É uma espécie de oásis no meio da cidade de Gotemburgo, as primeiras árvores foram plantadas e as primeiras estufas ali construídas há quase 200 anos. Será um dos mais bem preservados jardins do século XIX, em toda a Europa.
O Jardim Botânico de Gotemburgo é famoso pela coleção de rosas, com mais de 3 mil plantas de 1.200 espécies diferentes. Deve ser um roseiral lindíssimo, mas que por estes dias não se consegue ver porque está fechado.
Não é por isso que a visita deixa de valer a pena… Vejam o vídeo.
Durante anos repetiu-se que Portugal descolonizou tarde demais e que esse atraso explicaria grande parte dos problemas atuais dos países africanos de língua portuguesa. A ideia tornou-se confortável: a cronologia serviria como chave explicativa para instabilidade, subdesenvolvimento e fragilidade institucional.
O problema é que essa explicação é, no mínimo, incompleta. A história mostra que a data da independência não garante nem estabilidade nem desenvolvimento. Há países que se libertaram cedo e permaneceram presos à violência e à dependência. Outros, apesar de processos tardios e traumáticos, conseguiram construir Estados relativamente funcionais. O atraso pode pesar, mas não explica tudo.
Mais grave ainda é o silêncio seletivo que rodeia esta narrativa. Outras potências coloniais nunca descolonizaram verdadeiramente. França, Reino Unido e Países Baixos continuam a exercer domínio sobre territórios espalhados pelas Caraíbas, Índico e Pacífico. Os Estados Unidos mantêm Porto Rico e várias ilhas estratégicas. O colonialismo não acabou: apenas mudou de nome e de enquadramento jurídico.
A Gronelândia é um exemplo particularmente revelador. Sob domínio dinamarquês há mais de 500 anos, foi tratada como colónia durante séculos: população indígena negligenciada, direitos políticos adiados, autonomia concedida apenas quando já não podia ser recusada. É neste contexto que surgem agora as pretensões de anexação anunciadas por Donald Trump.
Copenhaga afirma que a Gronelândia não está à venda, mas apressa-se a lembrar que os EUA já têm liberdade total para instalar bases militares no território. O argumento é ingénuo ou cínico. As pretensões norte-americanas não se baseiam em necessidades de defesa, mas numa pulsão imperialista elementar, movida por ganância estratégica e económica. Contra isso, a razão não serve de antídoto.
A questão central é simples e brutal: se os EUA avançarem, a Dinamarca irá combater? E que países europeus estarão solidários e dispostos a enfrentar mísseis norte-americanos para defender um território colonial que sempre foi tratado como periferia?
A persistência de colónias no século XXI não é um resíduo do passado. É a prova de que o imperialismo continua ativo, à espera de uma oportunidade para voltar a falar sem disfarces.
Ao longo dos 54 anos de existência enquanto Estado independente, a Guiné-Bissau foi palco de sucessivas crises políticas, institucionais e governativas. Uma análise honesta da história constitucional do país revela que uma das causas estruturais das crises tem sido o conflito recorrente de competências e legitimidades entre o Presidente da República e o Primeiro-Ministro, típico de um semipresidencialismo mal estabilizado, marcado por ambiguidades constitucionais, fragilidade partidária e ausência de cultura de compromisso institucional.
Este dado histórico é essencial para compreender o contexto em que surge a nova Constituição aprovada pelo Conselho Nacional de Transição. É legítimo reconhecer que a repetição de bloqueios entre Presidência e Governo — frequentemente acompanhados de dissoluções parlamentares, quedas de executivos e intervenções militares — criou, ao longo do tempo, a perceção de que o modelo vigente era incapaz de garantir estabilidade governativa duradoura. Foi precisamente essa leitura que serviu de base política e conceptual à atual revisão constitucional, orientada para eliminar os focos de conflito no vértice do Executivo.
