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REGRESSO AO PASSADO

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Hoje, no século XXI, num Mundo em transformação tecnológica, em que o desemprego na classe média – trabalhadores qualificados –, irá, inevitavelmente, aumentar. Por força do recurso, crescente, à IA regressam os conceitos de colaborador das empresas e do capital, como se o conceito trabalhador fosse um anátema e um obstáculo ao desenvolvimento económico das empresas e dos Países.

Por outro lado, inversamente ao desemprego entre os trabalhadores qualificados, os trabalhadores indiferenciados poderão ter um acréscimo de emprego, uma vez que, no emprego indiferenciado, a IA não terá qualquer interferência.

Neste quadro, complexo, podemos assistir a uma inversão económica do conceito de classe média, que deixa de ser preenchida por trabalhadores qualificados – os novos proletários nascidos da revolução tecnológica –  e passa a ser preenchida por trabalhadores indiferenciados. Alguns defensores do regresso ao passado, ao fim da luta de classes e do papel dos sindicatos na defesa dos direitos dos trabalhadores, tentam reintroduzir o conceito de colaboradores, em substituição do de trabalhadores e a ideia de que todos eles, os colaboradores e as entidades patronais, convergem no mesmo sentido, ou seja, para o crescimento dos lucros das empresas, numa ‘saudável harmonia’, sem confronto e sem divergência e interesses, em nome da nação, para a realização ‘do máximo de produção e riqueza socialmente útil e estabelecer uma vida colectiva de que resulte poderio para o Estado’ (artigo 2º do Estatuto do Trabalho Nacional). Estes neocorporativistas defendem a ideologia estruturante do anterior regime, decalcada do corporativismo italiano criado por Benito Mussolini.

De forma evidente, este retorno a uma ideologia corporativa, fortemente antiliberal e antiparlamentar, com uma intensa intervenção do Estado, autocrático e musculado, está a crescer numa Europa desestruturada e em que se vão perdendo valores e o comodismo de muitos dos eleitores é a tónica dominante. A Europa não possui dirigentes políticos respeitáveis, os cidadãos sentem-se abandonados, a crise social é uma realidade e tudo isto se transforma num caldo cultural que abre caminho a estas pulsões autoritárias.

Talvez por isso, Vitor Gaspar, o ex-ministro das Finanças de Passos Coelho, veio dizer, sem pudor: ‘Há uma direita aproximando-se do padrão vigente pela Europa. Portugal abandonou a situação anormal criada pelos dias madrugadores de Abril’ (in Expresso, 05/06/2026). Nesta declaração está tudo dito, a raiva contra a democracia e a defesa desta nova direita neocorporativa. A partir daqui confirma-se que as alterações à Legislação Laboral são parte de um projecto ideológico de mudança de regime e compreende-se a defesa de conceitos do século passado quanto às relações laborais.

28 MORTOS É DEMAIS

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A Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR) vai constituir-se assistente nos inquéritos judiciários suscitados pela morte de reclusos. Só este ano já morreram dentro das cadeias portuguesas 28 reclusos.

Diz a APAR em comunicado que se recusa a aceitar essas ocorrências sejam assumidas como algo inevitável e banal, típico, do funcionamento do sistema prisional português.

Sempre que um recluso é encontrado morto num estabelecimento prisional, é obrigatório proceder-se a uma investigação para determinar as causas da morte. Investigação a cargo da Polícia Judiciária, “entidade à qual a legislação em vigor atribui a competência exclusiva para apurar as circunstâncias em que essas mortes ocorreram e a sua causa”, lembra a APAR.

Perante o elevado número de mortes verificadas nos primeiros seis meses deste ano, perante dúvidas, acusações e julgamentos sumários na praça pública, a APAR decidiu agora  passar a constituir-se assistente nesses inquéritos por morte de reclusos no interior do sistema.

