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A ESTRANHA HISTÓRIA DO REI MAGO BALTASAR

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Singular, de intensidade, a história de Baltasar, um dos três reis do Oriente,  que, numa inquieta noite,  sente, mais veemente, o vazio dos dias que a fortuna do palácio não lhe preenchia. E eis que descobre, ao amanhecer dessa noite de insónia e devaneio, ao assomar ao terraço do jardim, um homem ainda jovem que, recolhido na sua miséria, o olhava da rua sem rancor.

Fê-lo o rei entrar no palácio e. quando se prontificava a serví-lo, eis que o pobre homem se escapara, assustado.

Manda o rei procurá-lo, dando aos guardas os sinais do ”homem jovem e magro vestido de farrapos”. Mas os guardas voltaram dizendo ao rei que eram sem conto os homens como aquele que o rei descrevia. E só então aquele rei desceu ao chão onde vivia o seu povo e viu a multidão de esfomeados.

Entrou no templo e olhou devagar os seus altares. Um deles era dedicado ao deus dos poderosos, outro à deusa da terra fértil, outro ainda ao deus da sabedoria.

E perguntou o rei aos sacerdotes que ali serviam:

Na angustiada noite que se seguiu, Baltasar subiu ao terraço alto do palácio e fez do seu grito uma oração:

– Como poderei, ó deus dos pobres e humilhados, suportar o que vi se não te vir?

E foi então que uma estrela se ergueu e o guiou.

Escrevo evocando uma velha noite de um Natal antigo sempre lembrado com saudade. Era menino na aldeia. O Rei Baltasar era apenas uma poética figurinha no presépio da igreja. Nesse tempo, como acontecera a Baltasar, não me tinha dado ainda conta dos pés descalços, das roupas remendadas, do rosto magro de tanta gente que vivia ao pé de mim.

Meio século se passou desde então.

O “Rei Baltasar” que governa o meu país, os príncipes que ele chamou para conselheiros, os chefes dos guardas, os ministros todos que ele tem e os representantes que levou das províncias ou nelas deixou, não têm descido à rua, parece, e se descem os seus carros passam de cortinas corridas e nenhum deles vê as desgraças que Baltasar viu quando desceu e peregrinou entre o seu povo.

Ah! Se aquela estranha e antiga estrela pudesse ter sido avistada, de novo, no céu!… Se o rei Baltasar de nosso tempo e os seus ministros e os seus conselheiros e os seus guardas e demais criados tivessem um coração humilde…

O MUNDO SEM REGRAS

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Donald Trump não inaugura nada. Limita-se a dizer em voz alta o que sempre foi prática corrente. Não fala de democracia nem de direitos humanos. Fala de petróleo, de controlo, de obediência. Nesse sentido, é mais honesto do que os seus antecessores.

A reação europeia é politicamente miserável. A União Europeia, que se apresentou durante mais de 60 anos como espaço de liberdade e autonomia, abdicou de qualquer papel próprio quando escolheu alinhar com Washington na guerra de desgaste contra a Rússia, em vez de procurar mediação. Agora, perante a agressão contra a Venezuela, o tom baixo soa a cumplicidade. A Europa aceita o papel subalterno de garçonete na mesa dos banquetes de Trump. Serve e cala-se.

As ameaças já se estendem à Colômbia e a Cuba, por terem manifestado solidariedade com Caracas. Nicolás Maduro será levado a tribunal em Nova Iorque sob acusações difusas e contraditórias: “narcoterrorismo”, tráfico de droga, assassinato de traficantes. Um absurdo lógico. Quem manda matar traficantes deveria ser premiado, não capturado, a menos que os mortos não fossem inimigos, mas parceiros incómodos.

A cobiça sobre a Gronelândia completa o quadro. Um território estratégico, rico em recursos, pertencente à Dinamarca — um país sem capacidade militar para o defender caso fosse invadido pelos Estados Unidos. O detalhe é explosivo: a Dinamarca é membro da NATO. Trump não ameaça apenas o direito internacional, ameaça também a própria arquitetura da aliança atlântica. Um membro da NATO a agredir outro membro da NATO não é um detalhe, é a implosão do sistema.

