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OS “BONECOS” DE BARCELOS

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Era ainda criança, seis anos talvez, quase ao findar a década de 40 do século XX, a vendedeira de “bonecos”, que de Barcelos descera à Beira Alta, batia, uma vez mais, à porta de minha mãe, na Sarzeda, junto a Sernancelhe. Trazia louça vidrada, alguidares enramados que eu ainda conheci, pucarinhos onde se amornava o vinho nas noites de frio e as maneirinhas panelas onde minha mãe guardava o mel e a manteiga do porco.

Não me lembro do nome da vendedeira, que meus pais hospedavam, à maneira das casas de lavradores: duas mantas, a quentura de um caldo, larga fatia de pão e a talhada da boa carne de porco de então, o pucarinho de vinho. E, quando a vendedeira no dia seguinte partiu, estava eu na quintã da casa de meus pais, fez-me promessa de me trazer um “assobio” quando ali voltasse, daí a um ano, que isso já eu sabia. E voltou.

Voltou outra vez a vendedeira. E trouxe consigo o “assobio” que me prometeu, que disso me lembro, um “galo” pequenino com pintura a cores que daí a pouco assobiava pelas ruas da aldeia.

galo de assobiar

Já não recordo o fim que dei ao “assobio”, o fim desse miúdo galo que, porventura, se partiu. Mas veio daí a minha paixão pelos bonecos de Barcelos, desses mais ingénuos, as figurinhas de Presépio que comecei por conhecer nos presépios que as mordomas construíam na igreja da minha aldeia.

Que, nesse tempo, eu mal me importaria com a sua história, a das figurinhas, essa recreação que os oleiros de Barcelos, das suas aldeias ao redor, construíam quase a brincar, enquanto no forno ardia a fornada das talhas avantajadas, das púcaras, dos pucarinhos, dos escoadores, das assadeiras vidradas.

Que assim nasceram, já mal alguém sabe contar, vão mais de cem anos, as figurinhas pintadas que as mulheres vendiam em tendas de festa ou de feira ou em solitários passos, porta-a-porta nas aldeias.

Não armei, este ano, o meu presépio de Barcelos de figurinhas já bem antigas, não o armei, como antigamente, Maria e José abrigados sob a cabana de um pastor, o Menino Jesus na manjedoura tecida de palhas cortadas à tesoura, pastores descendo a encosta com cordeirinhos aos ombros, as suas mulheres saindo da aldeia com cestinhas carregadas de queijinhos corados, de figos, de nozes, bilha de leite na mão, enquanto outras se atarefavam na ida à fonte do lugar ou nos preparos da ceia. Camponeses regressados de lavouras de inverno atravessavam, conversando, a pontezinha levantada sobre uma ribeira de prata seguindo o velho caminho de areia branca. Ainda longe, avistavam-se os Reis Magos, que já vinham a pé, os criados trazendo camelos pela rédea, onde, em cofrezinhos pintados, vinham os presentes do Menino. E havia uma estrela dourada presa no cimo de um pinheiro com seus raios a fingir. E havia um anjo que parecia suspenso no ar.

Todos os anos me lembro, ao vir o mês de Setembro e a Feira de S. Mateus, em Viseu, do meu presépio guardado numa caixa de cartão. Como este ano aconteceu.

Corri as tendas armadas dos louceiros de Barcelos nessa ala que se estendia por largos passos. Lembrei-me da mulher que me ofereceu o assobio, ao ver os pequeninos galos que ainda são iguais ao meu. Ali estavam, à espera de poeta ou comprador, os galos de assobiar, a Virgem Maria com seu manto de azul já debotado, S. José com a sua velha bengala, Reis Magos a pé ou montados a cavalo, pastores, as mulheres dos pastores, muitos cordeiros, camponeses de machado ou enxada ao ombro, as pontezinhas, casas de aldeia, as fontes, as estrelas, os anjos que por toda a noite haveriam de cantar.

Lembrei-me dos louceiros antigos, do seu jeito de lavrar o barro a que tanta vez assisti, desse milagre das suas mãos que eles copiaram dos muito antigos gestos de Javé.

