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BURLÕES GLOBAIS (e com amigos poderosos)

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O Departamento Central de Investigação e Ação Penal do Ministério Público português está há mais de um ano envolvido  numa investigação internacional, a propósito de alegadas burlas com criptomoeadas.

Acontece que uma das suspeitas é Elvira Gavrilova Paterson, uma cidadã ucraniana residente em Portugal, associada a um produtor de cinema russo, Vladimir Okhotnikov, a residir no Dubai.

Elvira Gavrilova
Vladimir Okhotnikov

Elvira e Vladimir têm dado nas vistas como produtores de filmes de ação e de ficção científica, mas os investigadores internacionais, entre os quais o Comité Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), suspeitam que onde eles ganham mais dinheiro é com esquemas de burlas com criptomoedas.

Elvira associou-se a Vladimir e tem sido ela a promover uma série de empresas start-ups que terão servido como isco para atrair investidores. Start-ups de fachada, peças de um esquema piramidal, com o qual os suspeitos já terão ganho muitos milhões de dólares.

Dos EUA ao Vietname, as autoridades têm investigado os passos desta parceria ucraniano-russa e há algumas condenações. Em 2024, um tribunal em Tbilisi, na Geórgia, condenou Vladimir Okhotnikov à revelia a 10 anos de prisão por branqueamento de mais de um milhão de dólares provenientes de fraude. Em 2023, procuradores norte-americanos acusaram-no de alegadamente ter utilizado uma plataforma de investimento em criptomoedas manipulada chamada Forsage para roubar pelo menos 340 milhões de dólares a investidores. Em Portugal, o DCIAP, iniciou investigações depois de dois bancos portugueses terem sinalizado movimentos financeiros incomuns nas contas de Gavrilova, incluindo um depósito em dinheiro de cerca de 312.000 dólares.

O ICIJ diz que, em 2024 e 2025, Gavrilova, através da sua empresa de relações públicas Elledgy Media, organizou eventos com estrelas internacionais em todo o mundo para promover as start-ups de Okhotnikov, uma série de alegados esquemas de investimento em criptomoedas que receberam cerca de mil milhões de dólares, principalmente de pequenos e médios  investidores.

Quem investiga diz que muitas das start-ups e outro tipo de empresas registadas em nome de Vladimir Okhotnikov têm moradas em comum ou, em muitos casos, apenas apartados postais como endereço. Algumas dessas empresas fizeram transferências para a empresa lisboeta de Elvira Gavrilova, Elledgy Media, num total superior a cinco milhões de dólares, nos anos de 2024 e 2025.

Até aqui, a atividade da Elledgy tem tido boa imprensa, a senhora tem boas connections e frequenta locais requintados. Ainda há pouco mostrou-se numa festa na propriedade de Trump, a mansão Mar-a-Lago, na Califórnia.

(fonte: Elite Portuguese investigative unit to probe Spacey movie producer with ties to alleged crypto scammer – ICIJ)

UM QUATRILHÃO

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Um grupo de jovens angolanos deslocou-se à Embaixada de Portugal, em Luanda, para exigir uma indemnização de um quatrilhão de euros pelo colonialismo português. Num cartaz lia-se: “factura colonial pelos danos emergentes e pelos lucros cessantes dos crimes contra a humanidade praticados em Angola pelo regime esclavagista português”. O número, de uma dimensão absurda, será recebido com sarcasmo, mas o que ele revela não é ridículo: é o vazio político e moral que Portugal mantém sobre o seu passado colonial.

Não estamos perante uma proposta real de indemnização, nem creio que o número apresentado represente um cálculo com base em metodologias reconhecidas de reparação histórica. Um quatrilhão é um número performativo. Serve para dizer que o dano é imenso. Ponto. Que a espoliação foi estrutural, prolongada e fundadora de desigualdades que persistem até hoje. É um gesto acusatório.

