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A CRECHE

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Encontra-se atualmente em execução a construção da nova Creche e Jardim de Infância do Centro D. Bosco, que terá capacidade para 136 crianças dos 4 meses aos 3 anos e 50 crianças dos 3 aos 6 anos, reforçando significativamente a oferta de Creche e Pré-escolar no concelho.

A ideia e a vontade pertencem à Associação dos Antigos Alunos Salesianos do Estoril. Gente “antiga” mas muito ativa. O que os move é a vontade de contribuir, uma associação sem fins lucrativos. Atualmente, reúne cerca de 600 antigos alunos e 300 simpatizantes, abertos à participação de antigos alunos da Escola Salesiana do Estoril, da própria Associação ou de outras instituições salesianas do concelho de Cascais.

A ideia de construir uma nova creche tem esta numerosa paternidade, mas precisou da ajuda da autarquia de Cascais, como é evidente. Aliás, a contribuição autárquica tem sido uma constante. Começou logo em 1986 com a cedência de um terreno onde se construiu o Centro Social D. Bosco. A primeira creche foi inaugurada em 1997, hoje colhe diariamente cerca de 170 crianças em Creche, Berçário e Pré-escolar, apoiadas por uma equipa de 30 colaboradores e disponibiliza diversas infraestruturas educativas, desportivas e culturais.

Com o aumento das necessidades das famílias e a elevada procura por respostas educativas na primeira infância, a Associação decidiu avançar com a criação de um novo equipamento. O processo deu os passos essenciais: a Câmara Municipal de Cascais confirmou a viabilidade de construção a 27 de outubro de 2019; em 30 de janeiro de 2020, foi submetida a candidatura n.º 4901 ao Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais (PARES); e, em 23 de julho de 2021, foi celebrado o contrato de comparticipação financeira com o Instituto da Segurança Social. A obra está prestes a ser concluída. A nova Creche e Jardim de Infância do Centro D. Bosco, que terá capacidade para mais 136 crianças dos 4 meses aos 3 anos e 50 crianças dos 3 aos 6 anos, reforçará significativamente a oferta de Creche e Pré-escolar no concelho de Cascais.

Estamos a falar de um investimento total de cerca de €4.800.000, sendo a Associação dos Antigos Alunos Salesianos do Estoril o principal financiador da obra. O projeto conta ainda com apoio financeiro do Programa PARES do Instituto da Segurança Social e da Câmara Municipal de Cascais, que, além do apoio direto, prestou também colaboração no lançamento do concurso público da empreitada, permitindo viabilizar e acelerar o processo. Prevê-se a conclusão da obra em março de 2026 e o início de atividade em setembro.

Fica aqui um bom exemplo de cooperação entre a vontade dos antigos alunos dos Salesianos do Estoril e o cumprimento da missão das instituições públicas que têm o dever de apoiar.

A médica que deu voz às mulheres

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Nasceu em Elvas, a 25 de janeiro de 1867, numa terra de fronteira onde a resistência faz parte da paisagem e do carácter. Adelaide de Jesus Brazão, filha de uma família humilde, tornou-se, ainda criança, o apoio da mãe viúva e dos irmãos mais novos. Trabalhou como criada de servir em casas abastadas e em montes alentejanos, enquanto, nas horas roubadas ao cansaço, estudava para alcançar a única instrução possível: a quarta classe.

Cantava enquanto trabalhava. Diz-se que foi ao ouvi-la cantar que o futuro marido se apaixonou. Manuel Cabete, sargento republicano de Elvas, progressista e culto, identificou desde logo grande ambição e inteligência naquela jovem alta e forte, de cabelos negros brilhantes e olhos vivos que o cativara.

Casaram-se em 1886. Manuel não a confinou à vida doméstica. Acreditou nela quando quase ninguém acreditava nas mulheres e incitou-a a prosseguir os estudos. O seu casamento, num tempo em que tantas mulheres eram silenciadas, tornou-se para ela um espaço de apoio e emancipação. Manuel vendeu terras, partilhou tarefas de casa, tudo para que pudessem sustentar o sonho de Adelaide: ingressar na Escola Médico Cirúrgica. Juntos partiram para Lisboa, onde Adelaide enfrentaria o maior desafio da sua vida: estudar Medicina num meio quase exclusivamente masculino e profundamente marcado por preconceitos.