Todavia, a forma escolhida para responder a esse problema histórico levanta sérias reservas. A nova Constituição opta por uma presidencialização extrema do sistema, concentrando no Presidente da República as funções de Chefe de Estado e de Chefe do Governo. O Presidente passa a dirigir diretamente o Executivo, a presidir ao Conselho de Ministros, a coordenar e orientar os ministros e a nomear e exonerar todo o Governo. Embora o texto continue a qualificar o regime como semipresidencialista, na prática institui-se um modelo hiperpresidencialista, no qual o centro efetivo do poder político se encontra numa única figura institucional, de resto, semelhante em muitos aspetos a outras constituições de países vizinhos, como, por exemplo, a do Senegal.
Como consequência direta dessa opção, verifica-se a subordinação política e funcional do Primeiro-Ministro. Tradicionalmente concebido como Chefe do Governo e responsável pela condução da política geral do país, o Primeiro-Ministro perde autonomia política e transforma-se num agente executor das orientações presidenciais. Esta reconfiguração altera profundamente a lógica do Executivo, enfraquece a colegialidade governativa e reduz o papel do Parlamento enquanto instância efetiva de controlo político do Governo.
A terceira dimensão crítica reside na legitimidade jurídico-constitucional do processo de revisão. A nova Constituição foi aprovada por um órgão de transição, não eleito, num contexto de rutura institucional subsequente aos acontecimentos de 26 de novembro de 2025.
Ainda que a instabilidade crónica do passado sirva de pano de fundo explicativo, ela não elimina as interrogações legítimas sobre o respeito pelo princípio da soberania popular e sobre a durabilidade de um pacto constitucional produzido fora dos mecanismos ordinários de revisão previstos na ordem constitucional anterior.
É inegável que o novo texto procura responder a um problema real da história política guineense: os conflitos permanentes entre Presidente e Primeiro-Ministro. Contudo, eliminar o conflito institucional através da supressão do equilíbrio de poderes pode resolver um problema imediato, mas criar outros mais profundos no médio e longo prazo.
A experiência comparada em África demonstra que a concentração excessiva de poder no Executivo presidencial tende a fragilizar os mecanismos de responsabilização, a reduzir o pluralismo político e a aumentar o risco de novas crises, ainda que sob formas diferentes.
A Guiné-Bissau encontra-se, assim, perante um dilema central: corrigir as disfunções do passado sem comprometer os princípios fundamentais do Estado de Direito. Uma Constituição deve ser simultaneamente um instrumento de estabilidade e um garante de equilíbrio institucional. Responder às crises históricas exige reformas ponderadas, não soluções que substituam conflitos de poder por hegemonias de poder.
Na verdade, a tónica pessimista manteve-se em todos os contos que integram o livro. E, por outro lado, aquele apetite que eu secretamente alimentara de ver ali reviver um Alentejo de que, apesar de algarvio, eu ousara também apropriar-me, quando privilegiei o seu estudo na época romana, não foi saciado.
Nada, afinal, da terminologia alentejana. Nada da culinária mediterrânica. Nada dos cantares típicos, ao final da tarde, entre um copo de vidigueira e o naco de casqueiro com lasca de queijo cortado à navalha. Rara e insípida alusão eu encontrei ao “convento”, designação que relacionei com o modo como, em Vila de Frades, a população se referia às sólidas paredes romanas que os frades aproveitaram para transformar em remansoso mosteiro.
Tive esperança, quando miudamente contou a caminhada de solitária velhota, ao escurecer, da Vidigueira a Vila de Frades, de vir a descobrir algo de novo na paisagem de então e invocação até – em tempo de aflição – ao santo ali venerado. Nada. E – ainda por cima! – o horror do assassinato, a frio, de um recém-nascido.
Estava Fialho de Almeida de muito mal consigo e com o seu tempo, que, diga-se, confrontando com o que a História nos conta desses anos de fim de século XIX, não era, de facto, de mui confortáveis agouros.