Quando a força substitui o direito, os tribunais tornam-se instrumentos da política e as alianças são descartáveis, o problema já não é a Venezuela, nem a Gronelândia. É a normalização de um mundo sem regras, governado pelo mais forte, com o silêncio obediente dos seus aliados.

COLONIALISMO DESCARADO

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Donald Trump fala como se fosse normal invadir um país soberano, raptar o seu Presidente e anunciar que os Estados Unidos passam a governar a Venezuela. Fala como se a política da canhoneira nunca tivesse saído de cena. E, perante o silêncio global, talvez tenha razão.

A Carta das Nações Unidas deixou de valer. O chamado direito internacional foi enterrado sem cerimónia. Não por ambiguidades jurídicas, mas por força bruta exercida por quem pode e tolerada por quem cala.

Nicolás Maduro só pode ter caído por traição. Uma operação militar desta dimensão não se faz sem cumplicidades internas. Maduro confiou nas Forças Armadas, mas Washington negociou com quem se dispôs a vender essa confiança. A corrupção foi a porta de entrada.

O pretexto do combate ao tráfico de droga caiu nas primeiras palavras de Trump ao anunciar “vitória”. A realidade revelou-se depressa: as grandes petrolíferas norte-americanas vão assumir o controlo, investir na recuperação das infraestruturas e recuperar os lucros perdidos desde a nacionalização no tempo de Hugo Chávez.

vídeo: conferência de imprensa de Donald Trump

Não estamos perante uma revolução teleguiada. É uma mudança de regime executada diretamente por uma potência militar. Colonialismo puro, sem metáforas, sustentado por armas.

O mundo assiste sem estrebuchar. Os Estados Unidos retomam o controlo do seu “quintal”. Se lhe sobrar tempo, avançará para a Gronelândia, território administrado pela Dinamarca.

As ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DO NOSSO DESCONTENTAMENTO

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Começamos pela coisa mais ridícula, inacreditável e que deveria servir de exemplo do mau jornalismo, a anunciada vitória, inquestionável e garantida, do novo D. Sebastião, à primeira volta, surgido na proa de um submarino e rodeado de paletes de vacinas.

Verificamos, igualmente, nesta primeira fase, uma radicalização da campanha, que pode levar a um aumento do número de eleitores, com concentração de votos à direita e à esquerda, porquanto, nas presidenciais, o voto não é, apenas, decidido por opção partidária.

O Grupo TVI/CNN apostou em força na vitória eleitoral de Gouveia e Melo e tentou condicionar o aparecimento de outras candidaturas, ‘oferecendo’ sondagens que davam a vitória, logo à primeira volta, ao ‘seu’ candidato, o homem que estava acima dos partidos e fora do sistema. Confesso que embirro com esta ‘história’, por ser falaciosa e hipócrita, mas que é alimentada, à exaustão, por comentadores e jornalistas que vivem do sistema e no sistema.

A partir desta ‘verdade’, ancorada em sondagens de origem duvidosa, os apoiantes de Gouveia e Melo, uma grande parte ligada a partidos, ou que sempre a eles estiveram ligados, e uma outra parte ligada a interesses na comunicação social e aos negócios, tentaram ‘cavalgar’ uma certeza, artificial, de que o ‘seu’ candidato iria recolher os votos de todos os eleitores da AD, do Chega  e de algum eleitorado do PS, potenciando uma vitória à primeira volta.

‘Enganos meus, má fortuna’ porquanto, após a apresentação das candidaturas de Marques Mendes e de António José Seguro e das primeiras entrevistas, a tal vantagem começou a fragmentar-se à velocidade da luz.

Com o famoso almoço, promovido pelo dono da TVI/CNN, o tal das interacções entre o candidato Gouveia e Melo e o líder do Chega – um erro estratégico, de que o principal responsável é Mário Ferreira e a sua ambição de alargar o seu poder nos media-, abriu-se o caminho à candidatura de André Ventura que retira, à partida, uma parte substancial de votos a Gouveia e Melo, o que é relevante e vai determinar que aquele candidato nem chegue à segunda volta.