Formou-se em 1900, apresentando uma tese cujo tema já revelava a sua missão: proteger as mulheres grávidas pobres como forma de garantir um futuro digno às crianças que nasceriam. Para Adelaide, a medicina não era apenas ciência — era uma forma de intervenção social. Iniciou o exercício clínico na especialidade de Ginecologia, uma área sensível, ainda envolta em tabus, prestando especial atenção a mulheres em situações de grande vulnerabilidade, incluindo as que viviam da prostituição.

Abriu consultório em Lisboa, mas não se limitou ao atendimento individual. Sem esquecer as suas origens, promoveu sessões públicas sobre alimentação, pedagogia e puericultura, denunciando as causas invisíveis da mortalidade infantil e impulsionou um projeto-lei para garantir licença de maternidade às mulheres trabalhadoras.

Com frontalidade, afirmou que moda das mulheres devia obedecer à saúde e não à vaidade: condenou espartilhos que deformavam corpos, saltos altos usados por grávidas, saias longas e de tecidos pesados (ajudam à proliferação dos ácaros) dietas perigosas e substâncias como o vinagre para emagrecer. Alertou para os riscos do álcool e do tabaco quando ainda eram sinais de estatuto social.

Republicana e feminista, entrou na Maçonaria em 1907, adotando o nome Louise Michel, em homenagem à revolucionária francesa. Fundou o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, com sede no seu consultório e liderou associações, escreveu manifestos, organizou congressos. Em 1910, acreditou que a República poderia melhorar a condição das mulheres e, ao lado de Carolina Beatriz Ângelo, bordou as novas bandeiras — num gesto simbólico de esperança.

Em 1929, viúva e desiludida com o rumo autoritário do país, partiu para Angola com o sobrinho, a quem criava como filho. Em Luanda, abriu um consultório, denunciou condições degradantes, defendeu maternidades, creches e redes de apoio social. Recusou aceitar a miséria como destino — nem em Portugal, nem no mundo colonial.

Regressou a Lisboa enfraquecida e doente, mas fiel a si mesma até ao fim. Morreu a 19 de setembro de 1935. Pediu um enterro simples, amortalhada com a bata médica que a acompanhara toda a vida.

Décadas depois, o país reconheceu-a com a medalha de Grande Oficial da Ordem da Liberdade. Mas Adelaide Cabete, muito antes de títulos ou honras póstumas, já tinha um lugar na história das grandes mulheres portuguesas: aquelas que ousaram estudar, dar voz às outras mulheres e resistir.

BANDITISMO EM TERRITÓRIO DIGITAL

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Um jornalista luso-angolano ficou recentemente impedido de aceder à sua conta pessoal de Facebook. O nome associado ao perfil foi alterado, o acesso bloqueado. Quando a META passa o tempo a propalar que “defende os interesses da comunidade” não se refere nunca a este tipo de situações, em que, de facto, os utilizadores das redes sociais são afetados. O episódio não é excecional. É sintomático.

A Meta governa hoje espaços que funcionam como verdadeiras praças públicas, mas aplica-lhes regras privadas destinadas a defender os seus próprios interesses comerciais, unicamente. Essas regras são executadas por sistemas opacos e dificilmente contestáveis. Um utilizador pode ser penalizado repetidamente por alegadas “violações dos padrões da comunidade” sem saber exatamente o quê, quando ou porquê. As decisões acumulam-se; as explicações não. O problema não é técnico. É político, porque a META mistura os seus interesses comerciais com alinhamentos políticos, como se constata com as publicações que criticam as políticas genocidas de Israel, por exemplo.

O CASO DE ORLANDO CASTRO

Quando plataformas privadas podem bloquear identidades digitais, alterar dados pessoais e condicionar a atividade pública de cidadãos – incluindo jornalistas – sem transparência nem responsabilidade, o desequilíbrio de poder é evidente. A ideia de recurso existe no discurso, mas na prática dissolve-se em respostas automáticas.

Enquanto for assim, qualquer utilizador sabe que pode deixar de existir digitalmente de um momento para o outro, não por decisão judicial mas porque um sistema informático assim o decidiu.

Nos casos em que as contas de utilizadores foram tomadas de assalto por hackers, bandidos informáticos, umas vezes é para serem utilizadas em esquemas ilegais, normalmente burlas online, outras vezes apenas para evitar que continuem a publicar. É o caso de páginas pertencentes a jornalistas, que usam as redes sociais para ampliar o alcance do que publicam em meios de comunicação tradicionais.

