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O ROSTO AUTORITÁRIO DA AMÉRICA DO “TIO” TRUMP

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Há imagens que pertencem ao imaginário das ditaduras: agentes armados a circular nas ruas, detenções sem explicação clara, tiros disparados em plena via pública, protestos populares reprimidos sob o argumento da “ordem”. Durante décadas, os Estados Unidos apresentaram-se como o oposto desse cenário. Hoje, já não é assim.

Nas últimas semanas, a atuação do Immigration and Customs Enforcement (ICE) em Minneapolis expôs uma realidade inquietante. Em poucos dias, duas pessoas foram baleadas mortalmente por agentes federais em operações de imigração. A primeira vítima foi uma cidadã norte-americana, branca, loira, sem qualquer estatuto migratório irregular. A outra, igualmente cidadão nacional, era enfermeiro numa unidade hospitalar. Ambas morreram na rua, em contexto urbano, longe de qualquer fronteira e de modo brutal. Hoje, os agentes ICE executaram com vários tiros à queima roupa um cidadão que já estava no chão, subjugado por meia dúzia de agentes policiais, à luz do dia.

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(se o vídeo for bloqueado no YouTube, sigam este link https://t.me/duaslinhas/2204)

A narrativa oficial repetiu-se, como um reflexo condicionado: “legítima defesa”, “agentes sentiram-se ameaçados”, “o suspeito oferreceu resistência”. É a mesma fórmula usada em todo o mundo sempre que forças de segurança matam alguém e precisam de ganhar tempo, controlar o dano político e blindar os agentes envolvidos. Raramente é verdade; quase nunca a mentira é desmontada a tempo de produzir consequências.

O problema, porém, vai muito além destes dois casos trágicos. O que está em causa é a normalização de uma lógica de exceção, aplicada no interior de uma democracia formal.

O QUE É O ICE

O ICE não é uma polícia comum. Criado após o 11 de Setembro, sob a presidência de George W. Bush, nasceu da ideia de que imigração é, antes de mais, uma questão de segurança nacional. Donald Trump não inventou o ICE, mas transformou-o num instrumento político: ampliou-lhe o raio de ação, incentivou a agressividade operacional e legitimou uma cultura de intimidação aberta. A mensagem de Trump foi clara desde o primeiro mandato e mantém-se: dureza, visibilidade, medo.

É por isso que hoje vemos agentes federais de imigração a operar como força paramilitar em cidades do interior, com coletes táticos, armas longas, veículos descaracterizados e pouca ou nenhuma articulação com autoridades locais. É por isso que pessoas são abordadas, detidas, e agora mortas, antes de qualquer verificação séria de estatuto legal. E é por isso que os protestos nas ruas se multiplicam.

O ERRO POLÍTICO

A revolta popular em Minneapolis é justificada. As ruas encheram-se de manifestantes, não apenas em defesa de migrantes, mas em defesa do direito de não ser morto pelo Estado com base numa suspeita vaga. Quando cidadãos americanos percebem que a cor da pele, o sotaque, o local onde vivem ou simplesmente estar no sítio errado à hora errada pode bastar para uma abordagem armada que termina em morte, o medo deixa de ser abstrato. Torna-se político.

É aqui que a comparação com regimes autoritários deixa de ser retórica exagerada. Ditaduras não começam com campos de concentração; começam com exceções normalizadas, com forças de segurança pouco escrutinadas, com inimigos internos vagamente definidos. Começam quando a violência estatal deixa de ser excecional e passa a ser administrada como rotina.

A questão que ainda não foi esclarecida é saber quanto tempo uma democracia aguenta, quando aceita que o Estado mate primeiro e se explique depois.

Renée Good, morta a tiro pelos agentes ICE em Minneapolis
Manifestação nas ruas de Minneapolis contra a atuação do ICE
Manifestantes detidos por participarem na manifestação contra a atuação do ICE
Manifestação contra o ICE

DEU-ME CÁ UMA VONTADE…

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Um dizia que o PS e PSD eram iguais em tudo e que a governação foi sempre deles, um em alternativa ao outro. Apeteceu-me ir à mesa e clarificar que o PSD e o PS não são bem, bem, iguais. O PSD está um nadinha mais para a direita. A ideologia é mais centro-direita liberal, ou até o neoliberalismo, porque o centro-esquerda reformador já estava ocupado pelo PS, aquando da fundação do PSD. Claro que não fui, iria ser declarado um extremista de esquerda, que se queria infiltrar. “Jamais” (leia-se em francês, é mais fino).