Lembrei-me dos novos louceiros, da mestria dos seus gestos, agora, em Barcelos e eu os louvo por não terem abandonado o velho figurado e eu os louvo por essas sublimes criações de um tempo novo.

CARTA ABERTA AOS YANKEES

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A ideologia-base da facção republicana nos EUA é focalizada na manutenção de valores sociais, num mercado que se autorregula pela intervenção da lei da oferta e da procura, apoiando a livre iniciativa, com redução da burocracia. Defende, por isso, a intervenção governamental numa economia, mínima, com gastos reduzidos, uma diminuição nos impostos e o apoio dos valores tradicionais, dando preponderância à liberdade e à responsabilidade individual.

Em questões de cultura, é apoiada com uma boa participação estatal, mas sempre com o travão financeiro, por forma a não sobrecarregar o estado com muitos programas sociais.

Em questões de segurança nacional, como se sabe, levam-na à “letra” e, como se observa agora, de uma forma exageradamente exibicionista, mostrando uma força que ultrapassa leis e acordos internacionais, desonrando a palavra dada, em vários acordos.

A ideologia democrata está mais consentânea com uma perspectiva progressista no sentido de uma esquerda política: defende maior interferência estatal na economia e nos processos dos movimentos sociais, por exemplo, o antiracismo.

Usa-se a designação ‘liberal’(do inglês) para definir a sua ideologia, que não é, no entanto, liberal no sentido do liberalismo clássico britânico, mas sim no sentido da esquerda progressista, inclinada a políticas de acções concretas, de assistencialismo social.

Assim, o Partido Democrata adoptou um caminho mais progressista, dirigido à classe operária e às políticas assistencialistas e trabalhistas. Esta foi a ideia, após a Grande Depressão (1929-1933), do presidente Roosevelt. A sua ideologia é apologista da existência de um salário mínimo e de os impostos serem mais altos para quem tem rendimentos mais elevados, tornando-se solidário com um estado social. Defende-se uma regulamentação necessária sobre o consumo, para que exista protecção aos consumidores. Preconiza também, a ideologia democrata, o direito a uma saúde para todos os cidadãos.

Tudo isto está escrito e é posto em prática pelos seguidores partidários, que querem manter a dignidade dos seus partidos, elevando o nível de vida dos cidadãos e, assim, o seu bem-estar.

Quiseram e foram construindo os sucessivos governos, um por um, na medida dos seus sonhos para os yankees (alcunha inicialmente pejorativa e que deixou de o ser), um futuro sempre mais risonho para o país. Uns governantes ‘puxaram’ pela economia, outros dedicaram mais os seus esforços ao povo, promovendo a educação e a saúde para todos.

Mas… quando surge um governante que destrói os valores construídos ao longo de muitos e muitos anos, pelos anteriores governos e por governos de outros países; quando surge um governante que destrói acordos firmados pelo seu povo com outros que os fizeram de boa fé, desonrando a palavra dada; quando surge um governante que, não dando incentivos, no seu país, à produtividade e “vive” de “roubar” o trabalho de outros povos, nas suas margens de lucro nas produções, arvorando-se no direito de um usurário; quando surge um governante que ultrapassa o Estado de Direito Internacional e age pela força, por forma a destruir valores de outros países, sem entrar na mesa das negociações sequer com os seus aliados… esse governante está a actuar com sangue inocente nas mãos!…

Assim vemos Israel, a Rússia, a América… Governantes autorizados (pelo povo que os elegeu?) a destruir os valores mundiais.

Great again? Não! Só se é grande como povo, quando se honram os valores e os compromissos assumidos e se olha para os nossos vizinhos, no mundo, como iguais!

DOIS VENCEDORES

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A acreditar na sondagem divulgada pela RTP, António José Seguro surgirá como vencedor da primeira volta das eleições presidenciais e, nesse cenário, tornar-se-á o principal favorito para vencer a segunda volta e assumir o cargo de Presidente da República.