O bloqueio da página de Orlando Castro pode ser um desses casos. Grupos organizados na defesa do MPLA e do Governo de Angola são os suspeitos de terem invadido a página e de a manterem sob ocupação. O certo é que o hacker se autodenomina Meta Centrol AI. Para as abordagens, estes piratas informáticos utilizam preferencialmente o Messenger. O que faz a META para proteger os utilizadores das suas redes sociais? Pouco. Disponibiliza uns formulários que a maioria desconhece existirem, demora a reagir ou reage com… silêncio.

De momento, a página deste jornalista desapareceu, como comprovei numa busca efetuada.

MUSEU DO FRACASSO

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Apenas na Suécia é possível encontrar um museu dedicado a um falhanço rotundo, a um empreendimento mal construído que resultou numa vergonha nacional. Falamos do Museu Vasa, dedicado ao maior navio da armada da Suécia, construído no século XVII.

Vasa é um navio de guerra, o maior da sua época. Na sua construção, o rei Gustavo II chamou os melhores arquitetos navais do reino, os melhores carpinteiros, os mestres da calafetagem, os escultores e os pintores, todos os que iriam fazer, em conjunto, o mais poderoso navio de guerra da época. O rei quis um navio com dois decks para artilharia, quis mastros altos e muito pano para apanhar vento que o levasse com rapidez a cruzar os mares. O navio foi baptizado “Vasa”, o nome da dinastia que naquela época governava o reino.

Nada disto impediu que o navio afundasse na viagem inaugural, depois de ter navegado apenas cerca de 1 milha desde o estaleiro em que foi construído e lançado  à água, em Estocolmo. Estava bom tempo, soprava uma brisa amena, mas o navio foi mal construído, adernou de tal maneira que começou a meter água pelas portas dos canhões e foi ao fundo num ápice. Morreram cerca de 50 marinheiros. Foi uma catástrofe para o reino, uma vergonha nacional quando a Suécia guerreava com a Polónia pela expansão do seu império territorial.

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Durante 300 anos o Vasa ficou a 30 metros de profundidade, as correntes e as marés enterraram o naufrágio sob uma espessa camada de lama. Até que um dia deram com o navio e o retiraram do fundo do mar, numa extraordinária operação de recuperação dos destroços e de preservação da relíquia. É um imponente testemunho de outras épocas, o maior e mais bem conservado navio do século XVII que existe em todo o mundo.

O Vasa impressiona por estar praticamente intacto, pelo trabalho de preservação que foi feito das madeiras de carvalho que foi utilizado na sua construção, pelo espólio que foi igualmente recuperado, desde equipamentos da palamenta do navio até aos esqueletos dos que com ele foram para o fundo.

Não deixa de ser o retrato de um fracasso, mas até nisso há uma espécie de grandeza do povo da Suécia, que soube aprender mesmo quando as coisas correram demasiado mal.

O Vasa e uma maquete do navio em 1º plano

AO SABOR DAS SONDAGENS

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Em primeiro lugar verifica-se uma tentativa, evidente, de levar Gouveia e Melo à segunda volta, pois os grupos económicos que apostaram nele precisam da sua presença na Presidência. Num tempo em que a pressão internacional irá determinar uma profunda alteração da política internacional e da economia global, desconfiam deste governo e do caminho errático que poderá tomar. Em segundo lugar, fizeram subir António José Seguro convencendo-se que a esquerda não votaria nele, – o que se começa a revelar ser um erro de análise – com a intenção, clara, de desmobilizar os seus eleitores, dando como certa a passagem dele à segunda volta e para concentrar o voto do centro direita em Cotrim de Figueiredo, deixando Marques Mendes à sua sorte, com a convicção de que, com esta dispersão dos votos a segunda volta seria entre Gouveia e Melo e André Ventura, e que o primeiro sairia vencedor.

A coisa é por demais evidente, mas o que estes ‘aprendizes de feiticeiro’ não perceberam foi o impulso que acabaram por dar à campanha de António José Seguro que, sem apelar ao voto útil, vê o eleitorado de esquerda a ‘fugir’ dos seus candidatos e a concentrar o voto no ex-secretário geral do PS, fundamentalmente porque o eleitorado que vota no PCP, no BE e no Livre, não quer Marques Mendes ou Gouveia e Melo na Presidência.