Era a conversa continuada por um dos cidadãos, em tom de “baixo” de coro de orquestra. O PS nunca se situou na direita, foi sempre de esquerda, claro, sem ser comunista…

Olhem para mim, a querer ir lá outra vez e dizer que o PS está situado, agora, no socialismo liberal… mas pensei: “Vou colocar os cidadãos a olharem para mim e a perguntarem-me o que eu tenho a ver com a conversa deles e, se eu armar em “formador,” o que penso disso do socialismo liberal e é o quê, mais claramente…” Não! Daqui é que não saio. Fica quietinho aí na mesa, quem quiser que esteja atento e estude, mas que não vá em “bitaites,” que só desinformam.

O tal cidadão que “acelerava,” disse a certa altura: “Nem é preciso que o governo, este e o dos socialistas, digam que fizeram ou aconteceram. O Chega só precisa de apontar o dedo ao que se passa, para qualquer lado (apontava com o braço esticado para o seu lado esquerdo…) a corrupção, gente do Estado a negociar com o Estado em conluio com os fornecedores na Saúde, por exemplo, (agora apontando em frente…) os euros no gabinete do assessor do Costa (agora apontando para o seu lado direito), a demissão de dois fiscais municipais de obras, que foram condenados pelo tribunal por prática de corrupção. E tantos e tantos casos.

Mais uma vez me deu uma tremideira… apeteceu-me ir lá dizer-lhe: “A varinha mágica do Chega, se algum dia entrar, vai acabar com tudo que está mal, de uma assentada”. Também queria dizer ao cidadão que o partido dele está baseado, se consegue perceber isso, num ultraliberalismo que é um processo que procura rendibilizar o capital, de qualquer forma, nem que isso leve à diminuição ou até à destruição do bem-estar social, do que foi conquistado e da permuta de riqueza que deve existir para manter a causa social. Se o povo trabalhador, nesse contexto de governação, começar a revindicar um bem-estar social, uma melhor remuneração… então, no ultraliberalismo, atende-se à “manifestação” rapidamente, dando uma compensação mínima para quem pede, para que a cadeia produtiva não pare e deixe de dar o lucro previsto. Esta observação é a realidade no terreno, por mais que se queira desmentir. Estudem-se as ideias, os processos e as actuações no terreno, que estão a “decorrer” noutros povos, EUA, Argentina, Itália, Hungria…

Comecei a beber o café já morno… A culpa foi minha, deixei-o arrefecer. Não teria sido melhor não pensar em nada do que me aflige social e politicamente? Os demais que se cuidem… certo? Não! Nunca o farei! Os concidadãos são demasiado importantes para mim. Quando o meu vizinho está atrapalhado, até socialmente… tenho que cuidar dele porque o problema, mais cedo ou mais tarde, vai alastrar até mim…

Trago uns apontamentos para ler, aqui, na mesa do café, com calma, sobre o Ventura e sobre o Seguro. Origens, percursos, suportes intelectuais, suportes sociais, suportes financeiros sob as candidaturas, ideais sociais, económicos de cada uma…

Depois da leitura, vou optar, com base nas ambições e necessidades do país, e votar com a consciência do dever cumprido.

DESFORREI-ME!

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Primeiro, sempre alerta como estou para as alusões ao hábito de «ir a banhos» – eco de a Família Real ter vindo para Cascais no final do Verão, a partir da década de 70 do século XIX – topei este sugestivo pormenor, no conto «A divorciada»: «Berta tem todavia a história mais planta de estufa que eu conheço. Aos quinze anos valsou com o Jorge, na Figueira, uma estação de banhos – Jorge, o que está
secretário do ministro, o bem conhecido Jorge (p. 79-80).

