Cinquenta e três anos após o assassinato de Amílcar Cabral, o seu nome continua a ser repetido com solenidade ritual. Mas essa repetição já não é homenagem: é fuga. É a tentativa desesperada de esconder, atrás de uma memória gloriosa, a falência ética, política e histórica do projeto que deveria ter dado corpo ao Estado guineense.
Cabral não foi um mito fundador para ser venerado em discursos vazios. Foi um critério. Um padrão de exigência. Um espelho implacável no qual a mediocridade política do presente se recusa a olhar. Por isso incomoda tanto. Por isso é citado e não seguido. Por isso é celebrado e não aplicado.
O projeto de Amílcar Cabral não se esgotava na independência formal. A libertação era apenas o início de um caminho duro: construir um Estado digno, produtivo, moralmente responsável e ao serviço do povo. A luta armada era instrumento; o fim era a transformação estrutural da sociedade. Onde hoje há improviso, ele exigia método. Onde hoje há clientelismo, ele exigia ética. Onde hoje há dependência, ele exigia produção. Nada disto foi cumprido.


A Guiné-Bissau tornou-se independente, mas não soberana. Criou instituições, mas não um Estado funcional. Multiplicou partidos, mas não consolidou uma cultura democrática. Golpes, crises, manipulação das Forças Armadas, captura do erário público e empobrecimento estrutural da população não são acidentes da história: são o resultado direto da traição continuada ao horizonte cabraliano.
Mais grave ainda foi transformar Amílcar Cabral num símbolo inofensivo. Um nome para efemérides. Uma citação para discursos oportunistas. Uma fotografia para legitimar práticas que ele teria combatido sem hesitação. Cabral advertiu: “não mentir ao povo”. O que se fez, durante décadas, foi exatamente o contrário.


É neste contexto que se impõe uma pergunta que muitos evitam por conveniência, medo ou cálculo político: está Domingos Simões Pereira à altura de presidir ao PAIGC de Amílcar Cabral? A resposta é clara e deve ser dita sem rodeios: não está.
Domingos Simões Pereira pode ser um político experiente. Pode dominar o discurso democrático. Pode ter reconhecimento internacional. Nada disso está em causa. O que está em causa é a ética do poder. E é precisamente aí que falha o critério cabraliano.
Sob a sua liderança, o PAIGC deixou de ser um instrumento coletivo e transformou-se num campo de fratura permanente. A exclusão sistemática de correntes críticas, a personalização excessiva da liderança, a incapacidade de gerar consensos estratégicos duradouros e a ambiguidade ética em momentos decisivos enfraqueceram o partido e, por arrastamento, o próprio Estado.
Cabral via o partido como servidor do povo, nunca como extensão do ego de um dirigente. Via a liderança como sacrifício, não como carreira. Via a unidade consciente como condição de sobrevivência nacional. Tudo o que hoje é relativizado, instrumentalizado ou ignorado.
O PAIGC não é um partido banal. É um partido-fundador. Carrega uma responsabilidade histórica que não pode ser gerida com lógica de facção, ressentimento interno ou obsessão pelo controlo. Quando o líder se torna fator de divisão e subordina o futuro do partido à sua própria trajetória, o problema deixa de ser apenas político.
Perguntemo-nos com honestidade brutal: Amílcar Cabral sentir-se-ia confortável com esta liderança? A resposta é evidente. Cabral exigiria autocrítica, recuo estratégico e renovação ética. Exigiria dirigentes capazes de perder poder para salvar o projeto coletivo. Nada disso aconteceu.
E não, o problema não se resolve com mais discursos, mais resoluções ou mais apelos vazios à legalidade. Resolve-se com coragem política. Com grandeza pessoal. Com a aceitação de que o PAIGC precisa menos de um chefe e mais de um guardião ético do seu legado.
A unidade Guiné-Bissau/Cabo Verde terminou enquanto projeto de Estado comum. Isso é um facto histórico. Mas a verdadeira traição a Amílcar Cabral não foi a separação entre Estados. Foi a separação entre política e moral. Entre poder e serviço. Entre liderança e responsabilidade histórica.
Recordar Cabral hoje não é um ato de saudade. É uma acusação silenciosa ao presente. Ele continua a fazer falta porque continua a exigir o que os dirigentes se recusam a dar.
A pergunta decisiva já não é quem tem razão nas disputas internas. É outra, mais dura e mais urgente: quem está disposto a recuar para que o país avance?
Essa foi a lição maior de Amílcar Cabral. E é exatamente por isso que ela continua a ser tão sistematicamente traída.