Há, contudo, um dado politicamente curioso – e revelador – neste quadro. Se o segundo lugar vier a ser ocupado por André Ventura, o líder do Chega poderá, paradoxalmente, cantar vitória. Não eleitoral, mas estratégica. Passará a ser o dirigente partidário com maior apoio popular direto, reforçando ainda mais a sua posição interna e consolidando uma base eleitoral que lhe permite encarar o futuro com ambições redobradas. Neste momento, Ventura pode abraçar todas as ambições face à derrocada do candidato do PSD. O futuro de Montenegro não parece famoso e Ventura pode acabar com ele, no momento em que achar oportuno fazê-lo.

É certo que, em política, tudo pode mudar de um dia para o outro. Basta que surja um episódio capaz de abalar a sua imagem pública, algo que, no caso de Ventura, não será particularmente difícil. O seu percurso está rodeado de zonas cinzentas, de rumores persistentes sobre quebras éticas, traços de mau carácter e práticas duvidosas, desde logo no próprio processo de fundação do Chega, com o conhecido caso das assinaturas falsas. Tudo isso foi amplamente documentado no livro Por Dentro do Chega, do jornalista Miguel Carvalho.

Ainda assim, André Ventura nunca foi verdadeiramente a estas eleições para ganhar. O seu objetivo foi outro: cimentar eleitorado, maximizar votos no seu nome e afirmar-se como ativo político mais valioso do que o próprio partido. Ventura sabe e age em conformidade que, neste momento, ele vale mais do que o Chega.

Já a vitória de António José Seguro na primeira volta tem um significado político distinto e, em certa medida, inesperado. Trata-se de um candidato que havia abandonado há muito a atividade política e partidária, que avançou sem garantias formais do seu antigo partido e enfrentando mesmo a oposição de vários “barões” do PS. O seu percurso recente assemelha-se a uma verdadeira travessia do deserto que, em caso de vitória final, se transformará num raro “milagre” político: o renascimento de um dirigente dado como acabado.

Depois de vencer a primeira volta, Seguro poderá começar a fazer contas à chamada maioria sociológica de esquerda, tentando perceber se ela existe de facto e se se traduz em apoio eleitoral efetivo. Essa será, provavelmente, a grande incógnita da segunda volta.

NARIZES PARTIDOS

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Partir o nariz não é algo que nos aconteça com facilidade, a não ser que sejamos agredidos. Entrar num sítio onde um grande número de representações de pessoas têm o nariz partido é surpreendente.

Vejam o vídeo.

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O nome completo deste museu é Gliptoteca Ny Carlsberg, foi fundado a partir da coleção de Carl Jacobsen, filho de Jacob Christian Jacobsen, fundador da cerveja Carlsberg, um grande colecionador de arte do seu tempo.

Quanto ao termo “glyptoteka”, uma rápida consulta ao Google diz que “Glyptoteket (ou Gliptoteca) significa um museu ou coleção de esculturas, vindo do grego glyptos (gravado, esculpido) e theke (depósito, coleção).”

Estamos sempre a aprender.

VAMOS VOTAR

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Os apelos ao voto, em tempo de eleições, insistem na necessidade de “votar em consciência”. A expressão pressupõe que os cidadãos se informem previamente sobre os programas das candidaturas, sobre as promessas eleitorais e sobre a viabilidade dessas promessas. A realidade, porém, é bem diferente: a grande, grande maioria das pessoas nunca leu um programa eleitoral, seja de partidos políticos, seja de candidatos individuais, como sucede nas eleições presidenciais. As pessoas votam por simpatia ou por clubite partidária.

Depois do ato eleitoral, o problema agrava-se. Ninguém verifica de forma sistemática se as promessas foram cumpridas, se os eleitos ultrapassaram o âmbito daquilo que prometeram ou se, pura e simplesmente, mentiram, substituindo compromissos sufragados por agendas ocultas que nunca foram apresentadas aos eleitores. Não existem mecanismos democráticos eficazes que penalizem este tipo de fraude política. Esta impunidade é, talvez, uma das maiores fragilidades dos regimes democráticos. Enganar o eleitorado não tem consequências reais.