Figueira da Foz, célebre estância balnear do Centro do País, onde, na altura, antes do Casino Peninsular, o Theatro-Circo Saraiva de Carvalho (inaugurado em 1884) organizava bailes, em que, como se vê, até gente do Poder não hesitava em marcar presença. Tinha que ser!
Aqui, o historiador: a remeter para a minuciosa investigação levada a efeito por Irene Vaquinhas – O Casino da Figueira. Sua evolução histórica desde o Teatro-Circo à actualidade (1884-1978).
A desforra do arqueólogo veio quando li esta passagem no conto «A princesinha das Rosas»: «O pai era cristão; não consentiu Deus que a pequenina vivesse a vida monstruosa dos pais, nos palácios da Babilónia submersa».

Poder-se-ia remeter para a Babilónia falada na Bíblia; há, porém, que notar quanto já se admiravam as descobertas arqueológicas feitas por Robert Koldewey, nomeadamente na cidade mesopotâmica de Babilónia…

Voltemos à Berta: Berta, explica Fialho, tinha um nariz «desmedido e fero, cujo modelo recusara sempre ao gesso dos museus de raridades».
É natural que se não entenda plenamente, à primeira vista, o significado desta frase. Refere-se ao hábito, que então se generalizou, de se fazerem moldes em gesso das mais notáveis esculturas clássicas (gregas e romanas) para se mostrarem nos museus, quais verdadeiras gipsotecas, para os estudantes poderem, assim, apreciá-las.

Perseu com a cabeça da Medusa, de António Canova

A Universidade La Sapienza, de Roma, dispõe de uma magnífica gipsoteca e a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra viria a criar também, logo nos primórdios do século XX, um Museu Didáctico com a reprodução de peças arqueológicas achadas em território português, nomeadamente artefactos pré-históricos e inscrições romanas.
Creio, porém, que a alusão de teor arqueológico mais significativa do livro está, de certo modo, oculta nesta frase do conto «As vindimas».
«Tal é a evolução mitológica de Baco: psicologia do vinho, esmaltada num quadro alegórico, que eu vejo e revejo nas suas maravilhosas contramarchas, com os olhos absortos de Canova contemplando os frisos do Pártenon».

Mostra, em primeiro lugar, o conhecimento da obra do antiquário, arquiteto e escultor italiano Antonio Canova (1757-1822), justamente célebre pelas suas extraordinárias esculturas de divindades e personagens gregas e romanas, duma beleza sem igual.
Depois, sim, Canova admirou, sem dúvida, os frisos do grandioso templo erguido na acrópole ateniense, frisos em baixo-relevo que se devem a Fídias e cuja perfeição depressa se tornou quase lendária. Então, os pormenores da aí representada Procissão das Panateneias, a festa maior em honra da deusa Atena, encantavam de verdade!…

Deuses assistindo à procissão das Panateneias, friso do Pártenon, oficina de Fídias, 442-438 a. C., Museu da Acrópole, Atenas

Por conseguinte, numa singela frase se denuncia como Fialho de Almeida – e, certamente, os intelectuais portugueses do seu tempo – estavam a par das descobertas arqueológicas da época. E, voltando à menção anterior, há ainda um pormenor que Fialho de Almeida
não olvidou: o nariz. Certo é que a frase de Pascal (1623-1662) alusiva ao nariz de Cleópatra – «Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais pequeno, toda a face da terra teria mudado» – poderia, desde há muito, ter atravessado fronteiras; anote-se, contudo, que é o nariz que mais trabalho dá ao escultor, a ponto de necessitar sempre de o ter em conta quando se decide a esculpir a figura humana. Nesse âmbito, a real perfeição das esculturas de Antonio Canova concitam, de facto, a admiração universal.

busto de Cleópatra, Museu Berlim

E, por conseguinte, a possibilidade de assim evocar Babilónia (e – porque não? – a sua magnificente Porta de Istar, patente no Pérgamon, em Berlim), os frisos do Pártenon e o imortal Canova leva-me a perdoar a Fialho de Almeida não ter reparado nas ruínas de S. Cucufate. Desforrei-me!

Porta de Ishtar. Pergamon, Museu Berlim

QUANDO O JORNALISMO ABANDONA A ÉTICA E ASSUME O PAPEL DE JUIZ

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Referimo-nos, de forma direta e sem rodeios, a práticas recorrentes observadas em órgãos como a RTP, a RDP África e a Lusa. Não se trata de um episódio isolado, mas de um padrão persistente de atuação que levanta sérias dúvidas quanto à ética, à imparcialidade e ao profissionalismo de alguns dos seus protagonistas.