Gouveia e Melo arrisca-se a não ter mais do que os votos perdidos, dos três principais candidatos, numa situação semelhante à de Fernando Nobre em 2011.

O eleitorado do PSD não irá votar em massa em Marques Mendes, assim como António José Seguro não terá o voto unânime do eleitorado do PS. André Ventura será, talvez, o único candidato que poderá recolher os votos de todos os eleitores do Chega, numa luta a três, com um desfecho imprevisível. Gouveia e Melo, para passar à segunda volta, teria de ir buscar votos aos outros três candidatos, o que se afigura, por muito esfoço que se faça na sua promoção, bastante complicado, ainda para mais depois das desastrosas participações nos debates eleitorais.

Gouveia e Melo – e principalmente Mário Ferreira – com a sede de ir ao ‘pote’, ou seja, aos eleitores do Chega, embarcaram numa manobra de bastidores que os levou a esta situação. Certamente estavam convencidos que, prometendo alguma coisa a André Ventura, este iria dar-lhes os votos. Erro clamoroso de um ‘aprendiz de feiticeiro’.

André Ventura percebeu que Gouveia e Melo está em dificuldades e que, sem o eleitorado do Chega, não vai a lado algum, pelo que decidiu acabar com as esperanças de Mário Ferreira em imitar Emídio Rangel e ‘vender um candidato, como se vende um detergente’ (recordemos que Emídio Rangel defendia que uma televisão com 50 por cento de quota de audiência poderia, se quisesse ‘vender’ um Presidente da República como se vende um detergente. Assim, André Ventura aproveitou esta oportunidade para fidelizar o seu eleitorado, mesmo sabendo que será impossível ganhar as presidenciais, mas tendo como objectivo, para demonstrar a força do Chega, ficar em primeiro lugar na primeira volta, abrindo o caminho para ganhar as próximas legislativas.

O que está em causa é saber quem vai à segunda volta, isto é, se André Ventura tem lugar certo na segunda volta e o outro candidato será Marques Mendes ou António José Seguro.

Esta a questão fundamental e que, sem colocar em crise os outros candidatos, os eleitores deveriam ponderar se querem uma segunda volta entre André Ventura e Marques Mendes, ou uma segunda volta entre André Ventura e António José Seguro. Quer se queira quer não, vai ser na primeira volta que se definirá quem será o próximo Presidente da República.

Dois pontos a terminar, Marcelo Rebelo de Sousa, um dos grandes responsáveis pela situação pantanosa que se vive no nosso País, leu-nos o seu auto-retrato, pela caneta de Eça de Queiroz, envergonhando os portugueses e os eleitores que votaram nele. Enquanto isto, Trump invadiu a Venezuela e o Mundo vai mudar em 2026…

UM SOCIALISTA EM NOVA IORQUE

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A eleição de Zohran Mamdani pode ser lida como um primeiro sinal de erosão do regime político-cultural imposto por Donald Trump. Nova Iorque volta a funcionar como laboratório democrático, demonstra que é possível substituir o culto da força, do militarismo e da intimidação por uma agenda declaradamente humanista.

O simbolismo foi imediato. Mamdani prestou juramento com a fórmula ritual “so help me God” (assim Deus me ajude), mas com a mão pousada no Corão. As palavras mantêm-se, o livro muda. Num tempo marcado pela demonização sistemática do Islão (talvez a mais intensa desde o pós-11 de Setembro), o gesto tem um peso político que ultrapassa o protocolo. Não é uma provocação, é uma afirmação de pertença democrática.

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Mais perturbador, para certos setores, foi o que Mamdani afirmou durante a campanha: Nova Iorque deixará de ser porto seguro para líderes procurados pelo Tribunal Penal Internacional. Se isso se traduzir em prática política, Benjamin Netanyahu corre o risco de ser detido caso ponha os pés na cidade. Não é um detalhe: é um choque direto entre direito internacional e a habitual excecionalidade concedida a Israel.