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A escolha da linguagem jurídica “danos emergentes” e “lucros cessantes” apropria-se do vocabulário que os Estados e as empresas usam para exigir compensações. Mesmo se o chamado direito internacional não oferece um enquadramento que permita aplicar esses conceitos retroativamente ao colonialismo português, não invalida a pergunta política central: quem beneficiou com o colonialismo e quem pagou o custo da história?

Portugal prefere não responder. Refugia-se numa narrativa feita de lusotropicalismo reciclado e de um permanente “era assim naquele tempo”. Reconhece episódios isolados, evita o quadro geral e rejeita, à partida, qualquer debate sério sobre reparações, mesmo simbólicas. O que não impedirá que, no futuro, este tipo de manifestações se repitam.

Convém também dizer que o alvo real destas ações não é apenas Lisboa. Há, em Angola, uma geração jovem que interpela simultaneamente o passado colonial e o presente pós-colonial, marcado por elites que herdaram estruturas de poder, mas não redistribuíram justiça nem riqueza. A história colonial continua a ser um capital político incómodo para uns e ferramenta retórica, para outros.

O quatrilhão, no fundo, não é um número. É um espelho que reflete a incapacidade portuguesa de enfrentar o passado sem eufemismos, sem autoindulgência e sem medo das palavras.

EUA VÃO ATACAR

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A narrativa de diabolização do regime iraniano está montada e a funcionar em pleno. Parte de um dado real: o Irão é um regime teocrático, autoritário e por vezes brutal. Mas rapidamente se expande para relatos de dimensão quase mítica, como o alegado massacre de milhares ou dezenas de milhares de manifestantes, números que circulam abundantemente sem verificação independente credível.

Essa narrativa encaixa-se na perfeição nos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Donald Trump chegou a “prometer” apoio aos protestos no Irão, incentivando explicitamente a ida às ruas. O apoio, porém, nunca chegou. É legítimo perguntar se não estaremos perante uma armadilha deliberada: para os manifestantes, empurrados para um confronto desigual; e para o próprio regime, que seria previsivelmente repressivo. Trump sabia que haveria vítimas, possivelmente muitas, e essas mortes (reais ou imaginárias) servem agora como argumento moral para justificar um ataque ao Irão e uma nova tentativa de mudança de regime.

Trata-se de um velho desejo do imperialismo norte-americano, reforçado pelo incentivo permanente de Israel. Aqui reside a grande ironia, ou hipocrisia, do discurso dominante: o regime israelita apresenta traços teocráticos e práticas brutais que pouco diferem, na substância, daquilo que é apontado ao Irão. O que se passa em Gaza e na Cisjordânia é prova disso: dezenas de milhares de mortos entre a população palestiniana, expulsões sistemáticas de comunidades inteiras, destruição de meios de subsistência, pessoas transformadas em errantes sem casa, sem terra e sem futuro.

Assistimos, assim, a um fenómeno perturbador. Narrativas não fundamentadas propagam-se com enorme rapidez nos media tradicionais e nas redes sociais sempre que servem para legitimar ações militares norte-americanas e israelitas, frequentemente com o apoio tácito da Europa. Em contrapartida, as narrativas das vítimas palestinianas, documentadas, reiteradas, visíveis, são sistematicamente desvalorizadas, remetidas para a categoria de “informações não confirmadas” ou tratadas como ruído de fundo.

A história repete-se, mais uma vez. Vai ser um massacre.

Leiam também:

1- A BOMBA ATÓMICA IRANIANA

2- MAIS UMA GUERRA

ESTAMOS NUS NAS REDES SOCIAIS E NÃO DAMOS POR ISSO

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As redes sociais deixaram há muito de ser espaços de convivência digital. São hoje infraestruturas globais de vigilância, propaganda e censura, controladas por um punhado de empresas privadas sediadas nos Estados Unidos. A Meta é o exemplo mais acabado desse poder concentrado.