Convém recordar um facto histórico que muitos parecem querer esquecer: a decisão soberana da Guiné-Bissau de afastar determinados órgãos de comunicação do seu território.

Essa decisão não foi arbitrária nem emocional. Resultou, entre outros fatores, da constatação de que alguns jornalistas passaram a confundir deliberadamente a sua função com a de magistrados, arrogando-se o direito de validar, deslegitimar ou reinterpretar atos institucionais de um Estado soberano.

O jornalismo é, por definição, uma profissão nobre, ao serviço do interesse público. Mas deixa de o ser no momento em que abandona o rigor factual, a isenção e o respeito pelas instituições, para se transformar num exercício de escárnio, insinuação e militância disfarçada.

O exemplo recente da cobertura da inauguração das obras de dragagem dos portos de Bissau é paradigmático. Em vez de informar sobre um evento estruturante para a economia nacional – presidido legitimamente pelo Primeiro-Ministro -, optou-se por um registo enviesado, carregado de subentendidos e comentários laterais. Quando uma jornalista se refere a Ilídio Vieira Té como alguém “apresentado como Primeiro-Ministro”, a pergunta impõe-se: existe alguma dúvida sobre quem exerce essa função, ou estamos perante a pretensão inadmissível de um órgão de comunicação social se arrogar o poder de conferir legitimidade aos cargos da República?

Mais grave ainda: a peça em causa praticamente ignora o facto noticioso central, desviando-se para frustrações pessoais, como a alegada ausência de entrevistas concedidas. É necessário reafirmar um princípio elementar do Estado de Direito e da liberdade de imprensa: não existe qualquer obrigação legal ou moral de um governante conceder entrevistas a órgãos que considera não credíveis ou não confiáveis. A escolha das entrevistas é um direito, não uma imposição.

A insistência em misturar opinião com informação, julgamento com relato, e frustração pessoal com cobertura noticiosa não é apenas um desvio deontológico. É uma violação grave dos princípios que regem a profissão jornalística e que deveriam ser escrutinados pela ERC, entidade reguladora a quem estes profissionais devem contas.

É legítimo, portanto, que se levantem dúvidas incómodas: trata-se apenas de incompetência e arrogância profissional, ou estaremos perante agendas externas, cumplicidades políticas ou mesmo práticas eticamente reprováveis que explicariam por que são quase sempre os mesmos jornalistas e os mesmos órgãos a protagonizar este tipo de ações?

A Guiné-Bissau não é um protetorado mediático, nem um laboratório de narrativas pós-coloniais. É um Estado soberano, com instituições próprias, com responsabilidades internas e com plena capacidade de definir quem informa com seriedade e quem apenas procura interferir.

Aos jornalistas em causa – expulsos ou não – fica um apelo simples e direto: deixem a política para os políticos, deixem os tribunais para os juízes e regressem ao essencial da vossa profissão. Exercitem o jornalismo com elevação, rigor e honestidade intelectual. Façam jus à vossa carteira profissional.

Em português, em crioulo ou em qualquer outra língua, na Guiné-Bissau compreendemos perfeitamente não apenas o que é dito, mas também – e sobretudo – o que se tenta insinuar nas entrelinhas.

EUA NOMEIAM ENCARREGADO DE NEGÓCIOS PARA BISSAU

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A reabertura de uma representação diplomática dos EUA em Bissau significa que os EUA desejam manter uma relação de proximidade com este país africano, apesar da instabilidade política que se vive em Bissau. A notícia tem sido mal explicada, uma vez que a embaixada nunca esteve fechada, na realidade, apenas o embaixador foi retirado, na sequência do conflito armado de 1998/99, e a representação diplomática baixou de nível, deixando de ser “embaixada” para passar a “representação diplomática”.

Nas redes sociais da Representação da Embaixada dos EUA na Guiné-Bissau estão dois anúncios, aparentemente contraditórios.