Na atual eleição presidencial, multiplicam-se os casos de candidatos que mentiram abertamente durante a campanha, prometendo fazer aquilo que nem sequer se enquadra nas competências constitucionais do Presidente da República. Tudo isto é triste, tudo isto é fado, diria Amália Rodrigues. E apenas a sátira do candidato que promete vinho tinto nas torneiras, Ferraris para todos e uma dançarina cubana para mim, consegue fazer-me sorrir.

A FEIRA DE LOURES, POR ORDEM DO REI DOM JOSÉ I

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Pareceu-nos, pois, de interesse dar a conhecer o que tão miudamente aí se lavrou, até porque testemunhos idênticos poderão existir noutras zonas do País e talvez também eles não tenham sido alvo da atenção que merecem. Porque, diga-se de passagem, ter a paciência de gravar na pedra com tanto pormenor uma decisão real só pode ter uma justificação: palavras leva-as o vento, os pergaminhos acabam por desaparecer e, de um momento para o outro, quer-se ter uma prova e… ela desapareceu num ápice!

Para isso, serve, por conseguinte, a pedra lavrada: difícil é apagar o letreiro, parti-lo não é lá muito conveniente, nem fácil, nem discreto…

Vamos, assim, proceder à leitura interpretada da epígrafe, ou seja: desdobrar-se-ão as siglas e as abreviaturas (que o lapicida usava por serem de fácil interpretação); indicar-se-á a pontuação (que serve aqui, como no tempo dos Romanos, mais para separar palavras do que como pontuação como nós estamos habituados a entender); marcar-se-á com uma barra a separação das linhas, o que nos permitirá apresentar um texto corrido, de leitura mais fácil.

Leitura:

Interpretação: 1775. Para perpétua memória. Pelo rei D. José I foi autorizada a feira no rossio de Santa Ana, na véspera e dia da santa, por provisão de 31 de maio de 1758; feira livre de direitos de entradas e saídas, e que pagasse terrado para as obras e culto de Santa Ana, por Alvará de 8 de julho de 1760; ampliação, em mais dois dias, da duração da feira, por provisão de 23 de julho de 1762.

Enquadramento

A pedra com a inscrição alusiva à feira foi colocada em 1775, na torre da Capela de Santa Ana, situada nas Alvogas, em Loures. Sucede, porém, que essa história da capela e do culto à santinha teve, nos primórdios do século XX, contornos inesperados e deles também importa contar.

Em 1981, no Nº 1, do jornal local Facho Lourense, surge, na primeira página, a notícia “Recuperação Patrimonial”, onde se divulga o achado ocorrido na Quinta da Charruada, propriedade do sr. José Luís Maduro. Assim se ficou a saber que a dita pedra “chegou a fazer parte de um engenho de tirar água e só devido a trabalhos de desaterro na quinta do sr. Maduro foi possível recuperá-la”.

A pedra foi identificada por António José Saraiva Saiote, da Associação de Defesa do Património Cultural do Concelho de Loures (ADPCCL), associação entretanto extinta. Em 1981, na sequência da notícia atrás citada, esta pedra foi levada para a Casa do Adro, em Loures, onde aguardou a inauguração do Museu Municipal de Loures, a cujo acervo pertence desde então.

Para preservar na memória coletiva o ato real e a feira, uma réplica da pedra, com a respetiva inscrição foi colocada, em 1995, na envolvente da localização original da capela de Santa Ana, nas Alvogas. O espaço é hoje enquadrado por arruamentos e estacionamento automóvel.

réplica da pedra gravada de 1775

As vicissitudes

A provisão de el-rei Dom José – que começa com a frase latina, em siglas e abreviaturas, típica da documentação da época, in perpetuam rei memoriam, que é como quem diz «para que se saiba e para todo o sempre!» – era muito clara em dois aspectos:

1º) Criava-se uma feira franca (livre de direitos de entradas e saídas), onde se mantinha, porém, o terrádigo, ou seja, o imposto a pagar pela ocupação do espaço por parte da cada feirante;

2º) As verbas auferidas pela cobrança desse imposto destinavam-se à manutenção do culto a Santa Ana e, de modo especial, às obras de conservação da capela que, ao longo do tempo, fossem de necessidade.