Estas plataformas recolhem dados pessoais em escala industrial: hábitos, relações, opiniões políticas, preferências ideológicas. Sabem quem somos, o que pensamos e como reagimos. Mas o seu poder não termina na vigilância, decidem o que pode ser visto, partilhado ou silenciado no espaço público digital.

A censura privada das redes sociais e a política externa dos EUA

Sob a retórica vaga da “defesa da comunidade”, a Meta pratica censura privada, sem transparência, sem contraditório e sem escrutínio democrático. Essa censura não é neutra. Alinha-se, de forma sistemática, com os interesses geopolíticos dos Estados Unidos, onde a empresa está sediada e a cuja legislação e pressão política está sujeita.

O caso da Palestina é paradigmático. Conteúdos que denunciam o genocídio em curso em Gaza, expõem crimes de guerra ou criticam o Estado de Israel são frequentemente ocultados pelos algoritmos da Meta, têm o seu alcance drasticamente reduzido ou são simplesmente apagados. Contas são suspensas, publicações desaparecem, vozes são silenciadas. Não por violarem regras claras, mas por contrariar uma narrativa dominante protegida por interesses estratégicos.

Os Estados Unidos são o principal aliado político, militar e diplomático de Israel. Financiam, armam e defendem o Estado israelita em todas as instâncias internacionais relevantes. Não é coincidência que as principais plataformas digitais norte-americanas funcionem como extensões privadas dessa política externa, filtrando o que o mundo pode ver, discutir ou questionar.

São condenados mas não pagam as multas

É neste quadro que a iniciativa de Pedro Sánchez assume particular importância. Ao anunciar uma comissão parlamentar de inquérito às práticas da Meta, o governo espanhol reconhece algo essencial: estas empresas não são meros intermediários tecnológicos, são atores políticos globais, com poder para moldar consciências e condicionar o debate democrático.

Rastreiam praticamente tudo o que diz respeito aos utilizadores. Recolhem números de telefone, moradas, hábitos de consumo, gostos pessoais, preferências ideológicas, relações sociais, opiniões políticas e padrões de comportamento. Sabem quem somos, com quem falamos, do que gostamos e, muitas vezes, em quem votamos. E esse conhecimento não é guardado por altruísmo tecnológico: é vendido, explorado e cruzado com interesses comerciais, governamentais e partidários.

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Estamos, literalmente, nus nas redes sociais e a maioria das pessoas não tem consciência disso. A Meta já foi multada em milhares de milhões de euros pela União Europeia por violar regras de concorrência e proteção de dados. Na maioria dos casos, recorre, adia e não paga. As multas tornaram-se custos operacionais. O abuso, estrutural.

Regular este poder não é censura. Censura é o que estas plataformas fazem diariamente, em nome de interesses que não são os dos cidadãos europeus nem os da democracia. Enquanto aceitarmos que empresas privadas decidam quais mortes merecem visibilidade e quais devem ser ocultadas, estaremos a abdicar do direito à verdade e ao debate público.

PEDRAS ROMANAS

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Via romana com miliário (montagem fotográfica)

Uma coluna perdida? Dá-me jeito aqui!

Certamente terá sido este o destino provável de muitos miliários romanos do território nacional: o seu aproveitamento para colunas de alpendres ou telheiros. Este conseguiu-se recuperar!

Como a designação indica, miliário era a coluna de pedra que, numa via, dava informação da distância, em milhas, a partir da cidade principal onde essa via começara. Em princípio, postular-se-ia que fosse colocado um em cada milha; pensa-se, no entanto, que, por razões óbvias, designadamente financeiras e logísticas, mas também por não ser, de facto, necessário, poder-se-ia, por vezes, dispensar o letreiro, dado ser dispendiosa a gravação e mera coluna assinalaria o trajeto.

