitulado «Uma intervenção em Valhelhas e o seu enquadramento geral na prática da Arqueologia Preventiva» (Praça Velha 48, 2025, pp. 251-267), lêem, na pág. 257:

Traduzem: «(Esta igreja foi sagrada no mês de Maio de 1224)». Acrescentam que «esta data referir-se-ia, possivelmente, ao ano do nascimento de Cristo e não à era de César, que corresponderia ao ano de 1224».

Enfim, o que estes “crimes de leso património letreiro” nos encanzinam!…

Mas sem problema: o recado está dado e, mal ou bem, é perceptível: foi no mês de Maio do ano 1222 da era de César (1184 da era cristã) que o primitivo templo em honra de Santa Maria Maior abriu as suas portas ao culto. O que depois, ao longo dos séculos, ali se passou, é outra história para contar, até porque outra inscrição, também ela avivada a tinta, está numa parede lateral à nossa espera!

(em colaboração com José d’Encarnação)

Angola como outro Israel

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Há poucos dias, num almoço, enquanto se discutia os impactos da presente guerra, uma angolana na minha mesa, comentou algo como “a única coisa que agradeço a Salazar é o não ter permitido Israel instalar-se aqui no Planalto”.
Este foi a gatilho para passar grande parte do fim-de-semana a pesquisar sobre assunto (mais uma vez, um assunto de que sabia pouco) e para escrever este artigo.

Angola como hipótese esquecida para um Estado judeu

No início do século XX, quando o antissemitismo se intensificava na Europa e o movimento sionista ainda não estava plenamente consolidado em torno da Palestina, surgiram propostas alternativas que hoje soam altamente improváveis.
Entre elas, uma ideia pouco conhecida: a possibilidade de Angola, então colónia portuguesa, acolher colónias agrícolas judaicas – ou até mesmo servir de embrião para um Estado judeu fora do Médio Oriente.

Entre o sonho territorialista e a realidade colonial

A corrente conhecida como “territorialismo” ganhou expressão com a criação em 1903 da Jewish Territorial Organization (ITO), liderada por Israel Zangwill. Ao contrário do sionismo dominante, que apontava para a Palestina, esta organização defendia a criação de um território seguro para judeus em qualquer parte do mundo disponível.

membros da Jewish Territorial Organization, Basileia, Suiça, 1905

Fontes históricas confirmam que vários territórios foram considerados – incluindo regiões na América do Sul, África e Ásia. Angola surge nesse contexto como hipótese, sobretudo pela sua extensão territorial, bom clima e potencial agrícola. Mas também por laços históricos muito antigos – afinal até houve judeus enviados para Angola pela inquisição.

Angola nas margens das alternativas

Entre 1907 e 1914, a ITO considerou Angola como possível destino, estabelecendo contactos junto do governo português para concessões de terra para colonatos judaicos. Há um relatório e chegou a haver debates no parlamento português.


Alguns políticos argumentavam que havia grandes benefícios (especialmente económicos e demográficos) para Portugal.
Entre 1912 e 1914 a ideia perde força. Parece que o grande ponto de discórdia era saber se a colónia em Angola seria um colonato judeu sob a égide de Portugal ou se seria um Estado judeu independente. A questão nunca chegou a ser clarificada e com o início da Primeira Grande Guerra o assunto é esquecido.
Durante as décadas de 1910 e 1920, o movimento sionista consolidava-se cada vez mais em torno da Palestina, especialmente após a Declaração Balfour. Ainda assim, alternativas continuaram a ser procuradas. Há registos de contactos esporádicos entre representantes judaicos e autoridades portuguesas, mas não há evidências de negociações formais ou planos concretos na década de 20 especificamente para Angola.

Steinberg e a última tentativa concreta, ainda que exploratória

A iniciativa mais consistente foi liderada por Isaac Nachman Steinberg, fundador da Freeland League for Jewish Territorial Colonization. No final da década de 1930, sob a sua liderança, a organização chegou a incluir Angola entre os territórios objeto de contactos e negociações diplomáticas.
Steinberg terá desenvolvido contactos com o governo português, propondo a instalação de dezenas de milhares de judeus em colónias agrícolas autossuficientes em Angola.