O estatuto do assistente no Processo Penal permitirá à APAR acompanhar o Ministério Público, sugerindo diligências de prova e oferecendo acusação autónoma. Dá-lhe ainda acesso aos autos, pelo que poderá consultar os inquéritos e recorrer de eventuais decisões de arquivamento que considerar injustificadas. Mas o consentimento não é automático. O juiz de instrução criminal pode recusar o pedido da APAR para se constituir assistente no processo, basta-lhe encontrar fundamentação para tal.

Outros artigos sobre o mesmo tema:

1- MORRER NA PRISÃO

2- ENTRARAM VIVOS, SAÍRAM MORTOS

“IA, MEU”

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A sociedade avançou sempre numa base capitalista ao longo dos tempos. Iniciativa de alguns ao criarem empresas, a exploração da mão de obra tornando-a o mais barata possível. Foi assim este o ponto marcante na revolução industrial, onde tudo começou a ser mecanizado. Na Revolução Industrial, começada na Grã-Bretanha, podemos assim dizer, as pessoas saíram dos ambientes rurais, onde praticavam agricultura, a maior parte de subsistência, e começaram a ir para as cidades que se industrializavam. Alojamento para tantos? Formaram-se nos arredores, “aldeamentos” miseráveis, sem saneamento… sem o mínimo de condições. Este princípio é ainda o mesmo nos países ditos evoluídos (não pretendo falar do nosso), porque não se cuida, procedimento igual, ao tempo, ( e no tempo) do bem-estar de um grande sector da população mundial.

As revoluções que implicam alteração ao fabrico de bens para a sociedade, que tornem esses bens mais baratos, fá-lo-ão sempre à custa do “bem-estar social” de todos que têm um sistema normalizado de vencimentos/produtividade, estabilizado. A IA é um Frankenstein, sem controlo e sem memória (não lha permitem ter, é nova).

Com a IA a exclusão digital, por exemplo, nos postos do estado no atendimento à população, tornou-se um facto real, pela desumanização do atendimento burocrático, afasta as pessoas mais vulneráveis (pelo não conhecimento digital, envelhecimento e desconhecimento da língua nativa) dos serviços que mais precisam. Qual o idoso que se “entende” com uma “Chatbots” ou com os portais automáticos que ainda por cima, pasme-se, não permitem aos funcionários do próprio serviço, resolverem os problemas de quem necessita deles resolvidos. O que era racional deixou de o ser.

Quem formulou este tipo de atendimento “esqueceu” os utentes e entrou num “jogo” onde o utilizador, que devia “ganhar”, nunca ganha. Foi aumentada a desigualdade entre as populações e já em idades mais precoces; é que os génios saídos das faculdades, ou até de alguns instalados no mercado, trazem, ou formulam outras ideias para “poupar dinheiro ao estado”, mas claramente apoiados/sugeridos pelas ideias dos políticos, verdadeiros “génios sociais”: “Só com estes equipamentos, é que se poupa ao estado”… é, momentaneamente, mas acabam por o fazer gastar, milhares de vezes mais, nos problemas criados, em sofrimento, a seguir a estas ideias geniais, que são apoiadas pela IA. A IA não tem culpa. Quem formula desta forma, é que não é competente, nem está no sitio certo, ao aumentar a desigualdade social.

O Regulamento da Inteligência Artificial (AIR) tem que ser rigorosamente cumprido e constantemente rectificado para que não se provoque o “caos” social. A Agência para a Modernização Administrativa (AMA) deve, sempre, ao implementar as regras, estar atenta a qualquer desvio da aplicação da IA em qualquer sector público, para que nunca se crie uma simples desigualdade social. Isso não pode existir, daí a competência dos funcionários nesses cargos (digo e repito, funcionários, não são donos de nada, são funcionários ao serviço de todos) deve ser escrupulosamente vista, e com paga correspondente, aquando da contratação para esses postos.