Significará isto que não haverá ainda nomeação de um Embaixador, mas que a delegação diplomática passará a ter uma Encarregada de Negócios. Em termos práticos, a diferença reside na importância do representante, sendo que o Encarregado de Negócio é o patamar logo abaixo do Embaixador. Enquanto chefe máximo da missão diplomática, o Embaixador é creditado pelo Chefe de Estado do país anfitrião, o Encarregado de Negócio apresenta-se ao ministro dos Negócios Estrangeiros. Tanto um como outro, representam plenamente o país que os nomeia, mas só há Embaixada quando existe Embaixador, quando não, a Embaixada passa ao nível imediatamente abaixo de Representação Diplomática com Encarregado de Negócios.

É certo que o atual Governo não tem qualquer responsabilidade neste restabelecimento de relações diplomáticas, até porque não teve tempo. Na verdade, se há algum mérito a atribuir cabe todo ao Presidente deposto, Sissoco Embaló, que se distinguiu claramente pela intensa atividade diplomática que empreendeu durante o tempo em que esteve ao leme do país.

Sissoco Embaló foi recebido por Trump na Casa Branca em julho de 2025 como um dos cinco chefes de Estado africanos convocados para um encontro com o Presidente dos EUA, no qual discutiram temas de cooperação, economia e segurança regional. É certo que na agenda desse encontro, o restabelecimento das relações diplomáticas com a Guiné-Bissau foi acertado.

Na sequência desta notícia há outros indícios sobre o relacionamento da superpotência com a pequena Guiné-Bissau, que envolvem o bom relacionamento de Sissoco com Trump, que dizem respeito a um alegado convite para o Presidente deposto integrar um grupo de conselheiros do novo organismo que o Presidente dos EUA pretende pôr de pé: o Conselho da Paz.

Não foi possível confirmar esta informação que nos chegou de diversas fontes e que já circula profusamente pelas redes sociais africanas. Essa informação não está comprovada por fontes internacionais, ainda.

A PAZ DOS CEMITÉRIOS

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Militares israelitas ordenaram a dezenas de famílias palestinianas, no sul da Faixa de Gaza, que abandonassem os locais onde se encontravam a viver em tendas. Desde o cessar-fogo de outubro, ainda não tinha acontecido nenhuma ordem para deslocar população. Mas, agora, Israel deu início à expulsão metódica e sistemática da população, que se concentra cada vez mais em áreas menores e confinadas. O exército está, assim, a expandir a área sob o seu controlo.

Diz a insuspeita agência noticiosa norte-americana Reuters que os folhetos com as ordem de evacuação foram lançados por meio de drones e helicópteros, para as famílias a viver em acampamentos de tendas num local conhecido como Al-Reqeb, na localidade de Bani Suhaila.

“Mensagem urgente. A área está sob controlo das Forças de Defesa de Israel. Deve evacuar imediatamente”, diziam os panfletos, escritos em árabe, hebraico e inglês, que o exército israelita disseminou.

O exército israelita nega ter planos de deslocar à força os palestinianos da área, diz que os panfletos destinam-se a afastar a população da chamada linha amarela, uma espécie de nova fronteira da Faixa de gaza reduzida agora a menos de metade da área.

O cessar-fogo não avançou além da primeira fase, mas os bombardeamentos mais intensos diminuiram. Israel mantém-se em mais de metade do território de Gaza, apesar do Hamas ter libertado todos os reféns vivos e devolvido a Israel a grande maioria dos cadáveres de reféns falecidos, a maior parte dos quais vítimas dos bombardeamentos dos próprios israelitas.

Praticamente toda a população palestiniana, um número incerto depois de dois anos de mortandade, mas oficialmente à volta de 2 milhões de pessoas, está confinada num espaço que, agora, voltou a encolher e que é cerca de um terço de todo o território.

A população vive em tendas, não há habitações intactas. Quando era suposto ter início a segunda fase das negociações, que deveria levar a um plano de reconstrução das infraestruturas e à normalização possível da vida da população, Israel recomeçou a expandir a sua ocupação e, com isso, a criar novos atritos com os palestinianos.

Segundo relata a Reuters, as novas ordens de evacuação afetaram pelo menos 70 famílias,  aproximadamente 3 mil pessoas. “É a quarta ou quinta vez que a ocupação expandiu a linha amarela desde o mês passado”, disse um porta-voz do Hamas à Reuters, por telefone, desde Khan Younis.