Importará, no entanto, acentuar que o traçado de vias constituía, sem dúvida, uma das principais preocupações dos Romanos, dadas as implicações político-económicas e militares que daí advinham. Por isso também que, do ponto de vista histórico, seja importante o estudo e a preservação desses monumentos.

Um miliário preservado

Escapou a eventual reutilização o miliário romano, de granito, que se mostra na Quinta de Antepaço, freguesia de Arcozelo, concelho de Ponte de Lima, distrito de Viana do Castelo. Integrava, aliás, uma série de mais quatro, oportunamente levados para a Quinta de Faldejães, conjunto que está classificado como «monumento nacional» (Decreto de 16-06-1910, DG, n.º 136, de 23-06-1910), dada a sua ligação à via romana que ia de Braga a Tuy.

Este miliário – embora já tenha sido dado a conhecer e figure, portanto, nos livros de especialidade – merece uma palavra mais. Primeiro porque é propriedade particular e o proprietário, Gonçalo Abreu Lima (a quem agradecemos as facilidades concedidas para a elaboração desta nota) faz questão de, orgulhosamente, o preservar e dar a conhecer.

Apresenta a coluna seis orifícios, mede 130 cm de altura acima do solo, 48-52 cm de diâmetro e é de 173,5 cm o perímetro na parte superior.

Sucede, porém, que, como amiúde acontecia, está o letreiro muito mal conservado, devido à erosão climatérica e aos maus tratos por que indubitavelmente passou. As poucas letras de que nos apercebemos dão-nos a entender que nele se mencionava o nome do imperador em cujo reinado se gizou a via para que foi pensado. O nome e os títulos que lhe haviam sido atribuídos. Sabemos, todavia, apesar de tudo, que o D inicial, felizmente bem conservado, indicará a palavra domino, que se traduz por «ao senhor» ou, numa acepção cronológica, «no tempo do Senhor». E deveria seguir-se a identificação do imperador em exercício.

miliário na Qta de Antepaço

Tão singular letra detém, no entanto, uma importância maior do ponto de vista cronológico, porque tal atributo imperial apenas se tornou comum a partir de finais do século III, quando o chefe supremo dos Romanos, para melhor concitar o agrado do povo começou a ser chamado de Senhor, «o Nosso Senhor», dominus noster. Ou seja, através dessa forma aparentemente inocente de trato, escondia-se o aumento do poder, correspondendo ao que se tem designado a «dominização do poder»: pouco a pouco, o imperador deixou de ser o primus inter pares – ‘o primeiro entre os iguais’ – para ser «o senhor» e, consequentemente, os cidadãos passaram a ser ‘súbditos’, na medida em que também o senhor assumia características divinas. Nas moedas, o seu busto aparece ornado de uma auréola, como Justiniano está representado no conhecido mosaico de Ravena.

Na imagem da esquerda, recorte da figura do Imperador Justiniano, nesta imagem o plano geral do mosaico onde se vê Justiniano e a sua corte

Não deixa também de ser curioso verificar que, embora num contexto bem diferente, os Cristãos passem a identificar Deus como Nosso Senhor, invocação que permanece até aos nossos dias. Aliás, nessa já longínqua época, não era raro uma comunidade declarar-se devota do númen e da majestade do imperador, sintoma claro de que o poder político estava envolvido numa auréola religiosa…

(em colaboração com José Carlos Santos)

ENTRAR NA PRISÃO COM SAÚDE, SAIR EM CADEIRA DE RODAS

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Durante meses, a minha dor foi ignorada enquanto lutava contra uma doença misteriosa”, escreve S. Howard, um cidadão norte-americano que cumpriu pena de prisão efetiva durante 6 anos e meio.

Tinha 67 anos e estava em boa forma” relata Howard, acrescentando praticava yoga e que não era cliente de restaurantes de fast-food, tipo McDonalds e outros do género que pululam pelos EUA.

“Tentei manter esses hábitos na prisão dando longas caminhadas no pátio e continuando com o yoga quando estava na cela”, mas quando a pena terminou saíu da prisão numa cadeira de rodas.