23/05/1939.Isaac Steinberg

Foram elaborados alguns documentos que previam o desenvolvimento agrícola, infraestruturas e instituições comunitárias, mas não se conhece um “Plano Angola” detalhado e estruturado, como chegou a haver por exemplo para a Austrália (Kimberley Plan, 1939).
Ainda assim, a ideia chegou a ganhar alguma atenção internacional, mas a conjuntura política europeia, a hesitação de Lisboa, receosa de críticas internacionais e de impactos internos em Angola, e a preferência da maioria dos movimentos judaicos pela Palestina ditaram o seu fracasso.

O papel de Salazar: prudência, controlo e recusa implícita

Qualquer análise deste episódio exige olhar para António de Oliveira Salazar, que então chefiava o regime do Estado Novo. Salazar mantinha uma política colonial profundamente conservadora e centralizada. Angola era vista como espaço estratégico do império, e qualquer projeto de colonização autónoma, sobretudo envolvendo populações estrangeiras organizadas, levantava grandes reservas: receio de perda de controlo político sobre o território; medo de pressões internacionais; preocupação com equilíbrios raciais e sociais na colónia; alinhamento diplomático cauteloso num contexto europeu instável.

Embora não haja registo de uma rejeição formal pública detalhada, a postura do regime foi de contenção e bloqueio indireto, o que levou ao abandono da iniciativa.

Entre passado e presente: ecos numa geopolítica em tensão

Olhar para estas propostas esquecidas ganha nova relevância à luz dos acontecimentos presentes. O Estado de Israel, criado em 1948, tornou-se o centro político e simbólico da identidade judaica contemporânea, mas também um dos epicentros de conflitos.
A violência atual mostra que, mais de um século depois, as questões que motivaram o territorialismo permanecem dramaticamente atuais.

A diferença é que, enquanto no início do século XX se procuravam territórios alternativos como Angola, hoje o conflito está profundamente enraizado numa geografia específica, onde história, religião, política e dinheiro se entrelaçam num verdadeiro nó górdio.

Angola como outro Israel: uma distopia possível

E se Angola tivesse acolhido, nas décadas de 1930 ou 1940, dezenas de milhares de colonos judeus organizados em cooperativas agrícolas? É possível imaginar um planalto central transformado num mosaico de kibutzes tropicais, com cidades emergentes onde hoje há savanas e a língua hebraica a ser ensinada nas escolas.
Nesse cenário alternativo, a criação de Israel em 1948 talvez não tivesse sido o único polo de atração – ou, num cenário ainda mais radical da história, poderia até nunca ter ocorrido nos mesmos moldes. Angola tornar-se-ia, assim, um improvável centro da diáspora judaica, com ligações culturais e económicas profundas à Europa e às Américas, mas também atravessada ainda mais por grandes tensões.
Num presente distópico, os ecos da guerra na região a que chamamos de Médio Oriente deixariam de ser distantes para ressoar diretamente em solo angolano. Os ataques do Irão, ou de outros atores, não se limitariam a Faixa de Gaza ou aquela zona geográfica, mas poderiam atingir infraestruturas e comunidades judaicas em África. Angola, nesse mundo alternativo, seria um território caracterizado pela coexistência entre atividades agrícolas e dispositivos de segurança. E nem consigo imaginar como teria sido o processo de Independencia …

O papel do acaso

A ideia de Angola como destino para um Estado ou colónia judaica pertence ao domínio das possibilidades históricas e não dos projetos concretizados. Ainda assim, revela algo muito curioso: num mundo marcado por perseguições, migrações e grandes incertezas, a geografia política não é um facto imutável. Muito pelo contrário, não raras vezes resulta de circunstâncias, escolhas e oportunidades, por vezes, quase do acaso.

FILHOS DE IMIGRANTES TRAZEM OURO E PRATA PARA PORTUGAL

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Enquanto três atletas afrolusitanos conquistavam ouro e prata em campeonatos do mundo de atletismo, André Ventura discursava em Budapeste, num comício de Viktor Orbán, para anunciar, sem surpresa, que “não queremos mais imigrantes”.

Enquanto os três subiam ao topo do pódio, envoltos na bandeira portuguesa e ao som do hino, Ventura falava, não para portugueses, mas para húngaros.

Enquanto os nomes de Agate Sousa, Gerson Baldé e Isaac Nader ocupam capas de jornais, aberturas de telejornais e manchetes de rádio, o outro limita-se hoje ao seu habitat natural: as redes sociais, onde a política se reduz a ruído e repetição.