A poucos dias do acto eleitoral nota-se uma profunda desorientação na candidatura de Marques Mendes, que colou o seu destino ao do governo, sem ter percebido que esta colagem seria fatal. O debate de ontem, na AR, sobre a saúde, pode ter sido o princípio do fim da candidatura de Marques Mendes. O crescimento de Gouveia e Melo poderá levá-lo à segunda volta, o que iria transformar a eleição presidencial num patamar de dramatismo político idêntico ao das eleições de 1986. O confronto Gouveia e Melo/ António José Seguro seria interessante e um factor de mobilização do eleitorado.

AS PALAVRAS E O ‘NOBEL’

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As palavras, em português pelo menos, têm um significado. Um significado claro. Assim, de acordo com os variados dicionários, ‘capturar’ quer dizer ‘prender ou apreender’. Por outro lado, ‘raptar’ diz ser ‘roubar ou arrebatar alguém ou algo à força, com violência, ou cometer o crime de rapto, que é sequestrar uma pessoa, geralmente pedindo resgate ou para fins ilícitos’. Vem isto a propósito da situação do ‘deposto’ (dizem) presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Deixo claro que não sou apoiante do que classifico de uma ditadura. Mas quando dizem que Trump capturou Maduro, isso é falso. Trump, de facto, raptou Maduro.

Segundo afirmou o presidente dos EUA, pretende-se que a Venezuela seja uma democracia. Mas como? Com mais jornalistas presos, com mais prisões arbitrárias de cidadãos, com milícias armadas nas ruas? Que democracia? Como a da Arábia Saudita onde não há eleições, as mulheres são tratadas como se sabe e os assassinos de jornalistas ficam impunes?

De facto, não se trata de combate ao tráfico de droga ou ao terrorismo, nem tão pouco de ajudar a democratizar o país. Trata-se, antes, do petróleo que, durante 50 anos, serviu os EUA e, nos últimos anos, era vendido à China e até à Rússia. Trocaram-se os petrodólares por yuan, rublos e até euros. E isto os americanos não podem permitir, porque a ‘cultura’ do dólar caiu substancialmente. E, se dúvidas houvesse, vejam-se os ataques, entre a Islândia e a Escócia, aos petroleiros, aparentemente vindos da Venezuela, e apreendidos pelos americanos, ‘em cumprimento de um mandado emitido por um tribunal federal norte-americano depois de ter sido rastreado’, segundo Karoline Leavitt. Não se sabe ainda com que legitimidade. É só petróleo.

Isto faz lembrar quando os americanos invadiram o Iraque e depuseram Sadam Hussein. Iam combater as armas de destruição maciça que nunca foram encontradas. Claro, ficaram com o petróleo.

A História está cheia de feitos destes, levados a cabo pelos EUA sempre que se ameaçam os dólares do petróleo. Uma vez mais, tudo se repete.

Resta saber como vai a União Europeia opor-se à ‘conquista’ da Gronelândia e se o Rei Frederico X da Dinamarca vai ser exibido, sem nenhuma dignidade, como sucedeu com Hussein e Maduro. Goste-se ou não, e eu não gosto dos dois últimos, há princípios e direitos humanos que devem ser respeitados.

Por isso, ao indivíduo que se arvorou em Nobel da Paz, prometendo (o que não cumpriu, nem vai cumprir) a Paz entre a Rússia e a Ucrânia, ofereça-se-lhe o ‘Nobel’ da guerra. É para lá que ele nos leva.

MUDAM AS MOSCAS…

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O colonialismo europeu, iniciado no século XIV com a chamada “descoberta” de novos mundos pelos navegadores portugueses, fez da Europa senhora do planeta. Ingleses e franceses colonizaram a América do Norte; portugueses e espanhóis submeteram a América do Sul e Central; África foi retalhada entre ingleses, alemães, belgas, portugueses e franceses; a Ásia conheceu destino semelhante. Poucos povos escaparam à dominação colonial.

Durante séculos de ocupação e exploração, não foi apenas a escravatura humana que devastou esses territórios. Houve também a espoliação sistemática de recursos: ouro, prata, especiarias e produtos agrícolas como o açúcar, que alimentaram a acumulação de riqueza na Europa. O progresso europeu assentou, em larga medida, nesta pilhagem organizada.

Essas conquistas foram acompanhadas por genocídios em larga escala. Os povos indígenas da América do Norte foram quase exterminados pelos colonos europeus. Na América Latina, alguns historiadores estimam em mais de 50 milhões o número de indígenas mortos durante a colonização espanhola. Portugal não esteve isento de crimes semelhantes, quer no Brasil, quer em África. O Congo belga, sob o reinado de Leopoldo II, representa talvez o ápice do horror colonial europeu.