Retrato de Fialho de Almeida (1891), por Columbano Bordalo Pinheiro
Apesar do título «Idílio triste », ainda esperei que a história do foragido a monte viesse a terminar em êxtase, tão sequiosa andava a pastora de uma natural satisfação longamente sonhada: «E de costas no feno, ao lado do boieiro adormecido, entristecia-se a moça daquela íntima e misteriosa plenitude, à qual fazia falta o que quer que fosse: vinha-lhe uma inquietação, uma curiosidade, um frenesi… pancadas de seio, estonteamentos, vislumbres… –, e, coçando a pele sarabulhenta do ventre, pasmava de se ter feito tão de repente mulher». Nada. O fugitivo parece nada ter percebido e desapareceu para todo o sempre.
Há, porém, nesse conto particular enlevo do autor. Sentimo-lo na minucia exacta com que se delícia a descrever a natureza – virgem, dir-se-ia – em que a pastora se move. Descrição pura e crua sem laivos de adjetivo adoçante, portador de uma qualquer sugestão romântica, humanizante. Delíquio gélido. Os teóricos literários chamar-lhe-ão «decadente».
Rendo-me, por isso, a uma descrição como esta: «Estevais por toda a parte, urze pouca… Só os medronheiros protestavam com o seu verde-vivo, contra as sombrias gamas do matagal. E um silêncio! Por ali não voavam cotovias. Algum passarito do mato, destes trepadores cinzentos, ágeis, pequeninos, que esvoaçam em espiral dos troncos dos carrascos, receosos da própria palpitação das suas asas, ou o cacarejar traiçoeiro das víboras, cujos sobressaltos guardam o frenesi macabro de pequenos espíritos malfazejos da charneca». Frase burilada a preceito, adjetivo impessoal, autor ausente.
Já noutra passagem, mais atrás, autopsia-se a cena e, qual mau estudante em atenção muda por detrás de um vidro, Fialho de Almeida dá conta e… vai-se embora: «Raio de vida, ali a um canto da cozinha, os velhos pais já não fazem senão dormir e comer. Esta vida ociosa aborrece em casa de gente pobre. É um desaforo, uma pouca-vergonha… Queixa-se a nora do pão que lhe escasseia no tabuleiro? Pudera não! Os velhos não fazem senão comer. Há uma contenda à lareira? Se os velhos são uns intrigantes! Rico vai o ano de Deus, a seara folhuda e bem lançada, a vinha rija, e tão viçoso o couval! «Que vinténs nós pouparíamos, marido, ao canto da arca, se teu pai nos não pesasse tanto, o estupor ruim!».
Gotemburgo, no sul da Suécia, é uma cidade portuária que, tal como Lisboa, tem “cacilheiros”. Isto é, tem transportes fluviais ou marítimos públicos, que transportam pessoas para diferentes locais.
A diferença entre os cacilheiros de Lisboa e os de Gotemburgo está, essencialmente, na política de promoção dos transportes públicos. Na Suécia, o fluxo é constante e o preço procura cativar a clientela, ao ponto de não haver custo, o transporte ser gratuito. Vejam o vídeo.
O apoio a Gouveia e Melo de cerca de 100 ‘personalidades’ da AD, entre as quais Miguel Cadilhe, ex-ministro de Cavaco Silva, David Justino, ex-ministro de Durão Barroso, Ângelo Correia, Valente de Oliveira e Adão e Silva, vem confirmar que o apoio do PSD a Marques Mendes constituiu um erro estratégico de Montenegro. A este, acresce o empenho total dos membros do governo na campanha do candidato, com ataques inenarráveis, nomeadamente do ministro de Estado, Paulo Rangel, conhecido pela forma ‘ordinária’ que coloca sempre que entra numa campanha eleitoral. A esta, acrescente-se o facto de com algum deles o governo terá de lidar no futuro.
É verdade que, com excepção de Rui Rio e de Isaltino de Morais, qualquer deles vale apenas o seu voto, mas não deixa de ser um sinal quanto ao erro na escolha do candidato partidário do PSD.
E temos, ainda, o apoio de outras figuras conhecidas do PSD a António José Seguro, num sinal evidente de que Marques Mendes não obtém o consenso do seu próprio partido, desde as figuras conhecidas ao mais simples militante das estruturas locais. Luís Montenegro meteu-se, assim, numa camisa de onze varas e fica, aparentemente, sem plano de fuga, para o pós 18 de Janeiro.
