A REELEIÇÃO DE LULA

UMA OPORTUNIDADE ESTRATÉGICA PARA ÁFRICA E A CPLP EM PARTICULAR

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A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência do Brasil constitui um acontecimento político de grande significado internacional, particularmente para África, para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e, de forma muito especial, para a Guiné-Bissau.
Num mundo marcado por conflitos, desigualdades e profundas rivalidades geopolíticas, a continuidade de Lula poderá reforçar o papel do Brasil na defesa do multilateralismo, da cooperação Sul-Sul e de uma ordem internacional mais justa e equilibrada.

Para África, o novo mandato abre perspectivas de aprofundamento das relações económicas, científicas e tecnológicas com o Brasil, país que partilha com o continente profundos laços históricos, culturais e humanos. Para a CPLP, representa uma oportunidade de transformar a nossa Comunidade num verdadeiro espaço de cooperação económica, solidariedade política e desenvolvimento partilhado.

A Guiné-Bissau perante uma oportunidade particular

Para a Guiné-Bissau, a continuidade de Lula poderá assumir uma importância que ultrapassa largamente a cooperação bilateral tradicional.
O nosso país atravessa um dos períodos mais delicados da sua história política recente. A transição institucional, a necessidade de reconciliação nacional e o imperativo de realizar eleições livres, transparentes e credíveis exigem o empenhamento responsável das forças políticas nacionais e o acompanhamento construtivo dos parceiros internacionais.

Neste contexto, o Brasil poderá desempenhar um papel diplomático relevante, em articulação com a CPLP, a CEDEAO, a União Africana e as Nações Unidas, contribuindo para a criação de condições favoráveis ao restabelecimento da normalidade constitucional. Não se trata de solicitar interferências nos assuntos internos da Guiné-Bissau, mas de valorizar uma cooperação política assente no respeito pela soberania nacional, na defesa da democracia e na promoção do diálogo inclusivo. A Guiné-Bissau necessita de parceiros que ajudem a construir pontes, e não de intervenções que aprofundem divisões.

Da solidariedade histórica ao desenvolvimento concreto

O relacionamento com o Brasil deve igualmente adquirir uma dimensão económica e social mais ambiciosa. A experiência brasileira na agricultura tropical, na investigação científica, na formação de professores, na saúde pública e na administração do Estado constitui uma oportunidade que a Guiné-Bissau deve aproveitar de forma estratégica.
A cooperação com instituições brasileiras, nomeadamente nos domínios da produção de arroz, transformação do caju, formação profissional, ensino superior e modernização administrativa, poderá contribuir para reduzir a dependência externa e criar novas oportunidades para a juventude guineense.

Importa igualmente reforçar os programas de bolsas de estudo, a formação de médicos, engenheiros, professores e técnicos especializados, bem como promover investimentos e parcerias empresariais capazes de gerar emprego e valor acrescentado no nosso país.
A Guiné-Bissau não pode continuar a limitar-se a receber manifestações de amizade e solidariedade. Deve apresentar projectos concretos, prioridades claras e propostas de cooperação mutuamente vantajosas.

Encontro do Presidente da Guiné-Bissau, João Bernardo Vieira com o Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília, 2007

Uma CPLP mais presente na Guiné-Bissau

O novo mandato de Lula poderá também constituir uma oportunidade para reforçar a responsabilidade colectiva da CPLP perante os desafios guineenses. A nossa Comunidade não deve limitar-se a acompanhar as crises políticas através de comunicados e declarações diplomáticas.
Deve procurar contribuir activamente, dentro das suas competências e em respeito pela soberania dos Estados, para o fortalecimento das instituições democráticas, a formação de recursos humanos e o desenvolvimento económico dos seus membros.

No caso da Guiné-Bissau, seria particularmente importante promover uma iniciativa concertada de cooperação que associasse o Brasil, Portugal e os restantes parceiros lusófonos em torno de prioridades nacionais bem definidas. A estabilidade política da Guiné-Bissau e o seu desenvolvimento económico devem ser encarados como objectivos complementares e inseparáveis.

Uma responsabilidade que também é nossa

A reeleição de Lula abre possibilidades, mas não dispensa os guineenses das suas próprias responsabilidades. Nenhum parceiro internacional poderá substituir a vontade política nacional, o respeito pelas instituições, a reconciliação entre os cidadãos e o compromisso efectivo com a democracia.
Compete-nos transformar as oportunidades diplomáticas em programas de desenvolvimento, mobilizar investimentos, valorizar os nossos recursos humanos e construir um Estado capaz de responder às necessidades da população.
A importância do novo mandato de Lula para a Guiné-Bissau deverá medir-se, sobretudo, pela capacidade de transformar a amizade histórica entre os nossos povos em realizações concretas. O Brasil poderá ser um parceiro estratégico na construção de uma Guiné-Bissau mais estável, democrática, produtiva e socialmente justa. Mas essa construção terá de ser, antes de tudo, obra dos próprios guineenses.

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