Israel engole cada vez mais território. Mas a agressão genocida deixou de ser noticiada. É a paz dos cemitérios.

A ZUNGUEIRA

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A Zungueira conhece Luanda de cor. Conhece-a de tanto a percorrer. A cidade passa-lhe pelos pés. Vê o mundo ao nível do chão: sapatos gastos, pressas alheias, moedas contadas duas vezes.

Tudo começa na bacia que equilibra na cabeça – redonda, funda, às vezes rachada, sempre cheia. É ali que carrega o dia. O peso não é só do que vende, é do que observa.

Na bacia vão bananas maduras, ananases, ginguba torrada ainda quente, peixe seco embrulhado em jornal velho, tomate contado à unidade, água fresca suada dentro do plástico. Às vezes sabonete, bolacha, roupa de segunda mão. O que couber. O que der para virar dinheiro antes que o sol aperte.

A Zungueira vende nos cruzamentos onde o trânsito pára, nas paragens dos candongueiros, à porta dos escritórios, nos passeios partidos. Vende andando e chamando pelo nome das coisas como quem chama pessoas conhecidas. A bacia é vitrina móvel, mercado ambulante. O corpo aprende o ritmo da rua: quando acelerar, quando parar, quando desviar da polícia, quando insistir só mais um pouco.

Etimologicamente a Zungueira circula, está em constante movimento, mas há também as mais sedentárias*. São aquelas que vendem o mata-bicho, cedo, quando Luanda ainda espreguiça. Na bacia trazem pão cortado à mão, ovos cozidos ainda mornos, ou estrelados em cima de arroz, chá ou laranjada em garrafas térmicas, café fraco, mas honesto, bolinhos simples embrulhados em papel. Ficam perto das paragens, das obras, dos portões onde o dia começa pesado. Alimentam quem sai sem tempo, quem trabalha de estômago vazio, quem só precisa de qualquer coisa para aguentar até mais tarde.

Elas sabem a hora exata da fome. Antes das sete, vende-se rápido e fala-se pouco. Depois, a bacia pesa menos e o corpo pesa mais. O mata-bicho não é só comida: é pausa curta, é cumprimento, é “bom dia” dito com pão quente, muitas vezes fiado, anotado na memória.

A Zungueira chega antes das notícias oficiais. Sabe quando o preço subiu sem aviso, quando o bairro anda tenso só pelo jeito como as pessoas seguram a bolsa, quando há festa porque a música começa mais cedo. Ouve tudo: o rádio do candongueiro, a discussão do casal, o suspiro de quem não conseguiu vender nada. Aprende palavras que não usa e histórias que não são suas, mas que lhe passam pelas mãos como o dinheiro trocado com que lhe pagam.

fotografias partilhadas das redes sociais

CORRIGIR 30 ANOS DE ERROS

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A megaoperação da PJ em todo o País pode ter desmantelado o grupo neonazi 1143, liderado por Mário Machado, dizem que a partir da prisão. Chamaram-lhe operação ‘Irmandade’. Quem se recorda desta gente começar a surgir há mais de 30 anos? Quem se recorda dos cabeças rapadas que mataram José Carvalho há 30 anos? Quem se recorda dos últimos acontecimentos com esta extrema-direita?

Luís Neves, director da Polícia Judiciária, disse que a reinserção social não funcionou com Mário Machado e que, na sua cela na cadeia de Alcoentre, foram apreendidos ‘elementos relevantes para a investigação’ da organização criminosa de ideologia neonazi.

Pergunto-me como é possível? Há 30 anos todos falharam. Mário Machado tem um longo histórico de ligações a grupos neonazis de extrema-direita.

A Constituição da República, no Artigo 46º, Liberdade de Associação, no ponto nº 4, diz, claramente, que ‘não são consentidas (…) organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista. No artigo 160º, no nº 1, al. d), diz que incorrem em perda de mandato os deputados que ‘sejam judicialmente condenados por crime de responsabilidade no exercício da sua função em tal pena ou por participação em organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista’, sendo certo que é consagrado o Princípio Constitucional da Igualdade e ‘todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a Lei’.