Resumindo o relato de Howard, tudo começou com um formigueiro nos pés e com dificuldade em caminhar. Os sintomas agravaram-se e uma consulta com o médico da prisão demorou meses. Começou a andar com um andarilho, mas as dificuldades foram-se agravando e acabou sem conseguir deslocar-se.

“Pedi uma cadeira de rodas”, conta Howard, mas o pedido foi negado. O recluso queixa-se de uma séria de diagnósticos errados dos médicos do sistema prisional, até que, anos depois dos primeiros sintomas, foi dignosticado com uma lesão na medula espinal. Já pouco haveria a fazer. Um ano depois, quando saiu da prisão, ia sentado  numa cadeira de rodas. “Ter uma questão grave de saúde enquanto estava na prisão foi uma experiência horrível”, resume Howard.

Quantas histórias semelhantes haverá para contar no sistema prisional português?

(fonte: S. Howard, Author at Prison Journalism Project)

O NOSSO AMIGO EURICO DE SEPÚLVEDA

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Assimilo mal a morte de elementos da família e de amigos. É meu este sentimento, mas outras pessoas sentem o mesmo. O meu pai disse-me algo de semelhante já perto do final da sua vida. Não é por não aceitar a morte, porque a aceito. É algo mais profundo que não sei explicar a mim mesmo, quanto mais aos outros. Já desisti de o fazer.

Vem este desabafo a propósito do amigo Eurico de Sepúlveda, falecido a 7 de abril de 2024 – https://duaslinhas.pt/2024/04/eurico/ –, e que ontem teve uma justíssima homenagem, que lhe fez Lídia Fernandes, diretora do Teatro Romano de Lisboa, ao dedicar-lhe o volume VII da revista Scaena.

Catarina Viegas, Joana Monteiro e Lídia Fernandes

Este volume da revista do Museu de Lisboa – Teatro Romano reúne os contributos de 25 autores, abordando várias temáticas, perfazendo 272 páginas.

Abriu a sessão Lídia Fernandes, que relembrou o homenageado e o seu trabalho em prol do conhecimento das cerâmicas romanas, seguindo-se a diretora do Museu da Cidade (EGEAC), Joana Sousa Monteiro. Em nome da família, falou Nuno Sepúlveda, que assinalou a importância que o pai teve para ele seguir um caminho dedicado às Matemáticas.

Assistência e Nuno Sepúlveda

Catarina Viegas, professora da Faculdade de Letras de Lisboa (UNIARQ), apresentou os artigos publicados, sublinhando a importância de cada um para o conhecimento da investigação arqueológica portuguesa.

No final, houve uma saudação com moscatel de Setúbal, recordando o amigo Eurico Sepúlveda.

INTERESSANTE e SURPREENDENTE

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Desta feita, haverá ocasião de apreciar, em Cascais, a técnica de muito singular requinte estético de que é paladino Ormond Fannon. Inglês de naturalidade, cascalense já por adopção (aqui reside há mais de  meio século), Ormond Fannon foi docente de Artes Plásticas na Saint’s Julian School, aí tendo também exercido funções de responsabilidade.

Ormond Fannon

Decidiu, como artista, encarar a realidade com outro olhar, multiplicando-a. Seleccionou imagens captadas pela sua objetiva e, em jeito de azulejo, agarrou pormenores e divertiu-se a espalhá-los na tela, aqui e acolá. Um verdadeiro desafio ao olhar perante um efeito estético verdadeiramente insustentável. Não é azulejo, mas parece. E resulta muito bem.

