O comboio parte de Moçâmedes ainda com o cheiro salgado do Atlântico no ar. Na estação, a azafama é grande, a começar pela zona da bilheteira. Os bilhetes são passados à mão, e para poupar esforço, e tempo, as pessoas agrupam-se em pares, trios, ou quartetos por destino. Assim, um só bilhete, com o nº de passageiros, serve para mais que uma pessoa. Para quem está sozinho como eu, o desafio começa por ser encontrar quem vá para o mesmo destino.
Aliás, o desafio começa na tentativa de encontrar informação fidedigna sobre a circulação, ou não, do comboio e dos seus horários. Mas apesar da aparente confusão todas as pessoas são agrupadas, entramos no comboio, as pessoas e as mercadorias, e o comboio sai pouco depois da hora marcada, 7 horas da matina.
A viagem até Bibala, outrora conhecida como Vila Arriaga, nascida de um acampamento de apoio à construção da linha do Caminho de Ferro de Moçâmedes (CFM), no interior da província do Namibe, é mais do que um simples deslocamento geográfico. É um percurso que atravessa paisagens, histórias e rotinas, sobretudo para quem vê no caminho-de-ferro — restabelecido em 2023, após 26 anos de interrupção — um meio essencial e facilitador de ligação entre o litoral e o planalto.
À medida que a composição avança, o azul do mar cede lugar a tons ocres, às pedras e à vegetação resistente do sul de Angola. O ritmo do comboio impõe uma cadência própria, regular, quase hipnótica, que dita o tempo da observação. Pelas janelas, sucedem-se pedreiras, velhas casas coloniais abandonadas, pequenas povoações, campos abertos e montes que surgem e desaparecem como páginas de um livro viradas com calma.
No interior das carruagens e à beira dos carris, o retrato é humano é muito diverso e colorido. No interior do comboio viajam comerciantes com sacos bem atados e outros que vão comprar mercadorias, mulheres que vendem no comboio um pouco de tudo – comida e sumos em sacos de plástico, panos, pentes e ganchos para o cabelo, produtos alimentares – trabalhadores em trânsito e famílias que aproveitam o transporte mais acessível para visitar parentes e ainda animais, vivos e mortos. As conversas cruzam-se em voz alta, alternando entre notícias locais, a saúde da família, preços dos mais variados produtos e outras coisas ditas em línguas locais que não entendo.


Há quem durma, quem apenas observe – como eu- e quem fale muito – como aquelas meninas que me olhavam com espanto, decerto se interrogando por que razão iria uma mulher estrangeira no comboio.


O comboio faz várias paragens, sempre anunciadas pelo frenesim que percorre as carruagens antes destas se imobilizarem, nas estações e também em locais estratégicos para a venda e compra de produtos. Em cada uma, os gestos repetem-se: descem alguns passageiros, sobem outros, entram produtos frescos, saem encomendas.
O caminho-de-ferro cumpre ali a sua função social, servindo como eixo de mobilidade e abastecimento numa região onde as distâncias são longas e as alternativas, limitadas. Para muitos, o comboio não é opção — é necessidade. Só eu fazia a viagem pela própria viagem, fiel à velha máxima de que o mais importante é o caminho, não o destino. Tive de explicar, mais de uma vez, que não ia tratar de nenhum assunto em Bibala: viajava apenas porque gosto de andar de comboio e porque essa é, para mim, uma forma particularmente interessante de conhecer o país real.
Do ponto de vista da paisagem, a viagem marca uma transição clara. O relevo torna-se mais acidentado, o ar mais seco, e a sensação térmica muda à medida que se ganha altitude. O Namibe mostra a sua diversidade em poucos quilómetros: do litoral árido ao interior fértil em certos trechos, onde a agricultura de subsistência, aproveitando leitos de rios (secos) e alguns rios subterrâneos, desenha manchas verdes num cenário predominantemente seco.
As paragens fora das estações são as mais interessantes, o pessoal corre para onde calcula que o comboio vai parar, os produtos chegam de todo o lado para serem vendidos à beira do carril ou à janela do comboio. São frutas, legumes, feijão e e mandioca, ovos, animais vivos (galinhas) ou bocados de carne fresca. Numa das paragens apercebo-me de um intermediário, compra aos locais por atacado, para logo à janela revender a retalho.
Mas o que mais me impressionou foram as mulheres Mucubais. Andavam nuas da cintura para cima, usando apenas um cinto que lhes apertava o peito. O material desse cinto variava: alguns pareciam feitos de fibras vegetais, outros de couro e, nalguns casos, até de tiras de plástico. Mais tarde viria a saber que essa faixa (oyonduthi) é um marcador social e simbólico, reservado às mulheres casadas. Para além disso, usavam adornos como tornozeleiras (otyhivela) e pulseiras ou braceletes (othingo), objectos que não cumprem apenas uma função estética, mas que comunicam pertença, estatuto e identidade dentro da comunidade.


Não me choca o facto de andarem semi-nuas. O que verdadeiramente me prende o olhar e me perturba são essas tiras que atam, espalmam e comprimem o peito. O que me inquieta é essa função disciplinadora do corpo feminino que aquela faixa parece exercer. Ninguém me convence de que aquilo não dói. Como pode não haver dor num ritual que faz do corpo um espaço de inscrição da tradição?
A aproximação a Bibala é anunciada por um movimento maior dentro das carruagens. As bagagens começam a ser retiradas dos seus locais, as conversas abrandam, e a atenção volta-se para o exterior.
A estação surge como ponto de convergência: ali chegam produtos, notícias e pessoas. E hão-de partir produtos, notícias e pessoas. Ao desembarcar, percebo que a viagem cumpriu mais do que o seu objetivo prático. Entre Moçâmedes e Bibala, o comboio funciona como observatório móvel de um território em transformação, onde o transporte ferroviário é uma linha de ligação entre o litoral e o interior, entre o quotidiano e a esperança de melhores conexões.
Num país de grandes distâncias, esta viagem reafirma uma evidência simples: quando há carris a preços acessíveis, há pessoas dispostas a percorrê-los. E assim o comboio continuará a contar histórias — umas mais discretas, outras mais visíveis, todas profundamente reais —, mas sempre fundamentais para compreender a vida que se move entre um ponto e outro do mapa.




