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UMA CENA DIFERENTE NAS REDES SOCIAIS

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Alba Muñoz Carbonell e Pedro Freitas

Aquilo que vejo, aquilo que o algoritmo decidiu que eu devo ver, não é mais do que um reflexo imperfeito de mim próprio. Um gesto mínimo, distraído, uma espécie de bater de asas de um “like” e o sistema devolve-me um mundo onde a poesia parece estar por toda a parte. Não sei se é uma tendência ou apenas uma ilusão bem calibrada.

Mas vamos aos casos concretos. Vídeos curtos, enquadramento íntimo, voz baixa. Pedro Freitas começa quase sempre com uma promessa de tradição – por exemplo, Eugénio de Andrade podia ter dito isto ou aquilo – e, a partir daí, constrói uma espécie de ponte entre tradição e o scroll no telemóvel. A poesia deixa de ser página e passa a ser presença: um rosto, uma respiração, um ritmo que se mede em segundos.

Do outro lado, Alba Muñoz Carbonell sussurra. Há qualquer coisa de deliberadamente íntimo na forma como fala, uma proximidade que não existe nos livros, nem sequer na leitura em voz alta tradicional. A poesia aqui não se lê: insinua-se. Quase como se cada verso tivesse sido escrito para um ouvido específico, ainda que, na verdade, seja lançado para milhares.

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Talvez seja isto que mudou. Não a poesia, mas o seu modo de circulação. Já não é o texto que procura o leitor, é o corpo que interpela o espectador. A emoção deixou de ser apenas linguagem e passou a ser também performance, expressão, olhar. E, claro, algoritmo.

E no meio disto tudo, há uma evidência: isto resulta. Há seguidores, há alcance, há dinheiro a circular. A poesia, essa velha arte discreta, aprendeu finalmente a comportar-se como conteúdo. Não sei se ganhou leitores ou apenas audiência.

EPIDEMIA MORTAL

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Na sequência do que se escreveu sobre a mina de pedras semipreciosas em Belas – : https://duaslinhas.pt/2026/03/mina-de-pedras-preciosas-em-sintra/ – dir-se-á que o seu reconhecimento está relacionado com a febre amarela, que grassou em Portugal entre 1858 e 1861.

Esta epidemia foi tão terrível, que se chegou a pensar ser devida a uma conspiração para dar cabo dos filhos de D. Maria II e do nosso Rei-Artista, Dom Fernando von Sachsen Coburg Gotha, seu marido.

No caso do Príncipe Augusto de Leuchtenberg, há bastantes indícios que levam a suspeitar ter havido mesmo intenção de o matar; mas, quanto aos filhos de Dona Maria II e de D. Fernando, a causa das mortes deve ser procurada numa vulgar contaminação, quando não havia eficazes meios de prevenção.

Após a morte dos pais, subiu ao trono D. Pedro V, que casou com Dona Estefânia, uma rainha dedicada ao povo e de enorme boa vontade, deslocando-se aos hospitais de campanha onde se recolhiam os doentes com a epidemia, nomeadamente ao que foi erguido ao lado da Igreja Matriz, em Belas, ou em Torres Vedras, onde grassava outro surto epidémico.

Esta febre, contra a qual não havia remédio nenhum, destacava-se pela rapidez com que uma pessoa adoentada com febres altas morria, num espaço de poucos dias.

Foi assim a Rainha que, bem intencionada, levou a febre de Belas para o palácio em Lisboa, onde seus irmãos a quiseram ajudar e apanharam a febre. Seu marido não a podia ver sequer. A rainha morreu logo (1858), os irmãos um pouco mais tarde, e o rei em 1861.

D. Pedro V e Dona Estefânia

Os mortos de Belas eram enterrados à noite, sem a presença de ninguém, na vala comum que se abriu para este efeito na Quinta da Chicola, uma das seis quintas que meu bisavô adquiriu.

Após os costumados dez anos de descanso, trasladou-se o que restava dos corpos para o novo cemitério de Belas, alguns duzentos metros acima da minha rua, a Estrada Nacional 117.