O visitante não deixará de se entreter (é o termo!) a miudamente observar cada quadro: «Visita a D. Pedro em Cascais», «Cantinho pitoresco em Cascais», interpretações várias do Cabo Raso, «Marina de Cascais», «Praias impossíveis» (este, um dos quadros que maior interesse despertará., estou certo), «Há festa na aldeia (Malveira da Serra)»…

Praias Impossíveis, de Ormond Fannon
Há Festa na Aldeia, de Ormond Fannon

Teve honras de solenidade a inauguração da mostra na tarde do passado dia 21, mormente por ser a primeira exposição a realizar sob a nova presidência do Executivo. Além de Francisco Kreye (presidente da Junta), fez questão estar presente Luís Capão, vereador camarário com o pelouro da Cultura. Ambas as presenças emprestaram, pois, ao acto significado especial: de patentear a intenção, que consta do programa autárquico – a ambos os níveis – de se prestar particular atenção à Cultura, em todas as suas vertentes. Congratulamo-nos.

vereador da Cultura, o pintor, presidente da Junta
assistência

A exposição de Ormond Fannon estará patente até 27 de Fevereiro, visitável dentro das horas normais de expediente da Junta.

O FIM ANUNCIADO DE LUÍS MONTENEGRO

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imagem trabalhada gráficamente

Luís Montenegro é o exemplo claro do ‘Princípio de Peter’: um fraco líder parlamentar, que deu um mau primeiro-ministro, o que o obriga a recorrer à arrogância bacoca, para disfarçar a sua inaptidão para o cargo.

Acresce que, além de não ter compreendido os danos que causou ao seu candidato à Presidência da República, ainda não percebeu, enredado na sua arrogância, o que lhe irá acontecer, qualquer que seja o resultado da segunda volta das eleições.

A eventual vitória de André Ventura seria o fim do primeiro-ministro e do PSD, num curto prazo, com eleições daqui a seis meses, no máximo um ano, com uma derrota total do PSD e com o Chega a formar governo, num processo de transumância dos militantes e quadros do PSD para o Chega.

A vitória de António José Seguro poderá impedir a disrupção do sistema político e a queda do PSD às mãos do Chega (mesmo com a radicalização de André Ventura) mas não impedirá a queda de Luís Montenegro, o único responsável pela degradação do governo, por ‘normalizar’ o Chega e permitir que algumas almas caridosas considerem que este partido se insere no quadro da democracia.

O ainda primeiro-ministro, por incompetência e arrogância, determinou o seu fim, que pode acontecer rapidamente, ou mais lentamente, de acordo com o resultado da segunda volta, mas será inevitável.

Os próximos meses serão de forte turbulência política, num quadro de tensão mundial, que afectará a economia global, em geral, e a nossa economia, em particular, sendo fundamental não embarcar  em aventuras.

Pelo que fui lendo e ouvindo, a generalidade dos comentadores e alguns militantes do PSD já entenderam esta realidade. Luís Montenegro sairá, eventualmente corrido a pontapé, da liderança do partido e do governo, porque o PSD, para sobreviver ao ataque do Chega, precisa de o afastar, o mais rapidamente possível, a ele e ao grupo de incompetentes que o rodeiam. A questão que fica em suspenso é saber se ainda vão a tempo ou se o processo de transferência de quadros e de militantes para o Chega já se iniciou e é ou não reversível. A acontecer esta mudança, o PSD arrisca esvaziar-se e perder militantes e quadros para o Chega, para o PS e para o novo movimento político criado por Cotrim de Figueiredo.

O reajustamento das forças partidárias será uma realidade, com o fim da IL e do CDS, o desaparecimento eleitoral do BE, a redução quase total do PCP, o esvaziamento do PSD e com o reforço do Chega, do Movimento 2031 (de Cotrim Figueiredo), sem esquecer a possibilidade de uma versão PRD 2, liderada por Gouveia Melo.

Num quadro Mundial com as autocracias a ganharem peso, em que, em França, o próximo Presidente poderá vir da Frente Nacional, com Giorgia Meloni a manter o poder e a Espanha na iminência de ser governada com uma coligação PP/VOX. Os tempos não serão nada fáceis.

