Muita parra pouca uva. Já não aturamos pompa e circunstância, quando de ambas, bem espremido o fruto, já não sai sumo de jeito. Por isso, sem pompa nem circunstância, me cativou deveras a homenagem a Nadir Afonso.
Chegou a prever-se que, na mesma altura e no mesmo Espaço-Memória do Teatro Experimental de Cascais, se festejasse, nessa tarde de 14 de Março, Marcelo Rebelo de Sousa. Encarava-se, portanto, cerimónia de vulto, com as habituais caras a requerer foto e atenção («Eu estou aqui, fotografe-me!»…).
Marcelo não pôde vir e foram-se ajuntando aos poucos, em torno de João Vasco, os admiradores de Nadir Afonso, o homem e a obra. Assim. Despretensiosamente.

O vice-presidente da Câmara, Luís Capão, tinha concerto da Sinfónica à mesma hora, pediu escusa, cumprimentou e foi cumprimentado por quem era da praxe. Ficaram os amigos. A ouvir histórias contadas pela viúva Laura Afonso, contadas por João Vasco. Num clima do maior à-vontade, sem olhar a relógios, em conversa amena.
De vez em quando, ia-se até um dos quadros ou junto a uma das magníficas tapeçarias da Fábrica de Portalegre patentes na exposição. Admirar.


Voltava-se.
Ouvia-se, por exemplo, Luís Rizo a descrever o célebre projecto que Nadir Afonso apresentou, em 1957, um edifício em forma de concha, giratório, porque montado sobre um mecanismo que permitiria a rotação, ao qual deu o nome de “La Coquille Tournante” (em português, A Concha Giratória). Projeto experimental e visionário, que jamais viria a sair do papel…


Presentes praticamente todos os elementos do Teatro Experimental de Cascais, amigos e admiradores da obra de Nadir. Ambiente familiar, dir-se-ia, na simpática descontração, que, estamos certos, a Nadir muito agradaria.
Aplausos sublinharam o descerramento, pelas mãos da sua viúva, da placa evocativa.
Depressa chegam a Primavera e o Estio. Tempo de ir até ao paredão e Nadir estará, de novo, connosco, no túnel de acesso a partir do Parque Palmela.
Recordaremos o pintor-arquitecto que escolheu Cascais para viver as suas últimas décadas e a sua igreja paroquial para celebrar o seu casamento. A geométrica policromia dos seus azulejos jamais deixará de nos encantar.





Boa noite, José d’ Encarnação.
Conheci-o. Teve duas intervenções como espectador – uma na Verney em Oeiras, outra no auditório do Centro Cultural de Cascais – que me deixaram fascinada com a facilidade de expressão tão erudita do arquitecto-pintor.
Reparei que Nadir Afonso escutou quase até ao fim antes de se pronunciar com firmeza de convicções e terá sido, em ambas as sessões a que assisti, a personalidade que, misturada com o público, melhor se exprimiu quando interveio.
Verdade seja dita que essas intervenções mereceram o silêncio geral quando ele começou com voz clara e bem audível, e suscitaram o aplauso fácil e imediato quando terminou.
Era um pintor moderno, visionário. Os seus trabalhos revelam uma pureza de formas geométricas muito à frente da maioria dos artistas plásticos do seu tempo.
Por isso creio que ainda não foi prestado o devido “tributo” ao seu talento.
Muito grata por este texto.