Através dos padres de Belas, conseguiu minha avó, que nascera aqui em 1885, adquirir umas dezenas destas pedras de jacinto, já sem os anéis, a maioria delas já facetadas.

as pedras de jacinto de Belas compradas pela minha avó

A fim de galardoar quantos médicos e voluntários se distinguiram na luta contra a doença, mormente no apoio aos infectados, aprovou o município de Lisboa, em sessão de 17 de junho de 1858, a instituição de uma Medalha da Febre Amarela. Da autoria de Francisco de Borja Freire, exibia a inscrição “Lisboa Agradecida” e “À Devoção Humanitária”. Teve aprovação real, de modo que passou a ser considerada uma condecoração nacional.

a Medalha da Febre Amarela

Cunhada em prata, apresentava uma alegoria da cidade de Lisboa distribuindo uma coroa de louros. Cunhou-se um exemplar, em ouro, destinado a D. Pedro V, com o qual ele deixou escrito que queria ser sepultado.

(em colaboração com José d’Encarnação)

QUEM VIER ATRÁS…

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imagem construída com IA

Arrastou o mundo para uma guerra, pôs-nos a todos a pagar a sua demência e a sua sede de poder, seja psicológica seja economicamente. De repente, em três semanas, o mundo ficou de pernas para o ar, com os preços a aumentarem exponencialmente e os pobres mais pobres e a classe média já no limiar da pobreza. E agora, a porta perigosa que abriu, quer que seja a NATO a fechá-la. Felizmente, até ver, Alemanha, Reino Unido, Itália, Grécia e Japão não cederam às pressões e ameaças de Trump: ‘O Estreito de Ormuz não será uma missão da NATO’, clarificam.

Ainda assim, o indivíduo prefere o terrorismo legalizado: ou ajudam na guerra com o Irão, ou ‘será muito mau’ para as alianças. Sem vergonha, também pediu ajuda à China que não se disponibilizou para tanto. A Dinamarca disse estar de ’espírito aberto’, mas avisou que os EUA já ‘não são o aliado mais próximo’, sobretudo atendendo ainda às ameaças que fez sobre a Gronelândia.

Todos explicaram que esta guerra é somente americana e israelita. ‘Esta não é a nossa guerra, não a começámos’, afirmou o ministro da Defesa da Alemanha, acrescentando que o país não vai participar militarmente nas operações no Estreito de Ormuz. Além disso, a Alemanha não se vai desviar do objetivo na Ucrânia, objectivo que Trump já está disposto a negociar com a Rússia.

Uma vergonha!! O Mundo está uma vergonha! E ainda mais vergonha se considerarmos as contínuas ameaças a Cuba e ao estado em que está aquele pequeno país.

Enquanto isto, Netanyahu avança por ali fora, numa conquista desenfreada, destruindo tudo e todos, sem que alguém o pare.

Vi, há dois ou três dias, imagens do Irão. A mais antiga mesquita do Mundo foi completamente destruída. Vi imagens de palácios emblemáticos sem os maravilhosos vitrais, como Golestan, da era Qajar, em Teerão. Vi uma cidade património da Unesco, com mais de 30 locais classificados, totalmente desfeita. Onde fica a História? Onde pára a nossa História?

Defensores de Direitos Humanos alertam que a guerra no Irão não só deixou mais de mil mortos, mas também abalou instituições e lugares históricos importantes.

Alguém disse que ‘quando crianças são mortas e vidas humanas estão em risco, algumas pessoas podem pensar: ‘o que importa alguns azulejos ou vidros quebrados?’’. Mas importa. Importa muito porque ‘precisamos de saber quem somos, de onde viemos e o que tudo isso significa’.

Todos os governos recusam envolver-se naquela loucura e defendem negociações e a diplomacia que, evidentemente, os todo-poderosos recusam. Esperavam que o Irão lhes ‘oferecesse’ o Estreito de Ormuz? Como já vinquei muitas vezes, nunca poderei defender o regime iraniano. Mas defenderei sempre a Pérsia e os iranianos que são assassinados todos os dias por loucos.