Nada de novo nas palavras de Ventura. O mesmo guião gasto: o estrangeiro como ameaça, a aldrabice sobre os abusos no RSI, a mentira transformada em argumento político.

Mais interessantes são as palavras dos atletas. Falam de orgulho. De representar um país. Um país que, olhando bem, talvez não os mereça.

No fim, sobra o contraste, indecoroso, entre os que correm, saltam e vencem por Portugal, e os que precisam de inventar inimigos para ter alguma coisa para dizer.

A NOTÍCIA SOBRE O ATENTADO CONTRA VIKTOR ÓRBAN

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A notícia da RTP repete uma outra publicada pelo The Washington Post. Diz que esse jornal dos EUA teve acesso a um relatório dos serviços secretos russos onde se equacionava encenar uma tentativa de assassinato contra Viktor Orbán. Os verbos estão no condicional, as fontes são indiretas, e a distância entre o facto e a sua verificação devia ser suficientemente grande para caber lá dentro a dúvida.

Mas o essencial não está nos detalhes do plano. Está no paradoxo que ele encerra. Se a operação alguma vez existiu, deixou de poder existir no momento em que foi publicada. Um atentado encenado não resiste à luz do dia. Se, pelo contrário, nunca existiu, então cumpriu agora a sua única função plausível: entrar no circuito mediático, instalar-se como hipótese, insinuar-se como possibilidade política. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: a realidade foi alterada, não pelos factos mas pela circulação da sua versão hipotética.

O The Washington Post fez aquilo que se  costuma fazer quando se trabalha com informação que não pode ser verificada de forma independente. Não afirma peremptoriamente, protege-se com linguagem cautelosa e fontes qualificadas. Nada de particularmente censurável. O problema é que quando a matéria-prima é opaca, a própria publicação torna-se parte do fenómeno que pretende revelar.

É aqui que entra a RTP. Ao reproduzir a notícia, sem acrescentar mais nada, limitando-se a reproduzir o que foi publicado na origem, mesmo mantendo os verbos no condicional, transforma uma hipótese remota num facto mediático. Não é preciso afirmar que algo aconteceu, basta garantir que foi dito por alguém. Mas é uma fonte suficientemente distante e bastante inacessível. Assim se constrói uma cadeia de credibilização automática: um alegado relatório russo, filtrado por serviços europeus, publicado por um jornal americano, citado por um canal público português. Hollywood não faria melhor. A cada etapa, a incerteza dissolve-se com a perceção criada.

Nota-se que os tempos verbais mudam quando se menciona a “vontade” da Rússia.  Por exemplo: “os serviços de informação russos sugeriram” (em vez de terão sugerido); “sugestão de encenação do assassinato do atual primeiro-ministro húngaro revela o grau de importância que Moscovo atribui às eleições na Hungria” (e não alegada sugestão); “a iniciativa russa surge num contexto de aparente queda de popularidade de Orbán”.

recortes da notícia da RTP

Acresce que nem mesmo o jornal americano viu o tal relatório, tudo é baseado num relato que terá sido confidenciado por uma fonte europeia, pelo que a RTP talvez se tenha precipitado ao publicar isto. Num contexto internacional marcado por guerra híbrida e operações de influência, esta engrenagem faz parte do jogo. A informação deixou há muito de ser apenas aquilo que descreve o mundo; passou a ser uma ferramenta para o moldar.

Confiar num jornal como o The Washington Post não é, em si, um erro. Mas é preciso saber ler. E não embarcar alegremente em manobras de propaganda política.

No fim, ficamos com uma notícia que não pode ser confirmada, um atentado que não aconteceu e uma narrativa que, ainda assim, produziu efeitos. Se o plano era manipular perceções, não é claro que tenha falhado.

UMA LENDA DE AMOR E DE MISTÉRIO

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Hoje ficaremos pelo encantatório domínio da fantasia, onde se mantém, sedutora sempre, a história de uma princesa ou de mourinha encantada, tanto faz. Contada e recontada em noites de serões, a história de Maria Alva, moura ou princesa, permanece viva.

Já foi tema de um filme de António de Macedo, estreado em 1991. Já foi peça de teatro. Já foi tema de livros de criança e de outros livros para adultos com alma de criança. Como esse, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, publicado pela Editora Caminho em 2002 – as Lendas e Segredos das Aldeias Históricas de Portugal.