Se à segunda volta forem Gouveia e Melo e António José Seguro, quem é que irá apoiar? E se à segunda volta forem André Ventura e António José Seguro, a quem irá o primeiro-ministro patrocinar? E se à segunda volta forem Cotrim de Figueiredo e António José Seguro, qual será a escolha de Montenegro, sendo certo que, nesta situação, Cotrim de Figueiredo votaria em Ventura? Em todas estas candidaturas, com excepção na de André Ventura, estão presentes altos quadros e militantes anónimos do PSD que discordam do apoio de Montenegro a Marques Mendes. Qual será a opção do Presidente do PSD?
Num momento em que o governo está em queda, por causa da situação calamitosa na Saúde, com mentiras atrás de mentiras, em que existe um profundo descontentamento popular, a colagem de Marques Mendes ao governo e do governo à candidatura de Marques Mendes, pode transformar-se no ponto de viragem para o governo e marcar o tempo que falta, até ao fim da legislatura, que será difícil e desgastante.
Swakopmund nasceu do olhar europeu sobre o deserto. Fundada em 1892 como porto do então Sudoeste Africano Alemão, a cidade foi pensada como um prolongamento da Alemanha em solo africano. A arquitetura colonial, as ruas ordenadas, os cafés de inspiração bávara e o alemão ainda presente nos nomes das ruas e das lojas, e mesmo no interior destas. Há uma seção de livros em Alemão na livraria da cidade e há menus em Alemão, pelo menos num restaurante, são marcas visíveis dessa origem. Swakopmund cresceu voltada para o mar, para o comércio, para o turismo e, durante muito tempo, de costas para Mondesa.
Swakopmund
Mondesa
Mondesa, por outro lado, nasceu da exclusão. Criada oficialmente nos anos 1960, quando o território era administrado pela África do sul, nasceu assim sob a sombra do apartheid, quando as autoridades desenharam mapas para separar mundos: Mondesa para os negros, o centro da cidade para os brancos. Ou seja, foi pensada como um bairro segregado para a população negra que trabalhava em Swakopmund. E mesmo dentro dela havia zonas para cada etnia, havia (permitam-me a expressão) pretos de primeira e pretos de segunda, o que refletia a lógica de “dividir para reinar”.
O seu traçado não surgiu do acaso urbano nem do encontro cultural, mas de uma decisão administrativa com o intuito de afastar, disciplinar, controlar. Cresceu rapidamente, impulsionada pela migração interna e pela procura de trabalho, tornando-se um espaço de sobrevivência, resistência e identidade coletiva.
Em Mondesa, a vida acontece na rua: nos mercados informais, na música que ecoa dos quintais, no vai-e-vem constante de pessoas que constroem o presente com poucos recursos e muita criatividade. Swakopmund parece um enclave da Alemanha em África. A cidade funcionou nas últimas décadas, ainda funciona, como estância balnear sobretudo para os alemães e namibianos endinheirados. Já o pessoal de Mondesa, quando pode descansar, vai à terra, sobretudo para o norte da Namibia.
Swakopmund, casa burguesa colonial
Swakopmund, Hotel Europa
O contraste é evidente. Onde Swakopmund exibe fachadas coloridas, jardins bem cuidados e hotéis voltados para o oceano, Mondesa revela casas simples e inacabadas, ruas poeirentas e uma densidade humana elevada. Em Swakopmund, o tempo parece desacelerar ao ritmo das ondas e dos turistas; em Mondesa, o dia começa cedo e termina tarde, guiado pelo ritmo do trabalho e pela economia informal. Uma vive da contemplação e do lazer, a outra da necessidade e da luta diária.