O governo português esteve do lado dos loucos, ajudou nesta loucura que pode terminar com a destruição de uma boa parte do Mundo e da História. Mas o que sabem americanos e israelitas de História? No caso dos EUA não sobra nada porque destruíram os índios e o que seria a sua História mais antiga. Com Israel é pior: vivem agarrados às vítimas da II Guerra Mundial e, pretensamente, devem andar a vingá-las…

Daqui, parece-me que vão sair muito terrorismo, muitas mortes e muitos horrores. Agora, imaginem que alguém fazia implodir o Mosteiro dos Jerónimos ou o da Batalha, ou a Torre dos Clérigos, para só falar nestes…

AMIGOS DE DITADURAS

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Fotografia sobre um protesto contra a censura no Brasil, em fevereiro de 1968. Na foto: Tônia Carrero, Eva Wilma, Odete Lara, Norma Bengell e Cacilda Becker. O cartoon sobre Trump é de Hélder Dias.

Por estes dias em que o cinema de Hollywood esteve nos leads noticiosos, lembramo-nos de uma história que revela com clareza a colaboração entre a ditadura brasileira e a Motion Picture Association, o organismo norte-americano que zela pelo negócio do cinema de Hollywood. A Motion Picture já naquela época representava os interesses dos grandes estúdios de Hollywood, como Paramount, Universal e Warner Bros. Essa organização, hoje, também representa serviços de streaming, como a Netflix.

Trata-se de uma carta de 1972 enviada por Harry Stone, representante da Motion Picture no Brasil, para o general Nilo Caneppa Silva, o diretor-geral da Polícia Federal em Brasília. Nessa carta, Harry Stone transmite a denúncia sobre um filme brasileiro, exibido em Nova Iorque, com um enredo sobre tortura sofrida pelos presos políticos no tempo do governo Médici, no Brasil.

Ou seja, os filmes exibidos nos EUA e que eram catalogados como incómodos para os regimes amigos, eram alvo de relatórios políticos que eram partilhados com as estruturas repressivas dos regimes ditatoriais amigos.

O general Nilo Caneppa Silva tinha a tarefa de censurar obras de arte. Além disso, chegou a participar de uma detenção ilegal e tortura durante o regime militar, tal como consta na página 917 do relatório final da Comissão Nacional da Verdade.

referência ao general Caneppa da Silva no relatório da Comissão Nacional da Verdade

Na correspondência com o general Caneppa da Silva, Harry Stone anexou  uma carta em inglês de um representante da Motion Picture nos Estados Unidos chamado J. William Piper, onde se especifica o local onde o filme estaria em exibição, o Carnegie Hall, conjunto de salas de espetáculo, localizado na esquina da 57th Street com a 7th Avenue, em Nova York. 

O filme em questão era “O caso dos irmãos Naves”, de Luiz Sergio Person. A obra narra a brutal prisão e tortura de dois irmãos no interior de Minas Gerais durante a ditadura do Estado Novo, na década de 1930.

Esta carta mostra como o representante dos maiores estúdios de cinema dos Estados Unidos colaborava com os serviços de segurança do estado brasileiro, uma ditadura militar. Serviços de segurança que perseguiam, torturava e matava dissidentes. A “democracia” dos EUA no seu melhor…

TRUMP QUER SER ALBUQUERQUE

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Trump não sabe quando vai terminar a guerra que lançou contra o Irão. Insiste que o objetivo militar é impedir que o Irão consiga fabricar uma bomba nuclear. A guerra só terminará quando esse objetivo for alcançado, pressupõe-se. Mas o “papão” do Irão nuclear é algo que os israelitas propagandeiam há muito tempo. Netanyahu já fala nisso há mais de 30 anos, sempre a dizer que o Irão está “perto” da bomba nuclear. É uma linha discursiva contínua desde o início dos anos 1990, nunca confirmada. Ou seja, sempre desmentida, quanto mais não seja, pelo passar do tempo.

Netanyahu a mentir desde 1992

O Irão não tem armas nucleares, ponto. E por isso está a ser bombardeado por Israel e pelos EUA.