Muitos dos contadores não deram um fim feliz à história da princesa ou da mourinha que ficara presa numa das torres do castelo, onde as aias iam servi-la sem compreender sua tristeza.

Corria, por longe, a fama da sua beleza e, de onde em onde, apareciam pretendentes. Um dia, a moura ou a princesa mandou dizer aos muitos pretendentes que batiam à porta do castelo: Só caso com quem me oferecer uns sapatos à medida dos meus pés!…

Muitos pares de sapatos chegaram à porta do castelo. Nenhum servia aos pés da moura ou da princesa. E foi então que um príncipe enamorado, vindo de longe, seduziu uma criada a quem pediu o desenho dos pés estranhos da moura ou da princesa. Mas ela nunca vira os pés da Senhora a quem servia, sempre recobertos pela fímbria do manto que cobria.

Um dia, deixou que adormecesse e estendeu, timidamente, uma ligeira poalha de cinza aos pés da cama, que sua Senhora pisaria ao levantar-se. E quando, ao amanhecer, entrou na câmara da princesa, que isso mais parecia ser, viu uns desenhos da passagem de uma cabra e estremeceu, mas não gritou. E levou o estranho desenho ao príncipe enamorado, que não se perturbou e mandou fazer, em segredo pago a peso de ouro, uns sapatinhos à feição do modelo que levava.

Levou três dias, o sapateiro, a satisfazer a encomenda pretendida. E o príncipe, na posse deles, envolveu-os num caro manto de seda e entregou-os em segredo à criada que os foi levar à câmara da princesa, contando do príncipe que os enviara. E quando esta desvela o véu que os cobria, ouve-se um medonho estrondo no castelo e alguém viu rolos de fumo a sair pelas janelas.

A princesa, princesa moura que ela era, em breve descia, serena, as escadas do castelo em passos pequeninos. Veio descalça até à porta e desceu ao chão de terra do jardim, lá onde o príncipe apaixonado a esperava. A princesa contou ao príncipe o encanto que uma bruxa má, um dia, lhe talhara e que ele agora lhe quebrara.

Pediu-a o príncipe em casamento e a festa aconteceu pouco depois. O castelo voltou a encher-se de gente e povoaram-se as casas ao redor. E ali ficaram, felizes para sempre, na cidade que veio a ganhar o nome Marialva.

LEMBRAM-SE DE GAZA?

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Enquanto o mundo está focado na guerra do Irão, Israel voltou a estrangular a entrada de alimentos e ajuda humanitária em Gaza. Há, de novo, centenas de milhar de pessoas a passar fome, muitas delas crianças.

Cada vez mais sozinhos perante um destino que se adivinha cruel, os palestinianos resistem. Mesmo em Gaza, onde tudo foi destruído, onde não há ferramentas para auxiliar o esforço humano, eles estão a tentar não morrer facilmente nem tão depressa quanto Israel gostaria.

Começaram a chegar histórias de agricultores que estão a recuperar as terras agrícolas que Israel bombardeou nos últimos três anos. Todas as quintas foram destruídas, as reservas de água contaminadas, os poços entulhados, Gaza não tem nada, apenas a vontade de viver da população. Grupos comunitários estão a tentar reparar as estufas, as linhas de irrigação e os poços de água. A maior parte das pessoas trabalha de mãos nuas. Mas estão a produzir tomates, beringelas e feijões, ainda em pequenas quantidades. Mas é um recomeço.

Hoje, todos os membros da ONG e de organizações humanitárias que conseguem autorização de Israel para entrar em Gaza, levam sementes nos bolsos. Os palestinianos sabem como transformar essas sementes em vida.

E há gente a cultivar pequenas hortas por entre os escombros, por entre as campas dos seus mortos. Gaza é um dos lugares mais devastados à face da Terra. Mas há sinais de vida.

Durante os dias negros do genocídio, os palestinianos referiram-se muitas vezes a “sumoud”, palavra que se pode traduzir como “espírito inquebrantável” ou “resistência”. Sumoud é a forma como as famílias em Gaza, Hebron, Ramallah, Jericho, Nablus, Bethlehem, Jerusalém, resistem há décadas e como continuarão a resistir, plantando sementes nos escombros da destruição.