A IA já colocada a intervir na sociedade, leva a desigualdades económicas, a deslocamento dos trabalhadores, corridas a armamento, diminuição de empatia, das ligações humanas, desinformação com perigos eminentes da integridade da informação e também o perigo de desmantelamento do tecido social. Não é conversa de “velhos do Restelo”! Assim sendo, se não existir uma forte e competente supervisão humana, estaremos a mergulhar em consequências imprevisíveis, mas que podemos dar já como visíveis… as intervenções actuais em: Gaza, Líbano, Ucrânia, Irão… Podemos dizer que ao longo da história da humanidade sempre existiram loucos como os que protagonizam estes momentos, mas, dada a não intervenção dos não implicados, assobiando para o lado, não terá sido uma “equação” colocada à IA, para que informasse algoritmos precisos, na altura, sobre o mundo e suas respostas no imediato?

Esta “brincadeira” do algoritmo criado, complexo no processamento dos dados sustentando-se no conhecimento da base de dados da IA, e o que se lhe “mete” para análise, até é muito parecido com o que se está a viver. Isto é ficcionado, mas… não é que é verdade no ponto (c) do OUTPUT? Fizemos a pergunta com mais “nuances” é claro, umas duas dezenas, e o “diabo da IA, foi o que nos respondeu… perante a nossa “pergunta”… Sim senhor… “iá minha”…

Imaginem isto na Função Pública e nas empresas? O que se vai ter de pagar de desemprego para que os “tais “de accionistas” lucrem?

INTRIGANTE VASO EM MONUMENTO ROMANO

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Não deixa de ser inspiradora a fórmula usada no Brasil para assinalar a morte de alguém: encantou-se!… Tantas vezes que ouvimos histórias de lindas mouras encantadas, que beijo varonil – de preferência, cristão!… – um dia, lograria fazer voltar à vida.

No caso dos Romanos, esse encantamento psicológico perduraria também, mormente pela fórmula latina Hic situs est, «Aqui está», que, traduzida pelo vulgar «Aqui jaz», fica de significado passivo, menos presente. Estar é bem diferente de jazer.

Por isso, não vamos descansar enquanto, encontrada a pedra no Museu Rainha D. Leonor, de Beja, agora em obras, se não proceder a bem cuidadosa limpeza da sua superfície epigrafada, a fim de se descobrir a quem foi dedicado o epitáfio.

Senhora deve ter sido, sobretudo devido à minúcia posta pelo canteiro na gravação do jarro em baixo relevo que ilustra a face esquerda do monumento funerário.

Aliás, é esse requinte o maior motivo de intriga, não tanto para o historiador, mas mais para o arqueólogo, que se interessa pelos objetos que os Romanos usavam no seu dia a dia. Terá sido esta imagem cópia de magnífico jarro usado pela defunta, dama ou donzela que ali é celebrada? Cópia do real ou resultado de imaginação, para melhor homenagear a memória da defunta?

Folheando os catálogos, encontram-se, de facto, jarros semelhantes, com as caneluras deste e a sua solenidade. É o caso, por exemplo, do cantharus (palavra que, neste caso, não pode traduzir-se por cântaro), cujo desenho está patente na estampa 3 do livro Lateinische Gefässnamen («Nomes Latinos de Recipientes»), de Werner Hilgers, publicado em Dusseldorf em 1969; mas na verdade – aqui para nós… – consolar-nos-ia mais saber que foi mesmo cópia do vaso predilecto da defunta: uma homenagem!

Porventura terá sido ele que recebeu a água lustral e os perfumes com que os familiares lhe lavaram e purificaram o corpo inânime, perfumes a escorregarem depois, languidamente, para uma grande pátera, como a que está gravada do lado direito…

pátera ou prato

SALVAR A TRADIÇÃO DO FOGO DE ARTIFÍCIO SEM ENLOUQUECER CÃES, PESSOAS SENSÍVEIS E BOMBEIROS

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Vamos combinar uma coisa: fogos de artifício são bonitos e sempre foram. Desde que um chinês qualquer, há mil anos, teve a brilhante ideia de enfiar pólvora num cano de bambu, a humanidade olha para o céu e suspira. Que magia e que cores! É aquele momento em que todos param, olham para cima e se sentem, por um segundo, num videoclip dos anos 80.

Mas há um pequeno problema, vizinhos. Na verdade, há vários e todos eles fazem Fch… pum.