Apesar de semanas de bombardeamentos israelo-americanos, o Irão continua a conseguir bloquear a passagem de petroleiros. Nem precisa de os atacar: basta a ameaça. Num estreito tão estreito quanto estratégico, o simples risco já é suficiente para paralisar armadores, seguradoras e companhias de transporte.

Mas no eco das posições de Washington, a imprensa ocidental parece esquecer alguns detalhes. O primeiro é que o próprio Irão também produz petróleo e o exporta precisamente por ali. O segundo é que, neste episódio, é o Irão que está a ser bombardeado, sem que tenha havido uma agressão prévia que justificasse tal ofensiva no plano do direito internacional.

E há ainda um terceiro detalhe: a interferência no transporte de petróleo não começou agora. Os exemplos são numerosos. Cuba continua sujeita a um bloqueio ditado pelos EUA que impede a entrada de petróleo na ilha. A Venezuela foi alvo de uma agressão militar dos EUA para controlo dos seus hidrocarbonetos. E, em águas internacionais, petroleiros russos têm sido atacados por forças ucranianas com apoio ocidental.

Nada disto costuma aparecer quando se fala de Ormuz. O que mais surpreende é a forma como as notícias surgem hoje: sem contexto histórico, sem memória recente e muitas vezes sem uma verificação minimamente exigente das fontes. O estreito é apresentado como um drama súbito. Quem questiona as razões da agressão israelo-americana ao Irão?

Ao ler os relatos de hoje não podemos deixar de reparar que regressámos ao século XVI, quando controlar um estreito era simplesmente uma questão de canhões, força bruta e ambição imperial. Como se ainda estivéssemos no tempo de Afonso de Albuquerque.

UMA VIAGEM DE AUTOMÓVEL EM 1908

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A essa data, andava Aquilino pelos 23 anos e tinha experimentado já a prisão da Esquadra do Caminho Novo, em Lisboa, onde entrara a 17 de Novembro de 1907, após o incidente com o rebentamento das bombas artesanais, no seu quarto da Rua do Carrião. Evadido da prisão, a 12 de Janeiro de 1908, mantém-se, resguardado, por Lisboa, o meu primeiro desterro de seis anos, diz ele.

A Senhora dos Remédios, em Lamego, esse maravilhoso quadro paisagístico conformado ao imponente santuário, com sua impressionante escadaria de muitos lanços e a frondosa mata vizinha, cativara-o, decerto, desde que conhecera Lamego, quando, estudantinho do Colégio da Lapa, ali ia fazer exame e, nesse posterior tempo dos dois anos em que frequentou o Colégio Roseira, que o Padre Alfredo dirigia na cidade.

Revista Serões

O seu texto de 8 páginas, ilustrado com gravuras da época, é uma deliciosa crónica que, na aurora do automóvel, relata essa aventurosa viagem em que embarcavam famílias inteiras, o abade e os figuros da terra seguindo a cavalo a viagem ronceira do carro de bois, onde as damas assentavam, com a merenda da jornada, que apenas terminava com o regresso ao outro dia.

Aquilino descreve essa modorrenta partida pela madrugada de Setembro; descreve a paisagem que o sol, ao nascer, vai animando; a merenda em Britiande, quase ao findar do caminho; e a epopeica chegada a Lamego; a opaca descrição do pórtico românico da Sé que o abade não fez compreender; a demorada sedução de Rosa, a filha bonita do carreteiro, pelo brasileiro pateta que ela escolheu, preterindo o magala apaixonado.

E, depois, a lenta subida pelos patamares do Escadório; o espanto das fontes-monumento; o secretismo das grutas; os pináculos gigantes de onde velavam os antigos Reis de Israel; as torres altas do Santuário; luminárias; o toque dos sinos; as cinco voltas ao Santuário; a esmola na bandeja; a estampa para colar no frontal da casa; o manso e grato olhar da Senhora no seu trono dourado; o gesto do brasileiro que ofereceu o retrato como ex-voto; a Procissão do Triunfo, que chegava com o andor da Senhora no habitual carro de bois carregado de anjinhos, piedosa prática de um tempo antigo, que ainda hoje se mantém como tradição.