Esses crimes históricos tendem hoje a ser relativizados. O sofrimento alheio, quando distante no tempo, é facilmente diluído em narrativas civilizacionais ou atenuado por uma falsa neutralidade histórica. Mas o presente começa a devolver-nos uma imagem perturbadora desse passado.

O ressurgimento de um colonialismo explícito por parte dos Estados Unidos, como reação às tentativas de erosão do império que construíram ao longo dos últimos 250 anos, permite-nos vislumbrar, pela primeira vez, o que outros povos sentiram quando foram submetidos pela força dos canhões. Ontem, o pretexto era a “expansão do cristianismo”. Hoje, chama-se “democratização”. A lógica é a mesma, a mentira também. Hoje é pelo petróleo, gás natural, terras raras, que se fazem as guerras dos EUA.

Sem remorso e sem qualquer assunção de culpa histórica, o Ocidente prepara-se para aceitar aquilo que outrora impôs. A Dinamarca ficará sem a Gronelândia e nada será feito para contrariar uma intenção já assumida por Donald Trump. O direito internacional, tal como a moral que o sustenta, revela-se descartável quando confrontado com a lei do mais forte.

O NOVO XERIFE

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colagem fotográfica

O alvo desse discurso de fevereiro de 2025 foi a Europa. Vance acusou os governos europeus de laxismo migratório, fragilidade militar e de tentativas de limitar o crescimento político da extrema-direita. Falava em nome de Donald Trump, para quem a imigração é uma ameaça existencial e a soberania europeia um assunto a gerir a partir de Washington.

Um discurso que escondeu a verdadeira origem do mal: o principal fator de instabilidade global não são as políticas europeias, mas a própria administração norte-americana.

O rapto do Presidente da Venezuela e da sua esposa por forças dos Estados Unidos, sob acusações formuladas por juizes norte-americanos, constitui uma violação grave do direito internacional. Trata-se da detenção de um chefe de Estado soberano, sem mandato internacional e à margem das Nações Unidas.

Este rapto insere-se num padrão mais amplo. As ameaças dirigidas a países da América Latina, Colômbia e Cuba, ao Canadá, ao Irão, e até à Dinamarca revelam uma estratégia de intimidação política, pressão militar e controlo de recursos estratégicos. O discurso da segurança serve apenas de cobertura a uma lógica de dominação.

A apreensão de petroleiros em águas internacionais, com base exclusiva em sanções impostas por Washington, confirma esse desvio. Não há legalidade, não há consenso jurídico, não há respeito pela soberania de terceiros. Há imposição de poder. São atos de pirataria.

Perante este quadro, a reação internacional é débil. A União Europeia limita-se a declarações cautelosas, a NATO finge que não se passa nada e as Nações Unidas assistem à erosão da sua própria autoridade. A ordem internacional baseada em regras está a ser substituída, sem resistência séria, por uma ordem baseada na força.

O “novo xerife” não protege a lei. Suspende-a quando lhe convém. “Governa” por ameaça e transforma o abuso de poder em política externa.

TRANSFORMAR A PEDRA BRUTA

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Imagens de esculturas a que se convencionou dar o nome de «O Pensador» estiveram na base da reflexão que partilhámos aqui. Quiçá o tema seja, porém, inesgotável.

Em primeiro lugar, porque «O Desterrado» – escultura em mármore de Carrara, que constituiu, em Roma, no ano de 1872, a prova final do curso de Escultura de Soares dos Reis – também poderia incluir-se nesse tipo de imagens, ainda que, neste caso, porque inspirado no poema «As Tristezas do Desterro», de Alexandre Herculano, possa constituir a saudade o sentimento maior que dessa imagem promana e não uma reflexão geral sobre a vida humana.

O Desterrado de Soares dos Reis

Depois, se a escultura tradicional angolana está envolta, como vimos, em multissecular halo espiritual, a peça pré-histórica carece de uma explicação que se não deu, mormente devido à singularidade esquemática do seu perfil. Daí que Helena Ventura haja comentado:

«Não me importava de ter uma peça semelhante que, atendendo a tão remota Era, é perfeita tanto na beleza do material usado (basalto, turmalina?) como no posicionamento de tronco e membros.

E é aqui, nesta semelhança entre mais e menos antigas, próximas e distantes, que o acto de pensar parece unir os homens de todas as gerações».