Para nós, o céu é um palco, mas para o cão do lado, é o apocalipse

Comecemos pelos nossos amigos de quatro patas. Um cão ouve até quatro vezes melhor do que nós. O que para si é um “pum” simpático, para o seu labrador é um trovão do Juízo Final a explodir dentro do crânio. Enquanto você diz “oh, que lindo”, o cão sente: “é agora, vou-me esconder atrás da máquina de lavar e rezar aos donos da ração”. Não é bonito porque é um inferno de pânico, baba e arritmia canina. Causa pânico e stress mortal a cães, gatos, aves e animais selvagens.

E não são só os bichos. Há os bebés a acordar em pânico. Os idosos com o coração frágil. Os veteranos de guerra para quem um estampido não é festa, é uma reexperiência traumática. E os 20% da população mundial que é hipersensível e que, durante meia hora, sente cada rebentamento como uma agulha nos nervos. Por isso, quando dizemos “é tradição”, estamos a dizer: “o seu desconforto é o preço da minha nostalgia”. E isso é, pelos vistos, um bocado feio.

Tradição não tem de ser sinónimo de martírio acústico

Antigamente, os foguetes serviam para afastar maus espíritos e anunciar festas numa altura em que ninguém tinha relógio. Nesse tempo fazia sentido. Mas antigamente também se sangravam os doentes com sanguessugas e acreditava-se que tomar banho fazia mal. A humanidade evolui e a sensibilidade cresce também. E hoje sabemos que o que afasta os maus espíritos não é o barulho, mas sim a empatia.

Por isso, a pergunta é simples: podemos manter a festa sem a tortura? Claro que podemos. E a boa notícia é que a tecnologia já resolveu isto há anos, só ainda não chegou aos ouvidos da tia que compra rojões de pólvora no hipermercado para encantar o seu neto.

Espetáculo de luz com drones na *raça de São Pedro, Vaticano

Alternativas? Há-as a montes e são fixes

Imagine o seguinte: noite de Passagem de Ano. Em vez de uma saraivada de explosões que faz os bombeiros correrem e os cavalos terem ataques cardíacos, temos projeções laser no céu. Lemas e fotos de luz, ou constelações feitas a pedido e até o rosto dos noivos a sobrevoar silenciosamente a aldeia enquanto os convidados bebem champanhe sem ter de gritar “ooh” por cima dos Fch… pum!  Isto não é só possível, é mais bonito, mais limpo e mais poético.

E nos casamentos? Em vez do tradicional “susto de pólvora” depois do “sim” ou do corte do bolo, que tal uma chuva de luzes silenciosas a desenhar corações, ou um balão com imagens do casal a flutuar? A emoção não perde nada e ganha até requinte. E os convidados não passam a noite a proteger o copo de cinzas e estilhaços nem os vizinhos a meterem tampões nos ouvidos.

No Egipto, com luzes laser e orquestra sinfônica, a cidade do Cairo inaugurou o Grande Museu Egípcio com espetáculo faraônico

Até a polícia e os bombeiros estão de saco cheio e com razão

Em Berlim, o sindicato da polícia já pediu a proibição dos foguetes no espaço privado. Porquê? Não é só por causa do lixo, que é uma vergonha, diga-se, nem da poluição do ar, que torna as zonas ambientais uma anedota fiada. É porque, em noites de loucura, as bombas são usadas como armas contra agentes e bombeiros. Mais de três milhões de pessoas assinaram abaixo-assinados contra o barulho infernal. Três milhões, não são três gatos-pingados num fórum de donos de caninos.

O sofrimento dos animais não é um detalhe! É uma emergência silenciosa que acontece todas as vezes que uma pessoa decide que o seu momento de prazer vale mais do que a sanidade de um ser vivo.

Queremos que a tradição se vista de novo

Ninguém aqui quer ser o “chato da festa que acabou com os foguetes”. Não se trata de apagar o património cultural. Trata-se de vesti-lo com a roupa do nosso tempo. Temos exemplos de como se pega num baile medieval e se faz um festival de luzes. A tradição não morre por deixar de magoar.