E, depois, o sabor da merenda; o almoço ao despedir da cidade, na tenda das Catarras; a compra das arrecadas de oiro que Rosa escolheu; e a desdita do Zé, o apaixonado soldado que a rapariga preteriu escolhendo o enxúndias do brasileiro.

E o regresso à aldeia que Aquilino já não nos conta!…

***FAKE*** VÍDEO DE NETANYAHU

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Lá em cima está o tiro-liro-liro, cá em baixo está o tiro-liro-ló, juntaram-se os três à esquina, a tocar concertina e a dançar o só-li-dó…

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O vídeo da esquerda foi mostrado em todos os canais mainstream do mundo, como prova de que Netanyahu está vivo e de boa saúde, mesmo se já passaram sete dias que deixou de ser visto.

Perante os rumores insistentes de que o primeiro-ministro israelita tinha sido atingido num bombardeamento iraniano, que estaria ferido ou mesmo morto, o vídeo apareceu. Netanyahu estava num café de Jerusalém, tomava um cafezinho e gozava com os rumores sobre a sua morte. O que Netanyahu não nos disse foi que, no mesmo café, estavam também Mojtaba Khamenei (o novo líder religioso iraniano, que sucede ao pai assassinado por Israel) e Kim Jong-un (Presidente da Coreia do Norte). Uma cimeira secreta no Sataf Café?

O que este vídeo tripartido parece, agora, comprovar é que o “aparecimento” de Netanyahu é um vídeo de IA, falso.

UMA REFORMA ARTIFICIAL

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Portugal, neste momento, não necessita de uma reforma laboral, os despedimentos estão suficientemente flexíveis, existe uma crise de mão-de-obra e a conflitualidade laboral tem vindo a reduzir e a causar menos atritos entre trabalhadores e empresários.

O governo de Montenegro pretendia criar um conflito que lhe permitisse, paulatinamente, abrir caminho a outras medidas, desde o controlo da comunicação social, aos negócios do armamento, passando por eventuais eleições antecipadas para recuperar o eleitorado perdido para o Chega, alcançando uma maioria absoluta. Queria repetir António Costa, que esvaziou o BE e o PCP, e usou a reforma laboral como balão de ensaio.

SEGURO VAI VETAR

As contas saíram-lhe furadas, o seu candidato, por culpa dele, Montenegro, teve um resultado miserável e o novo Presidente da República está amarrado a um compromisso eleitoral que não pode colocar de lado, sob pena de perder credibilidade, logo no início do mandato.

Por forma a dramatizar, Montenegro marcou uma ‘reunião da concertação social’ para o dia da posse do Presidente da República, bem sabendo que nada resolveria, afastou a CGTP das negociações, equiparou o Chega a esta central sindical e veio, agora, admitir ceder em pontos não essenciais da proposta, mantendo o essencial das alterações ‘reformistas’ à legislação laboral, aquelas que maior impacto negativo têm para os trabalhadores. Pelo meio, joga em dois tabuleiros, mantém a pressão sobre a UGT que, caso aceite esta proposta, aceitando as medidas mais controversas para os trabalhadores, poderá assinar a sua certidão de óbito. Em alternativa, se a UGT não aceitar negociar,  espera convencer o Chega a votar a proposta de reforma laboral na Assembleia da República, sabendo que o Presidente da República a vetará, mas com a intenção clara de saber até onde pode esticar a corda com António José Seguro.

Luís Montenegro está acossado entre a incapacidade de governar, num quadro económico nada favorável, a sombra de Passos Coelho, o receio de um crescimento do Chega e a estabilização do Partido Socialista, que se recentrou e pode vir a captar eleitorado do centro que perdeu para a AD.

