Há imagens que pertencem ao imaginário das ditaduras: agentes armados a circular nas ruas, detenções sem explicação clara, tiros disparados em plena via pública, protestos populares reprimidos sob o argumento da “ordem”. Durante décadas, os Estados Unidos apresentaram-se como o oposto desse cenário. Hoje, já não é assim.
Nas últimas semanas, a atuação do Immigration and Customs Enforcement (ICE) em Minneapolis expôs uma realidade inquietante. Em poucos dias, duas pessoas foram baleadas mortalmente por agentes federais em operações de imigração. A primeira vítima foi uma cidadã norte-americana, branca, loira, sem qualquer estatuto migratório irregular. A outra, igualmente cidadão nacional, era enfermeiro numa unidade hospitalar. Ambas morreram na rua, em contexto urbano, longe de qualquer fronteira e de modo brutal. Hoje, os agentes ICE executaram com vários tiros à queima roupa um cidadão que já estava no chão, subjugado por meia dúzia de agentes policiais, à luz do dia.
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A narrativa oficial repetiu-se, como um reflexo condicionado: “legítima defesa”, “agentes sentiram-se ameaçados”, “o suspeito oferreceu resistência”. É a mesma fórmula usada em todo o mundo sempre que forças de segurança matam alguém e precisam de ganhar tempo, controlar o dano político e blindar os agentes envolvidos. Raramente é verdade; quase nunca a mentira é desmontada a tempo de produzir consequências.
O problema, porém, vai muito além destes dois casos trágicos. O que está em causa é a normalização de uma lógica de exceção, aplicada no interior de uma democracia formal.
O QUE É O ICE
O ICE não é uma polícia comum. Criado após o 11 de Setembro, sob a presidência de George W. Bush, nasceu da ideia de que imigração é, antes de mais, uma questão de segurança nacional. Donald Trump não inventou o ICE, mas transformou-o num instrumento político: ampliou-lhe o raio de ação, incentivou a agressividade operacional e legitimou uma cultura de intimidação aberta. A mensagem de Trump foi clara desde o primeiro mandato e mantém-se: dureza, visibilidade, medo.
É por isso que hoje vemos agentes federais de imigração a operar como força paramilitar em cidades do interior, com coletes táticos, armas longas, veículos descaracterizados e pouca ou nenhuma articulação com autoridades locais. É por isso que pessoas são abordadas, detidas, e agora mortas, antes de qualquer verificação séria de estatuto legal. E é por isso que os protestos nas ruas se multiplicam.
O ERRO POLÍTICO
A revolta popular em Minneapolis é justificada. As ruas encheram-se de manifestantes, não apenas em defesa de migrantes, mas em defesa do direito de não ser morto pelo Estado com base numa suspeita vaga. Quando cidadãos americanos percebem que a cor da pele, o sotaque, o local onde vivem ou simplesmente estar no sítio errado à hora errada pode bastar para uma abordagem armada que termina em morte, o medo deixa de ser abstrato. Torna-se político.
É aqui que a comparação com regimes autoritários deixa de ser retórica exagerada. Ditaduras não começam com campos de concentração; começam com exceções normalizadas, com forças de segurança pouco escrutinadas, com inimigos internos vagamente definidos. Começam quando a violência estatal deixa de ser excecional e passa a ser administrada como rotina.
A questão que ainda não foi esclarecida é saber quanto tempo uma democracia aguenta, quando aceita que o Estado mate primeiro e se explique depois.





