Mais distante, quase empurrada para fora do enquadramento urbano, encontra-se a Democratic Resettlement Community (DRC). Criada nos anos 2000 como solução de “alojamento temporário”, a DRC tornou-se permanente sem nunca ter sido plenamente integrada. Se Swakopmund nasceu do olhar europeu sobre o deserto, e Mondesa da segregação planeada, a Democratic Resettlement Community (DRC) resulta da exclusão prolongada. Terrenos áridos, habitações improvisadas, serviços escassos (sem água canalizada e centro de saúde) e uma sensação constante de temporário que dura décadas. A ligação da DRC com Mondesa é sobretudo humana. Muitos dos seus residentes trabalham em Mondesa, têm família lá ou passaram por esse bairro antes de serem empurrados ainda mais para a margem. Com Swakopmund, a relação é mais distante e funcional: demoradas deslocações diárias para trabalhos mal remunerados, invisíveis para quem desfruta da cidade costeira. A DRC existe para servir, mas raramente para ser vista.
Democratic Resettlement Community (DRC), plano geral
É nesta encruzilhada, física e simbólica, que surge a visita guiada (community tour) a Mondesa e DRC, conduzida por um operador de turismo comunitário. O guia não apresenta o bairro como atração exótica, mas como uma narrativa viva, ele é alguém que não conhece apenas o bairro, ele vive lá em Mondesa. O percurso passa pelo mercado informal, onde aprendemos sobre frutas, legumes e plantas e bebidas medicinais, pela visita a uma senhora de etnia Herero, que nos recebe no quintal e nos conta algumas coisas sobre as tradições do grupo a que pertence, pelo Arts & Craft Center do DRC, onde somos recebidos com canções e dança e em língua de “estalidos” e depois visitamos a exposição de trabalhos de desenho/pintura das crianças e o artesanato feito pelas mulheres. Foi aqui que comprei 3 bonecas que representam 3 grupos étnicos diferentes (a quarta foi comprada numa loja em Swakopmund) e, por último, pelo restaurantre Hafeni em Mondesa, onde provamos as “iguarias locais” como insectos crocantes, com destaque para as “larvas de mopan” e também para o Ombidi/Mutete (espinafre selvagem). No fim da refeição um grupo de jovens locais entoa algumas canções “à capela” para nós.
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Alguns operadores de turismo comunitário começaram há alguns anos a incluir a DRC nos seus percursos. O discurso aqui muda um pouco, aqui não se fala apenas de passado colonial ou do apartheid, mas das escolhas da Namibia independente, das falhas do planeamento urbano e da persistência da desigualdade num país independente desde 1990 (foi o último país africano a se tornar independente por via da descolonização). Pelos caminhos de terra batida de Mondesa e DRC veem-se muitos salões de barbeiro, pequenas lojas em anexos ou à janela, igrejas de várias crenças e quintais onde as crianças brincam.
Cada paragem desmonta estereótipos e revela uma comunidade que, apesar das dificuldades, construiu redes de solidariedade e pertença Cada paragem traz uma história, de migração interna, de perda e de ganhos, de encontros e de desencontro, mas também de muita esperança. O guia explica como Mondesa se organizou ao longo dos anos, fala das várias igrejas como centros sociais, das escolas sobrelotadas, mas também das associações juvenis, dos grupos culturais e das iniciativas locais que tentam redesenhar o futuro.
DRC, fachada da escola Arts & Craft Center
DRC, interior da escola Arts & Craft Center
No final da visita, quando o grupo regressa a Swakopmund, a distância entre as cidades parece maior, não em quilómetros mas em consciência. Mondesa e sobretudo a DRC deixam de ser apenas o “outro lado” e transformam-se num espelho incômodo e necessário. A visita guiada não promete soluções fáceis, mas oferece algo raro nos dias que correm: contexto, humanidade e a certeza de que compreender um lugar começa sempre por ouvir quem o chama de casa. Gosto de pensar que a diferença entre turismo e viagem é não ser só consumo, é ser sobretudo ENCONTRO.
Depois de uma viagem de 400 km de comboio, entre Estocolmo e Gotemburgo, posso afirmar que a Suécia é um território de florestas, mas não tem eucaliptos. Sentado à janela, passei mais de 3 horas a contemplar campos brancos de neve e bosques de pinheiros, abetos e bétulas. Nenhum eucalipto.