A pior coisa que pode acontecer a um político incapaz é ver-se confrontado com a possibilidade de perder o poder, e este é o caso. Nestas circunstâncias usa de todos os expedientes para manter o poder, sem pudor, apenas com o instinto de sobrevivência. Normalmente esta opção dá mau resultado e tudo indica que entre o abismo e o País, Luís Montenegro opta pelo abismo.

RECEITA DE MULHER

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Mais uma vez a ler a tua enorme poesia. Nunca me perco nela… Sim, por ela. Entrei no espírito da tua “receita de mulher”. Mais uma vez acertas nos ingredientes, mas… Mas… Tenho uma forma de compor a receita. Sabes que, por vezes, as receitas são melhoradas baseadas na experiência. É perfeitamente evidente que também tinhas em ideia as pequenas proporções, que te vou adiantar, que faltavam no todo. Sendo esta minha conversa informal, parte assim de um leitor espiritual teu, porque também vivi as tuas tropicalidades. Não vou patentear a receita, até porque, sendo teu o original, o acrescento… é o que pensarias. Mas o meu acrescento tem nuances que não fazem parte do teu original. É mais abrangente, desculpa, mas é. Dei-te o beneficio da dúvida, que terias pensado; mas, se assim era, não escreveste. E eu acrescento ao teu original. Ora nota bem:

Depois destes ingredientes, o que pensas disto? Concordas? Eu sabia. Vivemos no mesmo compasso de vida; mas, claro, o teu compasso foi muito maior… o meu… não. Vejo, porém, como tu vias, talvez mais, porque menos tive. Cantaste mais, muito e muito mais que eu, no entanto, se calhar… por ter menos, apreciei mais do que tu. Espiritualmente contigo, Venicius.

HOMEM INFINITO

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Muita parra pouca uva. Já não aturamos pompa e circunstância, quando de ambas, bem espremido o fruto, já não sai sumo de jeito. Por isso, sem pompa nem circunstância, me cativou deveras a homenagem a Nadir Afonso.

Chegou a prever-se que, na mesma altura e no mesmo Espaço-Memória do Teatro Experimental de Cascais, se festejasse, nessa tarde de 14 de Março, Marcelo Rebelo de Sousa. Encarava-se, portanto, cerimónia de vulto, com as habituais caras a requerer foto e atenção («Eu estou aqui, fotografe-me!»…).

Marcelo não pôde vir e foram-se ajuntando aos poucos, em torno de João Vasco, os admiradores de Nadir Afonso, o homem e a obra. Assim. Despretensiosamente.

Os amigos de Nadir Afonso

O vice-presidente da Câmara, Luís Capão, tinha concerto da Sinfónica à mesma hora, pediu escusa, cumprimentou e foi cumprimentado por quem era da praxe. Ficaram os amigos. A ouvir histórias contadas pela viúva Laura Afonso, contadas por João Vasco. Num clima do maior à-vontade, sem olhar a relógios, em conversa amena.

De vez em quando, ia-se até um dos quadros ou junto a uma das magníficas tapeçarias da Fábrica de Portalegre patentes na exposição. Admirar.

Voltava-se.

Ouvia-se, por exemplo, Luís Rizo a descrever o célebre projecto que Nadir Afonso apresentou, em 1957, um edifício em forma de concha, giratório, porque  montado sobre um mecanismo que permitiria a rotação, ao qual deu o nome de “La Coquille Tournante” (em português, A Concha Giratória). Projeto experimental e visionário, que jamais viria a sair do papel…

Presentes praticamente todos os elementos do Teatro Experimental de Cascais, amigos e admiradores da obra de Nadir. Ambiente familiar, dir-se-ia, na simpática descontração, que, estamos certos, a Nadir muito agradaria.

Aplausos sublinharam o descerramento, pelas mãos da sua viúva, da placa evocativa.

Depressa chegam a Primavera e o Estio. Tempo de ir até ao paredão e Nadir estará, de novo, connosco, no túnel de acesso a partir do Parque Palmela.

Recordaremos o pintor-arquitecto que escolheu Cascais para viver as suas últimas décadas e a sua igreja paroquial para celebrar o seu casamento. A geométrica policromia dos seus azulejos jamais deixará de nos encantar.