Muita água, desde então, foi passando sob as pontes; a religiosidade popular nem sempre esteve no seu auge; e, por isso, não admira que o jornal Quatro de Outubro («Órgão do Concelho de Loures», «Semanário Independente»), na sua edição de 12 de maio de 1912, logo na primeira página, em feroz artigo de opinião, não assinado, e sob o título «Das duas uma», claramente proclame:

«O que queremos? Muitíssimo pouco! Queremos que no fim de Junho se instalem as escolas na ermida de Santa Ana, com um professor para o sexo masculino e uma para o sexo feminino devidamente habilitados.

Para se queimar a madeira carunchosa que lá existe, abrir algumas janelas e arrasar [?] o telhado nem tanto tempo é preciso; E o dinheiro para as despesas? Vendem-se os sinos e mais valores da mesma ermida que ainda há de sobejar.

Não sabemos a quem nos havemos de dirigir, mas tomamos a liberdade de convidar o senhor Administrador do Concelho a tratar do assunto ou concorrer para que se resolva».

E não se está com meias medidas: «Ou se transformam as coisas do estado vergonhoso em que se encontram ou toca-se a reunir o povo para que faça uso do direito que lhe assiste de correr a pontapés todo aquele que não corresponda às suas aspirações. A paciências esgota-se e nós estamos desconfiados que atingiu os limites».

No mesmo jornal Quatro de Outubro (assim chamado porque a revolução republicana aí começou nesse dia), no nº 56, de 11 de maio de 1913, noticia-se, na página 2, que, na sessão da câmara, se leu o ofício da Junta de Paróquia de Loures, a comunicar «ter enviado à Direção Geral de Estatística dos Próprios Nacionais os documentos respeitantes ao terreno baldio situado no Rossio de Santa Ana em Loures».

Temos notícias de seis anos depois: a 23 de abril de 1919, o Presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Loures, Abel Teixeira Pinto, escreve ao Ministro da Justiça e Cultos uma ‘representação’ em que diz:

«Desejando construir na sede do seu concelho e no local em que está situada a ermida de Santa Ana um hospital ou uma escola primária e encontrando-se a referida ermida sob a jurisdição da Comissão Central dos Bens Eclesiásticos vem solicitar a interferência de V. Ex.ª no sentido de que aquela ermida seja cedida à Câmara para o respectivo fim».

Termina o ofício com a saudação habitual na altura «Saúde e Fraternidade».

O processo teve seguimento, porque, no ofício nº 93, de 5 de junho de 1919, o Presidente da Comissão Executiva escreve ao Presidente da Comissão Central da Execução da Lei da Separação, «em relação ao ofício expedido em 29 de abril último, processo Nº 5973», a informar que a Comissão Administrativa resolvera «oferecer a quantia de 100$00 pela cedência da ermida de Santa Ana situada nesta localidade».

Enfim, as peripécias por que, ao longo dos tempos, passou uma capela de particular devolução popular ainda no século XVIII. Seguramente as verbas resultantes do terrádego de uma feira anual não foram bastantes para uma manutenção cuidada. Adveio a República e o seu cortejo de anticlericalismo, por um lado, aliado, por outro, à firme vontade dos republicanos de se fomentar a instrução do Povo determinaram o desfecho.

Em 1909, o nonagenário José Joaquim da Silva Mendes Leal, nas páginas que, em boa hora!, dedicou à Admiravel Egreja Matriz de Loures traça as caraterísticas físicas do território de Loures que descreve como “região de altos montes e grandes baixas” e “o Rocio de Sant’Anna, vasto campo ingreme e escarpado”, concluindo, “É neste vasto campo alcantilado que todos os annos se faz em 3 dias a feira d’agosto, de que é hoje senhoria a Junta de Parochia; feira sempre muito concorrida de tudo”.