ESCREVE COMO QUEM SEMEIA

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Ana Paula Tavares é um dos nomes mais marcantes da literatura angolana, diria mesmo da literatura contemporânea em língua portuguesa, como confirma o reconhecimento maior que lhe foi atribuído com o Prémio Camões em 2025. A sua escrita faz pontes entre passados e futuros, entre vozes femininas e ancestrais , vozes que ela convoca de forma delicada e impactante.
Nascida no Lubango, em 1952, a sua infância foi desenhada pelo silêncio e pelas histórias sussurradas no interior de Angola, onde a tradição oral e a terra se inscrevem profundamente na memória de quem cresce embalada pelo sopro da História. Essa vivência ecoa nos seus versos, onde a paisagem não é apenas cenário, mas corpo vivo e simbólico:

(Poema “Desossaste-me”, em Ritos de Passagem, 1985)

O seu percurso académico conduziu-a à universidade no Lubango onde estudou História, e posteriormente a Lisboa, onde acabou o curso – e fez mestrado e doutoramento- aprofundou saberes e consolidou um olhar crítico sobre o legado colonial e o papel das mulheres africanas. A sua obra poética, marcada por uma linguagem sensível e pela resiliência, resgata vozes silenciadas e reivindica o espaço da mulher enquanto guardiã e transmissora da memória coletiva.
Na sua escrita, o corpo feminino, a natureza e os rituais ancestrais surgem frequentemente como elementos centrais. No poema “A Anona”, por exemplo, a descrição aparentemente simples de um fruto carrega uma enorme densidade simbólica e cultural.

(poema “A Anona”, em Ritos de Passagem, 1985)

Para Ana Paula Tavares, a poesia é um ato de resistência e de feminismo, onde o quotidiano se cruza com a força espiritual das suas ancestrais. Os seus versos evocam a ligação profunda à terra, ao feminino e às narrativas orais que sobreviveram ao tempo, celebrando a herança das mães e avós, mulheres que, mesmo diante do silêncio e da opressão, mantiveram viva a identidade:

(Poema “Canto de nascimento”, em O Lago da Lua, 1999)

Ler, aqui em Angola, Ana Paula Tavares é embarcar por entre rios e savanas, onde o passado sussurra e a esperança se reinventa. Na sua obra, o tempo ampara o esquecimento e as mulheres são fios invisíveis que seguram o mundo. Cada verso é um convite para escutar o murmúrio antigo das vozes que tecem a identidade de um povo.

Termino, com um verso de que muito gosto:

PORTUGAL E ESPANHA, DESCUBRA AS DIFERENÇAS

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O Governo de Pedro Sánchez aprovou um pacote de cinco mil milhões de euros e 80 medidas. Não é subtil: corta o IVA da energia de 21% para 10%, baixa drasticamente a carga fiscal sobre a eletricidade e tira cerca de 30 cêntimos por litro aos combustíveis. Ou seja, intervém.

Em Portugal, a intervenção chama-se expectativa. Em menos de um mês, o gasóleo sobe mais de 40 cêntimos. A resposta do Governo? Um conjunto de seis medidas, cuidadosamente desenhadas para não perturbar demasiado a realidade.

Há, por exemplo, um subsídio de 25 euros para botijas de gás, uma ajuda tão cirúrgica que acerta em quase ninguém. E há uma redução do ISP que consegue o feito notável de existir sem se notar. isto é, o imposto reduz mas o preço do litro continua a aumentar.

Mas a peça mais fascinante do plano português é o chamado “mecanismo de intervenção”. Um instrumento que permite ao Estado agir sobre os preços… desde que o problema atinja proporções suficientemente catastróficas para já não haver muito a fazer. Funciona assim: se os preços dispararem mais de 70% ou ultrapassarem os 180 euros por megawatt-hora, então sim, o Estado poderá intervir. Até lá, observa. Com atenção. E serenidade.

“Não nos precipitaremos”, garantiu o ministro António Leitão Amaro. E percebe-se. A precipitação é inimiga da inação.

A diferença entre Portugal e Espanha não está nos números. Está no reflexo. De um lado, um Governo que baixa impostos para travar preços. Do outro, um Governo que cria condições para agir mais tarde, eventualmente, se tudo correr mal o suficiente.

No fundo, Espanha governa para evitar a crise. Portugal prepara-se para geri-la, quando já for inevitável. Com calma. Sempre com muita calma.