Manuel João Vieira apresentou 12.500 assinaturas no Tribunal Constitucional. Não é a primeira vez que ensaia a candidatura presidencial, mas é a primeira vez que a leva até ao papel carimbado. E fá-lo com aquele misto de provocação estética e descontracção estudada que o país já conhece — gravata torta, cabelo desalinhado e um humor que tanto desconcerta como irrita quem prefere a liturgia da política como coisa séria, grave e sisuda.
E, no entanto, Vieira acerta numa ferida exposta: “as pessoas estão a preferir o boneco ao conteúdo”. Disse-o com ironia, mas talvez com mais lucidez do que muitos profissionais da política gostariam de admitir. Num país em que o populismo tem crescido à boleia de slogans, indignações ensaiadas e personagens maiores do que as ideias, a frase tem qualquer coisa de diagnóstico clínico.
A questão é se Manuel João Vieira pode travar essa deriva
É tentador pensar que sim. Afinal, se uma parte do eleitorado está cansada dos “candidatos do sistema”, Vieira vem de fora de tudo: não é militar, não é académico, não é jurista, não é empresário, não é político profissional. É músico, performer, líder dos Ena Pá 2000 — uma persona artística que nunca pediu licença para existir. É grande o contraste com figuras como André Ventura, construídas milimetricamente para parecer “anti-sistema” apesar de viverem dele.
Mas convém não nos iludirmos: fenómenos anti-sistema não se contêm com uma versão boémia do mesmo impulso. A entrada de Vieira pode desviar atenções, pode atrair curiosos, pode até captar votos de protesto. E é aqui que existe, mesmo que remota, a possibilidade de estragar a festa ao populismo venturista: há sempre um eleitor disponível para depositar um voto apenas para mandar um recado. Um voto que, não sendo o voto “útil” tradicional, é um voto com utilidade política, porque subtrai ruído à gritaria extremista.

E Gouveia e Melo
Ele é o oposto de Vieira em quase tudo: disciplinado, solene, institucional. Representa a ordem, o dever, o Estado. Vieira representa o caos criativo, a irreverência. Mas ambos vêm de fora da política partidária tradicional. Ambos funcionam, cada um à sua maneira, como válvulas de escape num país que já não acredita que os atores habituais possam resolver seja o que for.
Democracias maduras têm sempre momentos assim: outsiders que aparecem para surpreender, provocar, sacudir as estruturas. A novidade portuguesa é o contexto — uma extrema-direita em alta e uma esquerda fragmentada a fazer contas à vida. Nesse quadro, Vieira pode funcionar como antídoto? Talvez apenas como antídoto humorístico, que não resolve o problema mas alivia os sintomas. Mas num cenário de fadiga democrática, até um antídoto humorístico pode ser suficiente para roubar um par de votos a quem vive do ressentimento.
O mais provável é que a candidatura de Vieira sirva de barómetro, não de travão: quanto mais votos tiver, mais veremos até que ponto uma parte do país já desistiu da política como confronto de ideias e passou a consumi-la como entretenimento.


Manuel João Vieira foi o primeiro dos pré-candidatos a entregar as assinaturas exigidas (mínimo 7.500) ao Tribunal Constitucional. Foi o único, até agora, a formalizar a candidatura de facto. Segundo foi publicado, entregou cerca de 12 500 assinaturas para a sua candidatura presidencial.
(fotografias publicadas por diferentes órgãos de comunicação social nas redes sociais, vídeo com excertos de uma entrevista concedida pelo candidato Vieira à CNN Pt e repescados nas redes sociais)