Também o Código Penal é claro em penalizar quem perfilhe a ideologia fascista, incite ao ódio e à violência, nomeadamente ‘contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica, ou que a encorajem’. E acrescenta que é penalizado quem, ‘por qualquer meio destinado a divulgação, nomeadamente através da apologia, negação ou banalização grosseira de crimes de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade, provocar atos de violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica’.

Há muitos anos também a União Europeia aprovou uma resolução que condena os regimes ditatoriais.

Estamos, pois, mais de 30 anos atrasados no cumprimento da Constituição Portuguesa. Agora foram, igualmente, detidos um polícia e um militar, os tais que juraram cumprir a Constituição. Todos vimos, no último dia 25 de Abril, os movimentos de extrema-direita a convocarem manifestações. O ex-juiz Fonseca e Castro, líder do Ergue-te, foi mesmo detido pela polícia, algemado e levado para a esquadra.

O ex-juiz Fonseca e Castro, líder do Ergue-te, a ser detido pela polícia

As condenações a que toda esta gente foi sujeita são ridículas. É por porte de armas proibidas, por resistência à autoridade, por coacção. As penas de prisão são irrisórias e, como disse Luís Neves, é certo que a reinserção social não funciona com estes grupos.

Todavia, na prisão, Mário Machado pode manter as ligações a grupos nacionalistas e, cá fora, procurou mais apoiantes. Em 2006, andava pelas escolas a distribuir propaganda neonazi, tendo a palavra Skin tatuada por dentro do lábio inferior. Organizou-se em vários grupos – Frente Nacional, Hammer Skins, Nova Ordem Social e o grupo 1143 – data do tratado de Zamora.

Em 2007 foi julgado no processo Hammer Skins por um sem número de crimes, desde a discriminação racial à coação agravada. Foi apanhado, com mais 36 skinheads. Ameaçou, por escrito Cândida Vilar, a procuradora que conduziu o processo. O texto publicado online valeu-lhe nova condenação a 7 meses de prisão.

Já em 2024, voltou a ser chamado à Justiça depois de ter sugerido a prostituição forçada das mulheres do Bloco de Esquerda. Mais dois anos e seis meses de prisão por incitamento ao ódio e violência. Para evitar a prisão, pediu asilo político na embaixada dos Estados Unidos, escreveu ao milionário Elon Musk e ainda recebeu o apoio de Miguel Arruda, o deputado do Chega acusado de roubar malas no aeroporto.

Hoje já não sei o que se faça. Talvez o que deveria ter sido feito há 30 anos. Chame-se à colação os Serviços Prisionais e um Estado de Direito que permite a reorganização destes grupos. Porque, volvidas tantas décadas, há partidos que incitam a actos de violência contra outras pessoas, pela cor, pela origem, pela sua identidade, género ou condição, e que estão legalizados constitucionalmente no nosso país. Como é possível? Como se pode admitir que um preso lidere um grupo a partir da prisão? Tem telefone? Tem como enviar material para fora da cadeia? Tem uma vida sem trabalho?

Acabo como comecei: como e quando travaremos o que não parámos há 30 anos?

NA CASA DOS ANTIGOS DEUSES NÓRDICOS

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A igreja velha de Gamla Uppsala foi construída em cima de um templo onde se praticava a religião antiga dos nórdicos que, desde tempos imemoriais, conviviam com deuses a quem chamavam Odin, Thor, Freyr, entre outros.

Eram crenças centradas na árvore da vida, Yggdrasil, que resultaram numa cultura de guerreiros, com rituais próprios de cada região e de cada tribo.  

Imaginem um sítio onde, durante muitos séculos, além de reis e rainhas moraram deuses. Provavelmente, um pouco por todo o lado, no mundo,  existem vários sítios onde os homens ainda privam de perto com os deuses.

Na Suécia, esse sítio chama-se Uppsala.

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AMÍLCAR CABRAL: A ACUSAÇÃO SILENCIOSA QUE O PAIGC JÁ NÃO CONSEGUE CALAR

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Cinquenta e três anos após o assassinato de Amílcar Cabral, o seu nome continua a ser repetido com solenidade ritual. Mas essa repetição já não é homenagem: é fuga. É a tentativa desesperada de esconder, atrás de uma memória gloriosa, a falência ética, política e histórica do projeto que deveria ter dado corpo ao Estado guineense.