As primeiras medidas do novo mayor foram igualmente claras. Em vez de baixar impostos aos senhorios, Mamdani atacou frontalmente a crise habitacional. Reativou o Gabinete de Proteção do Inquilino, nomeou para a sua direção uma ativista da habitação pública e aprovou um decreto que protege os inquilinos no processo de falência de uma das maiores empresas imobiliárias da cidade, uma empresa com milhares de violações registadas e dívidas à autarquia. Política concreta, com alvos identificáveis.

Resta acrescentar um dado que, nos Estados Unidos, continua a soar quase subversivo: Zohran Mamdani é filiado no Partido Democrata, mas assume-se como socialista. Num país onde a palavra ainda funciona como anátema político, a sua eleição diz tudo sobre a exaustão com um sistema que protege os mais ricos, perdoa crimes de guerra e chama “extremismo” a qualquer tentativa de justiça social.

O Império não caiu, mas Nova Iorque lembrou-nos que eles não são eternos.

A MÁQUINA DA PROPAGANDA DISFARÇADA

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Como observador atento dos mecanismos de informação em Bruxelas e seu ricochete em Portugal, constato uma arquitectura sofisticada de modelação da opinião pública. Os recentes financiamentos da UE à RTP e Lusa cifrados em 1,7 € milhões para “projectos de coesão” e “combate à desinformação” revelam apenas a ponta visível de um icebergue muito mais profundo.

Estes financiamentos, embora apresentados como apoio ao jornalismo, criam dependências estruturais que comprometem a independência editorial. Quando uma organização mediática como a  RTP e a Lusa depende significativamente de verbas europeias para projetos específicos, desenvolve-se uma autocensura preventiva, o que não se alinha com as prioridades de Bruxelas dificilmente recebe atenção ou recursos.

Mecanismos subtis de influência mediática estão a criar um consenso artificial e a sufocar o debate democrático na União Europeia. O resultado é uma paisagem mediática surpreendentemente homogénea com o povo a repetir o que lhe é apresentado.

A Fábrica dos “Comentadores Independentes”

Observa-se em Bruxelas um ecossistema de grupos consultores (think tanks), fundações e grupos de peritos que alimentam constantemente os meios de comunicação com “especialistas independentes”. Esta independência é frequentemente ilusória, muitos destes comentadores são financiados directa ou indirectamente por estruturas ligadas às instituições europeias ou por países com agendas específicas.

Em Portugal, este fenómeno replica-se através de comentadores que dominam os painéis televisivos, repetindo narrativas perfeitamente alinhadas com as posições oficiais de Bruxelas sobre temas como a guerra na Ucrânia, as políticas sanitárias ou a integração europeia. A diversidade de perspectivas genuinamente críticas é marginalizada.

A Ditadura do Consenso e o Silenciamento da Crítica

Cria-se assim uma ditadura do consenso onde posições divergentes são sistematicamente enquadradas como: “Desinformação” quando questionam narrativas oficiais, “Populismo” quando reflectem preocupações populares não alinhadas, “Pró-Rússia” quando criticam políticas da NATO ou da EU.

O caso ucraniano é paradigmático: enquanto se denuncia alegada propaganda russa, financia-se massivamente uma narrativa unilateral que ignora complexidades históricas, interesses geopolíticos e responsabilidades partilhadas no conflito. Questionar esta narrativa tornou-se tabu mediático.

Da Censura tradicional à Censura digital

Assistimos a uma evolução da censura que evoluiu da censura da PIDE para mecanismos mais sofisticados, ou seja, da repressão clássica para um controlo moderno baseado em financiamentos condicionados a quem se alinha, na descredibilização social enquadrando o crítico como radical ou negacionista  e na colaboração com plataformas digitais que colaboram com governos para limitar discursos “problemáticos” ou que apontam para perspectivas não conformistas.

Também ameaça do dinheiro digital representa um salto qualitativo neste controlo, permite bloquear instantaneamente o acesso a recursos financeiros de dissidentes políticos, activistas ou simples cidadãos com opiniões inconvenientes, como já está a ser praticado.

