
Por estes dias em que o cinema de Hollywood esteve nos leads noticiosos, lembramo-nos de uma história que revela com clareza a colaboração entre a ditadura brasileira e a Motion Picture Association, o organismo norte-americano que zela pelo negócio do cinema de Hollywood. A Motion Picture já naquela época representava os interesses dos grandes estúdios de Hollywood, como Paramount, Universal e Warner Bros. Essa organização, hoje, também representa serviços de streaming, como a Netflix.
Trata-se de uma carta de 1972 enviada por Harry Stone, representante da Motion Picture no Brasil, para o general Nilo Caneppa Silva, o diretor-geral da Polícia Federal em Brasília. Nessa carta, Harry Stone transmite a denúncia sobre um filme brasileiro, exibido em Nova Iorque, com um enredo sobre tortura sofrida pelos presos políticos no tempo do governo Médici, no Brasil.

Ou seja, os filmes exibidos nos EUA e que eram catalogados como incómodos para os regimes amigos, eram alvo de relatórios políticos que eram partilhados com as estruturas repressivas dos regimes ditatoriais amigos.
O general Nilo Caneppa Silva tinha a tarefa de censurar obras de arte. Além disso, chegou a participar de uma detenção ilegal e tortura durante o regime militar, tal como consta na página 917 do relatório final da Comissão Nacional da Verdade.

Na correspondência com o general Caneppa da Silva, Harry Stone anexou uma carta em inglês de um representante da Motion Picture nos Estados Unidos chamado J. William Piper, onde se especifica o local onde o filme estaria em exibição, o Carnegie Hall, conjunto de salas de espetáculo, localizado na esquina da 57th Street com a 7th Avenue, em Nova York.
O filme em questão era “O caso dos irmãos Naves”, de Luiz Sergio Person. A obra narra a brutal prisão e tortura de dois irmãos no interior de Minas Gerais durante a ditadura do Estado Novo, na década de 1930.

Esta carta mostra como o representante dos maiores estúdios de cinema dos Estados Unidos colaborava com os serviços de segurança do estado brasileiro, uma ditadura militar. Serviços de segurança que perseguiam, torturava e matava dissidentes. A “democracia” dos EUA no seu melhor…



Grata pelo texto, Carlos Narciso, sobre uma matéria que atravessa os nossos tempos.
A censura usa diversas tipos de repressão, até cultural (especialmente cultural) tão activa e demolidora como a censura política, porque actua de forma subreptícia mascarada de democracia.
Claro que os alvos preferidos são intelectuais que desafiam os poderes, ou não, mas que conhecem esse “submundo” onde se fabrica a cultura do medo pelos que temem a pluralidade de opiniões e sentem a liberdade de expressão como uma ameaça ao status quo.
Ainda não perceberam que é no silenciamento repressivo que se denunciam a si mesmos, porque a repressão cultural é “apanágio” das ditaduras.