A essa data, andava Aquilino pelos 23 anos e tinha experimentado já a prisão da Esquadra do Caminho Novo, em Lisboa, onde entrara a 17 de Novembro de 1907, após o incidente com o rebentamento das bombas artesanais, no seu quarto da Rua do Carrião. Evadido da prisão, a 12 de Janeiro de 1908, mantém-se, resguardado, por Lisboa, o meu primeiro desterro de seis anos, diz ele.
A Senhora dos Remédios, em Lamego, esse maravilhoso quadro paisagístico conformado ao imponente santuário, com sua impressionante escadaria de muitos lanços e a frondosa mata vizinha, cativara-o, decerto, desde que conhecera Lamego, quando, estudantinho do Colégio da Lapa, ali ia fazer exame e, nesse posterior tempo dos dois anos em que frequentou o Colégio Roseira, que o Padre Alfredo dirigia na cidade.

O seu texto de 8 páginas, ilustrado com gravuras da época, é uma deliciosa crónica que, na aurora do automóvel, relata essa aventurosa viagem em que embarcavam famílias inteiras, o abade e os figuros da terra seguindo a cavalo a viagem ronceira do carro de bois, onde as damas assentavam, com a merenda da jornada, que apenas terminava com o regresso ao outro dia.
Aquilino descreve essa modorrenta partida pela madrugada de Setembro; descreve a paisagem que o sol, ao nascer, vai animando; a merenda em Britiande, quase ao findar do caminho; e a epopeica chegada a Lamego; a opaca descrição do pórtico românico da Sé que o abade não fez compreender; a demorada sedução de Rosa, a filha bonita do carreteiro, pelo brasileiro pateta que ela escolheu, preterindo o magala apaixonado.
E, depois, a lenta subida pelos patamares do Escadório; o espanto das fontes-monumento; o secretismo das grutas; os pináculos gigantes de onde velavam os antigos Reis de Israel; as torres altas do Santuário; luminárias; o toque dos sinos; as cinco voltas ao Santuário; a esmola na bandeja; a estampa para colar no frontal da casa; o manso e grato olhar da Senhora no seu trono dourado; o gesto do brasileiro que ofereceu o retrato como ex-voto; a Procissão do Triunfo, que chegava com o andor da Senhora no habitual carro de bois carregado de anjinhos, piedosa prática de um tempo antigo, que ainda hoje se mantém como tradição.
E, depois, o sabor da merenda; o almoço ao despedir da cidade, na tenda das Catarras; a compra das arrecadas de oiro que Rosa escolheu; e a desdita do Zé, o apaixonado soldado que a rapariga preteriu escolhendo o enxúndias do brasileiro.
E o regresso à aldeia que Aquilino já não nos conta!…