O Paradoxo Democrático

Este sistema, que se apresenta como defensor da democracia, está a construir um novo autoritarismo tecnocrático mais radical. Usa o fantasma do passado para silenciar as críticas ao presente. Por seu lado, as elites tecnocráticas de Bruxelas, não eleitas directamente, impõem políticas que afectam milhões, enquanto o Parlamento Europeu, com poderes limitados, serve frequentemente de fachada democrática e por outro lado os parlamentos nacionais são contornados pelos governos ou usados para aprovar directrizes sem discussaotarnsformando-se também eles em câmaras de eco de Bruxelas.

Em Portugal, este sistema manifesta-se através do alinhamento automático com posições europeias, da marginalização de visões críticas da EU e da utilização sistemática do fantasma do salazarismo para descredibilizar críticas legítimas ao autoritarismo contemporâneo.

A Verdade na Gaveta

Enquanto se gasta milhões a “combater a desinformação”, ignora-se que a maior desinformação pode ser a que vem embrulhada em selos oficiais. As histórias inconvenientes, sobre corrupção, sobre falhanços políticos, sobre alternativas reais, permanecem na gaveta.

O povo português, como outros povos europeus, merece melhor que este jornalismo de subserviência. Merece um debate aberto sobre o futuro da Europa, sobre a nossa posição no mundo, sobre as políticas que nos afectam diariamente.

Exige-se transparência radical sobre financiamentos, conflitos de interesse e relações de poder. A verdadeira democracia não teme o dissenso, teme apenas o silêncio imposto e a manipulação dos povos que passam a ser meros reprodutores das intenções dos tecnocratas de Bruxelas.

A democracia exige vozes diversas, não um coro que canta a mesma melodia encomendada.

(crónica também publicada em Pegadas do Tempo)

COM PAPAS E BOLOS…

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A mãe de um amigo tem 67 anos. A agricultura levou-lhe tudo, até a saúde, pois teve de se reformar por invalidez. Tendo descontado (como quase todos os trabalhadores agrícolas) pelo mínimo, já que os próprios ordenados eram de miséria, aufere 498 euros de pensão. Muito, mas muito longe do valor de renda de casa moderada (2.300 euros) preconizado pelo governo. Vai, assim, receber mais 13,76 euros por mês, e ironiza: ‘nem sei o que fazer a tanto dinheiro’.

Mas, por outro lado, lamentou-se: ‘Com tantos aumentos, já no início do ano, não dá nem para os gastos do pão durante uma semana’.

Uma vida de trabalho duro no campo e em casa, a tratar dos animais, da terra, dos filhos e tudo o mais que implica ser mãe. A mãe do meu amigo queria escrever ao primeiro-ministro, ‘ou talvez telefonar-lhe’, sugeriu na quase ingenuidade de quem vive longe da realidade do poder.

Falava, ainda, a Comunicação Social de quem vai receber 40 e 50 euros de aumento, correspondentes a pensões mais elevadas do que a que recebe a mãe do meu amigo. Deixaram de fora as milionárias. Continua a ser o favorecimento dos que mais têm e o resto, promessas e mais promessas, dança de cadeiras no SNS com privilégios para quem for do PSD, trocas e baldrocas nas autarquias e todos nós entregues aos ‘bichos’ que prometem portar-se bem e cada vez são piores. Justificam, em última análise, com ‘a conjuntura internacional’. O problema é que ainda há quem acredite, esquecendo-se que ‘com papas e bolos se enganam os tolos’.

O novo ano não promete ser melhor do que este. Pelo contrário, avizinham-se tempos muito difíceis, sobretudo para os reformados e os doentes, as crianças e os velhos, todos os que são mais vulneráveis.

Ainda assim, vim aqui para desejar a todos um Feliz 2026!

O CASTELO DE PENEDONO

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Do Castelo de Penedono ancorado nesse promontório rochoso de onde se vigia, como se mar fosse, a interminável paisagem de vale e serra, ninguém sabe dos começos, do desenho, dos panos de muros inicialmente levantados, das pelejas acontecidas nos ermos territórios ao redor.