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Aqui, a floresta é uma das principais riquezas nacionais. A indústria da celulose tem um poder enorme, mas não o suficiente para impôr eucaliptais. Alguns dirão que é por causa do frio que não há eucaliptos, que é uma árvore que gosta mais de calor. Mas essa não é a razão, porque há eucaliptos, mas são utilizados apenas como plantas decorativas em jardins. A verdadeira razão para não haver eucaliptais na Suécia, acredito que seja para proteger o ecossistema instalado nas florestas originais do território.
Não é por não haver eucaliptos que a Suécia deixa de ser o maior produtor de madeira da Europa e o maior exportador de papel do mundo. A madeira é, de resto, um produto com imensas aplicações nesta região. A grande maioria das casas de habitação em aldeias e vilas, mesmo em cidades de média dimensão, é de madeira. Vivendas de diferentes tipologias, feitas de madeira. Na rua neva, dentro de casa está quente. O aquecimento é igualmente fornecido pela queima de combustíveis provenientes do desperdício da indústria da madeira. Um pinheiro é, mal comparado, uma espécie de porco onde tudo se aproveita.
Só mais um dado, para referir que 60% do território deste país está coberto por florestas. Áreas extensas de pinheiros, abetos e bétulas. Nenhum eucalipto.
Quando em Portugal nos queixamos dos incêndios florestais incontroláveis que provocam destruição e morte, e apontamos os imensos eucaliptais como uma das principais causas das desgraças que se repetem, ano após ano, devíamos olhar para o trabalho que se desenvolve em países como a Suécia, onde a floresta é uma riqueza nacional, protegida por todos porque todos beneficiam, porque gera postos de trabalho, recolha de impostos, distribuição de riqueza e usufruto da natureza.
Através duma amiga de infância e, depois, colega na Faculdade de Letras de Lisboa, Helena Peixinho, soube da Associação Cultural “O Mundo do Espectáculo” (ACOME).
Legalmente constituída em 2001, surgiu como projecto de intervenção dentro da escola e na sua relação com o contexto (Escola-Meio), sempre com um enfoque especial: a importância da área das expressões artísticas no desenvolvimento pessoal e social das crianças e jovens.
Apresentado, em 1990, ao Conselho Científico da Escola Superior de Educação de Setúbal, o projecto foi aceite e reconhecido. Apoiado pela Câmara Municipal de Almada, do ponto de vista logístico e financeiro, teve como sede a Escola Básica D. António da Costa, que acolheu muitas das suas iniciativas, que paulatinamente se foram definindo através de duas grandes linhas de actuação – a formação e a animação – evoluindo, de forma natural, para a criação artística.
Imagens do Concerto dos alunos da formação Orquestra de Percussão – ACOME/AGF, dirigido por Rui Pinho Aires, a 11 de Outubro nos Recreios Desportivos da Trafaria.
Assim, em relação ao público escolar, foi, por exemplo, «À Descoberta da Arte Pública», para aproximar os alunos do tecido urbano que lhes é próximo. E é verdade, em Almada e em muitos lugares: as obras de arte que integram o quotidiano de quem vive ao seu redor raramente são verdadeiramente compreendidas!
Pequenos Artistas, imagens da sessão de 13 de Dezembro no Espaço ACOME – Feijó
Criou-se, na Escola Básica de Corroios, o Clube de Teatro, de cuja actividade, ao longo dos anos, resultou a oferta curricular de Teatro para o 2º e 3.º Ciclos, o que viria a provocar a abertura do Curso Profissional de Teatro (Ensino Secundário).
VOZ E CORPO – Oficina de Teatro
No quadro do projecto «NÓS E VOZ: Do Texto ao Gesto, do Gesto ao Texto», em parceria com a Escola Secundária João de Barros, no âmbito do Plano Nacional de Leitura, houve leituras encenadas, inclusive públicas em espaços abertos, nas escolas, na Biblioteca e outros espaços, nomeadamente o Espaço da própria ACOME.