As empresas que produzem foguetes sabem fazer silêncio. Têm a tecnologia e o know-how para isso. O que lhes falta é a motivação. Se a procura mudar, a oferta muda e se deixarmos de comprar barulho e passarmos a comprar beleza, o mercado adapta-se num instante.

show de luzes com 12 mil drones bate recorde mundial na china

Nós, humanos, temos o superpoder de reinventar o que amamos. Já transformámos o fogo numa lareira, o chumbo em letra de imprensa, e as músicas do Tony Carreira em melodias ringtones. Também podemos transformar um estouro num encanto.

Na próxima festa, escolha a luz sem o som. Olhe para o céu e para o seu cão a dormir sossegado ao seu lado. A festa será igualmente bonita e todos dormirão melhor.

E os maus espíritos? Esses, sem barulho para se esconderem, acabam por se evaporar na primeira constelação de laser.

(adaptação do artigo publicado em Pegadas do Tempo)

A PORTA DO SOAR

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A Porta do Soar, uma de entre as sete portas que se rasgavam no muralhado antigo da cidade levantado às ordens de D. Afonso V (século XV), abria sobre o poente e, passos andados até ao velho Rossio de Massorim, ali se desdobrava em caminhos. Um deles, principal, seguia até ao mar e por ele subiam carreteiros com lenhas, frutas e almocreves com odres de azeite e barricas de peixe que vinha de Aveiro e de outros portos de mar com os carregos de sal. Obedientes às leis do concelho, faziam descarga na praça ora de D. Duarte, que foi Rossio do concelho, cortando na Rua das Estalagens (ora Rua Grão Vasco), onde alguns se demoravam.

Por esta e outras portas entrava e saía gente;  apenas se fechava em tempo de pestilência ou de guerra. Comprava-se e vendia-se no quotidiano mercado ou nas bancas armadas nas feiras de terça-feira. E era caminho para cumprir obrigações nos Paços do Concelho, para pagamento dos dízimos devidos à igreja ou as prestações impostas pela Coroa, tantas vezes.

E era o rodopio dos vizinhos no fervilhante quotidiano da urbe. Lavadeiras descendo às margens da Ribeira; mulheres na ida à fonte antes que a água tivesse subido às moradas; soldados, abades, a criadagem da fidalguia, artesãos e lojistas que entravam de manhã para sair ao fim do dia; viajantes e romeiros requerendo pousada por um dia, enxerga e manta, loja para abrigo da montada e mesa posta, pão e vinho, que lei era servir bem nas estalagens.

E a taberna – que, no tempo dos Romanos, já havia sido inventada – era também lugar de abrigo, de encontro, ócio ou refeição. A tabuleta pintada ou o ramo de loureiro eram marca, na entrada.

Teve sorte, esta porta, como sorte teve a Porta dos Cavaleiros, de não ter sido mandada derribar pela Câmara em 1844. Teve a sorte de permanecer inteira, como ainda se mantém, cravada na face exterior, em 1646, a lápide que consagra o Reino a Nossa Senhora da Conceição e, mais alto, ostensivo, o real brasão.

Dentro da praça recolhida – que, um dia, foi Praça da Erva e hoje se diz Largo Pintor Gata (esse estranho apelido que tomou José de Almeida Furtado, que viveu de 1778 a 1831) – se edificou a harmoniosa capela, de traça octogonal, dedicada a Nossa Senhora dos Remédios, benzida em 1749 e que foi construída com esmolas dos devotos, como assinala a inscrição, datada de 1742, no lintel da sua porta, e doações da vizinha fidalguia do Solar dos Melos, que exigiu abrir privada porta com acesso a uma tribuna.

JOSÉ D’ENCARNAÇÃO

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Falar de José d’Encarnação é falar de uma das figuras maiores da cultura cascalense e portuguesa, um homem que fez da defesa, estudo e divulgação do património uma missão de vida. O seu currículo impressiona pela extensão e pela diversidade: historiador, arqueólogo, epigrafista, investigador de referência e professor universitário em Coimbra. Mas reduzir a sua obra ao universo académico seria ignorar uma dimensão essencial da sua personalidade.