A primeira notícia sólida colhe-se no Testamento da poderosa D. Chamôa (ou Flâmula) Rodrigues que, recolhendo-se no ano de 960 ao Mosteiro de Guimarães, confia o castelo de Pena de Dono, actual Penedono, com outros vizinhos castelos – Trancoso, Sernancelhe, outros ainda – a sua tia, a Condessa Mumadona, que legará mais tarde todos os seus bens ao Mosteiro que fundara.

Situado numa Extremadura de continuadas arremetidas de cristãos e mouros, vem a cair sob domínio muçulmano, por ocasião da passagem de Almançor para Compostela, em 997, voltando novamente à posse de cristãos, aquando da “Campanha da Beira” empreendida por Fernando I de Leão, entre 1055 e 1064.

Arruinado numa antiga feição que desconhecemos, sofrerá reparo, quando D. Sancho I outorga foral ao concelho em 1195, empreendendo, então, o repovoamento de um ermo território.

Mas será a partir de finais do século XIV, quando a nobilitada família dos Coutinhos recebe, por mercê d’ El-Rei D. Fernando, estes domínios, que o castelo ganhará a feição que hoje apresenta, adquirindo, já em fins do século XV, inícios do XVI, a qualidade acrescentada de residência senhorial dos membros desta importante família terratenente, possuidora de numerosas terras, onde se incluía Lamego, com largas casas de morada, Sernancelhe, Penedono, Trancoso e algumas mais.

Não repugna que Álvaro Gonçalves Coutinho, o célebre “Magriço” que a lenda aureolou, tenha nascido no Castelo de Penedono, dado que seu pai, Gonçalo Vasques Coutinho, Marechal e Fronteiro da Beira, bastas vezes teria de estanciar por terras do seu domínio.

Será, todavia, seu irmão, o primogénito Vasco Fernandes, 1.º Conde de Marialva, quem herdará o título de alcaide, que passará a outros membros da família, cuja linhagem estranhamente se extingue antes dos meados do século XVI, após a morte de D. Guiomar Coutinho, que não deixa geração.

Pacificadas as fronteiras, alteradas as técnicas de guerra, o altaneiro castelo depressa sofre ruína: estremecem as pedras de seus muros de pedra miúda; o telhado desaba sobre o tabuado do chão de castanho do piso residencial onde só as janelas permanecem escancaradas; vazias de gente as pedras que a gente chama de namoradeiras; fendas abertas despejam a água da cisterna; desaparecem as traves que o gentio terá levado para habitação; e desolador se torna o retrato do castelo feito pelo cura que escreveu as “Memórias Paroquiais” em 1758.

Declarado Monumento Nacional em 1910, restaurado entre os anos 40 e 53 do século XX, pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais – ei-lo, sublime, eterna pátria do mítico Magriço, trágico e sedutor, dourado dos líquenes, dourado de nossas poéticas memórias.

MUITA TERRA, MUITA TERRA

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O comboio parte de Moçâmedes ainda com o cheiro salgado do Atlântico no ar. Na estação, a azafama é grande, a começar pela zona da bilheteira. Os bilhetes são passados à mão, e para poupar esforço, e tempo, as pessoas agrupam-se em pares, trios, ou quartetos por destino. Assim, um só bilhete, com o nº de passageiros, serve para mais que uma pessoa. Para quem está sozinho como eu, o desafio começa por ser encontrar quem vá para o mesmo destino.

Aliás, o desafio começa na tentativa de encontrar informação fidedigna sobre a circulação, ou não, do comboio e dos seus horários.  Mas apesar da aparente confusão todas as pessoas são agrupadas, entramos no comboio, as pessoas e as mercadorias, e o comboio sai pouco depois da hora marcada, 7 horas da matina.