VOZ E CORPO – Oficina de Teatro
«Formação em Teatro», «Teatro a Todos», «Iniciação ao Teatro» (com, por exemplo, a colaboração da Academia Almadense), «Música e Movimento», «Orquestra de Percussão» – constituem os títulos dalgumas das iniciativas levadas a efeito e continuadas. Dada a sua originalidade, relevo do relatório do actual coordenador da Associação, Manuel João, a informação de se ter levado à cena a peça, original de Sarah Adamopoulos, intitulada Próxima Pele, que é a nossa, sempre em transformação com o tempo e no espaço onde vivemos. Versando o Processo de Envelhecimento, «evoca o corpo metamórfico que sente, fala e se move ao ritmo da música, também ela original». Um espectáculo que, naturalmente, envolveu – e bem – a comunidade extraescolar.
“O Mundo do Espectáculo” participa, desde o início, nos congressos de IDEA (Congresso Internacional de Drama/Teatro em Educação), cuja realização aconteceu, pela primeira vez, no Porto (1992) e, posteriormente, na Austrália (1995), no Quénia (1998), em Bergen (2001); em 2004, a Associação esteve também presente no Canadá, onde Helena Peixinho, sua coordenadora desde a fundação até esse ano, partilhou as actividades aqui desenvolvidas.
Helena Peixinho, garantindo-me que esta sua “viagem” foi vivida «com alguma intensidade, amando o que fazia», colaborou, após a aposentação, na criação, nesse mesmo ano de 2004, da Universidade Sénior de Almada (USALMA), tendo aí leccionado disciplinas como “Encontro com a Poesia”, “Expressão Dramática e Património”, “Teatro da USALMA”, “Leitura Dramatizada”.
Numa altura em que os noticiários apontam falta de professores um pouco por toda a parte, também porque a profissão parece ter deixado de apresentar o aliciante de outrora, não deixa de ser eloquente este testemunho da «Outra Banda», na medida em que – por via das iniciativas criadas – se logrou alicerçar a necessária ligação (e até cumplicidade!) entre a Escola, a Família e a Comunidade. Não há aí costas voltadas, mas um olhar apontado na mesma direcção!
Ricardo Salgado foi condenado a 6 anos de prisão, pelo crime de abuso de confiança, por se ter apropriado de mais de 10 milhões do BES. O banco podia ser dele, mas o dinheiro que lá estava era dos depositantes.
Recorreu e em maio de 2023, a pena viria a ser agravada para oito anos de prisão, no Tribunal da Relação de Lisboa, e confirmada, já em fevereiro do ano seguinte, pelo Supremo Tribunal de Justiça.
Foi desta última decisão que Salgado recorreu para os juízes do Tribunal Constitucional. A defesa queria que fosse declarado inconstitucional condenar a prisão efetiva um arguido com 77 anos e com doença de Alzheimer diagnosticada. O Tribunal Constitucional confirmou a sentença. Tudo indica que o velho banqueiro vai acabar os seus dias numa prisão.
A propósito disto, a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR) divulgou, agora, um comunicado onde, em resumo, afirma que não serve de nada enfiar mais um velho numa prisão portuguesa, tanto mais que se trata de uma doença que sofre uma demência e que, portanto, não tem consciência do que se passa à volta dele.
Diz o comunicado da APAR, que “um inimputável é vítima de uma alteração estrutural cerebral que condiciona a capacidade de compreensão dos actos. Nestes casos, não deve ser condenado a uma pena de prisão, mas sim a uma medida de segurança de internamento em hospitais psiquiátricos ou unidades de saúde especializadas.”
O texto, assinado pelo Presidente da APAR, médico de profissão, diz ainda que a sociedade não ganha nada em ter nas prisões “pessoas de fraldas, que não reconhecem o espaço físico onde se encontram”.
O comunicado termina sugerindo que o Estado deveria aproveitar esta oportunidade para tirar das prisões “todos os inimputáveis e pessoas comprovadamente doentes” que, ao contrário de Ricardo Salgado, são pobres, sem força reivindicativa e que vegetam no sistema prisional.