Cabral não foi um mito fundador para ser venerado em discursos vazios. Foi um critério. Um padrão de exigência. Um espelho implacável no qual a mediocridade política do presente se recusa a olhar. Por isso incomoda tanto. Por isso é citado e não seguido. Por isso é celebrado e não aplicado.

O projeto de Amílcar Cabral não se esgotava na independência formal. A libertação era apenas o início de um caminho duro: construir um Estado digno, produtivo, moralmente responsável e ao serviço do povo. A luta armada era instrumento; o fim era a transformação estrutural da sociedade. Onde hoje há improviso, ele exigia método. Onde hoje há clientelismo, ele exigia ética. Onde hoje há dependência, ele exigia produção. Nada disto foi cumprido.

A Guiné-Bissau tornou-se independente, mas não soberana. Criou instituições, mas não um Estado funcional. Multiplicou partidos, mas não consolidou uma cultura democrática. Golpes, crises, manipulação das Forças Armadas, captura do erário público e empobrecimento estrutural da população não são acidentes da história: são o resultado direto da traição continuada ao horizonte cabraliano.

Mais grave ainda foi transformar Amílcar Cabral num símbolo inofensivo. Um nome para efemérides. Uma citação para discursos oportunistas. Uma fotografia para legitimar práticas que ele teria combatido sem hesitação. Cabral advertiu: “não mentir ao povo”. O que se fez, durante décadas, foi exatamente o contrário.

É neste contexto que se impõe uma pergunta que muitos evitam por conveniência, medo ou cálculo político: está Domingos Simões Pereira à altura de presidir ao PAIGC de Amílcar Cabral? A resposta é clara e deve ser dita sem rodeios: não está.

Domingos Simões Pereira pode ser um político experiente. Pode dominar o discurso democrático. Pode ter reconhecimento internacional. Nada disso está em causa. O que está em causa é a ética do poder. E é precisamente aí que falha o critério cabraliano.

Sob a sua liderança, o PAIGC deixou de ser um instrumento coletivo e transformou-se num campo de fratura permanente. A exclusão sistemática de correntes críticas, a personalização excessiva da liderança, a incapacidade de gerar consensos estratégicos duradouros e a ambiguidade ética em momentos decisivos enfraqueceram o partido e, por arrastamento, o próprio Estado.

Cabral via o partido como servidor do povo, nunca como extensão do ego de um dirigente. Via a liderança como sacrifício, não como carreira. Via a unidade consciente como condição de sobrevivência nacional. Tudo o que hoje é relativizado, instrumentalizado ou ignorado.

O PAIGC não é um partido banal. É um partido-fundador. Carrega uma responsabilidade histórica que não pode ser gerida com lógica de facção, ressentimento interno ou obsessão pelo controlo. Quando o líder se torna fator de divisão e subordina o futuro do partido à sua própria trajetória, o problema deixa de ser apenas político.

Perguntemo-nos com honestidade brutal: Amílcar Cabral sentir-se-ia confortável com esta liderança? A resposta é evidente. Cabral exigiria autocrítica, recuo estratégico e renovação ética. Exigiria dirigentes capazes de perder poder para salvar o projeto coletivo. Nada disso aconteceu.

E não, o problema não se resolve com mais discursos, mais resoluções ou mais apelos vazios à legalidade. Resolve-se com coragem política. Com grandeza pessoal. Com a aceitação de que o PAIGC precisa menos de um chefe e mais de um guardião ético do seu legado.

A unidade Guiné-Bissau/Cabo Verde terminou enquanto projeto de Estado comum. Isso é um facto histórico. Mas a verdadeira traição a Amílcar Cabral não foi a separação entre Estados. Foi a separação entre política e moral. Entre poder e serviço. Entre liderança e responsabilidade histórica.

Recordar Cabral hoje não é um ato de saudade. É uma acusação silenciosa ao presente. Ele continua a fazer falta porque continua a exigir o que os dirigentes se recusam a dar.

A pergunta decisiva já não é quem tem razão nas disputas internas. É outra, mais dura e mais urgente: quem está disposto a recuar para que o país avance?

Essa foi a lição maior de Amílcar Cabral. E é exatamente por isso que ela continua a ser tão sistematicamente traída.