A viagem até Bibala, outrora conhecida como Vila Arriaga, nascida de um acampamento de apoio à construção da linha do Caminho de Ferro de Moçâmedes (CFM), no interior da província do Namibe, é mais do que um simples deslocamento geográfico. É um percurso que atravessa paisagens, histórias e rotinas, sobretudo para quem vê no caminho-de-ferro — restabelecido em 2023, após 26 anos de interrupção — um meio essencial e facilitador de ligação entre o litoral e o planalto. 

À medida que a composição avança, o azul do mar cede lugar a tons ocres, às pedras e à vegetação resistente do sul de Angola. O ritmo do comboio impõe uma cadência própria, regular, quase hipnótica, que dita o tempo da observação. Pelas janelas, sucedem-se pedreiras, velhas casas coloniais abandonadas, pequenas povoações, campos abertos e montes que surgem e desaparecem como páginas de um livro viradas com calma. 

No interior das carruagens e à beira dos carris, o retrato é humano é muito diverso e colorido. No interior do comboio viajam comerciantes com sacos bem atados e outros que vão comprar mercadorias, mulheres que vendem no comboio um pouco de tudo – comida e sumos em sacos de plástico, panos, pentes e ganchos para o cabelo, produtos alimentares – trabalhadores em trânsito e famílias que aproveitam o transporte mais acessível para visitar parentes e ainda animais, vivos e mortos. As conversas cruzam-se em voz alta, alternando entre notícias locais, a saúde da família, preços dos mais variados produtos e outras coisas ditas em línguas locais que não entendo.

Há quem durma, quem apenas observe – como eu- e quem fale muito – como aquelas meninas que me olhavam com espanto, decerto se interrogando por que razão iria uma mulher estrangeira no comboio.

O comboio faz várias paragens, sempre anunciadas pelo frenesim que percorre as carruagens antes destas se imobilizarem, nas estações e também em locais estratégicos para a venda e compra de produtos.  Em cada uma, os gestos repetem-se: descem alguns passageiros, sobem outros, entram produtos frescos, saem encomendas. 

O caminho-de-ferro cumpre ali a sua função social, servindo como eixo de mobilidade e abastecimento numa região onde as distâncias são longas e as alternativas, limitadas. Para muitos, o comboio não é opção — é necessidade. Só eu fazia a viagem pela própria viagem, fiel à velha máxima de que o mais importante é o caminho, não o destino. Tive de explicar, mais de uma vez, que não ia tratar de nenhum assunto em Bibala: viajava apenas porque gosto de andar de comboio e porque essa é, para mim, uma forma particularmente interessante de conhecer o país real.

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Do ponto de vista da paisagem, a viagem marca uma transição clara. O relevo torna-se mais acidentado, o ar mais seco, e a sensação térmica muda à medida que se ganha altitude. O Namibe mostra a sua diversidade em poucos quilómetros: do litoral árido ao interior fértil em certos trechos, onde a agricultura de subsistência, aproveitando leitos de rios (secos) e alguns rios subterrâneos, desenha manchas verdes num cenário predominantemente seco.

As paragens fora das estações são as mais interessantes, o pessoal corre para onde calcula que o comboio vai parar, os produtos chegam de todo o lado para serem vendidos à beira do carril ou à janela do comboio. São frutas, legumes, feijão e e mandioca, ovos, animais vivos (galinhas) ou bocados de carne fresca. Numa das paragens apercebo-me de um intermediário, compra aos locais por atacado, para logo à janela revender a retalho.

Mas o que mais me impressionou foram as mulheres Mucubais. Andavam nuas da cintura para cima, usando apenas um cinto que lhes apertava o peito. O material desse cinto variava: alguns pareciam feitos de fibras vegetais, outros de couro e, nalguns casos, até de tiras de plástico. Mais tarde viria a saber que essa faixa (oyonduthi) é um marcador social e simbólico, reservado às mulheres casadas. Para além disso, usavam adornos como tornozeleiras (otyhivela) e pulseiras ou braceletes (othingo), objectos que não cumprem apenas uma função estética, mas que comunicam pertença, estatuto e identidade dentro da comunidade.