Assim a paisagem, entendida como o território e o seu conteúdo, mudaram, e muito, no caminho do séc. XVIII para o futuro onde estamos. No atual panorama urbano não restam vestígios da antiga capela. O asfalto suavizou e, até eliminou, a rudeza do chão que já não é de feira mas piso para passos apressados e veículos motorizados. Resta-nos a memória.

(em colaboração com José d’Encarnação)

VILLA ROMANA DE FREIRIA

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A autarquia de Cascais encontra-se a proceder à musealização da antiga sala de jantar (triclinium) da casa do proprietário da “villa” romana de Freiria, que era atapetada com mosaicos geométricos. Sobre eles eram colocados três canapés, dispostos em “U”, onde os convivas se reclinavam frente a uma mesa onde era colocada a comida.

Aquando da escavação do sítio arqueológico, verificou-se que os mosaicos tinham sido destruídos parcialmente por séculos de lavoura, restando preservada a parte norte da sala, onde as relhas dos arados não tinham afundado muito.

Após os primeiros trabalhos de musealização efetuados em Freiria, ficou por terminar a visualização dos mosaicos da “pars urbana”, onde, por ora, os trabalhos decorrem desde o ano passado e vão perdurar durante mais alguns meses de 2026.

Após a escavação dos alicerces das sapatas do telheiro que vai proteger os mosaicos das intempéries e do sol, foi agora colocada uma estrutura de madeira, com telhado de duas águas, mas sem paredes para se poderem ver dos passadiços os mosaicos que, após descobertos, ali vão ficar visíveis aos visitantes.

DINAMARQUESES NÃO ESTÃO ASSUSTADOS

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A ameaça de guerra dos EUA contra a Dinamarca é tema dos noticiários, dos debates na televisão, nos media do país, como é evidente. Mas não há alarme social, por enquanto.

Não me parece que os dinamarqueses estejam em estado de negação sobre a possibilidade de uma guerra entre a Dinamarca e os EUA, apesar de ambos os países serem membros da NATO. Se os EUA invadirem a Gronelândia, pode mesmo haver guerra, apesar da Dinamarca saber que o inimigo é mil vezes mais poderoso militarmente

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PRESO NUMA CADEIA CHINESA

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Nos EUA há um projeto que se chama “Jornalismo na Prisão” (Prison Journalism Project), onde os reclusos publicam relatos sobre a vida “lá dentro”. Muitas vezes, escrevem sob anonimato e são sempre ajudados por quem lhes publica as histórias. Em Portugal podiamos fazer alguma coisa parecida. Seria uma pedrada no charco.

Já aqui publicámos uma dessas histórias, hoje vamos publicar outra. O nome do recluso é fictício, mesmo se hoje ele já está em liberdade, depois de cumprir 10 anos de prisão. Não foi nos EUA, mas na China. O relato descreve a experiência de Jordão, um estrangeiro a viver na China com uma bolsa de estudo, ao chegar a um centro de detenção chinês após ser detido em 2014 por vender haxixe. Atualmente, Jordão deixou a China depois de cumprir pena. Tem 34 anos.

Jordão, na primeira pessoa

“Depois de ter sido detido pela polícia, passei muitas horas a ser interrogado, algemado, amarrado a uma cadeira. Mais tarde, levaram-me para  um centro de detenção em Shenyang, na província de Liaoning, onde fiquei a aguardar o julgamento.

Quando cheguei estava cheio de medo. Seria este o fim da minha liberdade para sempre? Tiraram-me do carro, fui levado para dentro de um prédio. Passei vários portões e corredores, cheirava a suor. Fui proibido de olhar fosse para quem fosse. Não podia olhar para a esquerda ou para a direita.

Eu mal falava chinês. Tinha vinte e poucos anos, nasci num país muçulmano da Ásia Central, tinha ido para a China em 2012 para estudar medicina. Nem sempre fui um bom muçulmano, gostava de festejar e beber cerveja com meus amigos, muitos dos quais também eram estrangeiros de vários países do mundo. Comecei a fumar e vender haxixe, um crime grave na China, acabei preso.