José d’Encarnação nunca se conformou com a torre de marfim da academia. Sempre acreditou que o conhecimento só faz sentido quando é partilhado. Por isso, ao longo de décadas, conciliou a investigação científica com o jornalismo, escrevendo crónicas, reportagens e artigos em inúmeros jornais locais espalhados pelo país. Atualmente, continua esse trabalho no site Duas Linhas, onde escreve muito sobre teatro e artes, de um modo geral, e onde soma já largas centenas de textos publicados, mantendo intacta a curiosidade, o rigor e a vontade de contar histórias.

Parece haver nele uma característica rara: gosta de “mexer com as mãos”. Tanto pode passar horas a decifrar uma inscrição gravada há dois mil anos por um anónimo canteiro romano, como pegar na caneta – ou no teclado – para transformar esse conhecimento em linguagem acessível ao grande público. Fá-lo sem paternalismos, aproximando as pessoas do património e da História, mostrando que ambos pertencem a todos, no contacto permanente com audiências cada vez mais vastas que a internet hoje permite alcançar, sempre que os caprichos dos algoritmos o consentem.

A homenagem agora prestada reconhece um percurso exemplar, é um agradecimento coletivo a quem dedicou uma vida inteira a divulgar cultura e a preservar memórias, recuperar histórias e transmiti-las às gerações seguintes.

Estamos juntos, José d’Encarnação.

fotografias de Guilherme Cardoso

A ARQUITETURA DO QUERER

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Fomos ensinados a acreditar que querer é um ato de construção livre. Imaginamos a vontade como um arquiteto de traço firme, desenhando no vazio os impérios que pretendemos erguer. Projetamos o futuro com a audácia de quem domina a matéria e o tempo, esquecendo que o desejo, antes de ser obra, é uma fundação instável.

A verdadeira arquitetura do querer não se faz de cimento e certezas, mas de andaimes trémulos e hesitações. Erguemos castelos de expectativas sobre terrenos movediços. Queremos o fogo, mas tememos a queimadura; ansiamos pela estrada aberta, mas recuamos perante o labirinto do desconhecido. Cada escolha que fazemos funciona como uma parede que se levanta e que, inevitavelmente, nos isola de todas as outras vidas que poderíamos ter vivido. Desejar é, por isso, aceitar a solidão das nossas próprias fundações.

No fim, o que define a nossa estrutura não são os planos perfeitos que traçámos no papel, mas os lapsos de distração. É o momento em que o coração ignora a planta da razão, solta-se da amarra e reconstrói as ruínas à sua própria maneira. Sobrevivemos não pelo que projetámos, mas pela capacidade de habitar o inesperado.

A COIMBRA DOUTRAS ERAS

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Nado e criado em Coimbra – onde, de resto, sempre tem vivido – o Professor Jorge de Alarcão nutre pela sua cidade amor incondicional, consubstanciado, por exemplo, na vontade, amiúde declarada, de ver, um dia, escrita sobre ela uma monografia tão monumental quanto as sempre célebres ‘escadas monumentais’ de acesso à cidade universitária.

Tem-na estudado aos poucos, essa história, em publicações pontuais, mas sempre na mira de que haja equipa disposta a lançar ombros ao vasto empreendimento, não isento de dificuldades, bem se sabe,

Desta feita, o historiador escolheu o tempo em que, em Coimbra, viveram três vultos da nossa literatura: Antero de Quental, Eça de Queiroz e Teófilo Braga, ou seja, de 1856 a 1867: Coimbra no Tempo de Antero, Eça e Teófilo Braga, Coimbra, Lápis de Memórias,  2026.

Escreve, na Apresentação, que se trata de um «período em que a encantada e quase fantástica Coimbra viveu numa grande actividade» (pág. 10).

Não é minha intenção – aqui e agora – dar miúda conta do que ali se narra ou ou deixa por narrar; apenas catar duas passagens, para mostrar quanto serão agradáveis de ler, e até passíveis de reflexão, as muitas outras páginas (são, no total, quase 200) que o volume contém.