Não me choca o facto de andarem semi-nuas. O que verdadeiramente me prende o olhar e me perturba são essas tiras que atam, espalmam e comprimem o peito. O que me inquieta é essa função disciplinadora do corpo feminino que aquela faixa parece exercer. Ninguém me convence de que aquilo não dói. Como pode não haver dor num ritual que faz do corpo um espaço de inscrição da tradição?

A aproximação a Bibala é anunciada por um movimento maior dentro das carruagens. As bagagens começam a ser retiradas dos seus locais, as conversas abrandam, e a atenção volta-se para o exterior. 

A estação surge como ponto de convergência: ali chegam produtos, notícias e pessoas.  E hão-de partir produtos, notícias e pessoas. Ao desembarcar, percebo que a viagem cumpriu mais do que o seu objetivo prático. Entre Moçâmedes e Bibala, o comboio funciona como observatório móvel de um território em transformação, onde o transporte ferroviário é uma linha de ligação entre o litoral e o interior, entre o quotidiano e a esperança de melhores conexões.

Num país de grandes distâncias, esta viagem reafirma uma evidência simples: quando há carris a preços acessíveis, há pessoas dispostas a percorrê-los. E assim o comboio continuará a contar histórias — umas mais discretas, outras mais visíveis, todas profundamente reais —, mas sempre fundamentais para compreender a vida que se move entre um ponto e outro do mapa.

NÃO, SEM DIZER A VERDADE

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Estudo para nu reclinado (lápis), 1911, Henri Matisse

            Acabar o ano sem dizer nada sobre o que nos trouxe a este planeta, nesta nossa configuração, será um acto de omissão de lesa ternura. Será uma omissão sem perdão algum. Somos oriundos delas, temos várias formas de as amar durante a sua vida, e… e… tanto são maltratadas… Elas trabalham fora e dentro da colmeia. E nós? – Talvez também, agora, nestes anos últimos…

            Valerá sempre a nossa vida ter uma mulher que se ame, por perto, connosco de preferência. Saúdo-te assim,  Maria!

TARDE DE VERÃO

Olho e vejo o sol a esbofetear-te o rosto
de uma forma dengosa e suave.
Ficas endeusadamente dourada.
Descobri-te. Ah se redescobri!
Estás deitada de lado e posso ver que essa intimidade de renda cobre, ao longo do teu corpo, só a sua metade.
A minha desesperada busca queda-se no teu rosto que viraste para a luz.
Apoias a cabeça na mão. O sol marca-te as formas.
Sinto que alguma coisa se fecha no meu peito. Será ciúme dessa luz imensa
ou a demanda da minha angústia agora que te achei?
Vejo a redoma de ar que te rodeia e sei que o espaço que entre nós medeia
nos separa dos nossos tempos.
O modo enganoso do teu seio que se deixa ver está
em sintonia com a tua respiração.
Esse ar que a mim chega
fez-se aroma de ti e és pétalas de luz.
Nesse teu rosto está gravada toda a história da vida.
O teu corpo rompe em flores de fertilidade.
A minha ressurreição será entre teus lábios
e a vida romperá mais tarde por entre eles
e teus seios alimentarão os poemas de toda a fome do universo.
Estou perante a nova mulher amada que tudo oferece sem dar nada!
Estou perante uma aurora que de luz me desfaz em ruínas!
Estou perante um sentir vertigens de loucura nesta paixão!
Estou perante a minha nudez que ela consegue só com um sorriso.
Aproximo o meu sentir de ti, da aurora, da imagem que apresentas, da luz que te rodeia.
Revejo só mais um encantamento que a tua imagem projecta sobre mim.
Começo a aproximar-me do ano, do mês, da hora, do minuto que és.
Olhas-me enigmaticamente e do alto dessa inútil renda,
para mim, renovas a majestade da tua beleza,
do teu signo, da tua permanência,
e abres os braços voltando a ser, na permissão do teu chamamento,
a insuperável amiga, não uma contrafacção da aurora!

Nada é mais importante no acto da criação… que a mulher. A homenagem não é mais que uma forma tímida e tardia do que sempre lhe cabe por justiça.