Donald Trump não inaugura nada. Limita-se a dizer em voz alta o que sempre foi prática corrente. Não fala de democracia nem de direitos humanos. Fala de petróleo, de controlo, de obediência. Nesse sentido, é mais honesto do que os seus antecessores.
A reação europeia é politicamente miserável. A União Europeia, que se apresentou durante mais de 60 anos como espaço de liberdade e autonomia, abdicou de qualquer papel próprio quando escolheu alinhar com Washington na guerra de desgaste contra a Rússia, em vez de procurar mediação. Agora, perante a agressão contra a Venezuela, o tom baixo soa a cumplicidade. A Europa aceita o papel subalterno de garçonete na mesa dos banquetes de Trump. Serve e cala-se.
As ameaças já se estendem à Colômbia e a Cuba, por terem manifestado solidariedade com Caracas. Nicolás Maduro será levado a tribunal em Nova Iorque sob acusações difusas e contraditórias: “narcoterrorismo”, tráfico de droga, assassinato de traficantes. Um absurdo lógico. Quem manda matar traficantes deveria ser premiado, não capturado, a menos que os mortos não fossem inimigos, mas parceiros incómodos.
A cobiça sobre a Gronelândia completa o quadro. Um território estratégico, rico em recursos, pertencente à Dinamarca — um país sem capacidade militar para o defender caso fosse invadido pelos Estados Unidos. O detalhe é explosivo: a Dinamarca é membro da NATO. Trump não ameaça apenas o direito internacional, ameaça também a própria arquitetura da aliança atlântica. Um membro da NATO a agredir outro membro da NATO não é um detalhe, é a implosão do sistema.
Quando a força substitui o direito, os tribunais tornam-se instrumentos da política e as alianças são descartáveis, o problema já não é a Venezuela, nem a Gronelândia. É a normalização de um mundo sem regras, governado pelo mais forte, com o silêncio obediente dos seus aliados.