O ROSTO AUTORITÁRIO DA AMÉRICA DO “TIO” TRUMP

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Há imagens que pertencem ao imaginário das ditaduras: agentes armados a circular nas ruas, detenções sem explicação clara, tiros disparados em plena via pública, protestos populares reprimidos sob o argumento da “ordem”. Durante décadas, os Estados Unidos apresentaram-se como o oposto desse cenário. Hoje, já não é assim.

Nas últimas semanas, a atuação do Immigration and Customs Enforcement (ICE) em Minneapolis expôs uma realidade inquietante. Em poucos dias, duas pessoas foram baleadas mortalmente por agentes federais em operações de imigração. A primeira vítima foi uma cidadã norte-americana, branca, loira, sem qualquer estatuto migratório irregular. A outra, igualmente cidadão nacional, era enfermeiro numa unidade hospitalar. Ambas morreram na rua, em contexto urbano, longe de qualquer fronteira e de modo brutal. Hoje, os agentes ICE executaram com vários tiros à queima roupa um cidadão que já estava no chão, subjugado por meia dúzia de agentes policiais, à luz do dia.

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(se o vídeo for bloqueado no YouTube, sigam este link https://t.me/duaslinhas/2204)

A narrativa oficial repetiu-se, como um reflexo condicionado: “legítima defesa”, “agentes sentiram-se ameaçados”, “o suspeito oferreceu resistência”. É a mesma fórmula usada em todo o mundo sempre que forças de segurança matam alguém e precisam de ganhar tempo, controlar o dano político e blindar os agentes envolvidos. Raramente é verdade; quase nunca a mentira é desmontada a tempo de produzir consequências.

O problema, porém, vai muito além destes dois casos trágicos. O que está em causa é a normalização de uma lógica de exceção, aplicada no interior de uma democracia formal.

O QUE É O ICE

O ICE não é uma polícia comum. Criado após o 11 de Setembro, sob a presidência de George W. Bush, nasceu da ideia de que imigração é, antes de mais, uma questão de segurança nacional. Donald Trump não inventou o ICE, mas transformou-o num instrumento político: ampliou-lhe o raio de ação, incentivou a agressividade operacional e legitimou uma cultura de intimidação aberta. A mensagem de Trump foi clara desde o primeiro mandato e mantém-se: dureza, visibilidade, medo.

É por isso que hoje vemos agentes federais de imigração a operar como força paramilitar em cidades do interior, com coletes táticos, armas longas, veículos descaracterizados e pouca ou nenhuma articulação com autoridades locais. É por isso que pessoas são abordadas, detidas, e agora mortas, antes de qualquer verificação séria de estatuto legal. E é por isso que os protestos nas ruas se multiplicam.

O ERRO POLÍTICO

A revolta popular em Minneapolis é justificada. As ruas encheram-se de manifestantes, não apenas em defesa de migrantes, mas em defesa do direito de não ser morto pelo Estado com base numa suspeita vaga. Quando cidadãos americanos percebem que a cor da pele, o sotaque, o local onde vivem ou simplesmente estar no sítio errado à hora errada pode bastar para uma abordagem armada que termina em morte, o medo deixa de ser abstrato. Torna-se político.

É aqui que a comparação com regimes autoritários deixa de ser retórica exagerada. Ditaduras não começam com campos de concentração; começam com exceções normalizadas, com forças de segurança pouco escrutinadas, com inimigos internos vagamente definidos. Começam quando a violência estatal deixa de ser excecional e passa a ser administrada como rotina.

A questão que ainda não foi esclarecida é saber quanto tempo uma democracia aguenta, quando aceita que o Estado mate primeiro e se explique depois.

Renée Good, morta a tiro pelos agentes ICE em Minneapolis
Manifestação nas ruas de Minneapolis contra a atuação do ICE
Manifestantes detidos por participarem na manifestação contra a atuação do ICE
Manifestação contra o ICE