Primeiro, sempre alerta como estou para as alusões ao hábito de «ir a banhos» – eco de a Família Real ter vindo para Cascais no final do Verão, a partir da década de 70 do século XIX – topei este sugestivo pormenor, no conto «A divorciada»: «Berta tem todavia a história mais planta de estufa que eu conheço. Aos quinze anos valsou com o Jorge, na Figueira, uma estação de banhos – Jorge, o que está
secretário do ministro, o bem conhecido Jorge (p. 79-80).
Figueira da Foz, célebre estância balnear do Centro do País, onde, na altura, antes do Casino Peninsular, o Theatro-Circo Saraiva de Carvalho (inaugurado em 1884) organizava bailes, em que, como se vê, até gente do Poder não hesitava em marcar presença. Tinha que ser!
Aqui, o historiador: a remeter para a minuciosa investigação levada a efeito por Irene Vaquinhas – O Casino da Figueira. Sua evolução histórica desde o Teatro-Circo à actualidade (1884-1978).
A desforra do arqueólogo veio quando li esta passagem no conto «A princesinha das Rosas»: «O pai era cristão; não consentiu Deus que a pequenina vivesse a vida monstruosa dos pais, nos palácios da Babilónia submersa».
Poder-se-ia remeter para a Babilónia falada na Bíblia; há, porém, que notar quanto já se admiravam as descobertas arqueológicas feitas por Robert Koldewey, nomeadamente na cidade mesopotâmica de Babilónia…
Voltemos à Berta: Berta, explica Fialho, tinha um nariz «desmedido e fero, cujo modelo recusara sempre ao gesso dos museus de raridades».
É natural que se não entenda plenamente, à primeira vista, o significado desta frase. Refere-se ao hábito, que então se generalizou, de se fazerem moldes em gesso das mais notáveis esculturas clássicas (gregas e romanas) para se mostrarem nos museus, quais verdadeiras gipsotecas, para os estudantes poderem, assim, apreciá-las.

A Universidade La Sapienza, de Roma, dispõe de uma magnífica gipsoteca e a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra viria a criar também, logo nos primórdios do século XX, um Museu Didáctico com a reprodução de peças arqueológicas achadas em território português, nomeadamente artefactos pré-históricos e inscrições romanas.
Creio, porém, que a alusão de teor arqueológico mais significativa do livro está, de certo modo, oculta nesta frase do conto «As vindimas».
«Tal é a evolução mitológica de Baco: psicologia do vinho, esmaltada num quadro alegórico, que eu vejo e revejo nas suas maravilhosas contramarchas, com os olhos absortos de Canova contemplando os frisos do Pártenon».
Mostra, em primeiro lugar, o conhecimento da obra do antiquário, arquiteto e escultor italiano Antonio Canova (1757-1822), justamente célebre pelas suas extraordinárias esculturas de divindades e personagens gregas e romanas, duma beleza sem igual.
Depois, sim, Canova admirou, sem dúvida, os frisos do grandioso templo erguido na acrópole ateniense, frisos em baixo-relevo que se devem a Fídias e cuja perfeição depressa se tornou quase lendária. Então, os pormenores da aí representada Procissão das Panateneias, a festa maior em honra da deusa Atena, encantavam de verdade!…

Por conseguinte, numa singela frase se denuncia como Fialho de Almeida – e, certamente, os intelectuais portugueses do seu tempo – estavam a par das descobertas arqueológicas da época. E, voltando à menção anterior, há ainda um pormenor que Fialho de Almeida
não olvidou: o nariz. Certo é que a frase de Pascal (1623-1662) alusiva ao nariz de Cleópatra – «Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais pequeno, toda a face da terra teria mudado» – poderia, desde há muito, ter atravessado fronteiras; anote-se, contudo, que é o nariz que mais trabalho dá ao escultor, a ponto de necessitar sempre de o ter em conta quando se decide a esculpir a figura humana. Nesse âmbito, a real perfeição das esculturas de Antonio Canova concitam, de facto, a admiração universal.

E, por conseguinte, a possibilidade de assim evocar Babilónia (e – porque não? – a sua magnificente Porta de Istar, patente no Pérgamon, em Berlim), os frisos do Pártenon e o imortal Canova leva-me a perdoar a Fialho de Almeida não ter reparado nas ruínas de S. Cucufate. Desforrei-me!





De: Eugenia Serafini
24 de janeiro de 2026 11:51
«Eccellente osservazione! La molteplicità dei linguaggi e della comprensione…»,
comentário expreessamente à frase “Afinal, o leitor não lê apenas com o olhar, mas com toda a sua ideologia e antecedentes. Arqueólogo historiador lê um romance com olhos bem diferentes dos de um arquitecto paisagista ou de um antropólogo…”
de: Maria Delfina
24 de janeiro de 2026 13:49
A porta de Ishtar deixou-me parada, pasmada e boquiaberta durante muito tempo…. Um espanto! Aquele azul, meu Deus!!
Maria Teresa Azevedo
24 de janeiro de 2026 14:37bela desforra, cheia de informação e humor, que li com pleno agrado! Mas ainda continuo nas hostes do Fialho enquanto o ler (ou reler)
Boa noite, José d’Encarnação.
Grata por esta “desforra”.
Sendo diferentes os olhos que vêem uma realidade, ela tem de assumir diferentes cambiantes, é verdade.
Para um escritor, analisar a obra de outro Escritor que foi médico, que saído de uma família humilde para se formar, sacrificou uma posição de destaque e se exilou na sua Vila de Frades, depois em Cuba, por paixão às Letras, é seguir outra estrada como se caminhasse com o desapego do crítico mordaz, e lhe ouvisse tanto o humor corrosivo e demolidor, como o domínio da palavra até em BELOS poemas, como o seu quase epitáfio.
Tão lindo! Lá está, quem o lesse primeiro jamais conseguiria esquecer essa vertente, que por arrasto teria de ser incluída na apreciação do seu carácter, ou talento multifacetado. Raúl Brandão admirava-o.
Mas o Dr. Fialho de Almeida era o homem de um lema que o seu tempo pouco entenderia: “miando pouco, arranhando sempre, e nunca temendo”. Os seus coevos não gostariam, mas creio que se lessem “façam-me um caixão de cedros olorantes…”, perdoar-lhe-iam o pecado de não conhecer as virtudes antigas de S. Cucufate.
Noite muito feliz.
Um abraço Amigo.
Bem hajas, Helena! Parece que, afinal, o homem até terá escrito um folhetim que tinha por pano de fundo essas ruínas; certo é que foi num jornal de província e andamos à cata dele.
De: José Azevedo Silva
25 de janeiro de 2026 12:11
Li com prazer e proveito o teu artigo publicado em “Duas Linhas”, do passado dia 24.
Fui buscar ao subconsciente a frase de Pascal, alusiva ao avantajado nariz de Cleópatra. Ouvi-a pela primeira vez contada pelo Professor Doutor Vitorino Magalhães Godinho, orientador da minha tese de doutoramento, como exemplo de um contrafactual.
De: joao gouveia monteiro
24 de janeiro de 2026 20:07
Muito interessante e variado, gostámos muito de ler. Ai que saudades do Museu do Pérgamo!
Abraço de felicitações.
De: Elisa Silva
26 de janeiro de 2026 21:29
Gostei muito muito do »Desforrei-me!»!!