Começamos pela coisa mais ridícula, inacreditável e que deveria servir de exemplo do mau jornalismo, a anunciada vitória, inquestionável e garantida, do novo D. Sebastião, à primeira volta, surgido na proa de um submarino e rodeado de paletes de vacinas.
Verificamos, igualmente, nesta primeira fase, uma radicalização da campanha, que pode levar a um aumento do número de eleitores, com concentração de votos à direita e à esquerda, porquanto, nas presidenciais, o voto não é, apenas, decidido por opção partidária.
O Grupo TVI/CNN apostou em força na vitória eleitoral de Gouveia e Melo e tentou condicionar o aparecimento de outras candidaturas, ‘oferecendo’ sondagens que davam a vitória, logo à primeira volta, ao ‘seu’ candidato, o homem que estava acima dos partidos e fora do sistema. Confesso que embirro com esta ‘história’, por ser falaciosa e hipócrita, mas que é alimentada, à exaustão, por comentadores e jornalistas que vivem do sistema e no sistema.
A partir desta ‘verdade’, ancorada em sondagens de origem duvidosa, os apoiantes de Gouveia e Melo, uma grande parte ligada a partidos, ou que sempre a eles estiveram ligados, e uma outra parte ligada a interesses na comunicação social e aos negócios, tentaram ‘cavalgar’ uma certeza, artificial, de que o ‘seu’ candidato iria recolher os votos de todos os eleitores da AD, do Chega e de algum eleitorado do PS, potenciando uma vitória à primeira volta.
‘Enganos meus, má fortuna’ porquanto, após a apresentação das candidaturas de Marques Mendes e de António José Seguro e das primeiras entrevistas, a tal vantagem começou a fragmentar-se à velocidade da luz.
Com o famoso almoço, promovido pelo dono da TVI/CNN, o tal das interacções entre o candidato Gouveia e Melo e o líder do Chega – um erro estratégico, de que o principal responsável é Mário Ferreira e a sua ambição de alargar o seu poder nos media-, abriu-se o caminho à candidatura de André Ventura que retira, à partida, uma parte substancial de votos a Gouveia e Melo, o que é relevante e vai determinar que aquele candidato nem chegue à segunda volta.
Gouveia e Melo arrisca-se a não ter mais do que os votos perdidos, dos três principais candidatos, numa situação semelhante à de Fernando Nobre em 2011.
O eleitorado do PSD não irá votar em massa em Marques Mendes, assim como António José Seguro não terá o voto unânime do eleitorado do PS. André Ventura será, talvez, o único candidato que poderá recolher os votos de todos os eleitores do Chega, numa luta a três, com um desfecho imprevisível. Gouveia e Melo, para passar à segunda volta, teria de ir buscar votos aos outros três candidatos, o que se afigura, por muito esfoço que se faça na sua promoção, bastante complicado, ainda para mais depois das desastrosas participações nos debates eleitorais.
Gouveia e Melo – e principalmente Mário Ferreira – com a sede de ir ao ‘pote’, ou seja, aos eleitores do Chega, embarcaram numa manobra de bastidores que os levou a esta situação. Certamente estavam convencidos que, prometendo alguma coisa a André Ventura, este iria dar-lhes os votos. Erro clamoroso de um ‘aprendiz de feiticeiro’.
André Ventura percebeu que Gouveia e Melo está em dificuldades e que, sem o eleitorado do Chega, não vai a lado algum, pelo que decidiu acabar com as esperanças de Mário Ferreira em imitar Emídio Rangel e ‘vender um candidato, como se vende um detergente’ (recordemos que Emídio Rangel defendia que uma televisão com 50 por cento de quota de audiência poderia, se quisesse ‘vender’ um Presidente da República como se vende um detergente. Assim, André Ventura aproveitou esta oportunidade para fidelizar o seu eleitorado, mesmo sabendo que será impossível ganhar as presidenciais, mas tendo como objectivo, para demonstrar a força do Chega, ficar em primeiro lugar na primeira volta, abrindo o caminho para ganhar as próximas legislativas.
O que está em causa é saber quem vai à segunda volta, isto é, se André Ventura tem lugar certo na segunda volta e o outro candidato será Marques Mendes ou António José Seguro.
Esta a questão fundamental e que, sem colocar em crise os outros candidatos, os eleitores deveriam ponderar se querem uma segunda volta entre André Ventura e Marques Mendes, ou uma segunda volta entre André Ventura e António José Seguro. Quer se queira quer não, vai ser na primeira volta que se definirá quem será o próximo Presidente da República.
Dois pontos a terminar, Marcelo Rebelo de Sousa, um dos grandes responsáveis pela situação pantanosa que se vive no nosso País, leu-nos o seu auto-retrato, pela caneta de Eça de Queiroz, envergonhando os portugueses e os eleitores que votaram nele. Enquanto isto, Trump invadiu a Venezuela e o Mundo vai mudar em 2026…