E quase foi no mesmo sentido o que, por seu turno, Helena Coelho houve por bem escrever:

«A imagem pré-histórica do Pensador é impressionante. Poderia ser uma escultura bem representativa do século XXI. Realmente o Homem é um Pensador e um Criador desde tempos imemoriais».

Importa, pois, dar conta, desde logo, que a fotografia mostra a réplica oferecida, em Abril de 2012, pelo director do Museu Nacional de História da Roménia, de Bucareste, por ocasião da visita aí realizada por elementos do Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia (Lisboa). A peça detém no museu o nº de inventário 15 906.

O «casal» da época neolítica

Trata-se de uma terracota e o que se apresentou foi apenas o elemento masculino de um casal – em inglês, « The Thinker and the Sitting Woman» – pertencente à chamada «Cultura Hamangia», datada do Neolítico Final, ou seja, aproximadamente de 5000 anos antes de Cristo. Mede 11,5 centímetros de alto e 7,5 de largura.

A descoberta ocorreu em 1956, perto da povoação romena de Cernavodă, região de Constanţa, na bacia hidrográfica do rio Danúbio.

Oportunas, sem dúvida, também pelo que ora acaba de se explanar, as palavras de Helena Coelho: «O Homem é um Pensador e um Criador desde tempos imemoriais».

OS POPULARES CANTOS QUE VÃO DO NATAL AO DIA DE REIS

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A carismática celebração do Natal e do sequente tempo que se estende até ao Dia de Reis integra, como festa, componentes diferenciadas, que vão da assistência aos actos religiosos – onde a Missa da Meia Noite do Dia de Natal é dita Missa do Galo – do beijar do Menino, da execução de um presépio, da típica Fogueira de Natal em praça de aldeia ou da queima de um tronco simbólico nas lareiras familiares, aos cânticos típicos da época.

De entre estes destacamos os cerimoniais cantares da liturgia natalícia, como o Adeste Fideles, vindo já do século XVII; o emblemático canto que conhecemos como Noite Feliz (Silent Night), de 1818, hoje Património Cultural da Humanidade; o Gingle Bells, que foi criado, em 1859, para celebrar o Dia de Acção de Graças, nos Estados Unidos e depois se tornou canto de Natal; e lembramos esse bonito canto de Zeca Afonso – Vamos cantar as Janeiras – que, com outros ritmos da sua obra “Natal dos Simples”, se mantém como cântico clássico e não folclórico.

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Os cantos que habitualmente designamos Cantos de Janeiras ou Cantos de Reis ou Reisadas, de um folclore que vem de longínqua origem, pelo menos do século XVI, fazem parte de uma genuína tradição popular de tal modo cimentada nos costumes da gente simples do povo que os ritmos da vida moderna, o abandono das aldeias e uma prática económica diferenciada não fizeram apagar.

E hoje os temos, os Cantadores de Janeiras, os Cantadores dos Reis ou reiseiros integrados, no geral, nos Agrupamentos Folclóricos que, nesta mais alargada época do Natal, promovem espectáculos, que, às vezes, integram vários grupos concertados para o efeito, aproveitando, no geral, como antes acontecia, o tempo nocturno de silêncio e de paz.

Já não requerem, cantando, os frutos da terra, como antes acontecia; quando muito, requerem pouco mais que migalhas dos recursos do erário municipal para desenvolverem e manterem essas tradições culturais e cívicas de que fazem seu propósito.

Voltando à tradição, evoco esses grupos familiares ou de garotos de rua que se juntavam nas aldeias, ao cair da noite que antecedia a festa do Primeiro Dia de Janeiro, celebratória da Circuncisão do Menino, rito da cultura judaica; evoco a festa da véspera do Dia de Reis, hoje esquecida, e a mansa solenidade desses cantares de paz.

Percorriam as ruas das aldeias, sustendo-se junto dos portais das casas mais abonadas, requerendo, em troca do canto, esses dons da economia local de matriz agrária.

Como testemunho, trago, da lição que o beirão Aquilino Ribeiro nos deixou no seu encantador livrinho – O Livro do Menino Deus, dos meados do século anterior, um breve texto destes cantares. -Assim:

Às vezes não eram atendidos e então cantavam, ao jeito da medieva idade, um cântico de escárnio e maldizer:

E seguiam para outra morada.

Quanto a nós, voltaremos num qualquer dia de um amanhã pouco distante.