Dentro das celas, todos tinhamos a cabeça raspada, vestiamos fardas de cores diferentes: vermelho, laranja, azul, amarelo, verde, cinza – cada cor indicava um status diferente. O vermelho significava que a pessoa fazia parte de um grupo criminoso organizado, o laranja também sinalizava isso, mas que ainda não tinha sido julgado, os de azul eram pessoas que as autoridades acreditavam que não seriam condenadas à prisão perpétua ou à morte, enquanto os de amarelo haviam recebido a sentença de morte. Uma farda verde significava que a pessoa estava doente com uma doença terminal, e o cinza, doente, mas não terminal. A farda que me deram era azul.

Na cela, tinhamos de estar sentados de frente para a parede, em silêncio e imóveis. No dia em que lá cheguei, o recluso líder da cela indicou-me onde sentar. Uma voz no alto-falante disse alguma coisa. Os reclusos levantaram-se e começaram a andar em círculo. Eu fiz o mesmo. Mais tarde, descobri que essa era uma rotina diária, realizada duas vezes ao dia, destinada a melhorar a circulação sanguínea após longas horas sentados na postura de Buda.

A cela era dividida em duas, com plataformas de madeira numeradas de 1 a 12 de um lado e de 13 a 24 do outro. Cada plataforma ficava a cerca de 60 centímetros do chão. Uma passarela estreita separava as duas partes. Fui designado para o lugar número 7, mesmo ao lado da pia. A mesma pia servia para 24 pessoas.   

O recluso chefe da cela explicou-me as regras, que diziam respeito principalmente ao silêncio, à disciplina e à rotina. Havia sempre dois reclusos que tinham obrigação de vigiar se todos os outros cumpriam as regras. Esses reclusos nunca eram os mesmos. A “guarda” rodava entre todos, usavamos um boné vermelho sempre que tínhamos de exercer essa função.

A voz no alto-falante dava as ordens, se tínhamos de andar em círculos ou se tínhamos de nos sentar de pernas cruzadas, na postura de Buda. Eu nunca tinha ficado sentado de pernas cruzadas por mais de alguns minutos na minha vida. Depois de dois minutos, as pernas começavam a doer e a ficar dormentes. Depois de muito tempo, a voz ordenava que ficassemos de pernas esticadas, mas sempre sentados e de costas direitas. Posições sempre muito dolorosas..

Também usei o boné vermelho. No início não sabia o que deveria fazer, até perceber que tinha de policiar os outros presos. Quando havia algum problema disciplinar, apertávamos o botão de emergência no interfone, o alarme soava e vinham os guardas.

Passavamos os dias, semanas, meses e anos basicamente parados, a olhar. Se um recluso  precisasse de ir à pia, tinha de levantar a mão, aguardar a permissão do “guarda” de boné vermelho. À noite, as luzes nunca se apagavam, e os de boné vermelho circulavam, observando os outros. Não se podia cobrir o rosto com um cobertor, todos tinham de estar visíveis para as câmeras. Era proibido ler fora das horas destinadas a essa atividade.

O menos mau era a comida. Normalmente, sopa de tofu e pãezinhos cozidos no vapor. Arroz para os que tinham problemas estomacais. Refeições halal para muçulmanos, chineses das etnias hui e uigures e muçulmanos estrangeiros, como eu.

A hora da higiene era antes de dormir. Ao lado da pia havia três torneiras. Três pessoas à vez escovavam os dentes e lavavam as mãos. O travesseiro e o cobertor cheiravam sempre mal. A cama era de madeira, dura. Quando adormecia sonhava com a liberdade, a família. Mas os pesadelos começavam logo de manhã cedo… ao acordar.”

TEMPLOS DE GOTEMBURGO

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Os templos de Gotemburgo são muitos e variados. Não tivemos tempo de visitar todos, mas ficámos com uma ideia do panorama.

Neste vídeo, podem ver locais com nomes estranhos, como, por exemplo, Saluhallen, Domkyrka ou Feskekorka.

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