Direi apenas de dois casos que mais me prenderam a atenção.

Levei anos a, semanalmente, ir e vir de Coimbra. de comboio. Agradava-me sobremaneira (não o posso negar!) o trajeto Coimbra B (em que o B significa ‘bifurcação’ o que muita gente ignora) e Coimbra-Cidade (amiúde erradamente chamada de Coimbra-A), pois que, nessa altura eu ou estava a chegar ou estava a sair da cidade onde trabalhava. Por isso, a descrição da cena da chegada de visitantes à cidade, no século XIX, foi das que mais me seduziu. Uma das muitas e bem oportunas citações que Jorge Alarcão faz neste livro, tornando-o assim bem fecundo manancial de histórias.

Não resisto, portanto, a referir-me a uma passagem da descrição que Lady Jackson faz da sua chegada à estação de Coimbra, em 1873, livro que Camilo Castelo Branco traduzirá (A Formosa Lusitânia, Porto: Livraria Portuense, 1977).

Explica a Lady que, não havendo carregadores, as bagagens eram postas sobre um balcão «com uma corja de garotos atrás da gente para se agarrarem a elas». Competia aos hotéis disponibilizarem coches, fora da estação, a aliciarem clientes, que eram “desabridamente disputados”. Conta a Lady que, tendo escolhido um hotel, logo as bagagens foram passadas para o carro desse, «de má-vontade, murmurando, e invetivando contra estrangeiros, franceses, espanhóis, ingleses, tudo com epítetos de escárnio que nos dirigiam» (p. 45) Boa gente, essa, então!

E se, hoje, ainda em alguns aspectos, nomeadamente culturais e linguísticos, surgem, de quanto em vez, picardias entre Lisboa e Coimbra, recorto a frase (é o segundo caso) com que Jaime Batalha Reis se refere à escola de Coimbra do século XIX, na introdução que escreveu para as Prosas Bárbaras, de Eça de Queiroz, academia aí classificada (pág. 99) como «centro literário e filosófico que se supunha dedicado a escrever de modo sistematicamente ininteligível»!

Quem há aí que se não pele, então, por uma boa polémica?!…

OS MESTRES SEM DISCÍPULOS

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imagem construída com recursos IA

Hoje, porém, vivemos um paradoxo inquietante. Nunca houve tantos homens e mulheres portadores de experiência, saber e memória. Nunca houve tantos mestres disponíveis para ensinar. E, no entanto, raramente se criam condições para que essa transmissão aconteça.
Ao atingir determinada idade administrativa, milhares de cidadãos são empurrados para fora dos espaços onde durante décadas aprenderam, ensinaram, lideraram e inovaram. Não porque tenham perdido capacidades, mas porque um calendário decidiu que o seu tempo terminou.

A sociedade não os expulsa de forma declarada. Limita-se a deixá-los à margem. E, com isso, perde muito mais do que imagina
Perde conhecimento que não está escrito em manuais. Perde experiência adquirida em anos de sucessos e fracassos. Perde a sabedoria prática que ajuda a evitar erros e a encontrar soluções.

Uma comunidade que não escuta os seus mestres não está apenas a desvalorizar o passado. Está a enfraquecer o futuro.
A verdadeira riqueza de uma sociedade não se mede apenas pela juventude das suas gerações. Mede-se também pela sua capacidade de aproveitar a experiência daqueles que já percorreram longos caminhos.

Quando os mestres ficam sem discípulos, todos perdem. Perdem os mais velhos, porque deixam de poder partilhar o que sabem. Perdem os mais novos, porque deixam de ter acesso a um património humano insubstituível.
Talvez esteja na altura de recuperar uma ideia antiga, mas profundamente moderna: o conhecimento só cumpre plenamente a sua missão quando é transmitido.
Porque a experiência que não é aproveitada transforma-se em silêncio. E uma sociedade que transforma os seus mestres em silêncio está, sem o perceber, a renunciar a uma parte da sua inteligência coletiva.